Menos e mais

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Se eu fosse projetar o cenário, nos colocaria sobre folhas gigantes, deitados como lagartas do País das Maravilhas, preguiçosamente fumando narguilé. Mas apenas conversávamos on line mesmo, porque nosso encontro real é tão difícil que é provável que ele aconteça apenas uma vez em toda nossa curta existência. Digo uma vez porque sou otimista, e se passasse perto de onde ele mora me mobilizaria para vê-lo e creio que ele faria o mesmo esforço. Apenas para que pudéssemos nos olhar nos olhos e rir juntos enquanto eu envolvo o meu braço no dele, para depois tirar, antes de ser mal interpretada, porque sei que meu amigo não é fácil. Naquela ocasião ele me falou que havia recém-descoberto que nem todo interesse precisava ir para cama e receber o investimento de uma paixão, que o sexo é sempre sexo e algumas mulheres ainda que muito interessantes poderiam continuar amigas. Pisco para ele com meus imensos olhos de lagarta cética. Na conversa seguinte ele já estaria novamente apaixonado, mas naquela ele estava de gônadas cansadas. Aí ele passou o narguilé para mim, estendi os braços curtos e ele me perguntou das minhas histórias. Disse que estavam no mesmo pé da última conversa, e da última, da última e última. Ninguém à vista, mesmo, nenhum homem, mulher ou ser vivo? Disse que para mim era um mistério como todas lhe parecem gostosas e interessantes. “Eu preciso comer menos a galera e você mais”. Sopro a fumaça no ar e faço três círculos. De fato.

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Atrasada

Estou atrasada como o coelho de Alice. Só que estou tão atrasada que precisaria correr para trás. Será que só eu me sinto assim? É como se eu tivesse que ter começado todas as coisas há pelo menos cinco anos, no mínimo. Por mais que eu corra, que me aplique e seja rápida, eu deveria ter mais experiência, mais know-how, estar mais pronta. Me dêem um pouco mais de tempo, eu digo, porque certas coisas precisam de tempo. A gente pode comprar os ingredientes rápido, chegar na cozinha e já adiantar o serviço, bater a receita no liquidificador, mas o tempo no forno não pode ser adiantado. É desse tempo que estou falando, das coisas que não podem ser adiantadas. No que depende de mim, estou fazendo. Mas existe o outro, a maturação, o que só pode ser iniciado depois da etapa anterior ter terminado. Nada posso fazer contra isso e a vida me convida, ou melhor, me diz “vamos, vamos, vamos” acompanhado daquele gesto com a mão de quem apressa, de quem me diz que estou atrasada. Eu corro, e quanto mais corro, mais atrasada eu me sinto. Se pudesse correr para trás, se pudesse fazer retroativamente, eu o faria. Um pouco mais de paciência, por favor, estou correndo o máximo que eu consigo. Será que o tempo mandará cortar a minha cabeça?