Curtas de pequenas grandes descobertas

Eu descobri que uma excelente maneira da gente achar que faz um bom trabalho é acompanhar, de longe, quem faz pior do que o seu. “Olha lá, que ridículo, era melhor nem fazer, kkkkk”. Descobri também que nos torna pessoas piores e não leva a lugar nenhum.

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Primeiro a gente passa o fio dental, que não tira apenas os restos de comida como também as bactérias que estão na gengiva. Só depois escovamos os dentes.

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Eu acompanho páginas científicas e páginas de astrologia, e é claro que a primeira gosta de falar mal de quem lê a segunda. Dou risada. Você pode se recusar a toda religiosidade sim, não acreditar em nenhum consolo, não ceder às superstições, enfrentar o mundo visível apenas com o que já foi publicado na revista Nature. Assim como pode acreditar que tudo tem o motivo, os deuses te ouvem e no fim acabará bem. É com você. Aviso que nenhum dos grupos ganha medalha.

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Estava vendo o lindíssimo vídeo que viralizou, com o Paul McCartney. Por todos que o cercavam, declarações escancaradas de admiração e afeto. O próprio programa se encarregava disso, impossível não cantar junto. Tirando a polpa da vida desse homem, o que vai ficar em meio à biografia, é a pessoa que nos deu Let It Be, Hey Jude, dentre outras. Como imaginar um mundo sem essas canções e o que elas fizeram nas nossas vidas? Aí lembrei no nosso Paul, o Chico Buarque. Não torçam o nariz, não é preciso forçar a barra pra dizer que o Chico tem coisas tão universais quanto. Donde eu concluo: tem que amar o Chico, afagar, curtir, homenagear, aproveitar o máximo. Chega de ser ingrato e pequeno, de fazer pouco caso e só descobrir o valor quando a pessoa morre e passa retrospectiva no final do Jornal Nacional. Mesmo pra quem discorda das opiniões políticas dele, tem que amar o Chico, o Chico é nosso.

 

Chocantes e recentes descobertas

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Kindle: Você teria um minuto para ouvir a palavra de Kindle?
Pra não me estender aqui no óbvio, de dizer de novo que amei e que vantagem incrível é ter vários livros armazenados. Quando lia que ele é gostosinho de pegar, achei que fosse exagero nerd, mas pior que é verdade. Pra quem lê vários livros ao mesmo tempo, é um barato poder estar com todos eles disponíveis ao mesmo tempo, sem ter mais aquela situação de “estou lendo esse porque é o mais leve/o que eu trouxe, mas eu gostaria mesmo de estar com o outro”. MAS, tenho que dizer que fico com receio de ler em público, fico com medo de ser roubada, coisa que com um livro eu sei que jamais aconteceria – já pensou, seria até engraçado, ser roubada porque o ladrão é doido por Hugo Mãe.

Shakespeare: Muito bom esse autor, acho que todo mundo devia ler.
Eu li todas as comédias e nunca consegui passar disso. Eu tinha em casa a coleção completa, que pertenceu ao meu avó, uma tradução em versos de mil novecentos e pouco. Era um trabalho desgastante ler aquilo, tão desgastante que causava pouco prazer. Vi há poucos dias um documentário na Netflix (Now: In the wings on a world stage) sobre uma montagem de Ricardo III feita por Kevin Spacey e fui atrás. Agora estou lendo devagar porque estou achando tudo tão maravilhoso que tenho que parar pra anotar e saborear. Um trecho curtinho que eu apelidei de “humor involuntário em Shakespeare” e só não adoto pra vida porque pessoas não captam ironias:

Quisera eu ser moça do campo antes que grande rainha, assim maltratada, escarnecida e ultrajada. Pequeno contentamento tenho eu em ser Rainha da Inglaterra.

