Um deslize machista

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Ele não falou nervoso, como quem exige seus direitos. Falou numa boa, como quem dá um toque. Estávamos vendo TV.

-Eu fui no banheiro e levantei a tampa da privada pra fazer xixi e, olha, tá um nojo lá embaixo.

Não vou falar de como eram os nossos horários naquela época ou descrever meus hábitos de higiene. Vou me limitar a dizer que quem já cuidou de uma casa sem faxineira ou empregada sabe que há altos e baixos.

Ele me falou mais na boa que pôde e eu também fiz meu possível:

-Você poderia simplesmente pegar os produtos de limpeza – que você sabe que estão do lado da privada – e resolvido isso na hora. Mas você acha que a limpeza da privada é tão obrigação minha que preferiu ficar enojado, deixar como estava e me falar na primeira oportunidade, pra aí sim eu pegar os produtos de limpeza e resolver.

Ele ficou sem graça e limpou assim que começaram os comerciais. E acho que fez isso outras vezes.

Curtas sobre bichos escrotos

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Ouvi um papo sobre chinelada e não estava entendendo. Aí me mostraram que havia uma barata enorme no vestiário, perto do teto e de alguns armários. Uma diz: “é que as baratas gostam muito de sabonete”. Na minha lista de “Coisas que Baratas Gostam” já constam: saliva, restos de comida, correr na nossa direção, esgoto, lixo, ralos, fingir de morta, cantos escuros, buracos entre armários, jornais velhos, calor, sapatos, aparelhos eletrônicos desativados, cerveja, papelão, voar. Concluo que o grande segredo das baratas é a sua alegria de viver.

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Quando eu conferi o lixo que não é lixo e ele estava roído, meu desânimo foi total. Aquilo sim deu vontade de fazer as malas e ir embora dessa vida divorciada e adulta. Porque enfrentar baratas, seres resistentes e nojentos é uma coisa; outra, bem diferente, é enfrentar seres superiores. Ratos são os bichos mais inteligentes da terra, o autor do Guia do Mochileiro das Galáxias tem razão. Um exemplo que li num livro: tinha um navio enfestado de ratos, nada dava jeito. Aí um dia tiveram um plano infalível de evacuar o navio, lacrar e colocar tubos que jogavam um veneno fortíssimo dentro do navio. Dias depois, voltaram achando que teria cadáver de rato espalhado por tudo, mas não, estava tão enfestado quanto antes. Quando foram ver os tubos, descobriram que cada um deles havia sido entupido com ratos, que andaram em direção ao veneno até morrer e vedar.

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Fui procurar dicas na internet sobre como lidar com ratos e uma bem ecológica recomendava cheiro de xixi de gato ou cachorro perto do local, porque são inimigos naturais. Já me imaginei colocando potinho de coleta embaixo da Dúnia durante o passeio.

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Outra: foi muito difícil desenvolver veneno para ratos. Pra começar por causa do olfato apurado deles, que faziam com que qualquer veneno passasse intocado. Depois, quando conseguiram desenvolver um veneno sem cheiro de veneno, pela prudência dos ratos: qualquer sabor novo tinha de ser experimentado pelo membro mais velho do grupo, que passava dias em observação. Só depois de alguns dias o alimento passava a ser liberado pros outros. Por isso que nenhum veneno de ratos age imediatamente.

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Por isso eu considero os ratos como uma grande inteligência coletiva. Já pensou se os humanos conseguissem agir assim? É que cada um de nós se sente importante demais. Um sujeito com um revolver com poucas balas consegue dominar uma multidão, porque cada parte dela tenta se preservar. Meu problema eu resolvi tapando o ralo, caso vocês queiram saber.

Curtas de uma sabedoria rasteira

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Vocês não sabem, mas a profissão de vitrinista é muito ruim. Não estou falando da dificuldade de elaborar as vitrines e sim o quanto é chato vestir manequim. Eu faço isso só de vez em quando e como xingo.

