Fail better

Aurora Borealis2

Ela se sentou do meu lado com toda pinta de quem queria conversar. Nós já havíamos trocado algumas palavras quando uma moça, minutos antes, me perguntou se aquele ônibus ia em direção ao Pilarzinho. Fiquei na dúvida e ela interviu, ia sim. Elas começaram a conversar sobre a região onde moravam e eu fiquei na minha. O ônibus chegou e me sentei na frente, ela veio do meu lado. Doida pra conversar. O rosto bem enrugado, segurava uma mala com rodinha e alça. Não é que eu não quisesse conversar. Ela falava meio baixo, sorria muito; entendi que visitava os irmãos, que era a mais velha, que outros mais jovens haviam morrido. Que vivia só, era muito saudável, foi criada num sítio e tinha quase oitenta anos. “Uma excelente história para o blog”, penso, no automático. Mas aquele dia eu a tive que deixar falando praticamente sozinha, enquanto olhava triste pela janela. Um dos meus piores dias de muito tempo. Fail better*. Pra variar, eu havia fail better. À medida que os anos vão passando, essa história de fail better perde toda a graça. Olho pra janela pra me recusar a ver o potencial da situação, estou cansada de anotar histórias interessantes na mente. Concluo que devo ver Glee, que me identificarei e chorarei horrores. Que a amargura dos escritores fracassados me aguarda, a mesma de todos os que sigo de longe e rio. A velhinha está do meu lado, eu sei que o problema nunca é falta de histórias e sim de sensibilidade para percebê-las, talento para trazer a vida. O tema, o tratamento, o trabalho duro. Fail. Ela conta uma coisa, eu sorrio de volta, faço uma pergunta educada, a conversa morre. Não quero lembrar, quero apenas ser gentil. A Tina me disse que depois que me conheceu, sempre ouvia a minha voz ao ler meus posts, que eles são muito eu falando. Não consigo, desculpe, hoje eu não consigo. O posto de gasolina onde ela desce perto se aproxima, ela se levanta, eu me despeço. Tão cansada, cansada dessa necessidade, cansada de fracassar. É como se estivesse tentando jogar uma pedra nas estrelas, é impossível, está acima das minhas possibilidades. A grande história pode ter descido do ônibus, mais uma vez, a história que uma pessoa realmente talentosa transformaria no grande romance brasileiro. Eu não sou essa pessoa; eu caminho, caminho e apenas fail better.

 

*Ever tried. Ever failed. No matter. Try again. Fail again. Fail better. – Samuel Beckett (Tentar. Fracassar. Não importa. Tente de novo. Fracasse de novo. Fracasse melhor)

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Ovelhíssima

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Essa é uma da série das “Verdades que eu disse que não sei se fiz bem ou mal em dizer”. Ela se considerava ovelhíssima negra, daquelas que não se mobiliza nem com funeral. Deixou a família pra lá e foi viver bem longe e, como já disse antes, nem morte era capaz de arrancar dela um gesto de conciliação. Um dia ela estava me falando no quanto era um desgosto para seus pais, o quanto era má, o quanto…

– Na verdade você não é tanto assim. Você saiu de casa, teve família, filhos, vive sua vida, não depende deles pra nada. Eles devem olhar pra isso e pensar que, no fundo, não te fizeram tão mal. Filho que realmente faz mal é aquele que fica inútil, que não consegue sair de casa, não tem vida, não casa, não tem profissão, etc. Esse sim, com a sua presença, está sempre jogando na cara dos pais que eles fracassaram com ele.

