Fantasia

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O carnaval de Curitiba é isso mesmo que dizem, ou seja, não é. Se não fosse pela internet, não ficaria sabendo das músicas, dos desfiles, de nada. Mas tem as fantasias. Olho os meus amigos fantasiados, os links das melhores fantasias, e começo a imaginar que deve ser muito legal se empenhar a cada ano pra fazer uma coisa diferente, ser um meme encarnado ou aproveitar o seu tipo físico – penso agora no meu amigo Rodrigo, que fica ótimo de Fidel Castro. Começo a me perguntar o que faria, que ia gostar de me arrumar assim, ter amigos animados e sairmos alegres e fantasiados pelas ruas. Aí lembrei da última vez que me preparei com uma roupa especial: uma festa de quinze anos. Minha fantasia foi de mulher lindona. Comprei um vestido de flamenco que me deixava linda (hoje acho que fico pançuda), fiz cabelo no salão, me maquiei e usei salto. Entrei confiante na festa, me apoiando suave e regiamente nos braços do meu então marido, com todos os holofotes imaginários voltados pra mim. Me sentei com toda elegância e catiguria na mesa especial dos parentes, postura reta na pontinha da cadeira. Meia hora depois estava sonhando com chinelo, camisetão e sofá. Não tenho o temperamento certo.

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Poupança

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Cinquenta, sessenta? Era difícil dizer a idade dele. Professor de educação física, desses que nunca havia parou de cuidar do corpo e puxar ferro quando nem era modinha. Os mais novos o acusavam, quando perto de gente discreta, de “obsoleto”. Mas também podia ser apenas inveja, porque alguns alunos não queriam fazer a série com qualquer outro. Eu, que fazia musculação só pra constar, fazia com ele porque era do meu horário mesmo. Naquele dia, o primeiro após um feriadão, ele estava cabisbaixo, o que nunca acontecia. Foi inevitável perguntar o que é que ele tinha.

-Lembra que eu te falei que tinha o casamento do meu filho?

Claro que eu lembrava, ele estava eufórico há meses. Não era surpreendente que ele um dia tivesse tido filhos, mas até então ninguém sabia da existência. Foi um casamento na juventude, mulher foi morar em outra cidade, levou o filho pra longe, perderam contato, essas coisas. Apesar de tudo, o rapaz o procurou agora, já adulto, queria o pai no casamento, entrando no altar. Ele ficou animado, não esperava, depois de uma vida afastado receber um convite daqueles.

-Não fui. Foi esse fim de semana e eu não consegui ir.

Era muito simples, bastava comprar a passagem e ir. Não se preocupou, há anos ele tinha uma poupancinha. No mês que sobrava, colocava dinheiro lá e pronto, nem olhava. Aí ele me conta que vive com uma mulher há anos, coisa que eu acho também que ninguém sabia. Uma vez eu fui numa balada de dança de salão, ou seja, de gente velha que gosta de dançar e lá estava ele; a sensação de vê-lo caçando foi a mesma de abrir a porta do banheiro e ver o avô pelado. Então, pra mim ele era um eterno “na pista”.

-Aí eu fui comprar passagem e não tinha mais nada na poupança. NADA. Ela gastou todo meu dinheiro, torrou anos de economia.

-Mas como assim, pelamordedeus, ela gastou tudo? O que essa mulher fez com o dinheiro, comprou um carro, jóias, você nunca desconfiou de nada?

Pior que ela não tinha gastado em nada demais. Ele brigou, pressionou, chorou, falou do desastre e que não teria como explicar pro filho, onde tinha ido parar o dinheiro. Ela gastou tudo ao longo do tempo, em besteira: uma roupa aqui, um salão mais caprichado ali… Ele estava arrasado, sem coragem de ligar pro filho. Não sei se ligou. E, caso tenha ligado, se o filho entendeu.

