Nada será como antes

Old and Broken 1970s Television Set

Amiga conheceu um homem no Tinder. Tudo indo melhor do que a média dos outros encontros. Logo de início, ela se definiu como de esquerda e ele falou vagamente que se desentendia com uma ex de esquerda. Quatro meses depois, quando estão realmente ficando firmes, ele revela que é eleitor Daquele. Amiga fica confusa e decepcionada: se ele sabia desde o começo que ela achava aquilo imperdoável, por que escondeu? O que isso revela sobre os valores dele? Outra amiga. Gay e que detesta política. A postura dela até enchia um pouco, “se está bom pra mim, o resto que se dane”. Ela se recusava a levantar qualquer bandeira, até mesmo a gay. Agora descobriu que muita gente que a aceitava, a considerava ótima companhia e profissional, não se incomoda nem um pouco em votar em alguém que já declarou que “as minorias devem se render à vontade da maioria, ou deixar de existir”. Ela agora se pergunta até que ponto a aceitam mesmo, se ela só é útil agora mas, se acontecesse alguma coisa, ninguém se importaria o suficiente. Isso para falar apenas das coisas domésticas – teve página rackeada, jornalista intimidado, organizadora de evento que apanhou, mentiras deslavadas. Quem não tretou com a família e não rompeu amizade de anos por causa de política, discutiu em grupos de whats e pelo Facebook, tentou converter estranhos e alternou momentos de esperança com desespero, não viveu o 2018 no Brasil. Olha o ridículo que é todo mundo, sem precisar combinar, inventar apelidos porque apenas escrever o Nome atrai violência. Assim como tem gente que não vai na manifestação #elenão por medo.

Por méritos quase que exclusivos da própria campanha, a vitória que era dada como certa parece que não vai se concretizar. Mas depois de tudo, a vitória #elenão será uma vitória sobre terra devastada. Ainda não sabemos o que fazer com o que vimos das pessoas que nos cercam.

Torta de café

torta de café

Balas de café? Maravilhosas, de comer uma atrás da outra. Café? Merece todas as declarações de amor que lhe são feitas diariamente. Motivo para levantar da cama em manhãs tristes, estimula também o olfato ao ser um verdadeiro perfume no ambiente, amigo contra a sonolência de depois do almoço ou do estômago vazio no meio da correria, melhor pretexto para socialização. Torta de café? Aí não. Torta de café tem gosto de decepção. Depois de se servir no buffet de saladas, comida de verdade, carnes, você vai até a mesa de sobremesas e vê aquela torta pretinha e pega um pedação. Depois de comer toda comida, a comida de verdade que mantém o corpo saudável, chega o momento da recompensa, a sobremesa, e você coloca aquele pedaço de torta diante de si, faz uma garfada perfeita pegando um pedaço da cobertura, e quando ele entra na boca, descobre que não é chocolate. É café. As papilas que esperavam o doce e recebem amargo se contraem de desgosto. Os mais sinceros até cospem de volta. Os gulosos e mãos de vaca comem tudo, mas só porque está lá, porque estão detestando. Comem mal humorados, olhando feio para os funcionários pra ver se tem alguém rindo da sua cara. Talvez a única alternativa para a torta de café seja espalhar muitos avisos antes, igual o triângulo quando o carro se acidenta na estrada – Atenção, torta de café a 100m! – pra pessoa estar ciente do que está na sua frente quando chegar o momento. Duvido que alguém se serviria.

Batalha

Há poucos dias uma artista que eu sigo no Facebook, e com quem não tenho intimidade, postou a notícia de uma performance que teve na USP de uma moça pintada de preto e era mijada por um rapaz. Ela estava indignada com o absurdo, convocou um amigo negro e disseram que aquilo era apologia à violência e ao racismo. Junto com outra amiga dela, eu disse que não via assim, que era justamente o contrário: o choque era para mostrar as relações entre negros x brancos, homens x mulheres. Ela não disse nada e eu, por ver nela uma pessoa envolvida com arte, interpretei seu silêncio como concordância. Dias depois, a vi compartilhar um texto com a mesma posição sobre a tal performance. Aí eu entendi que ela não concordou e sim me ignorou. Que não quis discutir comigo por achar que não vale a pena entrar em discussões – política que eu também adoto na maior parte do tempo -, mas que meus argumentos não mudaram nada. Eu acho chato problematizadores enfurecidos, então entendi a posição dela. Ao mesmo tempo, fiquei decepcionada e desativei as notificações.