Dos fracassos

Uma coisa que me impressiona na internet, até mesmo de amigos, é a certeza e a rigidez na hora de julgar certos comportamentos. Mesmo quando concordo com eles no quanto alguma coisa é condenável e errada, eu sempre me vejo mais disposta a relevar coisas, a colocar num contexto e até mesmo a perdoar mais. A mãe que deixa o filho de lado é insensível, sem caráter, péssima mãe; o adolescente que foi pego pela polícia é um criminoso, um bandido, merece morrer na cadeia, e por aí vai. Sim, eu sei que acabo sendo boazinha, ingênua, tendo a julgar os desconhecidos como se eles tivessem as minhas motivações. O mundo é um lugar cruel e as pessoas não têm escrúpulos e nem caráter, pelo jeito. Aí eu comecei a me perguntar do porquê eu acabo me vendo tão mais tolerante do que os outros.
Eu mudei mais do que a maioria das pessoas. Fui psicóloga, fui escultora, fui mestre… ou quem sabe devo dizer que sou todas essas coisas, e ainda por cima danço. Num sentido subjetivo, eu já vivi a experiência de ser um gênio da raça, aquela que tem tudo para dar certo, como também fui a zero a esquerda que ninguém sabe porque insiste. O motivo de eu ter sido tantas coisas é muito simples e está longe de ser um motivo de orgulho: eu fiz várias coisas porque fracassei muito. Se cada uma dessas coisas tivesse dado certo, se tivesse me rendido o dinheiro e o reconhecimento que eu esperava, eu estaria fazendo qualquer uma delas até hoje. Ninguém muda tanto se estiver sentado nos louros, se fizer uma falta imensa se for embora. Se por um lado ser Não Sei Porque Insiste era prova do meu fracasso iminente, por outro ser Gênia da Raça gerou tanta inveja e uma falta de colaboração que eu fracassei também. Com tudo nas mãos e com nada nas mãos, minha história tem me obrigado a buscar alternativas e até hoje vivo mais de esperança do que de frutos.
O que os meus fracassos me ensinaram é que os outros, a sorte, as circunstâncias, o contato, o apoio, enfim, o ser a pessoa certa na hora certa contam muito. O self-made-man é muito menos self do que pensa. A vontade e o trabalho sozinhos não são garantias de nada. Trabalhar com dedicação e vontade fazem sim com que você realize um bom trabalho – eu realizei bons trabalhos nas muitas coisas que fiz, pode perguntar para quem me conhece. Só que o bom trabalho também não é nada sozinho. Eu senti na pele a força das circunstâncias, o desespero de insistir e não conseguir, as dúvidas sobre si mesmo. Não me faltou vontade de vender a alma e sim alguém interessado em comprar. Nas minhas fantasias, eu já me corrompi, já traí, já dei as costas muitas vezes. A mim faltou chance, quem sabe até coragem – para os outros talvez não. A grande maioria dos incorruptíveis são, somente, pessoas desinteressantes que a vida não se deu ao trabalho de tentar. Canalhas, prostitutas, irresponsáveis… eu os tenho todos dentro de mim, conscientes demais pra que eu julgue os nos outros com muita severidade.

Fracasso

Às vezes a Dúnia está lá fora, pegando sol encostada no muro, e eu fico olhando para ela escondida. Assim como, escondida, quebro o ossinho em vários pedaços e jogo em vários pontos diferentes da grama, pra ela ter que procurar. Esses gestos nada tem a ver com a dona enlouquecida que gritava que a odeia, antes e depois de limpar uma sala tão emporcalhada de estévia que até as narinas ficavam doces. O detalhe é ontem ela tinha feito a mesma coisa, igualzinho, só que com a granola. E anteontem ela quebrou um porta incenso.

Eu desejei imensamente esse cachorro. Mobilizei todos a minha volta. Ignorei conselhos e cachorros de raça. Peguei uma linda cadela que me conquistou com seu olhar carente, naquele corpo pequeno, frágil, sujo, de onde saiu a maior quantidade de vermes que eu já vi. Ela ganhou a minha sala, fez do sofá de 3 lugares sua king size e depois do jardim o seu campo de escavações. Ela ignorou o caro pipi dog que compramos pra ela, e se viciou no bio dog. Tem garrafa, chocalho, Snoopy, bolinhas… sem falar na pá e no ralo. Quem vê tudo isso espalhado por aí tem a impressão de que há uma criança em casa.

Admitir para mim mesma que não suporto mais essa situação e que quero dar a Dúnia está sendo doloroso como um fracasso. Logo eu, que comparava o abandono de um cachorro ao abandono de um adotado. Que adotei a Dúnia por não perdoar minha mãe ter se livrado do Quincas. Que tenho foto e vídeo dela no meu celular. Como as coisas chegaram neste ponto?

Pode ser que seja má-educação, que não soubemos adestrá-la. Pode ser que ela tenha má indole. Ou que seja criança demais. Tudo pode ser. Quem sabe tudo tenha sido um erro, desde o princípio. O Luiz trabalha e dá aulas, e eu faço 2 cursos superiores e academia. Talvez, nesse ritmo, fosse mesmo impossível dar pra um cachorro toda atenção que ele merece. Eu tentei, apanhei como mulher de malandro. Agora vamos buscar um lar melhor pra ela. E voltar a habitar a parte debaixo da casa.

Dói.