Drosófilas e pelinhos

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Teve uma época que o meu irmão estudou drosófilas, aquelas mosquinhas que ficam em volta da banana. E ele disse que elas eram tão bonitinhas (!?), que cada uma era diferente da outra: que tinha mais pelo de um lado do que do outro, que os inúmeros olhos formavam padrões diferentes ou uma curva diferente nas asas. Isso me faz pensar que nada nunca é idêntico na natureza, nem mosquinha. Que se a gente vê como uniforme, é por falta de atenção ou pura limitação. Não é sempre diferente com neve, galhos de árvores, nuvens? Então como esperar que a humanidade fosse facilmente explicável, justo a humanidade? Logo nós que temos pelinhos, geometrias e asinhas internas tão complicados. Um mundo interior que não dá pra desenrolar nunca, e o próprio ato de tentar desenrolar vai dando ainda mais linha e gera espirais infinitas. É claro que o número de alternativas necessariamente seria maior do que o número de regras. E digo mais: os quebradores de regras não são eles, apenas eles, os esquisitos e os que têm prazer nisso. Mesmo para quem se propõe a andar sempre na linha, uma hora vai dar errado. O pelinho imprevisto vai tremelicar. Pode ser o racional que se pega baixando um Exu. Pode ser a religiosa pudica que vai parar no banheiro com um estranho. Pode ser funcionário ambicioso que tem piti justamente com o presidente da empresa. O machão que se descobre gay, a mãe que abandona os filhos, o arrivista que casa por interesse, são tantas possibilidades. De assassinato a roubar no troco. As rotas alternativas são tantas e de graus tão variáveis, que é certo que uma vez na vida se pratique algumas delas. A contabilidade de ser boa ou má pessoa é tão complicada que deve ser como “aquele que atingir no máximo 500″ – e a gente nunca sabe direito o que vale cada coisa. Dá pra aceitar o comportamento diferente pensando nas mosquinhas, que é tudo natural e que há uma beleza nisso. Mas se isso soar piegas, penso também numa coisa muito prática: já que todos vamos errar e de certa forma é impossível saber para que lado, é melhor viver num mundo com mais permissões do que proibições. Vai que o seu pelinho é justamente aquele que a sociedade entende que a encarnação do mal e merece morrer.

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Os conselhos

Acho que não tem mesmo jeito – apesar da História, estamos condenados a cometer sempre os mesmos erros, enquanto espécie, até a autodestruição. Como mudar os grandes fatos se somos incapazes de mudar nossas pequenas trajetórias individuais. Um exemplo muito concreto é a série da Elena Ferrante*, com personagens que abraçam erros que o leitor percebe e sofre capítulos antes de acontecer. Quantos erros não cometemos nós também nas nossas vidas, apesar de serem tão claros para os outros, os que tentaram nos alertar, geralmente mais velhos? Mas não, quando é com a gente é sempre diferente: “ele me ama de verdade”, “chegando lá vai dar tudo certo”, “é porque nunca tinha aparecido alguém como eu”. Um erro alertado e cometido mostra dois lados: a estupidez juvenil doida para fazer o que bem entende; que no dia que formos o lado maduro, também seremos ignoradas, taxadas de invejosas e praguentas. Aprender com os erros sem dúvida é melhor do que ficar preso nele, num looping infinito – mas não nos ajuda em nada a poupar os outros. Seres humanos são muito apegados ao seu direito inalienável de cometer cagadas. Tenho chegado à conclusão que a única alegria que a experiência nos dá é a possibilidade de puxar a cadeira e esperar com calma, porque sabemos que vai explodir.

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*Juro que ainda vai sair texto no Caminhando por Fora. Semana puxada…

Não façam o que eu fiz

Um amigo meu me pediu para ajudá-lo numa reportagem que ele estava escrevendo para a faculdade de jornalismo. Ele me pediu para falar sobre o período que fui escultora. Fiquei meio assim, falar sobre o que não foi direito. Nunca será um assunto totalmente tranquilo pra mim. No fim, como geralmente são essas reportagens, ele me disse para completar com algum conselho, uma lição para os jovens. Conselho, justo eu? Lembrei dessa história e pensei em em escrever algo chamado “Conselhos para os jovens”. Não diria a eles o que fazer e sim o que não fazer. Seria algo sincero, seria uma autoajuda do avesso. “Faça o que quiser para alcançar o sucesso, menos o que eu fiz”. Não sei como é estar lá em cima, mas sei direitinho como é estragar tudo. Quanto mais capazes e arrogantes o jovem se sentir – ou seja, quanto mais típico – maiores as chances dele em repetir meu erro. Porque um dos meus problemas quando fui escultora foi ter sido alçada rápido demais à condição de talentosa, grande futuro, etc. Comecei de salto alto, como se diria no futebol.

