Capela Sistina

Hoje em dia se vai na Capela Sistina pra olhar o teto, mas quando Michelangelo recebeu a encomenda, ele não ficou nada feliz. Ficou ofendido, na verdade. Os maiores pintores da época foram convidados para preencher as paredes e quando chega a vez dele, tem que pintar justamente o pior lugar, sem importância, o que ninguém olha.

Vi por causa de outros umas fotos do Festival de Joinville e tinha lá a do cara que deu um curso longo que fiz e que no final a gente montava um espetáculo. Nem vou resgatar. Meus amigos me disseram na época que ficavam divididos com meus textos de dança, que eram agridoces. E eram. Foi naquele curso que eu descobri que o pessoal que dança à sério mesmo não é legal, que eles concorrem e se matam como em qualquer outra área. Vejo que é uma ilusão comum pra quem é diletante, achar que quem trabalha com arte respira ares superiores e o convívio é bom. Que nada, os meios artísticos no geral são os mais duros, onde a vaidade fala mais alto.

Começar a dançar pra mim foi nunca mais ser preferida, nunca mais ser a melhor, nunca mais ser considerada promissora. Mas me dá um prazer tão imenso e essencial, é como ler com o corpo. Depois de ver todo mundo fazer solo, finalmente chegou a minha vez e escolhi uma coreografia de nível mais básico, pra ser fácil e chegar no palco à vontade. Péssima decisão: não me lembrava nada e foi como se tivesse me proposto a aprender uma coreografia nova em duas semanas. Tenho ensaiado tanto que em mim tudo dói, minha casa está uma bagunça e me arrasto entre os compromissos. Mas! Coloquei uns detalhes muito legais nela, umas coisas muito minhas e muito soltas, porque uma das poucas coisas que aprendi na vida depois de uma série de pancadas foi a me levar um pouquinho menos a sério. Acho que vai ser bom. Tô querendo fazer desse solo meu momento Capela Sistina.

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Como se fosse futebol

O alojamento era uma porcaria, o curso foi frustrante e a amizade acabou. Aparentemente, da minha única longa estadia em Joinville pra fazer curso só ficaram lembranças ruins. Mas mesmo com todo aborrecimento e cansaço, havia um momento que desde então eu sabia que duraria para sempre, e que mudaria de maneira definitiva a minha maneira de encarar o comportamento que uma platéia deve ter: as apresentações no Teatro Bolshoi.

O teatro é tão grande que chega a não ter lugares bons. Quem está de frente fica muito longe do palco, que é alto, e não vê os pés dos bailarinos. Os lugares seguem por incontáveis filas, que faz o teatro ter o formato de um corredor. Nas laterais, três andares de arquibancadas. Era para elas que íamos, para o lado e bem pertinho do palco. No lugar mais alto da arquibancada mais alta, era possível se encostar na parede e assistir o espetáculo sentado no chão com as pernas esticadas sobre o cimento. Entre uma coreografia e outra, com as luzes apagadas, todos começavam a brincar com as luzes dos celulares. Nas coreografias, dançarinos; na platéia, dançarinos. Tanta gente jovem e tanta empatia fazia com que cada grupo bem ensaiado, cada passo difícil e bem executado, cada coreografia interessante ou solista inspirado, gerasse uma reações imediatas. As pessoas vibravam, aplaudiam os momentos mais difíceis; nos momentos de concentração, dava pra sentir a tensão do silêncio. A platéia entendia e valorizava o que estava acontecendo. Não era nem de longe um silêncio educado, era puro envolvimento. A partir daí percebi o quanto nos reprimimos como público de arte. Ver dança pode ser tão emocionante como assistir uma partida de futebol – mas só em Joinville, só durante o festival.

Dança divertida

Eu achava muito divertido. Ficávamos em fila e, ao som do batuque, tínhamos de dar saltinhos. Saltar alto, com uma perna dobrada (em retiré) e a outra esticada, os braços se erguendo e olhando para o lado. Eu apelidei aquele salto de “propaganda de amaciante”. Era o primeiro lugar à sério que eu dançava, depois de ter passado pela minha primeira audição. Eu ainda guardava no espírito a alma de uma universitária, e achava tudo aquilo tão novo, tão divertido. Exercícios que tinham o objetivo de desenvolver a coordenação motora – quem fazia isso depois da infância? Por isso eu me sentia sempre um pouco brincando, sempre um pouco na infância. Alguns ficavam constrangidos, outros se aborreciam por não conseguirem fazer, e isso pra mim só era uma prova de que nem todo mundo sabe brincar.