Curtas do Quico desfalecido

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Previously on Caminhante… Durante quatro longos meses a minha máquina de costura deu problema com a agulha dupla, só com agulha dupla, e por isso ninguém acreditava em mim. Mais pra eu parar de encher o saco do que realmente acreditar, a Singer me deu uma máquina nova, igualzinha à anterior. É outra máquina, outro tudo, faz tempo… mas sempre que vou costurar agulha dupla me pego hesitante, enrolo, dou uma rezada e começo devagar. É que agora eu sei que existe o dar errado, entende?

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Por um acidente do destino, eu fui convidada pra um aniversário no Country Club. Agora, imaginem a cena, a pessoa querendo descobrir que ponto de ônibus para perto do Country Club. Suzi: “Os ponto de ônibus que tinha perto eles PASSARO POR CIMA CO TRATOR pra não correr risco de pobre aparecer”.

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A gente tenta ser uma pessoa saudável, se apega a beber chá, se enche de chá, vive à base de chá, compra todas as variedades de chá, mancha os dentes, vai parar no dentista, ouve que aquilo foi culpa do chá, paga caro pra fazer limpeza de bicarbonato e que seria bom repetir a cada três ou quatro meses, dado o meu ritmo veloz de manchamento. Resultado: voltei pro refri.

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Última, mas tão desfalecida quanto: alguém por favor diz pro ex-crush sumir da minha frente, porque bastou não me servir de nada pra eu viver encontrando o sujeito.

Curtas pra reclamar

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Existem duas etapas sobre decidir escrever, uma fácil e a outra difícil. A fácil é “Vou escrever um livro sobre X”. A difícil é tudo o que vem em seguida.

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Um lado meu gosta de flamenco mas outro… pelamordedeus, vocês sabiam que existem outras formas de cultura?

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Existe um caso de amor entre grãos de arroz e aparelho.

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Em algum lugar das regras de etiqueta internéticas facebookianas, deveria estar escrito que não se atualizam eventos do facebook diariamente. Pra isso existe blog.

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Baladas perdem a graça para comprometidos. E festas de casamento – descubro agora – perdem a graça para solteiras quando não há perspectiva de homens interessantes. Crente comigo não dá, MESMO. Sorry.

Passando frio no interior da Bahia

É óbvio que o clima que está fazendo agora em Jaguarari não chega nem perto do outono curitibano. Ao mesmo tempo, tenho sofrido e reclamado do frio todos os dias desde que cheguei, tenho me sentido a pessoa mais friorenta do mundo, muito mais do que os nativos. Lembro das minhas roupas e consigo pensar numas dez opções diferentes do que poderia vestir agora, dentre meus inúmeros casacos. Agora mesmo, poderia estar usando o meu cardigã de poás coloridos, lenço no pescoço e calça cáqui. Ou se quisesse sair mais menina, poderia usar uma botinha, um dos meus vestidos de inverno, meia fio 40, um casaquinho e um cachecol. O que sei é que em circunstâncias normais, com esse clima, jamais escolheria vestir o que tenho vestido nos últimos dias e essa é a raiz dos meus – e de todo mundo – problemas.

 

O São João é uma data importante e tem show todos as noites na praça principal da cidade, que é aqui do lado – e o que não é do lado de tudo quando estamos numa cidade pequena? As rádios falam do “melhor jegue elétrico do Brasil” (não acho que seja propaganda enganosa) não param de repetir os nomes das bandas especialíssimas que vão tocar, um nome melhor que o outro. Tive o prazer de ver “Bonde do Brasil” e “Desejo de menina” (esse nome!). Só que, como lamentou o meu pai, aqui não se toca mais forró pé de serra, não é mais sanfona e tal, assim como a festa em si lembra mais um carnaval do que uma festa junina.  O que toca aqui é o brega, bem do jeitinho que mostrou na televisão: bandas que todo mundo aqui conhece, entopem os shows, com um tremendo visual, um mundo à parte. Vejo tudo de longe, porque perto do palco é aquela loucura. E danço pulandinho no lugar, com os braços cruzados e as pernas juntas, igual faço quando estou num ponto de ônibus gelado à noite.