Este vídeo não tem, por parte do Porta dos Fundos, nenhuma mensagem subliminar. Mas ele representa como eu tenho me sentido diante da mais nova mentalidade medieval brasileira.

Poupança

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Cinquenta, sessenta? Era difícil dizer a idade dele. Professor de educação física, desses que nunca havia parou de cuidar do corpo e puxar ferro quando nem era modinha. Os mais novos o acusavam, quando perto de gente discreta, de “obsoleto”. Mas também podia ser apenas inveja, porque alguns alunos não queriam fazer a série com qualquer outro. Eu, que fazia musculação só pra constar, fazia com ele porque era do meu horário mesmo. Naquele dia, o primeiro após um feriadão, ele estava cabisbaixo, o que nunca acontecia. Foi inevitável perguntar o que é que ele tinha.

-Lembra que eu te falei que tinha o casamento do meu filho?

Claro que eu lembrava, ele estava eufórico há meses. Não era surpreendente que ele um dia tivesse tido filhos, mas até então ninguém sabia da existência. Foi um casamento na juventude, mulher foi morar em outra cidade, levou o filho pra longe, perderam contato, essas coisas. Apesar de tudo, o rapaz o procurou agora, já adulto, queria o pai no casamento, entrando no altar. Ele ficou animado, não esperava, depois de uma vida afastado receber um convite daqueles.

-Não fui. Foi esse fim de semana e eu não consegui ir.

Era muito simples, bastava comprar a passagem e ir. Não se preocupou, há anos ele tinha uma poupancinha. No mês que sobrava, colocava dinheiro lá e pronto, nem olhava. Aí ele me conta que vive com uma mulher há anos, coisa que eu acho também que ninguém sabia. Uma vez eu fui numa balada de dança de salão, ou seja, de gente velha que gosta de dançar e lá estava ele; a sensação de vê-lo caçando foi a mesma de abrir a porta do banheiro e ver o avô pelado. Então, pra mim ele era um eterno “na pista”.

-Aí eu fui comprar passagem e não tinha mais nada na poupança. NADA. Ela gastou todo meu dinheiro, torrou anos de economia.

-Mas como assim, pelamordedeus, ela gastou tudo? O que essa mulher fez com o dinheiro, comprou um carro, jóias, você nunca desconfiou de nada?

Pior que ela não tinha gastado em nada demais. Ele brigou, pressionou, chorou, falou do desastre e que não teria como explicar pro filho, onde tinha ido parar o dinheiro. Ela gastou tudo ao longo do tempo, em besteira: uma roupa aqui, um salão mais caprichado ali… Ele estava arrasado, sem coragem de ligar pro filho. Não sei se ligou. E, caso tenha ligado, se o filho entendeu.

Ex-colega

pedras

Eu desenvolvi uma paranoia de que todos os que já foram aqui citados leram, me odeiam e querem a minha morte, de maneira que quando minha ex-colega de faculdade começou a trabalhar aqui do lado, rapidamente pensei que era o caso. Nossa amizade não terminou bem, pra nenhum dos dois lados: eu me senti perseguida por uma amiga que queria manter um grude que eu não era mais capaz; ela não deve ter gostado de se ver no papel de quem insiste e é cada vez mais ignorando. Olhando para trás, me parece que ela pode até ler como bullying algumas brincadeiras que eu e outras do mesmo grupo fazíamos, vai saber que olhar ela lança sobre ao passado. Porquê bullying: sabe aquela pessoa que rende histórias ótimas? Era ela. Por outro lado, as outras amigas ficaram num preconceito feroz e muito sério pelo namorado (futuro marido) dela não ter curso superior e etc., e fui a única a defendê-lo. Enfim, eu não sabia a que pé as coisas estavam porque, ao contrário do que imaginei, a sua reação ao me ver jamais foi de correr pra falar comigo, nem um informal “e aí?”

No dia em que eu vi True cost, eu fiquei muito mal. Uma combinação do que eu vi no filme e minha vida no dia. Era sexta-feira à noite quando finalmente terminei e vi que naquele estado lamentável era melhor sair de casa, ver gente. Decidi ir no supermercado comprar uma bobagem. Coloquei correndo um casacão enorme – fazia frio – e quando estava de saída, ouvi o barulho do outro portão. Pelo carro estacionado, eu já sabia que era ela. Não dava mais para recuar. Quando estávamos lado a lado, meu olhar concentrado no cadeado, ouço um “Boa noite!”, naquela voz muito familiar. Já imaginei suas perguntas, que nunca eram apenas sociais: eu estaria bem, e o fim do meu casamento, e o que fiz depois de desistir da profissão? Eu senti que não tinha condições naquele momento, nem pra resposta social, nem pra mentir, pra nada. Estava uma ameba, no chão, e qualquer coisa faria com que eu me sentisse tripudiada. Respondi o boa noite com um sorriso sem dentes, só puxando os lábios, me virei e fui embora. Nesse rápido movimento, ainda deu tempo de ver que ela vinha em minha direção. Pelo que conheço dela, iria me dar um abraço.

