Curtas sobre regras

toalhas

Conjunto completo de copos, todos iguais. Além de ser impossível, porque eles vão quebrando, eu me apeguei muito às xícaras. Tem a que cabe muito líquido, a que tem tampinha, a de brancura que ressalta o café, a que diz que sou mau humorada e quem manda aqui.

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Mesma coisa para as toalhas, ainda mais se você as guarda aparecendo: tenha um lindo jogo, todas branquinhas. Já confundi mais de uma vez a que acabou de ser lavada com a que estava pra secar depois do último banho. Descobri que, ao invés de me livrar das coloridas, funciona muito se eu alterno branca com coloridas e/ou estampadas, porque olho no varal e sei qual é a toalha da vez.

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Uma vez me curei de um crush quando o vi de preto numa foto quando ele foi andar de moto. Não qualquer moto, aquelas grandonas, chiques. Já tinha visto centenas de fotos dele, e em nenhuma ele vestia preto. Aí foi andar de moto e colocou camiseta preta, caveira, nada a ver com ele. Todo aquele discurso inovador e colocou um uniforme.

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Deve existir, em algum lugar, um estudo que diga porque a foto preferida da pessoa nunca é aquela que parece com quem ela é na vida real. Sabem do que estou falando, né? As fotos que a pessoa escolhe pra representar a si mesma nas suas redes sociais nunca são como nós, pessoas de fora, as vemos. Se for num “ensaio”, com todos aqueles ângulos e roupas improváveis, aí sim fica irreconhecível.

A beleza do entorno

entorno

Acredito que a beleza tenha propriedades mágicas, que seja uma busca tão básica do ser humano como se alimentar e amar. Colo aqui um texto que escrevi em 25/abril/2016, chamado Beleza x Função:

Quando dizem que sem a beleza o mundo pode existir perfeitamente, as pessoas mais “de humanas” costumam ficar sem saber o que responder. A minha resposta é: cite ou me mostre, em qualquer tempo ou lugar, uma civilização onde as coisas sejam só funcionais. Onde a construção seja apenas uma cobertura, o caminho seja apenas um amontoado pra pisar. Mesmo da mais simplória das civilizações, já viu um vasinho que seja apenas um oco sem cor, sem simetria, sem textura? Não existe essa data anterior à beleza, a fase do funcional puro, onde apenas a partir daí começa a preocupação com o luxo que é fazer as coisas serem bonitas. Nós queremos mais. Sempre que possível, o homem tenta tornar o que o cerca belo e especial.

Acredito que a bandeira do belo é tão ou mais importante quanto a bandeira dos acadêmicos. Mesmo no meio da guerra (li há pouco A guerra não tem rosto de mulher) o ser humano não deixa de procurar a beleza, de ser subitamente arrebatado por ela, ser tocado de esperança na presença dela. O simples estar num lugar feio ou bonito nos afeta, mesmo que se feche os olhos, mesmo que se diga a si mesmo que é assim. Nesse “é assim” cabe tanta coisa, tanta injustiça. A pobreza é feia – feia na roupa, feia no corpo, feia na casa, feia na rua. Quando a coisa é feita com o que dá, com o que sobra, fica difícil deixar bonito. Vejo os programas de decoração, as transformações, e ninguém fica indiferente à sensação de viver num ambiente bonito, de ter orgulho de onde você está. Pena que isso não é – ainda? – considerado um direito inalienável do ser humano.

Um curta leva a outro

quadros vudu

Um amigo meu, que tinha passado a infância numa favela, que me fez perceber o detalhe numa foto: a pessoa estava diante duma parede com tijolo à vista. “Olha, um favelado”. Num extremo, acho que estão as pessoas que bastou ter uma cobertura para elas se mudarem. Aí o reboco e outros acabamentos são luxos de quando o dinheiro permite. Já do outro lado está aquele que chega e a casa já está toda decorada, só falta colocar a própria cara no porta-retrato. Eu estou mais para a primeira ponta – em breve, serei capaz de decorar uma parede do corredor com quadros. Meu outro projeto é cobrir o mofo do teto do banheiro.