 

Nessas noites tem feito pelo menos uns 15 graus. As roupas mais pesadas que eu trouxe foram um moletom fino e uma calça jeans. E pra tentar ficar bonitinha pra sair, uso uma sapatilha de plástico, blusa levinha e manguinha de lã. Morro de frio, morro. Aí vou pra festa e as meninas estão de sandália de tiras, shortinho e transparência. Ou, na versão mais quente, sandália de tiras, calça jeans e transparência. Uma curitibana, no mesmo clima e a céu aberto, usaria pelo menos uma meia calça grossa e um casaco. Esse é o problema aqui, eles não colocam roupa. Acho que o que mais resume a situação foi a gente na varanda toda aberta, ventando, sentados em cadeiras de plástico e minha madrasta estava de chinelos, mini saia, blusa de alcinha e para se esquentar colocou uma caxarrel de lã preta. “Ai que frio” ouço e reclamamos o dia inteiro de havaianas e pernas de fora.

Jegue elétrico

Estou numa casa centenária, no interior da Bahia. Ontem fez um frio do caceta e por pouco não joguei minha dignidade pra cima e saí por aí enrolada numa coberta. Onde já se viu, uma pessoa que saiu de Curitiba a quatro graus, com vontade de chorar (tenho desconfiado que sou uma pessoa chorona. Ainda não tenho certeza) de frio, de saudades dos casacos que deixou em Salvador, em São Paulo e no guarda-roupa de casa. Temi pelas minhas próximas noites, de ter que usar o mesmo moletom e calça jeans durante uma semana, mas agora está mais quentinho.

 

Sabiam que aqui as festas juninas são tão ou mais populares que o carnaval, e que as pessoas viajam para o interior e Salvador fica vazia? Tem venda de camiseta e tudo, semelhante aos abadás. Hoje vi as camisetas das pessoas que estavam aguardando o Jegue-elétrico da cidade de Senhor do Bonfim. Sim, Jegue-elétrico – é um jegue puxando um carro de som. A camiseta custa uns 300 reais e de uma festa Esfrega custa uns 700. Outra curiosidade: em certas cidades a festa mais popular não é o São João e sim o São Pedro, dia 29 de junho?
Enfim, são muitas emoções. Estava morrendo de preguiça de viajar, fui pra São Paulo lamentando minha decisão de não pegar um voo direto, porque eu fazia aquele sacrifício todo ao invés de só ir direto pra Salvador. E assim que entrei no ônibus, entendi. Adoro pegar aquele ônibus, adoro ir pra São Paulo, adoro o metrô, adoro os amigos que se dispõem a me ver, adoro até mesmo a correria. Pensei que isso viraria um texto, assim que cheguei escrevi outro texto, liguei o netbook achando que escrevia um texto sobre a música chata que vem da igreja e concorre com o forró da praça… Mas viagens são assim, acabam nos tirando do prumo. Tenho comido “pão pesado” com uma manteiga maravilhosamente gostosa e que não quero nem imaginar o que está fazendo com o meu colesterol. Ao mesmo tempo, poxa, saudades.