Se textos e bullying não causaram o ódio da minha ex-colega, isso deve ter bastado.

Surto

O rapaz tinha esquizofrenia. Foi para sua terapeuta, apenas para sua terapeuta, que ele contou que estava apaixonado pela professora. Ela havia marcado uma prova. Ele começou a fazer planos: ele iria tão bem, mas tão bem naquela prova, que isso chamaria atenção da professora. Uma vez que ele chamasse atenção da professora, eles poderiam conversar, se aproximar, ela ficaria ciente do que ele sente por ela e eles poderiam viver um romance e serem muito felizes.
Algum tempo depois a família ligou para a psicóloga. O rapaz havia surtado. Ela foi correndo vê-lo, que já havia sido atendido e medicado, tal era seu estado. Ele havia entrado em surto por uma bobagem, por um nada, tal como se crê que são os surtos psicóticos. Ele estava assim depois que havia recebido uma nota baixa em uma prova.
Ela, apenas ela, a terapeuta, entendeu o motivo do surto. Não havia nada de aleatório ali.
Essa história me faz pensar que realmente nada do que é humano me é estranho.

O barato que saiu caro

Controle da mente, pra mim, é o poder de não se deixar levar pelos pensamentos inúteis que nos atormentam. Não me importo que a minha mente voe por aí na velocidade da luz, desde que ela não o faça de maneira masoquista. Percebo que a minha tem um tema recorrente – quando estou começando a ficar aborrecida, seja por um motivo verdadeiro ou uma queda hormonal, ela volta ao mesmo tema, o tema sem solução que me aborrece a meses: o meu sapato de flamenco. Venho tentando ser fina e guardar esse aborrecimento para mim, mas não consigo mais. Encomendei esse sapato em dezembro do ano passado, porque uma amiga virtual gentilmente se ofereceu para buscá-lo em Barcelona. Pois bem, ela e o sapato estão juntos, em Recife, desde fevereiro. Depois disso, muitas coisas aconteceram na vida dela (na minha, na sua, na da Dona Teresinha…), com direito à gravidez de risco. E o meu sapato foi ficando. Ela já me explicou e eu já fui compreensiva, só que façam os cálculos de há quanto tempo foi isso. Já pedi, já relembrei, já fui sutil, já fui nada sutil… Não há impedimentos que expliquem que durante quase um ano ela ou qualquer pessoa não possa, somente, postar um sapato no correio. As despesas seriam por minha conta, era só ter o trabalho de embalar e mandar. Mas não, tem sido im.pos.sí.vel. Oras digo pra mim mesma encarar os fatos e dar esse sapato de quatrocentos reais (o melhor sapato de flamenco do mundo, investimento pra uma vida, presente de natal de 2012) como perdido, oras digo pra mim mesma que devo ter fé, que algumas pessoas são assim mesmo. Semana passada, depois de mais uma cobrança, pela milionésima vez ela disse que ia me mandar o sapato sem falta. Segunda, por SEDEX, “com cartinha de pedido de desculpas e lembrancinha”. Nem preciso dizer que não recebi nada.

 

Se pudesse voltar atrás, não teria feito nada disso. Teria pagado o correio, a taxa da receita federal, quem sabe comprado outro sapato numa loja. Achava essa operação toda muito cara, hoje não mais. Caro é perder um monte de apresentações, ter que contar com a falta de compromisso dos outros, se aborrecer mil vezes ao longo do ano e se sentir uma idiota. Eu nem ao menos posso comprar outro sapato, porque, afinal, já gastei uma fortuna naquele que nunca vi. Não me importo com lembrancinha, cartinha, porra nenhuma. Eu só queria o meu sapato.

