Uma pequena ajuda

Alguém tem alguma editora que aceite avaliar originais para me indicar? Veja bem, não estou dizendo que ela DEVE me editar, apenas que me deixe mostrar. Porque nem todas estão abertas a isso agora (ou sempre). São uns contos de realismo fantástico, um material inédito que só eu e Deus lemos.

e-mail: caminhantediurno@yahoo.com

revisão

Meu histórico com editoras é o seguinte: puxei pela memória e há séculos falaram comigo no twitter. Mas quando isso aconteceu, eu não pensava em escrever nada. Fiz umas tentativas e recebi Sim apenas no esquema de co-edição, e não entrei. Primeiro, porque eu não tinha o dinheiro que me pediram, o que tornou a decisão bem fácil. Segundo, porque me conheço e sei quão péssima vendedora de mim mesma eu sou. Precisaria ficar insistindo, publicando, falando que o livro é o máximo e não faria nada disso. Entre ser minimamente a autora que fica enchendo o saco dos amigos e ficar com tudo encalhado aqui em casa, certeza que faria a segunda alternativa. Vocês leem o blog, me conhecem: pra qualquer coisa que eu faço, sou o exemplo da confiança? Estou sempre me achando pouco e que o que faço é uma porcaria. Minha auto-crítica é gigantesca. Ela me faz trabalhar exaustivamente atrás da perfeição, ela me faz péssima vendedora. Mesmo raciocínio pra ideia de fazer publicação virtual; na prática, seria igualzinho deixar aqui no blog – ou seja, de graça e sem um pingo de perspectiva. Alguma luz?

O dia que a Milena que ajudou a Maria Angélica

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Eu nunca lembro o nome de ninguém que estudou comigo na infância, mas das envolvidas eu lembro perfeitamente. A minha melhor amiga era a Maria Angélica. Eu lembro que ela tinha sangue português e a sobrancelha bem preta e grossa. Quando aconteceu eu acho que estava mais ou menos na quinta-série. Estávamos numa aula de educação física e os meninos jogavam futebol e nós estávamos esperando ao lado da quadra. Cercando a quadra havia uma tela, e ela estava com um furo bem grande, dava pra passar uma pessoa. Eu fui para perto do furo e fingi me encostar, fiz uma pose falsamente à vontade perto dela, sem colocar o meu peso. Aí a Maria Angélica veio, e sem reparar no buraco foi se apoiar na tela ao meu lado e caiu para trás. A quadra era meio alta e atrás havia grama. Ela caiu, gritou, não chegou a se machucar, mas uma das pontas da tela se prendeu nos fundos da calça do uniforme, e rasgou não apenas os fundos da calça como também a calcinha, cujo tecido branco dava para ver misturado com o verde do uniforme. As crianças se reuniram em torno. A Maria Angélica tentava sair e não conseguia, sentia que algo a prendia e não conseguia ver. Ela falava: “Fernanda, me ajuda, tem alguma coisa me prendendo.” Eu fiquei paralisada: eu me sentia responsável porque ela quis vir do meu lado e achou que eu estava apoiada na tela, mas toda situação dela caída no buraco e a calcinha aparecendo, as crianças rindo, era tudo constrangedor demais. Como fui ler décadas mais tarde, quando estudei estigma social, a pessoa que de alguma forma está desvalorizada socialmente “contamina” quem está do lado dela. Eu queria me afastar da Maria Angélica, não queria aquele ridículo pra mim. Enquanto eu hesitava, surgiu a Milena, que sentava perto de mim na sala, era baixinha e implicante. A Milena pulou por dentro da tela, soltou a calça e a calcinha e ajudou Maria Angélica a sair do buraco, tudo com muita rapidez. Depois eu fui falar com a Milena, elogiei a rapidez dela, e ela nem parou para me ouvir, me jogou na cara o mui amiga que eu era, que estava do lado e não deixei a menina de calça rasgada. Acho que o fato de eu jamais ter me esquecido do episódio diz tudo.

