Curtas com pitadas feministas

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Independente do resultado das urnas, depois destas eleições, candidato nenhum vai ousar ser machista. Um assessor vai impedir que publiquem, ele será falso e dirá frases decoradas, o que seja. O que vimos foi um desrespeito total e absoluto, tão grande e evidente, tão certo de que não teria consequências.

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Eu estava no ônibus, sentada, e quando ele chegou no terminal, uma moça que ficou do meu lado falou em voz alta para um rapaz, algo sobre que nunca acontecesse com a mãe ou irmã dele. Ele começou a chama-la de feia, dizendo ela que queria aparecer. Outra mulher levantou a voz, e disse que depois de tudo o que a moça havia passado o sujeito ainda fazia isso, que o marido dela o encheria de porrada se estivesse ali. O sujeito vestiu o capuz e se calou, sentindo o meu olhar e do ônibus inteiro contra ele. Uma cena dessas seria impensável antes.

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Comprei com amigas a camiseta “Lute como uma garota”. Como não foi só comigo, posso dizer: é uma experiência andar com ela. Uns aprovam, outros parecem lançar um olhar quero-ver-se-é-lésbica-abortista. Não sei se a associam com a Manuela D´Ávila ou sabem que faz parte de algo maior. Por outro lado, também dá muito orgulho sair com ela.

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Tô lendo a biografia do Churchill, culto, herói, divertido, aquilo tudo que sabemos. É um livro meio arrastado pela quantidade de detalhes. Não sei se ele muda de ideia depois, mas nas cartas que ele escreveu na juventude, ele é terminantemente contra o voto feminino, porque “elas podem dominar o mundo”. Deveríamos mesmo, viu.

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Apesar de tudo o que eu li e de tudo o que eu já sabia, foi uma experiência muito marcante pra mim ver o filme sobre as Sufragistas. Tem na Netflix. A gente não tem dimensão. O que Churchill, esse filme, o candidato e o movimento #elenão me confirmam é que quem não chora não mama. Não dá pra pedir gentilmente, esperar que se toquem e abram mão da sua posição confortável por nós. Nós, mulheres, aquelas que poderiam dominar o mundo e ainda estão caminhando para se enxergar como coletivo.

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Um episódio machista

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Já falei algumas vezes aqui que fui escultora. Eu tinha vinte e poucos anos. O atelier é público e fica no Parque São Lourenço, na base de um monte, digamos assim. Conto isso pra vocês saberem que era quente. Trabalhar lá era muito sujo, então eu comprei um macacão jeans grosso, igual aqueles de mecânico. Tem foto minha neste post usando ele. Uma vez eu estava lixando uma peça à mão, no verão; lixar já é um trabalho braçal, então imagine num lugar quente e usando um macacão jeans. Peguei a peça e saí do atelier, sentei num banco meio isolado que tem perto da entrada. Cabelo preso, macacão sujo, lixa e escultura.

Acho que não aguentei nem trinta minutos e voltei para dentro, furiosa. No pequeno período que eu passei lá, fui abordada por três homens, em separado. Eu trabalhando e do nada surgia um homem e se sentava na minha frente e começava a me cantar. O primeiro eu até me dei ao trabalho de responder secamente, mas depois veio outro e outro, e senti tanto ódio que não conseguia nem falar. Porque eu percebi bem o que estava acontecendo: como eu estava com aquele macacão sujo, concluíram que eu era uma funcionária, uma trabalhadora braçal – mas novinha e bonitinha. Então, eles acharam que tinham todo direito de tentar alguma coisa. Quem sabe eu até deveria me sentir honrada, porque eu era uma pobre coitada e eles estavam dispostos a dormir comigo mesmo assim. Sabe aquele pensamento senhor de engenho com as escravas, patrão com a empregada?

Saí do atelier há mais de uma década, nunca mais lixei nada e não cheguei nem perto de vestir um macacão sujo, por isso achei que nunca mais passaria por nada semelhante. Até que eu me divorciei.

Uma sombra masculina

 

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Eu desço pela porta da frente do ônibus. Está escuro e a rua é uma descida. Viro na primeira esquina à direita, onde a inclinação é tão grande que vou devagar, com passos miudinhos. É raro que alguém desça ali, e mais raro ainda que dobre naquela rua residencial. Às vezes um homem desce o ônibus comigo e nem sempre consigo deixar que ele me ultrapasse. Aí olho de novo para trás quando viro a rua, olho quando tento atravessar, olho fingindo atravessar, ando cada vez mais rápido. Ele sem dúvida percebe o meu medo, minha desconfiança provavelmente injusta porque ele entrou naquele ônibus e desceu naquele ponto por motivos próprios e não para me seguir. O homem que está lá atrás pode ser tão sensível e bacana quanto qualquer amigo meu – eu nunca saberei, e se ele tentasse me dizer alguma coisa ela soaria como um prenúncio de violência. Carros passam indiferentes, os som das minhas botas ecoa entre as árvores. Ele é um homem e eu tenho medo. Ele sabe. De longe, o homem caminha devagar, deixa que eu me afaste cada vez mais, que corra, que sua figura fique bem pequenininha para que eu possa voltar a me sentir segura.

