O jornal do bairro

jornais

Eu tinha uma amiga que não conseguiu se atualizar a ponto de ter internet, nem ao menos celular. Pra tudo era uma pessoa muito antenada, mas isso estabeleceu uma barreira que era difícil ultrapassar. Para algumas coisas era possível explicar e ela captava a essência, então não fazia falta. Digamos que eu explicava uma briga no Facebook; eu lhe explicava que cada um tem uma página, que são os seus dados, as suas fotos e o que você escreve. Outra pessoa pode ir lá e escrever no seu espaço. Então, cada um escreve a besteira que quiser no seu próprio espaço, mas alguém entrar no meu e me ofender era demais. Ela entendia. Ao mesmo tempo, eu tentei explicar blog e que tenho leitores, mas ela achava que eu seria realmente popular se enviasse meus textos para o jornalzinho do bairro. Ela também insistiu para que eu tentasse ir no Jô quando minha dissertação foi publicada. Olha, eu até tentei na época, achei site dele e você mandava um resumo do porque poderia aparecer lá. O site era tão abandonado que não precisava de mais nada pra saber que ninguém iria lá pra procurar um futuro entrevistado.

Tchecov, a quem amamos tanto, amargou um sentimento de falta de relevância porque não publicava um grande romance, e sim pequenas histórias nos jornais. Histórias essas que hoje achamos lindas, sensíveis, direto no ponto, que em poucas palavras captam o espírito dos seus personagens e nos permitem conhecer sua época. Eu amo ler e estava fazendo vídeos de recomendações (pela primeira vez desde que comecei, falhei e não sei se volto), e acabei fazendo quase um catálogo Netflix. Quase não recomendei livros porque me parece tão inútil. Tem alguns livros que recomendei pessoalmente para  algumas pessoas, livros tão a cara delas que só faltava exame de DNA para comprovar. Elas não leram. Não que não confiem me mim e etc., apenas porque quase não se lê. Ler é tão old fashion, tão século passado. Mesmo eu acho que não tenho mais o mesmo fôlego de antes, não consigo mais ficar tanto tempo parada para apenas ler.

O que, afinal, é ser lido? Será que também não é old fashion da minha parte pretender ser publicada?

A grandessíssima forma cultural mais elevada

Tem a história que todo mundo já deve meio conhecer, do sujeito que encontra outro dormindo debaixo da árvore e quer convencê-lo a trabalhar. As perguntas vão indo e, no final, o cara da árvore leva o raciocínio até o fato de o grande privilégio de ter muito dinheiro era fazer exatamente aquilo que ele, sem dinheiro nenhum, já estava fazendo. Com suas ressalvas, eu me pergunto se o discurso em torno da cultura letrada, acadêmica e elevada não é um pouco assim, como se fôssemos o primeiro cara da história, o capitalista. Ler, ouvir música e meus vários envolvimentos com a cultura podem realmente me engrandecer como pessoa, mas isso é um efeito secundário. O que leva alguém a um livro ou uma música é o prazer – acredite em mim, quem diz que lê para melhorar vocabulário ou se informar nunca é um grande leitor. Com a cultura buscamos um prazer que vai além do simples comer e fazer sexo; existe um prazer etério, fora do chão, uma imersão em algo maior. Não me parece que a cultura seja um fim em si mesma, talvez seu grande objetivo seja nos tornar mais humanos. O que eu sinto ouvindo Schumann o outro pode sentir com coisas diferentes, eu não tenho como saber. Então, muita calma nessa hora de classificar as pessoas.