Isabel, ato I, cena III

 

Despacito: Quiero desnudarte a besos despacito…
Esse foi realmente pra fazer tirar o dedo do botão do leitor que havia decidido me seguir quando eu disse que estava lendo Shakespeare. Despacito comentada em todos os lugares e passei incólume por todos os links e programas, até decidir colocar de recomendação (irônica) como “música para fazer yoga” para uma amiga. Como já tinha clicado, fui lá ver o tal clipe… Olha, entendi aquela história de dizer que tem que fazer lobotomia pra tirar certas músicas da cabeça. Qualquer referência a Despacito dispara em mim um gatilho mental de mais de 72h. O ritmo é irresistível pra quem é chegado em mexer a raba e, vamos assumir, que letra…

Descrição

coração e cérebro

Uma amiga, nesses meios ultrasensíveis de entender as pessoas, me definiu como alguém que tem por objetivo estar cercada de afeto. Eu jamais teria pensado em mim mesma nesses termos ou de descrever isso como um objetivo mas, de fato, já deixei de lado situações que me dariam status, dinheiro, etc, porque estar naquele meio não me agradava. Não agradava também os outros, mas eles se mantinham lá em vista do que aquele contato podia render, nem que fosse apenas no Lattes. Sempre preferi posições menos vantajosas com pessoas que me faziam bem. Quem diria que sou carpe diem – expressão que eu sempre associei a festas e putaria.

Errada, eu?

estou errada

Já dizia Freud que um dos perfis difíceis de paciente é o inteligente demais. Desculpem voltar ao assunto – os posts sobre dança são dos mais impopulares do blog – mas foi difícil me convencer de que eu não dançava bem. Poxa, a mais frequente, que pegava os passos primeiro, aquela que as pessoas consultam pra saber da coreografia e eu não danço bem? Não aceitava. Via os meus videos e me enchia de desgosto, mas quem não se sente desgostoso ao se ver em vídeo ou com a voz gravada? Até que um dia eu pensei numa metáfora perfeita, digamos assim, aí eu nunca mais duvidei. Não apenas não duvidei como me aquietei. Ok, a vida é assim, a dança é meu hobbie e não meu metier. A citação a Freud foi porque como pessoa inteligente e teimosa, precisava de alguém que chegasse ao ponto na argumentação e ninguém soube direito. Eu sou como aquela pessoa que escreve muito bem, com coerência, bom português, raciocínio linear, frases curtas e tal, mas chaaaaata. Escrever (ou dançar) certo não é sinônimo de gostoso.

Louca do café

O café do supermercado.
Nem preciso repetir que gosto muito de andar, né? Pra ir é ruim, pela questão do horário e de chegar nos lugares cansada e suada, mas pra voltar pra casa andando é quase de lei. Quanto mais a gente acostuma com um trajeto, mais curto parece que ele se torna. Meus pontos de partida não variam tanto, e gosto de parar no caminho, entrar nos lugares, ver as lojas, comer alguma coisa. Por causa disso, numa distância de cerca de dez quilômetros, devo ter tomado todos os cafés até a minha casa. Eu poderia escrever um guia. Dos lugares mais simples aos bonitinhos, posso tecer comentários sobre como é o café (se tem opção, um carioca) e o salgado (geralmente pão de queijo), passando pelo ambiente e o atendimento. Minha última descoberta é uma padaria ótima ao lado de uma pet, com mesinha pra fora. Quem está com seu cachorro pode tomar um café lá com ele – privilégio esse que nunca terei, pois a Dúnia tentaria roubar o que está na mesa, choraria, latiria para as pessoas, me arrastaria, etc. Ainda voltarei lá. Tem um que tem que descer por uma escadinha e ser atendido por uma velhinha com problemas nas cordas vocais. Desisti de ir por ser isolado demais, a gente fica fechadinho olhando pras paredes e pra isso eu faço café em casa. Sem dizer que a velhinha não aceita cartão. Duas quadras pra baixo tem uma lanchonete/restaurante com atendentes gentis, mas um café ruim de doer. A padaria chique – são duas filiais no meu caminho – serve para fazer boa figura e se sentir bon vivant, mas é cara demais. Sem dizer que o atendimento de uma delas é tão ruim que nunca consegui descobrir se é pra pedir no balcão ou esperar na mesa, porque nenhum dos dois jeitos funciona. Numa padaria perto do supermercado dá pra tomar café vendo TV, o que também tem seu charme. O café do (outro) supermercado é bonzinho, mas a relação custo-benefício fez com que eu me apegasse – pasmem com o meu espírito investigativo – ao café da loja de material de construção. Agora estou indo menos, mas no final do ano passado cheguei a ir três vezes por semana, sempre no mesmo horário. Deve ter sido estranhíssimo, caso alguém tenha me notado. Somente eu e os funcionários sabemos que lá tem um delicioso carioca com pão de queijo por apenas 2,50. E aceitam cartão. A atendente de henna na sobrancelha já nem me pergunta se quero açúcar ou adoçante. Meu sonho é chegar lá e só dar uma piscadinha.