Foi num espírito semelhante que fui fazer curso de preparação de musicais, em Joinville, com uma amiga que fiz na dança e considerava muito. Não apenas o curso não foi nada do que eu esperava como a amizade acabou ali, e depois de colocar os pés em Curitiba nunca mais nos falamos. Um grande problema do curso – hoje eu sei – era o fato dele ser ministrado por um cara da Globo e ser uma oportunidade de entrar lá. O musical era divertido, as músicas eram divertidas, as coreografias eram divertidas – só o ambiente que era péssimo. Competição, competição, competição. Eu era ruim demais, com apenas três anos de dança, perto de pessoas que até academia tinham. Então, não era contra mim que os fogos eram destinados – eu recebia o desprezo destinado aos muito ruins. Eu não entendia como pessoas podiam dançar, que era algo tão divertido, e não se divertirem, e tornarem aquilo mais um motivo de infelicidade. Dança e competir me pareciam um contrasenso.

Poucos meses depois, na escola, eu estava da mesma maneira: vendo quem dançava bem, querendo um lugar melhor o palco, reparando nos puxa-sacos, tentando obter as informações mais privilegiadas. Comecei a ficar assim quando a dança finalmente me fisgou, quando comecei a querer ser alguém. Aí percebi que até então eu os olhava de fora, como se aquilo não fosse um mundo sério. O mundo sério havia sido, pra mim, até aquela data, apenas o mundo acadêmico. Eu não havia me dado conta que os saltinhos e a coordenação motora eram o trabalho dos bailarinos, a maneira como se viam, como eram avaliados, sua profissão. Só então percebi, com um certo desapontamento, que onde quer que o ser humano coloque importância, lá haverá competição, inveja, fofoca, traição e tudo o que há de pior, porque poucos conseguem levar à sério sem perder a leveza.

Um convite especial

O Luiz não entendeu nada quando eu contei, feliz da vida, que seria uma das reponsáveis pela minha escola na Mostra Paranaense de Dança. Não sei porquê eu fui convidada; tenho a impressão de quem tem a ver com o fato de eu estar sempre online, pois o convite veio imediatamente depois de eu ter mandado um e-mail pra minha lista. “Mas você vai dançar?”, ele quis saber. Eu não apenas não vou, como precisei pagar 15 reais de inscrição, comprometi um dia do meu fim de semana e mais uma noite pra assistir o ensaio geral. Aí que ficou totalmente sem sentido, porque ele sabe que essas coisas levam o dia inteiro e são muito cansativas. E eu nem ao menos terei a prazer de pisar no palco.

A questão é que esse Festival é algo da qual eu ouvi muito falar. Faz parte do meu passado com o ballet. Na última escola onde eu fiz ballet, a preparação começava em fevereiro. Era o evento do ano. A apresentação de fim de ano era uma coisa mais pra família, pra constar, porque o importante mesmo era a Mostra. Quase todo mundo dançava lá, nas coreografias de ballet, com os tutus, as pontas e tudo o que o ballet de repertório dá direito. Menos eu. E não apenas porque eu era nova ali. Eu poderia passar o resto da minha vida na escola, que eu sei que elas jamais me deixariam dançar. Não lá, num evento representando a escola. Não ballet clássico, não com mais de trinta anos e pesada. O máximo que me seria permitido era comprar ingresso e torcer com os outros, na platéia. Nunca deixei de sentir que minha presença se devia unicamente à mensalidade paga em dia, que me faziam um grande favor. Eu fazia aula todo dia e dava o máximo apenas porque era louca, porque se nem quisesse aparecer tudo bem também. Alias, seria até melhor. Tanto que ninguém se deu ao trabalho de querer saber porquê eu saí.

Domingo reencontrarei o pessoal da minha antiga escola. Nunca mais tive notícias de lá e acho que é recíproco. Claro que seria melhor se eu estivesse dançando – que elas vissem que estou num lugar onde não só me dão valor, como as pessoas me consideram um talento! Mas revê-las um ano e meio depois, responsável, já vai ser uma bela vingancinha.

Hoooooouse!