(Não acho que ele se importe mas não custa dizer: o Milton Ribeiro que indicou este vídeo)

O milagre

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Eu me preocupei tanto com o assunto, sofri tanto e finalmente entendi: Wanessa Camargo. Explico: é possível chegar com pistolão, com pompa e circunstância, tudo ajudando. Como foi com a Wanessa Camargo. Como foi com tantos autores que tem por aí, que não citarei pra não ser injusta. Mesmo porque, se eu citar e você souber, é porque não é deles que estou falando. Então, tem o pessoa com tudo, que chega chegando, que tem festa, que tem apoio. Mas esses são os raros. O meu destino sempre foi o do comum. A pessoa que não tem ninguém por detrás, que não tem QI, parente, ajudinha e nem ao menos sorte. Essa pessoa faz o possível, tira do bolso, divulga, faz propaganda, vira a mala sem alça que obriga os amigos a lerem, escreverem, comprarem. Mas tanto o do pistolão e o anônimo vão conseguir chegar apenas a um certo limite. O limite do primeiro é maior, mas também é limite. Depois de lançado e divulgado, de se falar tudo o que se pode falar, de se encher o saco tudo o que é possível encher, tem a parte incontrolável, a que eu chamo de milagre. A parte da pessoa chegar em casa e aquilo fazer diferença pra ela. Eu posso obrigar os amigos a comprarem, o pistolão pode induzir as pessoas a comprarem, mas o leitor silencioso na poltrona é que vai saber se aquilo mexe com ele. É o leitor que, espontaneamente, vai abandonar o livro ou achar que aquilo lhe toca profundamente a alma – e espalhar. Isso não se fabrica e é isso o que tem valor.

Me indica

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Tenho uma amiga que às vezes, em conversas sem relação com nada, me diz: me indica um livro. Ou: ah, você ainda não me indicou um livro. Já mandei videos, comentei tudo o que há sob o céu e mandei até uns textos do outro blog, que ela nunca comentou e nem sei se leu. É que de vez em quanto bate aquela culpa por não ler, ou a necessidade de parecer intelectual e eu sou aquela que “vive lendo”. Fico me perguntando qual a melhor metáfora para explicar como é isso – um pintinho no ninho querendo que a mãe lhe traga minhoca, uma pessoa na rede pedindo pra mucamba lhe trazer um suco? O fato é que nunca consegui lhe indicar o tal livro e nem lhe explicar o motivo.

Agito

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Só tive oportunidade de fazer uma das meditações do Osho uma vez. São meditações em grupo e é preciso que alguém coordene. O grupo daqui de Curitiba se reunia num lugar, dia e horário muito ruins pra mim, algo como ter que cruzar a cidade pra meditar às 21:30 de terça. Mas foi legal. De acordo com Osho, não dá para pedir pra uma pessoa agitada como a ocidental simplesmente se sentar e aquietar a mente. Nossa mente está sempre agitada, estamos sempre falando e nos movendo. A que eu fiz, começava com a gente falando sem parar. A gente fala, fala, fala, não tem mais o que falar, se esgota. Só depois chega a parte de ficar em silêncio e ele vem como uma benção.

Peguei uns livros e desde a semana passada meu sonho tem sido sentar no sofá e lê-los. Os dias têm me obrigado a problemas pequenos e enormes, gastos, deslocamentos, prazos, água e mais água, em gotas e jorros. Passo por minha própria sala e parece que os livros estão atrás de uma vitrine. Quando eu finalmente puder sentar com calma e ler um pouco, ahhhhh!

Com inveja de Simone de Beauvoir

O filme mostra que Sartre se interessou por Simone porque ela estava sempre lendo, estudando, escrevendo. Tanto que a apelidou de “Castor”.

 

Eu sempre sou aquela que defende os não-leitores da detração dos leitores, a que se coloca contra essa maneira de dividir o mundo. Sempre sou contra que coloquem o número de livros como medida de inteligência. Sou a que no meio de uma discussão sobre a incultura nacional, no meio de gente onde citar Machado de Assis é coisa de principiante, fala: “Vocês são uns elitistas. Estão colocando algo que sabem fazer bem como medida de superioridade só porque isso os beneficia”. E cito uma frase do Millôr que diz que jogar xadrez desenvolve muito a inteligência de jogar xadrez. Mas ninguém me leva à sério. Talvez não devam mesmo, não sei.

