Curtas do estado civil

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E quando você acha a pessoa uma linda, bacana, espiritualizada e tals, mas depois de cada encontro tem que se deitar no sofá e dormir umas duas horas?

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Ter vida social tem se tornado ainda mais difícil para mim depois que descobri o Gaspari. O placar deve estar nuns vinte a zero numa relação Ler o Gaspari x Qualquer outro programa fora de casa.

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Novos tipos de declaração de amor: você me interessa mais do que o Gaspari. Você me entretém mais do que o Gaspari. Gosto mais de estar com você do que com o Gaspari.

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Mas nem tudo são flores: desde que comecei a ler sobre a ditadura, tenho pesadelos com ela. Vou nos lugares – uma casa na região do Araguaia, na prédio que nem conheço da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – e encontro as poças de sangue frescas no chão, cadáveres ao lado, procuram por pessoas que eu sei que já estão mortas.

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Meu aparelho de DVD não abria nem com pé de cabra, e como a opção de consertar um aparelho sem uso há anos e que nem existe mais locadora pra isso, me livrei. Coloquei no Lixo Que Não é Lixo e sumiu num instante. Até aí beleza. O problema é que ele abriu um espaço, que completei com livros, aí o lugar onde os livros estavam ficou vazio e…

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Arrume três

Quando eu ainda morava com a minha mãe, e o meu quarto estava muito bagunçado, eu criei um método de arrumar três coisas de cada vez. É que quando a bagunça é demais, a gente nem sabe por onde começar e acaba nem começando, porque daria trabalho demais e consumiria muito tempo. O que eu fazia era me propor a arruma apenas três coisas. Cada vez que eu passava no quarto, arrumava as três coisas e pronto. Em pouco tempo, o meu quarto ficava arrumado sem que eu tivesse feito muito esforço. Hoje uso isso na minha casa. Sempre penso que, se fosse para ficar rica, deveria transformar essa ideia simples numa daquelas regras de sucesso. Ao invés de explicar o que eu faço em cinco linhas, eu deveria enrolar em mais de cem e escrever um livro. O meu livro, Arrume Três, seria uma proposta para revolucionar a vida dos leitores. Na capa, eu estaria de terninho e mostrando três dedos. Do insight genial no meu quarto, eu estenderia esse exemplo para o resto da minha vida e provaria por A + B o quanto aplicar o Arrume Três melhora para sempre as nossas relações no emprego, com os amigos, no amor, na família. Atribuiria o meu sucesso (ninguém precisa verificar se sou ou não) a isso. Arranjaria citações místicas e pesquisas duvidosas para justificar a escolha do número três. Criaria metáforas vergonhosamente óbvias entre bagunça e vida, não teria o menor escrúpulo em dizer o que as pessoas devem fazer. Contaria exemplos de vidas que foram revolucionadas por essa simples mudança de atitude. Venderia minha palestra a empresas, e nelas convidaria as pessoas a escreverem três problemas em três pedras e jogarem elas fora. O Arrume Três me faria rica e famosa.

Pra começar tudo isso eu só preciso de três trouxas. Alguém se oferece?

Para as visitas

Hoje não dá mais, com os nossos apartamentos minúsculos, de ambientes integrados e até sem paredes. Os imóveis de classe media de antigamente, que ultrapassavam com facilidade os duzentos metros quadrados, hoje são considerados enormes. Antes não era. Antes as pessoas tinham tanto espaço e tantos cômodos que era comum ter uma sala de visitas que era para visitas de verdade, ou seja, que as pessoas comuns da casa não usavam. Era o ambiente que tinha os melhores sofás, as melhores cadeiras, os tapetes e a mesinha de centro, então não se podia arriscar que eles ficassem puídos e manchados pelo uso e crianças brincando em cima. Na casa dos meus sogros – que foi vendida e transformada num pensionato pouco depois do meu casamento – tinha uma dessas. Toda casa era assim. Lembro que me senti muito adulta quando pude conversar com a minha vizinha na sala de visitas da casa dela, no misterioso sofá de almofadas estampadas em cima de uma estrutura de cimento (comum no nordeste e incomum no sul). Já na casa de uma colega de faculdade, onde o tapete da sala branquíssimo, de pele de coelho, sempre passamos contornando, nunca provei de seus luxos. Como num final infeliz de vilões, anos depois a casa foi assaltada, e os assaltantes fizeram questão de limpar os pés sujos de lama naquele tapete.

Raciocínio antigo, eu diria. Diria que não somos mais assim, que hoje fazemos questão de usar o que temos de melhor nas nossas casas, ao invés de guardar para os outros. Nos damos o melhor sofá, usamos a mesma louça usada para receber as pessoas, dispensamos aos outros a mesma coisa do nosso dia a dia. Estamos assim, em pé de igualdade com a exceção e com quem vem de fora. Eu diria isso, até pouco tempo atrás; até resolver fazer uma limpa no meu guarda-roupa e descobrir roupas lindas, de caimento perfeito, novas ou semi-novas, todas compradas por mim e que ficaram esquecidas, enquanto uso as mesmas roupas de sempre e espero ocasiões especiais que nunca chegam.

Limpeza ritualística de final de ano

Posso dar a desculpa do feng-shui, mas o que me levou a cultivar o hábito da limpeza de final de ano foi o fato de ter morado num apartamento pequeno. Não é bobagem. O Luiz foi criado numa casa e cada vez que precisavam guardar mais coisas, eles construiam mais um armário ou um puxadinho. Resultado: quando meus sogros se mudaram, até coleção de latinhas de cerveja vazias do ex-cunhado tinha. Em compensação, no apartamento da minha mãe, se a gente não jogasse algumas coisas fora todo ano, em pouco tempo não tinha mais como dormir lá dentro.

É muito difícil estabelecer as prioridades, saber o que jogar fora ou não. Centenas de xerox de sociologia que não sei se usarei, CDs LG que meu aparelho de som não lê, uma quantidade invencível de papel de rascunho, roupas que não-servem-mas-hão-de-voltar-a-servir, milhares de lembretes espalhadados perto do computador, brinquedos inuteis e fofinhos, projetos artesanais inacabados, etc. Isso porque não entrei no item Plastimodelismo, que tem sucata e pecinhas minúsculas pela casa inteira e que eu não posso jogar NADA fora. Encontros com aranhas marrons de todas as idades e tamanhos faz parte do processo.

Mas esse ano não tem como evitar. Meu diploma de sociologia por aí, em algum lugar, há mais de um ano.

Arrumar a casa

Quando a gente está para se mudar, tem a ilusão de que a compra das coisas para casa será programada. Que a cada mês colocará os móveis, de acordo com a prioridade. Que comtempo e bom gosto terá, em pouco tempo, a casa dos sonhos. Doce, muito doce ilusão.

Moro aqui há 3 anos. E continuo acampada. Meus livros estão dentro de caixas. Minha roupa de cama dentro de caixas. Tudo bem, caixas de plástico transparente, mas ainda assim caixas. Cada vez que tenho vontade de ler algum livro da minha biblioteca, penso muuuuuitas vezes! Isso sem falar nas roupas em araras, dos móveis (mofantes e mau projetados) que herdamos dos meus sogros, das coisas que não tem lugares certos e ficam empilhadas no chão.

Prometi a mim mesma melhorar um pouco essa situação agora nas férias. Já pintei umas paredinhas. Vamos ver o que é possível fazer com sérias restrições orçamentárias!