O pré-requisito mínimo para o Curso de Preparação para Musicais era ter três anos de experiência em dança. Eu entrei raspando, porque o curso era em julho e tinha sido exatamente em julho que eu tinha começado a fazer ballet. Fui fazer o curso baseada numa propaganda totalmente enganosa (não sei se involuntária ou não) de uma amiga minha que tinha feito no ano anterior. Ela me falou de camaradagem, risos, destaque para todo mundo. Não sabemos se a fama daquele primeiro curso correu ou o que foi – o fato é que naquele ano apareceram pessoas que cantavam, dançavam, representavam e estavam doidas para se destacar. Era uma tensão só, todo mundo querendo mostrar que merecia ir pra Globo (era uma possibilidade real). Vieram pessoas do país inteiro, donas de escola de dança, meninas mal entradas na adolescência e que cantavam com vozeirão, modelo-atriz-manequim com programa de TV.

 

Entre aquelas mulheres lindas, com pernas que iam às alturas e pegavam as coreografias só de olhar, uma pessoa chamava a atenção por ser muito destoante. Acho que era amazonense. Ela era atriz, cerca de um metro e meio, na faixa dos quarenta anos, um corpo cheio de curvas e bem acima do peso. Cabelo pixaim e rosto grande. Fora ter vindo com um dos melhores bailarinos do curso, ninguém sabia o que ela estava fazendo lá. Ela claramente não dançava muito. Éramos colocadas no fundo, na turma dos que não aparecem. Vocês sabem o que é estar num meio que pelo valores vigentes você é a pior? De lá nada adiantaria falar dos meus diplomas, minhas esculturas, meu livro ou do quanto sou uma pessoa sensível. Lá o importante era ser jovem, belo, extrovertido, fabuloso, broadway. Eu sou do tipo que precisa de tempo pra se soltar; dependendo do entorno, isso pode nem acontecer. Aquela mulherona, na minha imaginação, era o meu espelho. Sempre me perguntei se ela também estava se sentia intimidada no meio daquela gente.

 

O curso todo era a montagem de um musical, que já vinha todo organizado e precisava ser distribuido e incorporado por nós. Antes de viajar, recebiamos uma lista de figurinos pra possíveis papéis. No primeiro dia de curso, tinhamos nosso momento Ídolos, em que todos os sessenta bailarinos faziam uma roda e eram chamados nome a nome para cantar para três pessoas num tablado. Entre elas estava André Gabeh, que na hora fazia anotações e avaliava nossas vozes. Imaginem o constrangimento. Como percebi mais tarde, a prioridade era o volume da voz. Eu canto baixinho e agudinho, por isso só fiquei no coro. A mulherona era a única com uma voz sonora e grave.

 

Escolhidas pela voz e pelo tipo físico, ela e mais duas foram escaladas para o seguinte papel: num momento do musical apareciam três mulheres de lingerie e aquele chapeuzinho de freira. Era o momento mais non sense do espetáculo. Elas iam até o centro do palco e diziam: Nos chamaram? As pessoas respondiam: Mas quem são vocês? Elas: Nós somos as Novicias do Vício. Aí cada uma dizia seu nome: Amy, Wine e… aí nossa amiga dizia numa voz muito grave: Hoooooouse! A platéia vinha abaixo.

 

Amigos antigos e de alojamento vieram prestigiar o espetáculo. Quando pediamos para eles contarem do que mais gostaram, quem chamou mais atenção, qual a melhor parte, todos diziam: Hoooooouse!

Hora do banho

A viagem em que fiquei num alojamento foi um mistura de BBB com No Limite. Com a vantagem que nos dois realitys existe a possibilidade de ser mandado de volta pra casa e no meu caso era só se eu pedisse pra sair – e assim jogasse fora meu investimento num curso caro. Das muitas coisas que me aconteceram ali – a grande maioria delas ruim – tem uma que vale a pena ser contada. Vejam o que vocês acham.

Eu fiquei hospedada em uma escola e tínhamos acesso a apenas dois banheiros. O banheiro que tinha chuveiro (!?) era tão horrível que a Revista M nem conseguiria classificar. Pense num banheiro normal de escola, com um gabinete à esquerda de quem entra, uma pia à esquerda e mais três gabinetes ao fundo. Agora pense que essa escola se ofereceu para hospedar pessoas para o maior festival de dança da América Latina e precisa colocar chuveiros em algum lugar. Resultado: os dois chuveiros ficavam em frente à pia, abertos, sem qualquer divisória. Para tornar pior o impiorável: a porta não trancava. Pra tentar ter um pouco de privacidade – e um lugar onde as roupas não molhassem- colocávamos um cadeira na porta.