 

Sempre gostei muito de ler, desde criança. Ao longo da vida, passei por fases em que lia mais ou que lia menos, mas mesmo nas fases de baixa eu sempre li mais do que a média – o que, convenhamos, não é difícil no nosso país. Eu me acostumei, aprendi a não esperar, sei que as pessoas a minha volta não leem. Das descobertas incríveis que faço nas minhas leituras, eu sei que não apenas não terei interlocutores, como nem ao menos posso tentar comentar – é um saco o teatral ar culpado de “ler é tão importante, eu deveria ler mais!”, que logo se transforma num “pobre de mim, não leio porque não tenho tempo pra na-da!“. Não discuto, não tento converter ninguém, cada um sabe de si e deixa pra lá. Só que a ideia de alguém se aproximar de mim – quanto mais romanticamente! – por ser leitora e estudiosa é tão impossível que fiquei triste quando vi o filme. A leitura sempre me tornou intimidante para os outros e pessoalmente solitária.

Uma versão muito pessoal

Eu deveria aprender, a todo custo, a gostar da solteirice. E não me descia. Me adaptei porque a gente se adapta a tudo nessa vida, porque não havia como negar que eu passava o tempo todo só. Mas daí preferir… Não me descia a pressão de entrar no Tinder, de arranjar alguém, de frequentar baladas (a mim e à minha conta bancária). Não me ia ser, nessa altura do campeonato, algo que nem ao menos admirava. O prazer de ser só era sempre procurar companhia? Mas deveria haver algum prazer nisso, nessa solidão cantada em verso e prosa. Tenho até amigos que são – que amam tanto seu estar só que diante da proposta de um relacionamento ou compartilhamento hesitam como quem recebe uma proposta de emprego em outra cidade.

 

Até que eu encontrei. Estava voltando pra casa depois de um dos meus muitos programas culturais. Pensei, por automatismo, como seria bom se tivesse alguém para dormir ao meu lado naquela noite gelada. Mas… ele estaria voltando comigo do balé, sendo que homens odeiam balé, do cinema alternativo, sendo que esses filmes loucos levam mais de duas horas e são pouco digeríveis, do concerto, sendo que quase ninguém que eu conheço realmente gosta de música clássica, do flamenco, sendo que até pra mim às vezes é meio demais? Aí percebi que tenho lotado minha agenda de grandes momentos meus, que decido de última hora, que vou e ninguém fica sabendo, que não é preciso avisar, agradar o outro ou me preocupar com o que vão pensar. Misturar vidas dá trabalho e requer dedicação. Naquele instante, seria realmente bom ter alguém esquentando meus pés, mas na manhã seguinte talvez eu precisasse dizer para ele ir embora, porque tenho mais o que fazer. Nem que esse ter o que fazer seja apenas me esparramar no sofá com um livro. Meu sofá, meu livro.

Uma leitura bem torta de Gurdjieff

“A dança é uma forma de meditação muito poderosa”. Ouvi isso apenas uma vez e concordei, mas na verdade eu nunca havia lido nada a respeito e nem relacionado uma coisa com a outra. Mas a frase ficou martelando no inconsciente e um dia estava sem ter o que fazer e decidi buscar no Google alguma linha de pensamento que relacionasse dança com meditação. Cheguei nas Danças Sagradas de Gurdjieff. Adorei a parte teórica – a dança como uma forma de quebrar padrões de movimento, lidar com o controle e a frustração são coisas que vivi muito desde que me embrenhei nesse caminho. De um lado, começar a dançar desde cedo dá uma riqueza muito grande, mas de outro, começar tarde acaba servindo como uma forma de luta e autoconhecimento que eu também considero bonita. Mas nem tudo é perfeito: a execução das Danças Sagradas, pelo menos nos vídeos que eu vi, me pareceu bem decepcionante. São chatas e quadradas.

 

Uma coisa leva à outra e comecei a me interessar por Gurdjieff e querer ler suas teorias. Gostei muito dele; eu e Gugu (ou Gudigudi?) já somos íntimos. Como toda teoria mística, tem coisas que não tem como comprovar e não fazem sentido (com o que vivemos no dia a dia), aí ou você acredita ou desacredita. Acho que sou meio louca, porque quanto mais duro o autor, mais eu gosto. Os que falam de amor e dão lições de moral me enchem de tédio, gosto dos que dizem que o universo é matemático. Gugu e Krishnamurti jogam nós, as pessoas comum, na lama. Pra Krishnamurti, a gente fica o tempo todo com os pensamentos ao léu, perde o momento do que está vivendo, dispersa toda energia em besteiras e com isso perde a iluminação. Para Gurdjieff, somos máquinas loucas, que fazem tudo no automático e “dormimos” o tempo todo. No fundo, me parece que eles falam da mesma coisa.