Festa de passeio completo

Eu nunca tinha ido numa festa de quinze anos, assim como nunca curti convites para festas que exigem que a gente se arrume muito. Sempre tive alguma sorte nesse tema, com amigas que casam de dia ou nem fazem festa. As poucas que fui de passeio completo eram da época que eu morava com a minha mãe. Todo aparato de roupas e acessórios era feito por ela e minhas tias; meu trabalho era provar a roupa e aparecer com ela na festa. Sem dizer que na época meu cabelo era muito curto, do tipo que para arrumar basta colocar gel e quando muito uma presílha. Desta vez foi tudo diferente e na falta de um vestido longo eu fui obrigada a comprar, e nessa de comprar um longo aproveitei o pretexto e comprei um vestido belíssimo de flamenco. Animada com o vestido, me animei em fazer um cabelo à altura e fui no salão – como é caro fazer penteado, né? E que textura de ninho de rato que aqueles produtos deixam no cabelo. Mas ficou bonito, valeu a pena. Estava animada com a idéia de entrar numa festa belíssima, atrair os olhares, arrasar.
De fato, eu estava belíssima quando cheguei e recebi muitos elogios pelo meu traje espanholado. O prazer de chegar, cumprimentar e desfilar durou o quê, meia hora? A partir daí eu lembrei porque acho festas uma maçada. Pra começar, estava muito frio. Todas essas noites tem feito um frio moderado, e justamente na noite da festa choveu e baixou pra menos de dez graus. Antes de sair de casa, havíamos colocado roupa na Dúnia e o Luiz se lembrou dela: “Pelo menos a Dúnia está em casa quentinha” Eu: “Pelo menos um membro da nossa família está quentinho. E em casa”. O fiodamãe do salão era muito aberto. As mangas longas do vestido, o mantón que me cobria e a visualização criativa foram capazes de me transformar numa piriguete – eu era das mais cobertas e me sentia das mais geladas. Para os pés, eu precisava no mínimo de umas duas meias ou uma daquelas botas com lã dentro, e não um belo sapatinho de salto. Era frio, bunda quadrada, dor nas costas e vontade de tuitar. Parecia mais na Reitoria do que uma festa.
Eu fui obrigada a chegar cedo porque era parente. Então fiquei lá, horas e horas a fio, enquanto as pessoas que podiam se dar ao luxo de chegar atrasadas exerciam seu direito. Na mesa, havia umas torradinhas e dois patês. A torradinha tinha o talento de ser feita apenas de ar e não ter gosto de absolutamente nada. O patê branco era suave como clara de neve e também não tinha gosto. O patê rosa, tinha um leve gosto de queijo. Estavam horríveis mas foram avidamente atacados, porque o buffet levou quase três horas para surgir. Quando surgiu, como sempre, quase não havia opção para mim, que tive me conformar com batatas sem sal e um penne sem molho. A fila era tão grande que apesar da fome eu não consegui voltar. Me prendi à ideia de matar a fome com docinhos – coisa que eu nem fiz direito, porque levou mais de uma hora pra liberarem os doces e perdi a vontade. Teve a valsa, com aniversariante e o pai fazendo o possível para domar a vergonha. É, amigos, dançar com todo mundo te olhando não é fácil que eu sei. Teve discurso, power point com fotos mostrando a aniversariante desde criança até os dias de hoje. Foi amplamente aplaudido, aí apareceu um “ei, ainda não acabou!”, e começou tudo de novo… Quando a banda começou a tocar, apesar de serem bons, eu já tinha desligado o cérebro verbal e estava começando a entrar no estágio de querer matar pessoas. Fomos os primeiros convidados a ir embora. Nos próximos anos, espero só voltar a usar aquele vestido para dançar flamenco.

Convite

Uma vez eu estava conversando com um cara que ia fazer doutorado na Alemanha. Eu perguntei o que ele achava da fama de grossos que os alemães têm. Ele disse que não encarava como grosseria no mau sentido, e sim como uma sinceridade que não estamos acostumados.

– Por exemplo, se eu convidar você pra sair daqui e tomar um chopp comigo, você vai dizer que quem sabe um dia, que hoje você tem um compromisso… sendo que na verdade você sabe que nunca vai sair comigo. Já se fosse uma alemã, ela simplesmente responderia não. É mais grosseiro? Na hora pode ter aquele impacto, mas você sabe com quem está lidando.

Eu senti muito essa nossa tendência a evitar um não quando tentava comemorar meu aniversário com uma festa. No primeiro momento, ao receber o convite, as pessoas quase sempre reagiam com um “Nossa, que legal, claro que eu vou!” Poucas pessoas diziam que não, geralmente quem tinha um motivo muito sólido, como uma viagem. O sucesso era tanto que dava a impressão que minha festa teria uma centena de pessoas, e começava a me preocupar em encomendar um bolo enorme e comprar pratos. Mas à medida em que a data se aproximava, as pessoas começavam a me procurar com todo tipo de problemas – a bisavó está nas últimas, o cachorro comeu uma planta venenosa, o professor resolveu marcar uma prova sábado à noite, etc. Era tanta gente se desculpando e desmarcando que horas antes do aniversário eu me convencia de que não ia ninguém (como já me aconteceu). Eu me pergunto quantas dessas já não sabiam desde o primeiro instante que elas não iriam. Quase todas, provavelmente.