No quarto ao lado do meu e fazendo curso comigo havia um professor de educação física, o Alex. Ele era uma figura: um lado queria ser crente e o outro lado queria ser pegador. Então ele era um pseudo-pegador, um aprendiz de pegador, um pegador de deus. O lado pegador o fazia falar gracinhas o tempo todo; o lado crente, o fazia achar que era um sinal acabar divino esquecer o convite pra balada gay. Logo no início da estadia ele nos contou que aconteceu o que todo mundo imaginava: uma menina estava tomando banho quando um menino foi abrindo a porta. Sim, uma menina e um menino, porque a faixa etária de quem vai ao Festival de Joinville é de adolescentes. Voltando: o menino ficou muito envergonhado e pediu mil desculpas. O Alex, nosso personal peguetor, completou a história dizendo: “Se fosse eu, não teria ficado sem graça e sim teria me oferecido pra tomar banho junto.” Sem comentários.

O dias foram passando, o curso foi ficando cada vez mais difícil. A previsão quando eu saí de Curitiba era de calor, o tempo virou e estavamos todos desprevenidos. Usei os mesmos casacos durante quinze dias, não me adaptei a dieta à base de sanduíche e chocolate das bailarinas, o clima ficava cada vez mais pesado com as pessoas que viajaram comigo, eu não conseguia dormir mais de seis horas por noite, meu joelho esquerdo começou a travar. Em resumo: eu estava fedendo, subnutrida, cansada, deprimida e manca. No meio de tudo isso, um cara alheio à todo clima e fazendo cantadinhas o tempo todo era um refresco. A mais gostosa do curso acabou ficando no quarto do Alex e ele usava todo seu arsenal com ela. Mais tarde, servi de cupido entre ele e outra amiga de Curitiba. Enquanto as pessoas desprezavam as crises pegacionais do Alex, eu o achava divertido, uma companhia leve.

Mais de dez dias depois, quase no fim do curso. Eu estou no banco ao lado do banheiro, de chinelo, segurando minhas coisas e esperando o chuveiro desocupar. Nesse momento passa o Alex de roupão, pra ver se a fila estava muito grande. Estavamos sozinhos. Aí eu disse:

– Ainda bem que você veio agora. Já pensou, se você viesse poucos minutos mais tarde, poderiamos protagonizar aquela mesma história do flagrante no chuveiro que você me contou.

Ele não entendeu de imediato. Assim que se tocou do que eu estava falando, ficou sério. O que ele respondeu foi… histórico:

– Ah, não, mas aí eu reagiria diferente. Eu te admiro e te respeito demais. Eu jamais falaria uma coisa daquelas pra ti.

Eu ri. Homens: se somos respeitáveis, não somos desejáveis. E vice-versa.

Espetáculo do Curso Oficina Mix – Joinville 2009

Ueba, olha só o que eu achei! Nos primeiros minutos, eu apareço várias vezes mas nem minha mãe me encontraria sem ajuda: eu estou com um boá vermelho no canto esquerdo na coreografia Broadway, passo correndo com uma bandeira amarela, fico em fila vestida de marinheira, na hora do círculo com os braços estou à direita e sou das primeiras a sair e depois ajudo a empurrar a escada. No resto do video eu não apareço porque estou cantando nas pontas ou dançando na platéia.

É isso. Deu pra matar um pouco a curiosidade?

Offtopic: No início do video toca o instrumental da música oficial do Festival de Dança de Joinville. É uma música detestavelmente grudenta e brega. Passei 10 dias ouvindo isso em todos os lugares e não consigo evitar de cantar o refrão “pra dançar, dançar, dançar e ser feliz/ Festival de emoções do meu país!”. Eu a odeio tanto que às vezes acho que a amo!

Condições adversas

Logo eu! Não há outra maneira de expressar o estranhamento em saber que fiquei 10 dias em alojamento. Logo eu, que sempre fui fresca, que sempre gostei de conforto e odeio grupos. Eu gostaria MUITO de ter ficado num hotel, sozinha e lendo. No alojamento, eu acordava por volta das 7h e não conseguia mais dormir pelo desgosto de estar numa sala de aula com mais 13 pessoas. Andava até o Centreventos, almoçava sanduíche de atum, fazia curso, jantava barra de cereal e ia correndo assistir as apresentações*. Chegava no alojamento por volta da meia noite, tomava banho e ia dormir. Sempre com as mesmas roupas (o %×$♠@☹☂ßæÜ do Climatempo disse que ia fazer calor!) e acompanhada.