 

Agora vem a parte da leitura torta: perguntaram para Gurdjieff sobre o livre arbítrio, se existia. Ele disse que sim e não. Que existe, mas não pra nós. Existe para o homem desenvolvido no pleno uso das suas faculdades, pro sujeito que encontrou a iluminação. Para nós, não. É possível dizer que um trem ou uma máquina de lavar têm livre arbítrio? Porque é isso que nós somos, pura e tão somente máquinas, totalmente determinados pelos nossos condicionamentos. Sem a capacidade de formar um Eu constante que realmente escolha para onde ir, as coisas aparecem e nos atingem, nos levam de um lado ao outro, nos decidem. É uma vida regida pelos acidentes. O homem comum não têm a menor influência sobre o seu destino.

 

Quer dizer que eu não tenho a menor influência sobre o meu destino? Nada, nadinha de nada? Tudo que me acontece vai me acontecer e pronto?

 

Então tá liberado relaxar e aproveitar a viagem.

Leitora em multidões

Escrevi a um amigo pedindo que, por favor, fizéssemos alguma coisa juntos no fim de semana. Eu acho que ele não notou que quando escrevo assim, querendo para já qualquer programa junto com ele, é porque costumo estar meio desesperada, mas tudo bem – quem é que vai adivinhar que uma pessoa que mal pediu ajuda quando tudo explodiu, está tendo crises depressivas um ano depois? Mesmo problema que eu digo para as pessoas que querem fazer a dieta Dukan: enquanto você está emagrecendo, as pessoas dão o maior apoio que você tenha cardápios restritivos. Mas quando você está na fase de manutenção, meses depois e magra, ninguém aceita que você abra mão de uma batata frita. Eu também acho que não tenho nada que me deprimir um ano depois, que merda. Mas diz isso pro meu organismo. Ao meu apelo, meu amigo me respondeu enviando um evento do Facebook, uma festa julina que aconteceria numa igreja ortodoxa nas Mercês.

 

Entendi e fui, sozinha. Esses eventos de Facebook nunca nos fazem ter muita noção do que é. No cartaz dizia que era uma festa tradicional, de muitos anos, então já imaginei multidões, música junina por toda quadra, pessoas com roupa de prenda e dentes pintados (coisa que não tem no nordeste e muito me surpreendeu). Chegando lá, oh não! Era uma festa pequena, bem família. Foi colocar os pés pra entender que todo mundo lá era da paróquia e se conhecia. E todo mundo com biotipo árabe. As músicas também eram árabes. Desculpem a ignorância, mas nunca pensei que veria pessoas com aquele biotipo numa igreja católica ortodoxa. Levantaram a hipótese de serem gregos, mas devo confessar que não conheço o biotipo grego, então será que eram? Enfim, era um pessoal bonito, morenos de olhos claros e narizes grandes. Deu vontade de sair correndo. Comprei um doce de amêndoas (enjoativo) e mandei mensagem pro meu amigo, na esperança de que ele me encontrasse lá. Por hábito, estava com um livro na bolsa. Deixei o celular à mostra e saquei meu livro, no maior clima de “não sou uma louca que veio sozinha, daqui há pouco meus amigos chegam”. Ele não veio, mas foi gostoso pra caramba ler ali. Lia um pouquinho, olhava as pessoas, lia mais um pouquinho. Depois conheci a igreja. Foi um bom passeio, fez o meu dia. Se estivesse em casa, provavelmente estaria muito mal e isso me impediria de ler. Minhas crises fazem com que o estar sozinha seja ruim, mas elas já não são estão intensas a ponto de precisar que as pessoas me deem atenção. Estar entre seres humanos parece que já é suficiente. O que é ótimo, e dá mais independência e não preciso tanto da boa vontade dos amigos – todo mundo tem suas vidas pra cuidar.