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Depois de escrever este post, quis saber de alguém que realmente conhece os alemães se a coisa era mesmo como falei. Então procurei a Frau Glaeser, que me mandou um e-mail interessantíssimo sobre a cultura alemã. Transcrevo com a autorização dela:

Oi Caminhante,

antes de conhecer “meu” alemao, eu morria de preconceito – alemaes sao frios, nao demonstram sentimentos, a língua é um horror, blablabla.

Na primeira visita, antes de casar, tive contato com alguns alemaes e me choquei com algumas coisas, como a apatia das criancinhas nos ônibus, fiquei chocada ao ver pirralhinhos de 4 anos de idade sentados, conversando baixo, como se adultos fossem. Vi um molequinho de 3 anos fechar a cara e perguntar pra mae pq eu estava acenando pra ele. E entendi menos ainda quando vi alemaes fazerem festinha pra cachorro, mas fecharem a cara pra criancinhas…

Logo no comeco do relacionamento offline com meu alemao, percebi o quanto ele ficava chateado se eu pedisse alguma coisa pra ele e nao falasse “por favor”. Pra mim era evidente que eu pedia um favor, pra ele era uma tremenda falta de educacao, como se eu estivesse dando uma ordem a ele. E percebi, em outras situacoes, o quanto um “por favor” muda as coisas. Alemao é uma língua gutural, a melodia é descendente, ao contrário do português, em que a mudanca de entonacao transforma uma ordem numa pergunta… Teste dizendo “Traz um copo de água pra mim.” e “Traz um copo de água pra mim?” em português, a entonacao faz a pergunta. Em alemao, nao. Soa igual, a nao ser que vc coloque um “Bitte” no final.

Em alemao fica muito claro o grau de intimidade entre interlocutores – existem pronomes diferentes e as regras de quando usá-los sao bem claras. Sie pra quem eu nao conheco, Du pra quem é família ou amigo do peito, ou pra quem nao liga muito pra convencoes. Interessante que criancas sao sempre Du, mas na adolescência passam a ser chamadas de Sie pelos professores na escola… Outra coisa que eu aprendi e acho muito interessante é que crianca é vista como um indivíduo, que merece respeito. Nao me lembro de ter visto adultos falando com voz diferente com criancas, ainda que pequenas. E os pais falam – e muito – com os pequenos, explicam os mais variados assuntos, em palavras simples mas nao imbecis. Já vi um telejornal para criancas, muito bem-feito, por sinal. E a Der Spiegel, maior revista daqui, tem uma versao infantil. E existem vários programas explicando o funcionamento de tudo o que se possa imaginar. Num domingo de manha vi como era fabricado o poliéster.

Por conta do respeito ao indivíduo, existe o direito a opiniao. E eu, sinceramente, precisei me acostumar a isso. As pessoas perguntam e realmente se interessam pela resposta, debatem o que concordam/discordam e, principalmente, nao se ofendem com o simples fato de vc ter uma opiniao diferente da delas. Pra quem passou a vida inteira fazendo malabarismos mentais e verbais ao ser confrontada com alguém que se ofendia com o fato de eu pensar diferente, foi um choque daqueles… Os alemaes sao beeeem diretos, o que pode ser confundido com grosseria, mas funcionam de uma maneira diferente. Se vc convidar um alemao pra ir à sua casa, ele vai ter perguntar dia e horário. E vai aparecer, ou pelo menos te avisar, com antecedência, caso nao possa. E vai se lembrar do seu aniversário, vai te mandar um email/sms/cartao/telefonar, vai te mostrar de alguma maneira que lembrou de você. E, dependendo do grau de intimidade, vai lembrar do seu aniversário de casamento, por exemplo. Ou te mandar um cartao postal a cada viagem.