Ser um homem, observado com atenção por mulheres. Isso deve ser inteiramente estranho. Tê-las observando-o o tempo todo. Tê-las se encolhendo quando ele se move, mesmo se for um movimento bastante inofensivo, estender a mão para pegar um cinzeiro, talvez. Tê-las medindo-o, avaliando-o. Tê-las pensando, ele não pode, ele não é capaz de fazê-lo, ele não serve, ele terá de servir, este último como se fosse uma peça de vestuário, fora de moda ou ordinária, que deve não obstante ser vestida porque não há mais nada disponível.

Tê-las enganando-o, testando-o, provocando-o, experimentando-o, enquanto ele se enfia nelas para o ato sexual como se enfia uma meia no pé, até a base de seu próprio toco, aquele polegar adicional e sensível, seu tentáculo, seu olho de lesma de talo delicado, que se saliente, se expele, se expande, recua, e murcha encolhendo-se de volta para dentro de si mesmo quando tocado de maneira errada, cresce tornando-se grande de novo, fazendo um ligeiro bojo na ponta, viajando para frente como se ao longo de uma folha, para penetrar nelas, ávido por uma visão. Alcançar a visão dessa maneira, essa jornada para o interior de uma escuridão que é composta de mulheres, uma mulher, que pode ver na escuridão enquanto ele próprio se esforça cegamente para frente.

Margaret Atwood/ O conto de aia, parte IV cap.15

Um deslize machista

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Ele não falou nervoso, como quem exige seus direitos. Falou numa boa, como quem dá um toque. Estávamos vendo TV.

-Eu fui no banheiro e levantei a tampa da privada pra fazer xixi e, olha, tá um nojo lá embaixo.

Não vou falar de como eram os nossos horários naquela época ou descrever meus hábitos de higiene. Vou me limitar a dizer que quem já cuidou de uma casa sem faxineira ou empregada sabe que há altos e baixos.

Ele me falou mais na boa que pôde e eu também fiz meu possível:

-Você poderia simplesmente pegar os produtos de limpeza – que você sabe que estão do lado da privada – e resolvido isso na hora. Mas você acha que a limpeza da privada é tão obrigação minha que preferiu ficar enojado, deixar como estava e me falar na primeira oportunidade, pra aí sim eu pegar os produtos de limpeza e resolver.

Ele ficou sem graça e limpou assim que começaram os comerciais. E acho que fez isso outras vezes.

Duas vivências que determinaram minha concepção de beleza

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Quando começaram a aparecer shorts nas vitrines de Curitiba, eu jurei que aqui essa moda não pegaria. Quem está ou esteve aqui há pelo menos vinte anos entende o que estou dizendo. O verão nunca ultrapassava os 25º C e nem os panos subiam mais do que um palmo acima do joelho. Esse comprimento, em público, já fazia as mulheres receberem tantos e tão insistentes olhares que era quase como sair nua. Com uma cidade tão fria, nos dois sentidos, é muito fácil manter uma moral muito mais pudica em relação a cobrir os corpos. Me parece que aqui, mais do que em outros lugares, se leva muito mais à sério a imposição de esconder todo corpo que não segue o Padrão Ego. Uso uns sunquinis enormes pra nadar; eu diria que a diferença deles pros maiôs é apenas que mostro umbigo. Mesmo assim, sou a Leila Diniz da minha escola – “você é aquela moça que nada de biquini, né?” Esse meu hábito já me fez passar por alguns episódios desagradáveis: passaram “por acaso” a mão em mim algumas vezes, me comeram com os olhos de maneira bastante ostensiva, fui abordada por homem casado. Pela lógica deles, se eu fosse mulher séria não estava mostrando, né? Outra visão é a de que eu mostro porque “estou podendo”. O que há por detrás da minha atitude – e que ninguém entende – são duas vivências determinantes na minha forma de entender o assunto:

Lembrança 1: Estou cercada de pessoas, praticamente todas mais bronzeadas do que eu. Sou um pontinho branco – ou bastante vermelho, no espaço de algumas horas – no meio da multidão. Homens e mulheres passam por mim com poucos panos coloridos cobrindo seus corpos. Algumas estão na areia, pegando ainda mais sol, o que chega a ser aflitivo; outras estão no mar, jogando frescobol, conversando com amigos ou cuidando dos filhos. Algumas dessas mulheres são mulatas incríveis, com corpos tão lindos e tentadores que nos fazem entender a mística em torno delas. Também com panos poucos coloridos, passa por mim a vovó, que tem o corpo todo marcado pelo tempo. Lá vem correndo a menina barrigudinha, seguida pela sua mãe, que tem o corpo diferente da pré-adolescente, que não se parece nada com a quarentona. Tem mulher de seio pequeno que mal segura o top, mulheres de quadris enormes, mulheres com pelos loiros, mulheres, enfim, variados tipos, idades e histórias de corpos. Todas estão curtindo a sua praia. Todas estão de biquíni.