Alguma dignidade

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Gosto de fazer compras à noite, as vantagens são inúmeras. Eu já morei num bairro que também tinha muitos prédios, mas todos com lojas embaixo, então havia sempre um movimento em qualquer horário. Aqui não, é uma região muito mal servida de comércio, passo quase o tempo todo por portarias e grades que me permitem adivinhar quadras, salões de festas, garagens. Passam por mim alguns poucos passeadores de cães, pessoas indo e voltando da padaria, vejo acenos de pessoas aos seus caronas já quase dentro dos prédios. Por isso aquele casal chamou minha atenção. Ele, da minha altura, um rosto latino que não soube identificar. Ela, provavelmente da mesma região, com uma enorme gravidez. Um carrinho com um bebê e uma criança. Nossos olhares se cruzam de maneira neutra e sigo para o supermercado, eles para a direção oposta. Quando estou voltando, alternando o peso das sacolas nas duas mãos, os vejo de longe remexendo a lixeira de um dos prédios. Ajeito as sacolas, espero os carros passarem, atravesso a rua e isso lhes dá tempo de fecharem rapidamente a lixeira. Quando passo por eles, voltaram a ser um casal andando com os filhos pela noite. Pensei no que tinha nas sacolas e na carteira, mas a única coisa que eles queriam de mim era a manutenção da sua dignidade.

A revolução altruísta

É fascinante pensar a quantidade de informações que os nossos pais nos passam e como elas ficam, e algo que eles nos disseram sem dar uma importância maior do que qualquer outra informação pode ser determinante no nosso futuro. Minha mãe me alimentou com muitas histórias, de irmãos Grimm e contos tradicionais aos livros de Chico Xavier e outras histórias de fundo moral. Ela me contou uma vez a história de uma mulher que foi procurar Buda porque seu marido havia morrido e ouviu falar que ele era um grande mestre, um iluminado, e queria que ele trouxesse seu marido de volta. Buda lhe pediu para trazer uma semente de mostarda de uma casa onde nunca havia morrido alguém. A mulher foi de casa em casa, explicou sua história, e todos lhe diziam que não podiam ajudar – uns haviam perdido o pai, outro um filho recém-nascido, a esposa… “Mas, mãe, a gente poderia dar uma semente de mostarda pra ela porque aqui não morreu ninguém”. Aí ela teve que me explicar que a nossa situação – uma mulher com seus filhos num apartamento – não existia naquela época, que as famílias moravam juntas, que a gente provavelmente viveria numa casa grande com a vó, nossos tios e primos. Nessa que seria a nossa casa, a gente tinha perdido o pai dela antes mesmo de eu nascer. A mulher voltou até Buda e lhe disse que não havia encontrado a semente, em todas as casas alguém havia morrido. Ela havia visto a dor dos outros e aceitado melhor a sua.

Essa história foi determinante pra mim quando me separei – de longe a coisa mais difícil que enfrentei na vida. Sempre gostei de olhar em volta e quando estava deprimida fazia o exercício de olhar ainda mais. Descobri perto de mim muitas dores, que jamais faziam o meu peito se encher de alegria, mas que me faziam aceitar aquela fase. Naquela época fiz aula de costura, um lugar que mais tarde fui perceber que era o refúgio de muitas mulheres como eu, que precisavam lidar com suas dores. Nem todo mundo por ali estava aprendendo, algumas já eram costureiras profissionais e precisavam apenas de uma ou outra dica e principalmente de companhia. Era um círculo de mulheres. Uma dessas mulheres era uma senhora baixinha, gorda e com uma gargalhada deliciosa que a fazia chacoalhar o corpo todo na risada. Numa tarde qualquer, nossa professora recebeu o telefonema do filho adolescente. Ele a avisou de uma mudança de horário porque alguém no colégio dele havia acabado de morrer subitamente durante a aula, aparentemente um ataque cardíaco. Ok. Apenas dias depois soubemos que o colega de colégio que havia morrido era neto da nossa colega de risada gostosa. Quando ela reapareceu, tinha o olhar baixo e mal falava. Minha professora me cutucou, disse para eu lhe fazer um gesto de carinho. Cheguei até ela e lhe dei um longo e sincero abraço, e nós duas nos emocionamos. A minha dor que me doía tanto e não me deixava em paz pelo menos tinha um componente de escolha.

Um mês depois da minha separação eu fui pra uma festa. Era um amigo que estava meio afastado e quis me animar porque soube. Valeu muito a pena, deve ter sido a primeira ocasião em meses – separação nunca é apenas aquela assinatura – que eu chorei de rir. Num certo momento chegou uma amiga que não via há tempos e ela me disse, com muita sinceridade, que estava passando exatamente o mesmo sofrimento que eu, porque havia se separado do noivo há pouco tempo. Depois soube que nossos amigos em comum lhe deram bronca quando ela disse isso para eles: como ela ousava, comparar um noivado com um sujeito que a enrolava há tempos e vinha para Curitiba a cada quinze dias com o fim de um casamento de mais de dez anos? Isso sem dizer que, ao contrário de mim, ela os solicitava o tempo todo com telefonemas e queixas. Eu os angustiava por não me abrir e ela enchia o saco por estar sempre nas últimas. Em algum post eu sei que já citei essa amiga, mas o que não disse é que eu realmente acredito que a dor dela era tão grande quanto a minha. É que ela não conhecia o segredo: eu fiz da minha dor a minha semente de mostarda e fui me curando com a dor do mundo. Ela se trancou no seu sofrimento como quem grita numa sala de espelhos.