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Minha parede de quadros não é (apenas) pobrice, é que sempre tive uma dificuldade imensa em escolher figuras que me agradem. Não vou colocar mensagens de músicas que não ouço ou cara de pessoas que não admiro. Rejeito também cenários onde nunca estive ou até mesmo flores, já que não sou do tipo que olha para elas durante horas. Fiquei feliz da vida quando me apaixonei por três quadros da Vudu e encomendei. Quando chegaram descobri que a parede precisaria de mais. Quando chegarem, a dificuldade será comprar aqueles ganchinhos especiais de colar na parede. Sabia que eles têm limites de peso? Uma vez tive a ilusão que conseguiria resolver todos os meus problemas pendurativos com ganchos de colar e joguei dinheiro fora.

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Da minha dificuldade em comprar roupas já falei mais de uma vez. Há quem diga que eu tenho estilo, o que eu nego. Ou talvez tenha, mas de forma negativa. A pessoa cheia de estilo, suponho, tem conhecimento de moda e amor às escolhas. A única vez que me identifiquei com o processo de escolhas de alguém foi quando vi Atypical. Pra quem não conhece, o protagonista da série tem um grau leve de autismo. Pra incrementar o visual, ele tenta não vestir sempre a mesma coisa, que tinha um corte e tecido específicos. Mas a jaqueta moderna cheia de metais o irrita, por causa do barulho, e ele joga fora. Meu processo é o mesmo, eu visto o que sobra de uma lista de rejeições.

Curtas sobre programa de decoração

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Eu sempre me pergunto – quem paga essa reforma? Vocês dirão “o programa, lógico”. Olha, não é tão lógico assim. Uma vez, na minha adolescência, me interessei por uma dessas transformações de revista, era uma sessão tipo Um dia de Nova. Entrei em contato com eles e soube que a mulher transformada pagava tudo, de maquiador ao sapato. A única vantagem era a honra de aparecer na revista.

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Você assiste os programas pra pegar dicas e descobre que a dica mais importante é ter dinheiro para fazer tudo de uma vez e sob encomenda.

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A mudança começa com “arrancamos os rodapés, tiramos o piso, alteramos a parte elétrica”, ou seja…

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E os objetos? Nada sai por menos de quinhentão. Da cadeira assinada à luminária pseudo rústica que desce do ponto de luz do canto da parede (que não existem em casa nenhuma). De vez em quando aparece um objeto simples e barato – só que ele está numa composição com outros 54 idênticas.

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Ainda sobre os objetos, agora sobre os “faça você mesmo”: será que alguém tem coragem de fazer? Pra todos você tem um trabalho do cão e um resultado tão fuén que parece que o objetivo é nos convencer de que vale mais a pena pagar por eles.

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Agora a última sobre os objetos: dá pra ver que o acabamento da decoração é dado por um monte de objetos fofos e inúteis. Um lado meu curte, acha acolhedor, etc. Outro pensa – olha quanto tapete pra bater, como faz quando essa cortina encardir, as folhas ficarem amassadas, imagina pra tirar o pó desse monte de coisa? É o lado dona de casa.

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Eu sempre acho que essa história de bater um papinho com a gente, nos expulsar durante alguns dias e entregar tudo pronto nos mínimos detalhes é o sonho de todo decorador. Tratar com o mau gosto alheio deve ser um saco, o que eles querem é fazer o que lhes dá na veneta.

Tapete de pele de coelho

Estava conversando com uma amiga e acabei formulando a Teoria do Homem Lindo, que transcrevi no meu facebook: namorar homem lindo não presta, é igual ter tapete de pele de coelho.
Explicar metáfora é igual explicar piada, então apenas contarei de onde vem minha referência:
Eu já era da casa. Mas tal como os próprios moradores, sempre entrava pela cozinha. Porque se fosse entrar pela porta da frente, acabaria passando pela sala de estar, daquelas que são tão chiques que os próprios donos nem usam. Essa sala era tomada por um tapete de pele de coelho. Era tão alvo e peludo, que mesmo sendo tão incorreto – sabe quantos coelhos são necessários para fazer um tapete? – dava vontade de deitar nele. Mas não podia nem pisar, quanto mais deitar. Se por acaso a porta da frente se abrisse, a gente tinha que entrar quase colado na parede, em fila indiana, que era pra não pisar.
Anos depois a casa foi assaltada. Entraram, roubaram computador, bagunçaram tudo, fizeram cocô no meio da sala. No afamado tapete branco, esfregaram os pés sujos de lama. Fizeram com tanto gosto e com tal nível de sujeira, que o tapete teve que ser jogado fora.