 

Eu me lembrei da moça do quadro de Renoir, aquela que discutem no filme Amelie Poulain. Eu me tornei ela, só que com um livro na mão. Eu diria: A moça do copo d´água não suporta estar fisicamente só. Ela fica no meio dos outros para ficar em paz.

 

Amélie – Sabe a garota do copo de água?
Pintor – Sei.
Amélie – Se ela parece distante, talvez seja porque está pensando em alguém.
Pintor – Em alguém do quadro?
Amélie – Não, um garoto com quem cruzou em algum lugar e sentiu que eram parecidos.
Pintor – Em outros termos, ela prefere imaginar uma relação com alguém ausente que criar laços com os que estão presentes.
Amélie – Ao contrário, talvez tente arrumar a bagunça da vida dos outros.
Pintor – E ela? E a bagunça na vida dela? Quem vai pôr ordem?

Leitora

Depois de ler o fantástico Labirinto dos Caminhos que se Bifurcam, de Borges, primeiro eu tive que parar um pouco, atordoada de maravilhamento. Depois tive aquela vontade de mostrar pra todo mundo, enfiar o livro na mão dos que eu gosto e mandar ler. Mas antes disso, enquanto estava lendo, eu me deliciei com uma frase em particular e… São muitos maravilhamentos, mas eu quis uma frase porque eu estava lendo em público, perto de uma amiga, e achei que ler trechos inteiros seria tedioso, então a gente fica em busca de algo curtinho mas lindo o suficiente. Li para ela: “Pensei que um homem pode ser inimigo de outros homens, de outros momentos de outros homens, mas não de um país, não de vaga-lumes, palavras, jardins, cursos de água, poentes.” Quando entraram os vaga-lumes, a cara dela foi para “Hã!?” e me deu vontade de não ler mais nada. Ah, as pequenas solidões! Ela, uma artista, que seria capaz de cair no choro com uma dança ou uma música, não entendeu os vaga-lumes, não se sentiu transportada para o concreto, não captou a beleza do trecho, de sentir um país de modo cinestésico e não como um conceito. Enfim, não vou explicar.
Já li brincadeiras sobre os prêmios literários procurarem os livros mais complicados e ilegíveis, que se é complicadíssimo e ninguém entendeu, é porque só pode ser bom. Eu rio, e acho que de um lado procede. Mas de outro, há o lado de que todo mundo fica mais exigente quando degusta demais de uma mesma coisa. Um dia cheguei em Salvador e comi um acarajé qualquer, achando uma delícia estar comendo acarajé. Depois soube que meu irmão não tinha conseguido comer nem a metade, que acarajé horroroso. Apresenta alguém para um coral ou orquestra pela primeira vez e o sujeito vai achar tudo lindo. Mas vai ouvir aquela música várias vezes e em vários lugares diferentes para não começar a sacar que não é tudo igual, que tem melhores e piores, maneiras diferentes no mesmo trecho. Ler é como tudo, a gente vai percebendo mais e ficando exigente.
Mas as solidões são tão pequenas perto da companhia. Há dias em que chego em casa tão cansada – ou que eu não saio de casa e passo o tempo todo sem ter com quem conversar. Ou que me acontecem solidões banais, como esperar demais o ônibus, estar encasacada num dia que esquentou e com os pés apertados num calçado desconfortável. Ou a solidão por ter dito tchau quando se tinha vontade de pedir pra ficar. São dias que a gente precisa de um presente, um elogio, uma boa notícia. Pra mim, ter um bom livro à espera pode ser tudo isso. Para outros, os livros não significam nada. Eles estão do lado de uma piscina e não sabem nadar, têm fome e não gostam daquele prato. É uma pena.

Meus hábitos como leitora

O Ale, do Livros e Afins, lançou a idéia de falar dos hábitos de leitura. Aqui vão os meus e quem quiser sinta-se à vontade pra relatar os seus.

