A alma quebrada

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Sapatos de flamenco custam uma fortuna e um dos motivos é por serem extremamente fortes. As chances de alguém que não seja profissional e tenha um sapateado fraco quebrarem o salto de um são mínimas – e foi exatamente o que eu fiz, há poucos dias, num dos meus ensaios. Na verdade, sentia o salto dele meio solto há anos, assim como o outro, mas achei que fosse normal. Já ouvi uma explicação engenheirística sobre as coisas muito sólidas serem menos resistentes do que as que trabalham um pouco, então achei que meu salto dar umas falhadas fosse pura tecnologia. Voltei no sapateiro e pedi pra ex-mulher do espanhol pra verem se era possível colocar uma trava no salto, igual sapatos de dança de salão. Horas mais tarde me ligaram dizendo que isso eles não fariam, mas me explicaram que dentro do sapato havia um ferro, cujo nome não guardei, que era a Alma do Sapato. O do meu estava quebrado e eles não apenas trocariam aquele ferro como poderiam colocar dois. Eu topei.

Três dias depois, fui buscar meus sapato de alma nova. Havia uma menina brincando no balcão e chamou a avó assim que eu entrei. Era a ex-mulher do espanhol. O engraçado que eu sempre a cumprimento com familiaridade e digo que sou a moça do sapato de flamenco, e ela se justifica dizendo que “atende tanta gente…” e só me reconhece quando vê o sapato. Ela me explicou de novo o lance da alma, que o meu sapato está ainda mais resistente do que era antes, que nos fizeram um preço bom porque já sou cliente. Enquanto isso, ela foi corrigindo a neta: aquilo não era uma bola, era parte de uma câmera de segurança, que parasse de brincar com aquilo, pegasse umas canetinhas e papel. A vida era daquele jeito, tinha que ter responsabilidade. A menina apoiou as mãos no balcão e ficou observando nossa conversa, e quando a mulher tirou um adesivo de dentro do sapato – pelo jeito é por ali que se tem acesso à alma – a menina quis tirar e ela não deixou, porque aquilo era assunto sério, era trabalho.

Quando eu já estava pra ir embora, ela me perguntou se flamenco era uma boa atividade física. Tomei o ar para responder e ela completou: “é porque eu detesto academia, exercício, essas coisas. Eu tenho trauma, eu sofri bullying de uma professora no colégio quando era deste tamanho”. Me contou das humilhações, de ter que saltar de uma corda e ter medo, ser a primeira a ser chamada para que todo mundo viesse, de não ter nem sete anos e ser chamada de monga, que nem jogos olímpicos ela conseguia gostar de assistir, que um filho dela também ficou traumatizado com educação física, que ela ensinava a menina e os netos a respeitarem os outros, sempre, tratar bem o professor, apagar o quadro, arrumar a mesa dele, que tem que ser educado, mas também ensinava a se proteger, a dizer que não merece ser tratado desse jeito, dizer que vai chamar a mãe ou a vovó, que um policial ensinou na TV que não se deve apenas ensinar as crianças a não falarem com estranhos mas também a terem cuidados com os conhecidos, que não se divulga mas a cada hora três crianças são sequestradas, que se instruiu mal as crianças, uma palavra que você ensine para elas faz toda diferença, que… Aí entrou uma cliente e ela parou a conversa e me largou como se nada fosse. Antes de sair, eu falei:

– Sobre aquela pergunta que você me fez, a resposta é Sim.

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