Astrologia e tudo mais

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Dia desses estava num bate papo animado on line, o assunto foi para signos e comecei a dar uns pitacos nos mapas das pessoas. Olhava o desenho e falava o que havia me chamado atenção. Foi a primeira vez na vida que li o mapa de outra pessoa – tudo o que sei de astrologia tenho usado para consumo próprio. Aqueles cujo mapa eu li se impressionaram com minha precisão e mesmo quem não foi analisado achou que sei muito. Uma me perguntou, reservadamente, se eu conhecia algum curso on line de astrologia. Eu lhe indiquei o livro que li a vida toda – Curso Básico de Astrologia. Em casa chamávamos de O Livro Rosa. Os aspectos de cada um estavam marcados com uma bola colorida no canto. Até hoje, quando releio, percebo que sei os trechos de cor. A pessoa que queria curso me perguntou, eu respondi, ela me agradeceu e o assunto encerrou. Mas o que eu teria a dizer, sobre qualquer livro ou curso, sobre astrologia ou misticismo, ou escrever, ou o que minha professora de flamenco fala sobre flamenco, ou quem sabe mais o que na vida e o que há sob o céu: a coisa vem com o tempo. Cresce com você, se mistura com quem você é, amadurece com a sua maturidade. Há o que você leu e só entende profundamente depois, há o que não está escrito e nunca estará escrito e vem, como uma verdade que se revela. Quando a gente descobre isso, deixa de sofrer e até mesmo gosta do que não vem de primeira.

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Você sabe e só você não sabe

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Tem uma daquelas pavorosas frases machistas, que diz: “quando chegar em casa, bata na sua mulher. Você não sabe porque está batendo, mas ela sabe porque está apanhando”. Eu tenho para comigo que somos, ao mesmo tempo, o homem e a mulher desta frase, que que somos tanto a parte que sabe quanto aquela que ignora. Estudamos o tempo todo que a consciência é só a pontinha do iceberg, mas realmente não levamos isso à sério. Quem leu a Série Napolitana viu que a Lenu, diante de certas situações, vivia tendo ímpetos de mandar da outra embora, se ferrar, deixá-la em paz, mas logo dizia “claro que eu não fiz isso, não seria adequado, então eu perguntei como ela estava, consolei, etc”. Aí você pensa, que sempre tão auto-controlada, adequada e abnegada, ela era a melhor amiga do mundo, que Lila jamais desconfiaria da agressividade que havia por detrás. E não é assim, vemos Lila se afastar, se esconder, ser superficial, enfim, se proteger de uma agressividade que não é exposta. Ou seja, ela sabe. Talvez seja uma leitura gestual inconsciente, talvez chegue pelos poros, pela energia, o fato é que chega. E o último a ficar sabendo é o consciente. Você não sente vontade de ir, não quer falar, sente taquicardia, seu corpo e seus sentimentos dizendo que não, enquanto a mente diz que não está acontecendo nada, Fulano me adora, vamos ali tomar um café.

Curtas de uma sabedoria rasteira

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Vocês não sabem, mas a profissão de vitrinista é muito ruim. Não estou falando da dificuldade de elaborar as vitrines e sim o quanto é chato vestir manequim. Eu faço isso só de vez em quando e como xingo.

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Tem um texto ótimo do filho do Mário Prata, em que ele conta de um papo onde o viúvo lamenta que não tenha fotos da mulher tal como era, que a gente tem mania de tirar fotos quando está bonito na festa e não tira justamente do mais corriqueiro, com o cabelo do dia a dia, no lugar onde sempre vai, com o gesto mais característico. Acho que esse é um dos grandes atrativos das fotos antigas, com filmes.

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Aquela gordura do azulejo do banheiro sai bem fácil com palha de aço.

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Amiga, antes de sair de férias, estava com uma intuição fortíssima de que seria demitida e contou pra mãe. “Filha, se for pra você ser demitida, você vai e pronto”. No fim, foi mesmo, fecharam a filial. Adoro gente quem tem algo prático e simples pra dizer. Olha que o padrão feminino entende que ser amiga é ficar histérica junto.

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Alguns precisam de vídeos de gatinhos para restabelecerem sua fé na humanidade. A minha reage muito bem vendo vídeos com Darcy Ribeiro.

Nimbus

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O acúmulo de informações faz com que não sejamos mais quem éramos antes, ou seja, há uma parte inevitável de conhecimento – será que dá pra chamar de sabedoria? – que o tempo nos traz. O problema é que converter a informação em ação é outra coisa. Muitas vezes, eu me sinto apenas o Nostradamus português – “vou a escorregaire naquela casca de banana!” Às vezes saber é tão inútil quanto assistir as nuvens escurecerem. Vai chover, dizemos, e a natureza segue em frente.

A porta

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Quando adolescente, eu bati na porta da sabedoria. Não consegui nada, ninguém abriu. Hoje já imagino que por detrás dela há uma grande sala, ou corredor, enfim, é uma daquelas casas antigas que o Igor se arrasta com uma lanterna na mão com passos lentos até chegar lá. Por isso, já não bato mais: esmurrarei com todas as minhas forças, até alguém aparecer.

Sabedoria

Quantos de nós não fariam igual Peter Pan, se tivéssemos sabido o que nos aguardava a vida adulta. Crescemos e sentimos o mesmo de sempre: a mesma insegurança, o mesmo não saber para onde ir, a mesma solidão, só que na versão maior e mais séria. As atitudes maduras que vêm com a idade não são nada daquilo que eu esperava. Eu achava que com os anos as coisas parariam de me afetar. Sem me deixar afetar por elas, eu olharia para os meus problemas com calma e isso me levaria a tomar decisões sensatas. Pois bem, as coisas que doíam antes continuam doendo depois, só muda o formato. Não dói mais ser rejeitada pelo coleguinha interessante da 6º B, mas dói descobrir que o homem interessante que me olhava é muito bem casado e com filhos. Está tudo lá, igual ao que sempre foi. Se diante das dificuldades da vida eu não saio correndo aos prantos pros braços da minha mãe, é única e tão somente porque pega mal.
A não ser que a pessoa tenha se tornado um ser iluminado que saiu da roda de Samsara, a parte de olhar para os problemas sem se deixar afetar não existe. O que adquirimos é a experiência de já ter surtado, chorado, jogado as coisas pro alto, ter tirado satisfações, se vingado, sambado na cara e, depois de tudo, voltado a chorar solitariamente no quarto. Por causa disso, decidimos poupar todo trajeto e ficamos quietos no canto. Seguramos a onda, só isso. O que quebra não tem mais conserto, tem só remendo, o que não é o mesmo de nunca ter quebrado. Quanto mais cedo aceitamos – céus, odeio essa palavra, a-ce-i-tar! – melhor. A vida fica lá, impassível, esperando a gente parar de se debater e fazer birra na sessão de brinquedos do shopping. Então, ao invés de telefonar e dizer besteira, abrimos uma caixa de Bis. Pra não ficar remoendo pensamentos tristes, assistimos um filme. E por aí vai. O coração se desespera e acha que tudo está perdido, mas tentamos fazer com que a mente não vá atrás. Dizemos para nós mesmos o mesmo que diríamos a um amigo naquela situação. Tal como aconteceria com o amigo, não adianta muita coisa. Alivia apenas o suficiente para seguirmos adiante.
Aguardo ansiosamente (ops!) o dia que serei realmente sábia, sem dor, como deveria ser.