Curtas possíveis

Não poderia ter tatuagem nem se quisesse, por ser alérgica, mas isso não me impede de ter tatuagens imaginárias. Uma grande tatuagem, na realidade. Tenho tanto ciúmes dela que nem vou contar como é pra ninguém imitar. Numa das variantes, ela tem uma frase, tirada de uma música francesa. Me disseram que na França ela é bem conhecida, porque Bourvil é como se fosse o Chaplin deles. O verso que eu escolhi diz que “entre escombros, eles dançavam”.

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Por outro lado, fiz uma única tentativa na vida de ler o Diário de Anne Frank e parei nas primeiras páginas. Ela tinha um jogo com as irmãs de imaginar o que fariam se pudesse ir pra qualquer lugar no mundo exterior, naquele instante. A noção de ter que arranjar estratégias para não se abater numa realidade tão pequena foi demais pra mim.

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Por influência do Milton, comecei a ler Karl Ove, um novo autor querido do mundo. O anseio dele se resume a querer “ser uma pessoa decente”. Ele foi descrevendo com tanto brilhantismo as coisas mais prosaicas, que até me animei – também sou prosaica, quem sabe um dia consiga escrever um livro assim. Aí no segundo volume (é uma série que terminou recentemente no sexto), ele faz um troço que, bem, não somos prosaicos do mesmo modo.

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O nível de decepção das pessoas com as pessoas me faz pensar que talvez eu viva há tempos num lugar escuro, porque ninguém me surpreendeu tanto assim.

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O Miguel Araújo lançou essa música agora. Só mesmo alguém longe, em outro país, vivendo uma situação totalmente diversa, pra escrever isto agora. Saudades de comentar amenidades aqui com todo direito e naturalidade. Saudades de ser leve. Saudades de me incomodar com minhas próprias picuinhas.

 

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