Claro que sempre existe alguém sem-nocao que abusa do direito de emitir sua opiniao e fala o que nao deve. Ou de alguém que interpreta isso de maneira errada, mas, no geral, é menos complicado viver aqui. Um exemplo disso foi a festa de casamento no Brasil – convidei umas 80 pessoas, apareceram 60. Ao completar um ano de casados, fizemos uma outra festa, em Frankfurt, pros amigos alemaes que nao puderam ir. Foi uma festa super íntima, 25 pessoas. E dos convidados, apenas um nao pode ir, pq o filho pequeno tava doente e era algo contagioso. Bacana, né?

Por favor nao entenda isso como uma elegia aos alemaes, apenas o quanto me sinto aliviada por nao ter que me virar do avesso e tentar nao ofender alguém a cada meia hora…

Mais algumas coisas que admiro muito nos alemaes: a fidelidade aos princípios (isso vale pros abracadores de árvores, pros políticos, pras criancinhas escoteiras, pros membros dos clubes de carnaval, que fabricam suas fantasias e vao desfilar num frio de zero grau, só pelo prazer de desfilar), a eterna curiosidade sobre o mundo e seu funcionamento (todo telejornal tem pelo menos 30% de notícias sobre países estrangeiros, sempre; existem vários programas de ciências que mostram de maneira interessante o funcionamento de tudo o que se possa imaginar, como a eficácia de truques domésticos pro leite nao derramar ao ser fervido, p.ex.), o amor pelo debate (meu marido assiste mesa redonda de debate político fora de época de eleicao, dá pra acreditar?), mas o que eu mais admiro é o fato de saberem que seriedade nao se confunde com sisudez.

Caminhante´s weekend

Caminhante´s Weekend é uma série e eventos comemorativos que acontecem todo mês de junho e marcam o dia mais importante do ano, que é o aniversário da Caminhante Diurno, vulgo eu. São dias de fogos, felicidades, união. Preparo aqui um pequeno guia para cada um saber como aproveitar melhor essa data especial:

O que fazer?

Como ninguém fica feliz trabalhando, no dias 12 a grande maioria das pessoas receberá folga, com excessão para prestadores de serviço. No dia 13, as folgas seriam ampliadas. Então, aproveite para ir a restaurantes, levar o cachorro pra passear, visitar lojas de sapatos, etc. Esteja atento apenas à necessidade de fazer reserva, porque todos sairão às ruas para comemorar o Caminhante´s weekend e movimentar a economia.

O que vestir?

Se você estiver no sul, casacos são essenciais. Este ano, as lojas foram orientadas a investir muito nas cores amarelo – que representa riqueza e durante muitos anos foi Caminhante´s Colour – e o verde – o verde porque deu na telha. Sugiro que você se vista de amarelo e verde para demonstrar toda sua felicidade. Acredito que você não terá dificuldades em achar acessórios assim para vender.

O que ouvir?

O ideal seria ouvir uma bela ópera, para engrandecer o espírito e estar totalmente de acordo com o que a própria Caminhante tem ouvido. Mas, como nem todos têm o privilégio do bom gosto, liberamos uma musiquinha aí com uma cantora aí. O clipe foi aprovado só porque ela dança bem, mas na verdade a Caminhante nunca conseguiu passar do primeiro minuto do clipe:

É de bom tom presentear?

Sim, é. Seria muito bom você presentear este blog que te enche de alegrias o ano inteiro e nunca te pede nada em troca. Cada um pode dar o que tiver no seu coração: produtos Vudu de Pano, Melissinhas, camisetas transadas, CDs de música erudita, mão-de-obra escrava, etc. Como sabemos que nada disso vai acontecer (humpf!), presenteie uma pessoa sexualmente atraente que você confia e admira. Mas, por favor, nada de fazer sessão porn, salvem os vizinhos!

O que comer?

Temos o mais que maravilhoso pinhão e todos os pratos maravilhosos feitos com ele. Aqui em Curitiba há tacos e empanadas da Feirinha Gastronomica. Igualmente versátil, é recomedável qualquer produto derivado do milho verde. Você sentirá uma vontade irresistível de comer pipoca. Para os mais sofisticados, pratos indianos. Tudo, claro, acompanhado de Matte Leão, sabores natural ou limão, vulgo A Bebida dos Deuses.