Amor e decadência

Minha cunhada levou sete anos pra casar e se separou com três anos de casada. Eu e o Luiz casamos em pouco mais de um ano – e teria sido em menos de um ano se a casa não tivesse nos atrasado. Por causa disso, fomos acusados pela família dele de casarmos impulsivamente. Depois de ouvir várias histórias, nem considero o meu casamento um dos mais rápidos. Conheço casos de pessoas que casaram em quatro meses. Seriamos todos loucos ou quando o coração tem certeza não há porque enrolar? De todas as histórias de rapidez, acho que nenhuma supera esta:

Recebemos no fim daquele ano um surpreendente telefonema, em que Luís Fernando nos comunicava que havia contratado casamento e que oportunamente nos daria pormenores a respeito da noiva e do acontecimento. Mafalda e eu nos entreolhamos e tivemos o mesmo pensamento. Quem seria a eleita? Homem um tanto tímido e, como o pai, um pouco inclinado à inércia e ao não-vale-a-pena, não teria ele se deixado levar pela simples preguiça de dizer não a alguém?

Nosso temores, porém, eram injustificados. Viemos a saber mais tarde que nem a moça suspeitava das intenções daquele bicho concha. Chamava-se Lúcia Helena. Trabalhavam ambos no mesmo escritório. Um dia nosso filho chamou-a (contou-nos a nora mais tarde) e ela imaginou que fosse para passar-lhe um pito por causa de algum trabalho mal feito. Luís Fernando disse-lhe apenas: “Vamos sair”. Ganharam a rua, caminharam algumas quadras em silêncio, fizeram alto à frente da vitrina de uma casa de jóias e, apontando para uma coleção de alianças, o rapaz perguntou à colega: “Estás vendo aquele anel ali? Te dou cinco minutos para resolver. Queres ou não casar comigo?” Lúcia aproveitou apenas quatro ou cinco segundos, dos trezentos que Luís Fernando lhe concedera, e respondeu: “Quero”. Deram-se os braços, entraram num botequim e beberam uma Coca-cola para comemorar o acontecimento.
Solo de Clarineta II p.58-59/ Érico Veríssimo

Foi assim que Lúcia se tornou esposa de Luís Fernando Veríssimo, há 47 anos. Diga a verdade: você ficou mais fã dele depois dessa.

***

Ao contrário das boas recomendações que recebi, não gostei muito de Solo de Clarineta. Achei o livro bastante irregular, e que ele merecia apenas um volume. Érico Veríssimo leva quase duzentas páginas pra chegar na idade adulta, tamanho seu entusiasmo pela própria infância. E termina o livro com infindáveis descrições das suas viagens, que meu lado invejoso não suportou. Além da descrição de lugares maravilhosos que talvez eu nunca conheça, ele ainda era saudado, aplaudido, laureado e falava com os maiores escritores da sua época o tempo todo. Pouca coisa, né? Não fui capaz de sentir muita empatia por isso. Com o que realmente me identifiquei foi o período difícil, a decadência da família Veríssimo. Depois de uma infância cercada de música clássica, autores franceses, jantares e brilhantes perspectivas, ele entra na idade adulta com seus sonhos estraçalhados porque seu pai dilapidou todo patrimônio da família. Aí o rapaz tímido, talentoso, culto e poliglota, que gostava e merecia do melhor, se viu varrendo chão de armazém. Quem nunca se viu nessa situação, com seus talentos desperdiçados num lugar medíocre? Alguns se sentem assim durante uma fase, outros se sentem assim a vida inteira.

Estranhos

Não faz muitos dias. Eram umas 20h e ele estava andando perto da Reitoria, na direção oposta à própria casa. Não sei onde ele estava indo, se pra um dos cursos ou pra visitar o Alessandro. Porque eu sei onde ele mora, sei de algumas coisas que ele faz e só. Coisas distantes, quase como um rumor. Nem parece que ali houve um grande amor, a pessoa que me foi mais cara durante quase toda a minha vida. Nunca pensei que seríamos desses que se tornam adultos com um vago passado em comum, dois estranhos. Eu – só pra variar – sempre estive disposta a usar de todos os meios pra evitar a distância. Já ele nunca tomou a iniciativa de me ligar ou me mandar notícias. Antes eu não ligava, ou não percebia; hoje me pergunto se fui realmente amada. Um dia, há alguns anos, fiz algo que não o agradou. Algo que nem o envolvia. Ingenuamente, achei que ele ia querer me ouvir, conhecer o meu lado da história. Porque se um dia me dissessem “teu irmão matou alguém com requintes de crueldade”, eu diria “esperem, vamos ouvir o lado dele, tenho certeza de que existe uma explicação”. Não faria isso apenas por amor – eu depositava nele uma confiança infinita. Mas só eu depositava.

O sinal abriu e o Luiz disse brincando – “ponha a cabeça pra fora da janela e grite “André!”. Mas eu não o fiz, porque não tenho nada para dizer a ele. Nem seu nome.