Eu achei que teria algum piti. Que a falta de silêncio me irritaria de tal forma, que em pouco tempo me desentenderia com todo mundo e me isolaria. Sempre me vi como uma pessoa difícil e que mantém um pouco de sanidade porque gosta de solidão. A falta desses momentos realmente me deixou triste e apagou minhas habituais brincadeiras. Mas, ao contrário do que pensava, fui uma boa companhia. Me descobri uma apaziguadora, enquanto à minha volta as pessoas perdiam a paciência e se alfinetavam. Ou seja, para os grupos eu sou ótima mas grupos me fazem mal. Isso sem falar que eu estava no meio de artistas – sedentos por atenção e quem sabe ir para a Globo.

Comprovei o que já desconfiava: só brinco quando estou feliz, meus contatos são governados por afinidade e não utilidade, não sei disputar atenção. Então, sem chances de entrar pra Globo, pro CQC ou pra qualquer coisa que dependa de imagem. Devo ter parecido uma pessoa muito tímida, talvez sem importância. Eu sou aquela lá do fundo que não está fazendo a menor força para ser vista. Pra gostar de mim é preciso olhar com cuidado.
* As apresentações foram a melhor parte da viagem inteira. Assistir dança no meio do festival é como assistir futebol no estádio. As pessoas se envolvem, gritam, torcem, é muito divertido! Nunca mais acharei graça em estar no meio de uma platéia silenciosa.

Oficina Mix 2009

A proposta era a seguinte: em dez dias, com 60 bailarinos com a experiência mínima de 3 anos, montar um musical. Para transformar em realidade, a equipe de Caio Nunes, o poderoso coreógrafo da Globo.

Foi como estar numa grande companhia de dança. Logo no primeiro dia tivemos que cantar na frente de todo mundo enquanto André Gabet avaliava nossas vozes. Apresentamos a coreografia que havíamos decorado antes de viajar e fomos divididos em dois grupos. Esses grupos eram mais ou menos constantes. Isso porque havia teste para papéis, coreografias especiais, entradas específicas. Então podia acontecer de você sair enquanto o grupo aprende uma nova coreografia e depois ter que correr atrás do prejuízo. Ao mesmo tempo que todo mundo se ajudava, era cada um por si.

No meio de todo aquele caos e coisas que não saiam até o último minuto, fomos nos conhecendo e o musical se transformando em realidade. No penúltimo dia, ensaiamos no teatro durante 11 horas. Algumas coisas não deram certo e foram cortadas, enquanto outras foram acrescentadas pra aproveitar talentos particulares. Mesmo assim, todo mundo dançou muito, trocou diversas vezes de figurino (eu trocava cinco vezes) e se sentiu valorizado. A primeira vez que o Caio me chamou pelo nome eu levei um susto. Apesar daquela loucura toda, eles tinham o carinho de nunca deixar ninguém de lado, de saber como cada um era. Isso sem falar da imensa paciência. Acho que eles nos xingavam mentalmente, porque nunca vi tanta gentileza em meio a disputas de ego e erros crassos.

Por falar em erros crassos, eu errei muito. Errei dando tudo de mim, errei com vontade de acertar. Ou seja, me descobri uma bailarina medíocre. Eu sei que minha história é bonita por ter começado a dançar tarde (faz exatos 3 anos) e que vocês torcem por mim, mas é verdade. Nunca estive em meio a gente tão talentosa. Que não apenas pegavam as coreografias rápido como também faziam com perfeição e beleza. A mesma coregrafia podia ficar irreconhecível por causa da qualidade do movimento. Mil vezes decidi parar de dançar. A intensidade do curso e a distância de casa foram tão difíceis que tive crise de choro em plena Feira da Sapatilha. No momento mais bailarinísto da minha vida eu achei que não era para estar ali.

Voltei com um DVD da apresentação. Acho que levarei alguns anos para vê-lo. Meu joelho esquerdo ficou ruim durante a viagem e eu nem conseguia descer escadas direito. Mas foi só voltar para casa que ele está quase bom. Segunda tudo volta ao normal, inclusive no ballet. Como diz aquele provérbio alemão: tudo na vida tem um fim. Menos a salsicha, que tem dois.

Longe de casa há mais de uma semana

Che-gay.

Senti saudades absurdas. Pra vocês terem idéia, pensar meu blog esperava minha volta me fez bem. Passei todo esse tempo sem ver TV ou chegar perto de um computador. Me senti o próprio Dr. Jivago no meio da Revolução Russa, com necessidades elitistas que ninguém à minha volta compartilhava. As roupas na mala estão tão sujas que não dá nem vontade de lavar e sim de incinerar. Saudades de comer direito, da minha rotina, dos meus hábitos.

O que fiz nesse meio tempo? Fui pro Festival de Dança de Joinville e participei de um musical – Welcome on Boardway.