Devidamente instruidos, bom Caminhante´s Weekend para todos e tem post novo na segunda!

Convite infeliz

Eu era monitora de uma matéria na faculdade e ele era meu aluno. Fui imediatamente com a cara ao ver que ele deu um jeito de falar de Star Trek no meio do relatório sobre o rato usado nas experiências. Não tínhamos amigos em comum e nem atração física; sempre que nos encontrávamos era divertido. Um dia disse pra ele que estava namorando sério e – surpresa – ele já tinha estagiado na empresa em que o Luiz trabalhava. Ele morava com a namorada.

Os anos se passaram eu o encontrava pela rua, com a namorada/esposa. Ela não era lá muito falante, mas fícavamos os três conversando alguns minutos onde quer que nos encontrassemos. Anos depois, ele não me reconheceu na academia apesar de continuar a receber e-mails meus regularmente. E foi na academia que ele cometeu o erro de me convidar pra festa de aniversário da mulher dele. Disse que ela não estava lá, mas que sem dúvida iria adorar a nossa presença. Ele sabia que eu e o Luiz detestamos ambientes de balada, mas insistiu, argumentou e jurou uma festa reservada, com pessoas interessantes interagindo. Fomos. E voltamos em tempo recorde.

Foi chato, não rolou interação nenhuma, mas tudo bem. O lugar estava barulhento, não dava pra conversar, gente feia e bêbada se comia com os olhos, mas tudo bem. Perdemos tempo, dinheiro e quase jogamos nossas roupas fora pelo fedor de cigarro, mas tudo bem. Insistir pra obter a presença em um local detestavel para o convidado não é legal, mas também não é imperdoável. O que matou nossa amizade foi a maneira como a aniversariante nos tratou. Não olhou na nossa cara, tirava fotos de todos menos de nós, deixou claro que odiou nossa presença. Ela nos tratou ostensivamente mal e até hoje eu não sei se ele notou. Um climão. Nós não temos culpa se a comunicação entre eles têm ruído.

Não adianta: casal é meio uma pessoa só. Não vou dizer como a mulher dos outros deve se portar. Hoje eu o encontro na rua e finjo que não vejo.

Adeus, 2009!

Eu não ia postar nada. Só ia colocar um benvindo 2010. Talvez porque eu ainda não esteja em clima de ano novo. 2009 foi um ano de desafios e difícil em muitos sentidos. Eu sei que foram períodos de plantio para coisas melhores e que quando as coisas estão para se resolver parece que o tempo passa devagar. Mesmo assim, não posso dizer que sentirei saudades.

Que 2010 venha forte, decidido, de caminhos abertos e muito positivo para todos nós!

Dia de São João

Aqui em Curitiba, ninguém liga pra isso. Ninguém sabe que dia 13 de junho é dia de Santo Antônio (e meu aniversário), dia 24 é dia de São João e dia 29 é dia de São Pedro e São Paulo (e aniversário do meu irmão). Ninguém sabe que esses dias são os mais importantes no calendário de festas. Aqui não se tira férias em junho, crianças não brincam com buscapé e não tem festas noite afora. Aqui ninguém sabe que junho é um mês todinho festivo, pra todas as idades. Aqui só tem umas festinhas sem sal que as escolas organizam. E antes chegavam ao cúmulo de tornar isso uma festa julina.

Minha época de festas juninas de verdade é tão recuada que eu era quase uma criança de colo. Mas ficou pra sempre a lembrança de um período alegre e luminoso. A única coisa que presta no São João curitibano é o pinhão.

Novo recorde mundial em baladas

Assim que nós chegamos, percebemos que a festa ” no ático, com cerca de 30 amigos que não se conhecem, música de qualidade e ambiente familiar” só tinha de verdadeira a parte do ático. Sentamos no sofá, comemos batata frita com chá verde, dançamos as únicas meia dúzia de músicas legais, voltamos pro sofá e quando chegou O Máskara, aplicamos o exclusivo método de fuga para casais que eu inventei naquele mesmo instante.

Tudo isso em exatos 1 hora e 30 min.