Curtas pra reclamar

eu to na internet pra reclamar

Existem duas etapas sobre decidir escrever, uma fácil e a outra difícil. A fácil é “Vou escrever um livro sobre X”. A difícil é tudo o que vem em seguida.

.oOo.

Um lado meu gosta de flamenco mas outro… pelamordedeus, vocês sabiam que existem outras formas de cultura?

.oOo.

Existe um caso de amor entre grãos de arroz e aparelho.

.oOo.

Em algum lugar das regras de etiqueta internéticas facebookianas, deveria estar escrito que não se atualizam eventos do facebook diariamente. Pra isso existe blog.

.oOo.

Baladas perdem a graça para comprometidos. E festas de casamento – descubro agora – perdem a graça para solteiras quando não há perspectiva de homens interessantes. Crente comigo não dá, MESMO. Sorry.

Anúncios

Profecia

“Eu queria falar com você nas minhas últimas horas de solteira!”. Eu estava no atelier e tinha perdido uma ligação do celular e liguei de volta para a minha melhor amiga, que também não atendeu o dela. Aí deixei aquele recado. Isso porque naquela noite eu ia sair de novo com o engenheiro-bom-partido que uma amiga em comum havia me apresentado, e as coisas estava andando rápido e bem. Pelo pouco que ele demorou pra me ligar de volta e marcar outro encontro, que seria aquela noite, eu tinha certeza de que ia rolar. Só que eu não tinha noção do quão poucas horas eu tinha de solteira ou, dito de outra forma, que eu levaria mais de uma década para voltar a ser solteira.

É assim:

Eu era a confidente e consolo para as amigas com seus empregos, problemas, família, relacionamentos e surtos. Eu estava sempre bem e elas não; elas ainda estavam em busca e eu casada, estabelecida, vida ganha.
Aí me separei. Eu não estava separada nem há um mês quando reencontrei uma amiga. Ela tinha levado o fora do noivo, um cara que morava em outra cidade e eles se viam a cada quinze dias. “Estamos passando pela mesma coisa, estou sofrendo igualzinho você.”
Agora estou separada e sem namorado, e minhas amigas me fazem de confidente e consolo de seus problemas com empregos, problemas, família, relacionamentos e surtos. Afinal, estou sozinha e estável, já elas têm que ficar administrando relacionamentos.

 

Uma versão muito pessoal

Eu deveria aprender, a todo custo, a gostar da solteirice. E não me descia. Me adaptei porque a gente se adapta a tudo nessa vida, porque não havia como negar que eu passava o tempo todo só. Mas daí preferir… Não me descia a pressão de entrar no Tinder, de arranjar alguém, de frequentar baladas (a mim e à minha conta bancária). Não me ia ser, nessa altura do campeonato, algo que nem ao menos admirava. O prazer de ser só era sempre procurar companhia? Mas deveria haver algum prazer nisso, nessa solidão cantada em verso e prosa. Tenho até amigos que são – que amam tanto seu estar só que diante da proposta de um relacionamento ou compartilhamento hesitam como quem recebe uma proposta de emprego em outra cidade.

 

Até que eu encontrei. Estava voltando pra casa depois de um dos meus muitos programas culturais. Pensei, por automatismo, como seria bom se tivesse alguém para dormir ao meu lado naquela noite gelada. Mas… ele estaria voltando comigo do balé, sendo que homens odeiam balé, do cinema alternativo, sendo que esses filmes loucos levam mais de duas horas e são pouco digeríveis, do concerto, sendo que quase ninguém que eu conheço realmente gosta de música clássica, do flamenco, sendo que até pra mim às vezes é meio demais? Aí percebi que tenho lotado minha agenda de grandes momentos meus, que decido de última hora, que vou e ninguém fica sabendo, que não é preciso avisar, agradar o outro ou me preocupar com o que vão pensar. Misturar vidas dá trabalho e requer dedicação. Naquele instante, seria realmente bom ter alguém esquentando meus pés, mas na manhã seguinte talvez eu precisasse dizer para ele ir embora, porque tenho mais o que fazer. Nem que esse ter o que fazer seja apenas me esparramar no sofá com um livro. Meu sofá, meu livro.

Curtas de puro glamour

Já teve noite que cheguei cansada da aula de flamenco, tomei um banho e coloquei minha camisola branca transparente sem nada por baixo. Estava puro erotismo e glamour. Mas, sejamos sinceros: o grande prazer de morar sozinha está mais pra comer uma tigela de pipoca inteira usando roupa puída.

 

.oOo.

 

O motivo definitivo pela qual eu não coloco whatsapp: a quantidade de gente que me pede pra colocar. Se todo mundo que me pediu whatsapp realmente me adicionar, eu não faço mais nada da vida. Sem dizer que digito mensagem como quem acaba de ser alfabetizada. Não daria certo.

 

 

Quando estou andando na rua – e as condições climáticas não são extremas – passo pelos carros com seus motoristas estressados, aborrecidos, engarrafados e sempre sempre me sinto superior. Vocês estão presos e eu estou aqui, andando, sentindo o vento no rosto, saudável, feliz.