Zapeando

Programas do tipo Master Chef me dão uma fome danada. Mas é uma fome frustrante: fico com vontade de comer camarão ao frufrufru com molho de não-sei-oquê e toque de lululu e só tenho iogurte activia pra me saciar.

Programas de decoração ou mudanças de casa me dão uma certa raiva dos americanos. Depoimentos chorosos do quanto a cozinha ou o banheiro são deprimentes, escuros, mal decorados, pequenos. Aí mostra o dito cujo e é igualzinho, ou até melhor do que os nossos. Casal precisa pra ontem se mudar, porque a casa é minúscula pra família. “A gente tem que pedir licença quando anda pela cozinha” ou “não tem sala de jogos para as crianças” ou “só tem 200m quadrados”. Ah, por favor!

Na oitava temporada do The Big Band Theory, Penny está com um cabelo curtíssimo e fiquei com vontade de cortar igual. O mesmo cabelo que Jennifer Lawrence estava usando. O mesmo corte que fiz no início do ano. Eu não aprendo: sempre adoro cabelo curto em loiras, todos os detalhes aparecem. Em mim, claro, não ficou aquele deslumbre. Estou numa fase que não sei mais o que fica bom em mim em váááários aspectos, o cabelo é um deles. Durante toda minha vida achei que eram os cabelos curtíssimos. Adoraria ter uma consultoria neste momento, tipo Esquadrão da Moda.

Por falar em Esquadrão da Moda: total empatia pelo casos “não sei o que vestir e ficar elegante no meu dia a dia que necessita de roupas práticas” e vontade de não dar roupa nenhuma pros “sou assim, sexymente agressiva e quero que vocês se danem”.

Eu via aquele programa de construir uma casa para os outros, o original que inspirou o Luciano Huck. Era quinta à noite. Eles contavam a história triste de como o fulano ficou sem casa. Lembro bem do caso de uma mulher com seis filhos cujo marido morreu quando quis reformar a casa que compraram e ela estava cheia de fungos. Os fungos o mataram, a casa foi interditada e a família não pode tirar nada de lá de dentro. Pra não parar na rua, foram viver na casa da irmã. Só histórias assim, terríveis. Mostravam a pessoa, a comunidade unida reconstruindo tudo, os detalhes de sonho, a reação… Era tudo tão bacana e bem feito que eu me acabava de chorar. Aí comecei a me sentir meio ridícula de todas às quintas, das 23 às 24h, me acabar de chorar. Parei.

Decoração

Pra decorar uma casa não bastam planejamento e bom gosto, como as revistas de decoração nos fazem crer. Assim que casei, fiz uma assinatura de Casa Claudia e anotava com carinho todas as dicas. Achava que, mês a mês, seria capaz de acrescentar algo à minha casa, e no final de um ano ou dois, ela estaria maravilhosa. Não é, de jeito nenhum, assim que funciona. Primeiro porque aquele ambiente super clean que aparece na revista só funciona com cadeiras exclusivas e importadas que custam quatro mil reais cada, acompanhadas de um papel de parede de trezentos reais por rolo. E não, não fica a mesma coisa com cadeira das Casas Bahia e tinta Suvinil. Depois porque cada mês surge uma coisa, coisas antigas estragam e nos impedem de comprar novas e por aí vai.

Na prática a gente vive quase dez anos num lugar e ele ainda não está completo. Em alguns ambientes, faltam quadros, noutros faltam estantes; em uns faltam apenas sofás, mesa, cadeiras, quadros, lustres, espelho, aparador e mais de dez itens à escolha. Se de um lado dá uma certa inveja de quem pode gastar uma fortuna e já se mudar pra um lugar lindo e decorado, por outro decorar devagar faz com que cada canto da casa tenha uma história: o dia em que pintamos aquela parede, o achado que foi aquela mesinha, a pechincha que foi aquele móvel… Ao longo dos anos, vários projetos foram idealizados e abandonados, porque a vida nos leva a mudar de prioridades – e de casa.