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Tem um texto ótimo do filho do Mário Prata, em que ele conta de um papo onde o viúvo lamenta que não tenha fotos da mulher tal como era, que a gente tem mania de tirar fotos quando está bonito na festa e não tira justamente do mais corriqueiro, com o cabelo do dia a dia, no lugar onde sempre vai, com o gesto mais característico. Acho que esse é um dos grandes atrativos das fotos antigas, com filmes.

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Aquela gordura do azulejo do banheiro sai bem fácil com palha de aço.

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Amiga, antes de sair de férias, estava com uma intuição fortíssima de que seria demitida e contou pra mãe. “Filha, se for pra você ser demitida, você vai e pronto”. No fim, foi mesmo, fecharam a filial. Adoro gente quem tem algo prático e simples pra dizer. Olha que o padrão feminino entende que ser amiga é ficar histérica junto.

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Alguns precisam de vídeos de gatinhos para restabelecerem sua fé na humanidade. A minha reage muito bem vendo vídeos com Darcy Ribeiro.

Ela é o diabo

Vi esse filme várias vezes na sessão da tarde. Nunca achei que o título do filme fosse merecido, porque a gente dá toda razão à protagonista. A história é a seguinte (atenção, SPOILERS): uma mulher comum é trocada por uma escritora bonita, rica e famosa. A marido a humilha antes de ir embora e lista as coisas que são mais importantes na vida dele. Ela anota o que ele disse e resolve destruir aqueles itens um a um. No meio dessa trajetória, a ex-esposa vai trabalhar num asilo e faz amizade com uma enfermeira implicante e solitária. Em pouco tempo, as duas se tornam amigas. Agora o que eu mais gosto do filme: quando a mulher sai do asilo, a enfermeira pede para ir junto. Ela lhe diz que tem uma imensa poupança e que não tem o que fazer com o dinheiro. Então, elas abrem uma agência de emprego para mulheres. Lá, recolocam no mercado donas-de-casa, que têm uma vasta experiência não reconhecida: são contadoras, administradoras, organizadoras e muitas outras funções, só que exercidas privadamente. Isso não é muito bacana? Conheço muita gente com esse perfil e adoraria empregá-las, se tivesse aonde.

Protesto masculino

Os homens hoje em dia sabem que nós mulheres não fomos geneticamente criadas para amar os serviços domésticos. Eles sabem, ninguém pode negar que hoje eles saibam. Então eles sabem que o trabalho doméstico é chato, precisa ser feito e muitas vezes se dispõem a ajudar. Só que, veja, eu acho que dentro deles alguma coisa ainda não aceita. Uma resistência, um protesto, algo muito profundo deles grita que não, que eles são grandiosos demais para aquilo. Homens nasceram para liderar tropas, suas mãos devem ficar ásperas ao amarrar cordas e não com detergente. Um homem fica intimamente ofendido com essas exigências. Cortar a grama, carregar sacola de supermercado ainda vá lá, porque são atividades que usam a força e força é com eles. A coisa está gritando quando, por exemplo, eles colocam o lixo para fora. Lixo não é pesado, lixo tem restos e homens não lidam com restos – homens criam restos, restos de corpos no campo de batalha. Mas por algum motivo cultural, jogar o lixo é uma das poucas coisas que conseguimos que eles façam direito. Eu acho que tem a ver com uma dinâmica de: o exterior e o público são masculinos, o interior e privado são femininos. Então jogar o lixo para fora, ainda que faça alguma coisa dentro deles gritar, tem a ver porque os tira de casa.