 

.oOo.
Fiquei muito irritada e considerei má fé do fabricante descobrir que a minha cafeteira cara, que tem clube exclusivo que me dá café grátis no shopping, com cápsulas que custam mais um real por café, estraga com menos de dois anos de uso. É que o filtro entope. Você liga pro atendimento – tão ótimo, bonito e cheiroso quanto – e eles mandam a gente esfregar a dita com escova de dente (!). Depois de uma manhã inteira escovando minha máquina, me dei conta de que aquilo nem adianta, é por dentro. É cenzão de reparo (eles buscam em casa. Aposto que o funcionário usa luvas brancas) ou uma máquina nova.
.oOo.

 

Se tem uma coisa que atrai homem bonito e câmeras de televisão é quando você resolve sair de casa de cabelo sujo, óculos, moletom velho e camiseta de pijama por baixo. É por isso que sempre saio pra passear com a Dúnia com uma roupa pelo menos razoável. Por isso também que eu jamais conheci alguém enquanto passeava com ela.
.oOo.
@SushiDeBatman: Homem pra mim é igual iate: não tenho nenhum.

Amor desesperado

Não me sentir preparada para ter alguém agora me dá alívio. Eu vejo o desespero das minhas amigas e não quero ficar igual. Gosto de pensar em encontros amorosos como coisas espontâneas, de pessoas que estão vivendo suas vidas e se cruzam por aí, começam a conversar e o resto acontece naturalmente. O que vejo, por parte das mulheres, é uma atitude de ter que correr atrás de um homem, porque se não corremos não têm. Seja por redes sociais ou bares, é como se eles estivessem sempre fugindo, ou com defeitos tão terríveis – sendo o maior deles a indiferença – que encontrar um namorado é quase como ganhar na loteria. E uma vez que conseguimos um homem, por mais porcaria que ele seja, ele pode ir embora sem motivo. Minhas amigas sofrem tanto por homens que, vistos de fora, não são metade do que elas são. Mas elas se agarram a eles como quem se agarra à sua última chance e sofrem como quem acabou um casamento. Como já esgotei a minha cota de sofrimento amoroso deste ano e de anos vindouros, olho pra tudo isso e digo: não, obrigada.

 

Tem um sujeito aí, num lugar que eu frequento, que eu acho interessante. Não sei o nome dele e a não ser que o Destino queira muito, descobrir esse nome é tudo o que conseguirei dele. Não me parece ser gay; acredito que tenha emprego, mulher, filhos e cachorro. De olhar me parece que ele tem algo, não sei. Eu gosto de pensar nele, de ir a cinemas hipotéticos e me perguntar o que ele faria para obter de mim o primeiro beijo. Vai lá, vocês vão dizer, mas faço questão de não ir. Nesse momento, ele tem sido importante para mim do jeito que está. Aquele homem é para mim um lembrete das possibilidades, sempre maiores do que a nossa vista alcança. Tem ele, tem outros, tem o amanhã. A minha parte é estar aberta e distraidamente feliz.

O que é essa mulher, não?

Anelzinho na mão esquerda

Todas essas coisas aconteceram faz tempo comigo, mas como minhas amigas estão casando por aí, lembrei que existem mudanças que acompanham o fato de estar oficialmente casada. Não, não vou falar de maturidade e responsabilidade, e sim o quanto a atitude dos outros muda – de uma hora para a outra – quando a gente passa a andar por aí com um anel dourado no anular esquerdo.

Primeiro, a questão do sexo. Até a gente casar, oficialmente você não faz sexo. Por mais que a primeira vez faça parte de um passado distante, ou você viaje sozinha com um namorado de muitos anos. No dia em que você casa, você deixa de ser socialmente virgem e entra no mundo dos que tem vida sexual regular. Isso faz com que mulheres maduras e velhinhas, católicas e tradicionais, parentes e desconhecidas, se sintam à vontade pra falar de sexo com você. Porque você é casada, você sabe do que elas estão falando. Sim, isso é bem esquisito no começo.

Eu sempre fui uma pessoa totalmente enjoada com relação a baladas & ficadas. Não gosto de lugares onde a gente precisa conversar gritando, e nunca tive vontade de fazer esse esforço pra ficar com um boyzinho fedendo cerveja. Quando era solteira, havia uma pressão muito grande pra ser mais flexível. Em outras palavras, eu não tinha o direito de dizer não. As pessoas ficavam ofendidíssimas quando eu preferia dormir cedo ao invés de ir pra qualquer lugar à noite. Se me chamavam pra uma balada, eu tinha mais é que largar tudo pra ir. E, chegando lá, deveria corresponder à cantada de qualquer homem apresentável. Qualquer lugar e qualquer um, porque ser solteira é como estar num barco a deriva e desesperada pra sair dele.

Hoje continuo enjoada como sempre, mas nunca mais me encheram o saco. Quando digo não a um convite, todos supõem que não posso sair porque sou casada. Simples assim. Ninguém mais se ofende ou acha que eu sou um alien. Quanto ao assédio, eu já disse que ele continua, mas de uma maneira diferente. Só que quando eu era solteira e dizia não, tinha que assistir uma resposta exasperada, que nas entrelinhas dizia: Como assim, “não”? Você está sozinha e eu estou disposto a ficar com você, você deveria me agradecer!. Hoje dizer não aumenta o meu ibope de mulher séria.

Eu sempre digo que nasci para o casamento e não sabia. 😉