1. Hesito muito em largar um livro. Sinto culpa. Geralmente eu os abandono num canto e quando retiro o marcador, é como em ritual de desligamento.

2. Eu fazia coleção de marcadores de livros. Parei faz algum tempo, mas ainda tenho uns lindões. Gosto de colocar marcadores que tenham a ver (nem que seja de forma totalmente subjetiva) com o livro.

3. Gosto do cheiro de livros novos. Passo as páginas rapidamente e respiro fundo.

4. Tenho dificuldade em comprar livros. Minha mãe me educou só comprando clássicos ou livros técnicos. Então custo muito pra comprar um romance. Sempre procuro antes em bibliotecas.

5. Por causa disso, adquiri o hábito de ler de pé, em livrarias.

6. Pra saber se um livro é bom, abro aleatoriamente e leio um ou dois parágrafos. E dou muita importância à editora.

7. Quando quero diminuir o tamanho da minha biblioteca, troco de livros nos sebos.

8. Reza a lenda que abro meus livros à 10º. A verdade é que eu realmente dó de deixar as páginas de um livro virgem marcadas.

9. Por falar em dó, nunca faço anotações. Quando quero lembrar de um trecho, eu copio. Quando é muito grande, coloco post it.

10. Na mesma lógica, nunca deixo livros de lombada pra cima ou apoio copo neles. E me dá aflição ver essas coisas.

11. Quando ando por aí, geralmente faço uma capa de papel nele pra não sujar.

12. Já deu pra notar que sou neurótica com meus livros… por isso, raramente empresto. “Olha, eu sou tão chata com livro e iria me estressar tanto em te emprestar, que pra manter a nossa amizade é melhor que eu não te empreste”.

13. Antes eu vivia carregando livros na bolsa. Hoje em dia carrego peso demais e tive que parar com isso.

14. Ou leio vários livros ao mesmo tempo ou não leio nenhum.

15. Não consigo ler deprimida. Só leio quando estou feliz, nunca em fuga.

16. Deixo meus livros espalhados por cômodos diferentes. E leio cada livro em um cômodo.

17. Quando durmo lendo, sonho que continuo lendo e completo mentalmente o que eu acho que está acontecendo. Até que eu penso “isso não faz sentido algum, devo estar dormindo!”

18. Tenho comprado e lido livros em espanhol, pra enriquecer meu vocabulário. Pretendo um dia fazer isso com inglês.

19. Pra me atualizar, leio sites e revistas. Nunca gostei de jornal. O cheiro da tinta deles me dá dor de cabeça… (eu sei, isso soa estranho)

20. Quando folheio uma revista pela primeira vez, sempre leio as matérias mais interessantes. Isso rendeu muitas brigas quando eu morava com a minha mãe.

21. Li uma grande quantidade de romances clássicos durante a adolescência. Um dia pretendo relê-los porque agora terei um entendimento diferente.

22. Por falar em clássico, atualmente tenho buscado os clássicos da literatura latino-americana. E percebi que conheço o nome de alguns autores, mas nem sei ao certo que obras deles são importantes…

23. O primeiro livro que me fez chorar foi Meu pé de laranja lima. Eu tinha menos de 10 anos e lembro que me senti confusa – não sabia se livros era feitos pra causar esse tipo de efeito.

24. Tentei e não consegui ler O pequeno príncipe. Olha que eu nem cheguei a folhear.

"Tropa de Elite" deveria ser obrigatório nas escolas

O filme “Tropa de Elite” deveria ser obrigatório nas escolas. Mais do que a envolvente denúncia da banalização do mal no Brasil, na qual policiais e bandidos se transformam em animais e criminosos, o filme provoca uma reflexão sobre a responsabilidade individual.

O inocente consumidor de maconha, sentindo-se conectado com a natureza ou com a leveza espiritual, ou o alto executivo que consome cocaína são apresentados também como sócios do tráfico –e com razão.