Como a cabeça aceita e o coração grita, sua forma de conciliação interna está em fazer as coisas pela metade. Perceberam que os homens levam os objetos até a metade do caminho, às vezes até fisicamente perto, mas jamais executam as tarefas domésticas até o fim? Não colocam no lugar, apenas sinalizam. O Luiz tira as toalhas do varal e joga em cima da cama. Ele atravessou a maior parte da casa com as toalhas, subiu um lance de escadas, faltam poucos passos até o banheiro… mas aí já não é mais com ele. Ele já fez tudo aquilo, já se humilhou bastante, e você ainda por cima quer que ele coloque as toalhas no cabide? Ou quando eu olho para a pia e tem um pratinho com cascas de banana, de cebola e outras coisas que devem ser jogadas fora. “O que é isso?” “São restos de comida, é lixo” “Então porque você não jogou no lixo?” Ele não sabe. Ele juntou tudo e seria muito fácil pisar num pedal e jogar lá dentro, mas isso não lhe ocorreu. É uma coisa inconsciente, sabe? Outra forma de deixar pela metade é o tal do desengorduramento. É sabido que se um homem faz um sanduíche com três itens quentes, eles conseguem usar no mínimo de três panelas. A prova disso é que depois, em cima do fogão, serão encontradas três panelas cheias de água. “É pra desengordurar“. E as fiadamãe ficarão lá dias a fio, desengordurando, até uma mulher perder a paciência e lavar tudo de uma vez.

Prendas adultas

Quando minha colega chega maravilhosamente trajada na aula de flamenco, com um vestido lindo, tecido maravilhoso, babados e acabamento perfeito, eu não consigo deixar de pensar que isso mostra que ela não lava a própria roupa. Não lava e não passa. Digo isso porque eu lavo. Na casa do meu pai, eu tirava a roupa suja e colocava numa portinha do armário embaixo da pia do banheiro e semanas depois ela voltava passada para a minha gaveta. Quando a gente tem a própria casa e começa a se preocupar com os tecidos brancos ou coloridos, com os que soltam tinta ou os que podem ir para a máquina, do que leva tempo para passar ou que basta dar uma batidinha quando a roupa está úmida, a relação com a roupa muda, e para sempre. Minhas roupas lindas de flamenco estão todas no guarda-roupa, esperando ocasiões especialíssimas. Pra ir pra aula, só roupa prática.

Falando assim dá a impressão de que sou muito adulta, e não sou. Essa de lavar a roupa é, digamos, coisa de pobre. Conheço quem mora sozinha, paga suas contas e a faxineira mensalista faz isso. Casar é algo que adultesce bastante a pessoa, mas ter dinheiro pode atrasar (ou nos poupar de) muita coisa. Uma dessas coisas, para mim, sempre foi a relação com a cozinha. Evitei durante muitos anos cozinhar melhor, apelei para comer fora e para um marido que tem excelente mão pra cozinha. Como boa preguiçosa, troco tranquilamente um almoço por uma tigela de pipoca ou um sanduíche de atum – ia dizer “um belo sanduíche de atum”, mas nos últimos tempos só enfiava o atum no meio do pão com manteiga. Agora estou fazendo dukan e atingi outro estágio de prendas: estou catando e fazendo receitas. Tudo porque ou tomava as rédeas do que como ou passava mal de tanta ricota e camarão. Não tem jeito, o humano é só se mexer quando a água bate na bunda.

Uma coisa que faz com que eu me sinta muito imatura – e nisso serei sempre imatura – é quando minhas amigas citam o ponto de vista de uma mãe. É quase sempre inesperado pra mim, porque não é uma coisa óbvia como falar de crianças brincando no parquinho. Ou do meu choque quando um pai me disse que a filha de quatro anos era viciada em refrigerante e facebook. São coisas como a Klenny se preocupar de suas filhas sofrerem no colégio com as coleguinhas falando “a sua mãe chupa, a sua mãe chupa!” enquanto nos divertíamos com a versão poética da Valeska Popozuda com o Mr. Catra. Ou quando a Tina, ao ver uma noiva fazendo voto de obediência ao marido, se imaginava tirando a filha dela aos tapas do altar se ela falasse uma besteira dessas. A maternidade leva a outro estágio, o emprego leva a outra estágio, a morte leva a outro estágio. Como hoje é possível casar sem cozinhar, ter filhos sem educar e tantas dificuldades que muitos nunca passarão, me parece que ser adulto é quase como um sistema de pontos que nem todos alcançam. Minha visão de ser adulto é algo meio:

Adulto completo: mínimo de 1000 pontos

Estudou em escola particular: 40 pontos
Estudou em escola pública: 80 pontos
Não estudou: 700 pontos
Perdeu um dos pais: 300 pontos
Perdeu um dos pais na infância: 800 pontos
Casou e foi morar em casa própria com empregada: 40 pontos
Casou e foi morar de aluguel sem empregada: 200 pontos
Divorciou bem: 70 pontos
Divorciou e descobriu que o ex é um ladrão filho da puta: 140 pontos
Tem filho(s): 900 pontos
Nasceu lindo: -100 pontos
Nasceu rico: -500 pontos

E por aí vai…

Quem manda

Eu estava naquelas reuniões que tem gente casada, descasada, ajuntada e solteira. Por um motivo que eu não lembro surgiu a história de ser a mulher quem manda em casa. As mulheres falando “quem manda em casa sou eu”, os maridos falando “eu nem me meto”, todo mundo brincando. Só que um desses casais era um daqueles casais tão complicados e doentios que todo mundo nota, e quando surgiu o assunto o cara fez questão de dizer “ela pensa que manda, mas quem manda em casa sou eu”. Ele quis dar uma de fodão, quis dizer que ela não mandava nele pra nada. Tive vontade de dizer que não é em todos os casamentos que a mulher manda em casa, só nos felizes. Deixei pra lá porque aquilo já é uma guerra à dois complicada demais.

Antes que vocês me achem machista, deixa eu explicar a frase. A construção é referência à frase de Nelson Rodrigues: “nem todas as mulheres gostam de apanhar, só as normais”. Não concordo com ela, assim como não concordo com a idéia de que o lar é o reino da mulher, lugar onde ela deve mandar por ser seu lugar, etc. O que eu teria querido dizer é que nos casamentos felizes alguém sempre manda em alguma coisa. E não é sempre o mesmo alguém. A graça de ser um casal é justamente ser uma dupla, de ter um outro que você pode confiar e que é melhor do que você em algumas coisas. Então, nessas coisas, você deixa que ele mande. O que tem mais bom gosto cuida da decoração, o que tem mais jeito com matemática cuida das finanças, o que cozinha melhor cuida da cozinha, e por aí vai. É um voto de confiança e uma maneira de otimizar o dia a dia. Se é cada um por si, ou pior, se um tem que cuidar de si e do outro, não sei qual a graça. Como diria a Fal, não entendo pra quê essas pessoas casam.

Do lar

Eu já tentei me descrever como Do Lar, mas era brincando, uma provocação. Porque nunca me vi dessa maneira. Talvez por preconceito, de associar dona-de-casa à mulheres sem aspiração, que sonham em ter filhos e todas as panelas brilhando. Sempre estive em tantos projetos, todos fora de casa e visando algo maior, que isso nunca me passou seriamente pela minha cabeça ou da do Luiz*.

Eis que um dia desses eu estava na academia, conversando com uma colega de doutorado do meu irmão:

(ela) O que você faz?
(eu) Estou desempregada.
(ela) Mas a sua formação…
(eu) Eu sou socióloga.
(ela) Você é casada.
(eu) Sou.
(ela) Então você é dona de casa.
(eu) …

(ela) Mas é difícil, né? É uma dessas coisas que as pessoas não dão valor.

(eu) …!

(ela) Tem um monte de coisas pra cuidar, dá trabalho, é cansativo. É um trabalho importante como qualquer outro.

(eu) … é.

Eu jamais pensei que alguém seria condescendente comigo falando do quanto o trabalho doméstico é digno. Olha que eu disse que era socióloga, mas isso parece ser menor do que ser casada (?). Eu só dei risada. Até agora não sei se ela foi gentil ou cruel.


* Antigamente eu diria que nem na dos meus amigos, mas depois dessa eu já tenho as minhas dúvidas.