 

Outra maneira de dizer a mesma coisa: tem uma citação deliciosa, que adotei pra vida faz tempo e não sei de quem é, que diz que o tímido, o introvertido, é um extrovertido do avesso. O extrovertido está sempre procurando os holofotes, sempre em busca de atenção; o introvertido já tem um holofote natural, e está sempre tão ciente das atenções que elas o sufocam e ele foge. Me ocorre agora que é como se o extrovertido fosse uma subcelebridade, correndo atrás dos paparazzi e das notinhas; o introvertido é a celebridade de verdade, aquela que esconde o rosto e tenta manter uma vida privada. Eu fiz, com a escultura e com meus outros talentos, as mesmas coisas que um introvertido. Eu acreditei que os holofotes já estavam lá, eu pensei que o mundo me buscaria. Sou uma trabalhadora e concentrei meus esforços no meu trabalho. Sempre fiz tudo bem feito, com qualidade, com carinho e esforço. E acreditava que o reconhecimento era uma consequência natural. Sem que eu precisasse falar nada, os que estavam perto de mim veriam como o que faço é bom e a boa nova se espalharia. Eu acreditava no poder da qualidade, da minha qualidade.

 

Não é assim, tanto que eu fracassei. Descobri que são dois trabalhos, totalmente diferentes: o fazer é uma etapa, o divulgar é outra. Uma é introvertida, outra é extrovertida. Cansei de ver excelentes blefadores se darem muito melhor do que eu, porque ao invés de esperarem pelo mundo eles foram lá e se venderam. Antes eu tinha raiva disso, hoje entendo que é assim mesmo. É um outro tipo de trabalho, outro tipo de talento e inteligência. Pena e problema meu que a minha “modéstia” tenha me impedido de fazer o mesmo. Sou um doce de pessoa e levo dez anos com fama de antipática – está pra nascer alguém que seja tão ruim em marketing pessoal quanto eu. Quem não se divulga não é visto, os outros não têm a obrigação de baterem na nossa porta. Achar que o mundo nos descobrirá é um certo salto alto. Ser um gênio talentoso dentro de casa ou só entre os seus, acaba sendo o mesmo que nada. Jovens, não façam o que eu fiz. Corram atrás, vendam baratinho e sorriam. É assim que se começa.

Maradona

– Aê, Maradona!

Disse o meu irmão e o cara, de longe, acenou de má vontade. Ele não parecia diferente de todos os outros magrinhos e bronzeados que ficam jogando futebol e pegando onda. Meu irmão me explicou que o Maradona era dono de uma das barracas daquela praia e detestava o apelido, que vinha da sua curta carreira como jogador de futebol. Descoberto por um grande time paulista, acho que o Corinthians, Maradona realizou o sonho de todo moleque que joga nos campinhos de futebol e foi jogar no sudeste. Do dia pra noite virou jogador profissional, treinava ao lado dos ídolos, realizou todos os seus sonhos. Comprou carro, apartamento, e com o dinheiro também vieram as mulheres, as festas até o amanhecer, a vida louca regada a álcool e drogas. Um dia foi pego num antidoping e chutado de volta para a Bahia. Com o dinheiro que restou comprou o ponto. Hoje é o melhor jogador da praia e se recusa a falar daquela época.