É fácil apenas culpar o governo, a polícia, os traficantes, e assim por diante. Mais difícil é nos culparmos –e, aí, está, um dos problemas brasileiros. A culpa é sempre dos outros. Vejamos:

Muito mais do que as drogas, o que mais mata no Brasil é o álcool, uma das causas das 100 mortes diárias e mais de 100 mil feridos por ano no trânsito. Nem os publicitários nem os veículos de comunicação que exibem os anúncios de cerveja, com sedutores apelos, se sentem minimamente responsáveis por essa tragédia. A culpa? Só do governo.

Um motoboy morre por dia apenas nas ruas da cidade de São Paulo (e mais 25 por dia ficam feridos). Isso porque contratam-se empresas irresponsáveis de entrega. Mesmo sabendo que já existe um selo de qualidade para moto frete. A culpa? Só do governo.

As pessoas emporcalham as ruas com lixo apenas porque não têm paciência de jogá-lo em algum lugar apropriado. Madames não se incomodam que seus cachorros façam das calçadas banheiros. A culpa? Só do governo que não limpa as ruas.

O governo sobe os impostos sem parar assim como contrata novos funcionários públicos sem parar. Pouco se faz contra essa extorsão. Nem mesmo sabemos como o orçamento é feito. De quem é a culpa? Do governo.

Deputados, senadores, vereadores cometem crimes e fazem negociatas, mas pouco acompanhamos seus mandatos. Durante a campanha, preferimos o show do marketing do que a análise de propostas. Até nos esquecemos em que votamos. De quem é a culpa? Dos políticos.

Não quero deixar, claro, de responsabilizar os governos. Mas apenas dizer que, num mundo civilizado, todos deveriam saber quais são seus direitos mas também seus deveres. Isso é o básico de cidadania, cuja discussão o filme, através da droga e da violência, lança com alto teor pedagógico _–portanto, deveria ser obrigatório na escolas.

É um bom debate para que saiamos dessa adolescência da cidadania, com muitos direitos e poucos deveres.

*

Assim como é obrigatório pensarmos que, no futuro, a droga não será um problema de polícia, mas apenas de saúde pública. Não sei se a repressão não acaba fazendo mais mal do que bem no combate ao vício.

Gilberto Dimenstein

Livros para ler de pé

Os livros para serem lidos de pé têm que preencher certas características: não serem importantes, não serem complicados, serem interessantes. Nada melhor para aquele best seller que você não tem dinheiro e nem coragem de comprar. Eu perdi a conta de quantos livros eu já li assim. Hoje me profissionalizei de tal forma que em cada livraria sigo um livro diferente:

FNAC BarigüiO doce veneno do escorpião – Bruna Surfistinha
O livro já começa picante, com ela atendendo 5 clientes. Eu achei que as descrições seriam mais pornográficas – até * ela usa. Depois, começa a misturar o passado de adolescente safadinha com as reflexões de uma vivida garota de programa. Até onde eu li (página 41) ela conta de um cara que queria comer a própria mãe e dos clientes pedófilos. É uma leitura boa, ela dá (ops!) pra escritora fastfood.

Saraiva Shopping CristalUm antropólogo em marte – Oliver Sacks
Esse eu não compro por pura mesquinharia virus* mesmo. O livro é de bolso e legal pacas. Estou no fim do segundo caso. O primeiro é de um pintor que deixa de enxergar cores; depois vem o caso de um hare-krishna que todos acham que se iluminou mas ele estava com um miasmão no cérebro. Mistura de história real e ciência. E o dr. Sacks é um fofo. Apesar dos casos serem cabeludos, o bem acaba vencendo no final.

Livrarias CuritibaO guardião das sete encruzilhadas, etc. – Rubens Saraceni
Eu pego qualquer livro do Rubens Saraceni que aparecer pela frente. O livro é escrito num estilo todo telegráfico, sem descrição de cenário ou personagem; teria tudo pra ser um livro péssimo. Mas pegue um, qualquer um dos mais de 40, que você vai ver. Rubens Saraceni é o Chico Xavier da umbanda; enquanto os livros espíritas falam do céu, Rubens Saraceni descreve os exus e os infernos. De arrepiar.

*alguém aqui lembra dessa brincadeira no TV Pirata?