Lembrança 2: Olho para as pessoas – ao cruzarem comigo na ruas, conversando entre si nos ônibus, dando entrevistas na TV, almoçando em restaurantes por quilo, atendendo o telefone no balcão da loja – e tenho vontade de pedir que posem para mim. De tanto passar o dia inteiro esculpindo e estudando a anatomia humana, as pessoas se tornaram modeláveis para mim e tenho a impressão de que todos têm corpos de barro que podem ser mexidos e acrescentados. Como se apenas um gesto no local e profundidade certos fossem capazes de alterar peles e músculos. Só que os corpos que me chamam atenção não são os que comumente se considera belos, ao contrário: o corpo liso e jovem é sem graça, é uma folha sem linhas. Nos corpos de plástica é pior, pois vejo a ação do bisturi, que não respeita proporções, tira demais e uniformiza.  Os corpos que tenho vontade de eternizar são aqueles que me dão histórias num simples olhar. Vejo nobreza em rostos enrugados, mãos fortes que sustentam o mundo, quadris acolhedores, ingenuidade em lábios repuxados pra cima. Não quero o belo de revista, que se esgota na página seguinte – busco o belo do singular, do conteúdo que transborda, do espírito que marcou a matéria.

Por isso que quando fui convidada a escrever sobre a beleza feminina saiu isso.

A mulher, o ballet e o marido

A velhinha atacou novamente. Ela estava conversando com outra mulher, na faixa dos seus cinquenta anos, enquanto esperava a aula:

Velhinha – Você ainda é uma bailarina, ainda tem corpo de bailarina.
Mulher– Eu fiz ballet durante muitos anos. Tive que parar porque não dá pra ganhar dinheiro com ballet.
Velhinha – Dá sim, ballet é muito bom!
Mulher– (irritada) Onde é que dá que eu não sei?
Velhinha – Ballet é muito bom, dá muito lucro. Você fica com o corpo bonito pro marido.
Mulher– (irritada) Ah, tá. É que não é disso que eu estou falando.
Velhinha – Mas é o que importa. A minha vó sempre dizia, e ela tinha razão: a mulher é o ornamento do homem!
Mulher– (indignada) Eu não penso assim. Minha irmã que diz que a gente tem que é ser um pouco egoísta, pensar primeiro na gente, no que nos faz bem, pra daí…
Velhinha – É isso o que a modernidade diz. Mas está errado. A mulher tem que ser o ornamennnto (as mãos se abrem no ar, formando um círculo) do homem.

Antes da tréplica, elas foram interrompidas e a conversa acabou. Uma pena.

Pra casar

Estava eu mancando pelas charmosas ruas de Curitiba, quando passei por adolescentes sentados em frente a uma lanchonete. Estavam vestidos como adolescentes, de bonés e moletons; sentavam-se como adolescentes, esparramados pelas cadeiras. Quando passei diante deles, pude ouvir um deles dizer “a única pra casar que eu conheço é a…”. Amigas, colegas, conhecidas, ficantes, ex… tudo vagabunda.

Casar ou aproveitar? Duas opções só pra quem tiver algo balançando entre as pernas.

Fêmea macho x Fêmea fêmea

Durante quase toda a minha vida fui aquela mulher muito macho. Já pensaram que eu era lésbica. Cabelos curtos, estilo largado, sem frufrus. Carregava minha própria mala, fazia qualquer serviço pesado e não pedia ajuda, trabalhava de macacão sujo. Ninguém duvidava de que não era qualquer coisinha que me punha pra chorar.

Os anos passaram e aprendi que aceitar gentilezas e sorrir não faz mal nenhum. Meus cabelos curtos agora têm ondinhas, lencinhos e tic-tacs; meu estilo esportivo agora inclui saia xadrez, flores e tecidos esvoaçantes. Gosto de shopping, de perfume, de moda. Quem não conhece meu passado continua sem conhecer se me encontra por aí.

Agora faço defesa pessoal num lugar filhadaputamente machista, tocado por um policial civil. As poucas mulheres que freqüentam o local são tal como eu era no meu passado. Esse sujeitinho adora brincar de expor alguém publicamente e ontem fez isso comigo, porque não quis estourar minha mão socando uma almofada dura como tijolo. Como não me submeti já ficou aquele ar de “ela não agüenta pressão porque é mulherzinha”. Mal dormi a noite passada, de tanto ódio. Agüento de tudo (estilo Demi Moore no Limite da Honra) pra ganhar respeito? Me recuso a continuar o que não me agrada e corro o risco de parecer fêmea mimada?

A minha vingança será maligrina, só que ainda não sei direito como.