Erro

Alguns dos meus amigos nem sabem, enquanto outros tem a impressão de que eu entrei na faculdade e larguei. É porque eu nunca toco no assunto e realmente gosto que as pessoas ignorem que eu sou formada em psicologia. Sabe aquela pessoa sempre pronta a oferecer um ombro amigo e faz tudo para ajudar os outros? Então, essa não sou eu. Assim como não gosto de analisar os outros, não cito Freud, não saio por aí ditando regras. Um dos milhares de motivos que me fizeram abandonar a psicologia é justamente essa expectativa em torno dos psicólogos. Expectativa – justiça seja feita – criada por eles mesmos, que adoram ter as pessoas em volta pedindo conselhos.

Alguns acham que eu sou sensível porque sou psicóloga e que (no meu coração) eu nunca abandonei a área. Acreditar que alguém é sensível porque fez psicologia é o mesmo que acreditar que alguém é bom em matemática porque fez engenharia. Se elas vissem como os psicólogos reagem quando sabem que eu abandonei a área… Nenhum deles é indiferente; alguns falam mal de tudo o que eu fiz na vida, já teve gente contestando a validade da sociologia e a maioria conclui que foi até bom, porque não sou madura e iluminada o suficiente. Não que a coisa seja melhor entre não-psicólogos. Os místicos me acusam de não estar cumprindo minha missão na terra, que estou me recusando a ajudar as pessoas e que serei cobrada no meu post-morten. Tudo porque abandonei uma profissão com muito status em prol de coisas que as pessoas não levam tão à sério.

Foi no curso de sociologia que eu conheci o Alf. Ele toca violão, fotografa e é outro com esse comichão artístico. Outro que rasgaria o diploma e largaria tudo sem hesitar se tivesse chance de viver de arte. Só que ele tem o diploma com mais status do mundo: medicina.
– Pô, Alf, se eu já ouço um monte por ter abandonado a psicologia, imagina você! A profissão mais nobre que existe, a profissão que salva vidas!

Ele me contou das viagens que fez, para fora do Brasil e para as regiões mais pobres do Brasil, as portas fechadas dentro da própria família quando manifestou a vontade de não ser mais médico, as muitas tentativas. Não sei dizer para onde a conversa foi, porque o Alf é daquelas pessoas que você resolve dar um oi e quando percebe já está há quase uma hora de pé, no meio do caminho. Nessa conversa ou em outra, falei

– Quanto tempo a gente perdeu, né? Escolhendo um curso errado, nos arrependendo. Se lá na época do vestibular a gente já tivesse clareza de quem é…
– Hum… Eu acho que não, que não poderiamos fazer diferente. Quando a gente escolhe fazer vestibular, são tantos fatores envolvidos, tanta expectativa nossa e da família.

Realmente, minha vida não era fácil quando decidi fazer psicologia. Claro que eu gostava de muitas coisas, praticamente todos os cursos de ciências humanas me atraiam. Na minha família, ter curso superior nunca foi uma escolha. Todos meus primos eram formados, todos meus tios eram formados, até minha vó era formada. Minha mãe era formada em duas faculdades, mas não contava muito porque naquelas alturas ela já havia se tornado A Pobre. A que recebia ajuda, a que tinha colocado os filhos em escola pública, a que nunca jantava fora, a que não tinha casa quitada, quanto mais casa na praia. A única dos seis irmãos que não seria aceita no Curitibano. Se eu virasse mãe solteira, ou drogada ou não entrasse na faculdade e nunca fosse ninguém na vida, não seria propriamente um choque. Porque eu não era como meus primos, talhados para carreiras de sucesso. Nem ao menos como meu irmão, praticamente adotado pelos meus tios. Se eu fizesse filosofia, todos diriam “que bom, pelo menos ela vai ter algum diploma”.

Não, eu precisava fazer psicologia.

Menas perca

Ela (solteira, profissional liberal, pós-graduada, mística, mezzo-vegetariana convicta):

Fernanda, eu recebi um e-mail muito legal e lembrei de você. Lá dizia que em 2008 a gente deve comer menas carne!

Eu (casada, desempregada, pós-graduada, horror a duendes, um pouco mais que mezzo-vegetariana e nada convicta)
HAHAHAHAHAHAHAHAHA!

Ela (mística, mezzo-vegetariana convicta, idealista, ecológica e…):
Dizia pra nesse ano a gente começar a se conscientizar e comer menas carne, gastar menas água, menas energia elétrica, desperdiçar menas

Eu deveria ter corrigido ou seria perca de tempo?