Eu realmente acredito no altruísmo. Acredito na busca pela felicidade e na confusão que isso é, na diversidade dos caminhos e suas interpretações, na incapacidade da linguagem em realmente nos colocar claramente diante de outros ser humano. Se nos chocamos com as cenas de violência e os assassinos, é justamente porque somos quase todos seres pacíficos que se deixariam matar muito antes de pensar em ir a extremos com alguém. Fico feliz que coisas que sempre me pareceram tão minhas, tão idiossincráticas e religiosas, agora encontrem respaldo científico. Recomendo The altruism revolution a todos que estejam precisando reavivar sua fé na humanidade. Tem no youtube com legendas em inglês e no Netflix.

 

Chantagem

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Quando eu acho que as coisas estão ruins pro meu lado, emperradas, complicadas ou por algum motivo estou querendo uma ajudinha da sorte, eu faço alguma caridade. Geralmente, doo sangue ou roupas. Como eu acredito que a gente faz e recebe de volta, desse jeito eu deixo o Universo em dívida comigo e o obrigo a vir em meu socorro.

Uma manhã de dezembro

Eu estava na fila do Mercadorama da Praça Tiradentes. Fui conformada, lá sempre tem fila, sempre demora muito, ainda mais meio dia. O caixa rápido tinha duas caixas e quatro pessoas na minha frente. Eu havia andado a manhã inteira pelo Boqueirão, à procura de agulha para minha overlock. Tem esses imprevistos que não dá pra passar por consumidor, não dá pra reclamar. Como esse retalho que eu comprei, que deixa o maiô belíssimo, mas que destrói agulhas de overlock como nenhum outro. Foram quatro com dois maiôs. O normal é não quebrar nada. Aí fui na rua mais cheia de lojas de máquinas de costura da cidade, já prevendo que teria que passar por muitas. Aproveitei pra passar numa farmácia, porque reza a lenda que tudo no Boqueirão custa a metade. Comprei vermífugo, ainda impressionada com o verme que vi no fundo de uma privada no dia anterior. “A gente que tem cachorro” – me alertou a amiga – “devia tomar pelo menos uma vez por ano”. Comprei duas doses, pra matar bichinho e bichinho grávido que solta filhote ainda morto no organismo. Já que ia promover uma matança interna, o farmacêutico me convenceu a comprar vitaminas. Achei caro, mas levei mesmo assim porque devem ser caras pela metade do preço. Ele me disse que aquela vitamina era desenvolvida especialmente para mulheres, e acredito nele: a embalagem e as pílulas são cor de rosa, e está escrito em letras garrafais que “NÃO ENGORDA”. Quem fez aquilo conhece seu público. A mulher com criança na minha frente sai da fila e avançar um pouco me permite aproveitar a oferta de Wake. Tanto melhor. Fico atrás de um homem alto, magro, e um rosto cheio de marcas de espinhas, um biotipo estranhamente familiar. O dia nem havia começado e eu já estava cansada. Aparentemente eu sou uma das duas ou três pessoas na cidade que tem uma Ultralock da Singer. Não é overlock e nem interlock, é ultralock. Nunca descobri o porquê. Quando uso o termo ultralock me olham como se eu fosse louca, de tão desconhecida que a máquina é. Não foi a minha intenção! Sem dizer que a agulha custa mais caro. Depois de muitos nãos, encontrei uma loja que não tinha lá, mas que tinha na filial. Topo andar até a outra, desde que ele me garantisse que não seria em vão. Dez quadras ensolaradas depois… “Moço, você tem agulha para ultralock da singer?” “Temos, quantas você quer?””TODAS.” 

Sou interrompida nos meus pensamentos pelo homem que está na minha frente: “Moça, não precisa ficar segurando a cestinha assim, pode apoiar ela no chão”. É mesmo. Ela estava pesada, com refri dois litros, leite, capuccino, dois Wakes em promoção, queijo ralado. Agradeço o conselho e ele me diz que é assim mesmo, a gente se distrai. Na noite anterior, inclusive, era pra ele ter morrido. Antes de dormir ele havia colocado uma água no fogo e esquecido ela lá. Aí ele foi dormir, passou pela sala, a irmã estava vendo TV. Inclusive ele não era daqui e sim de Feira de Santana (bem que o biotipo me era familiar) e não fazia muito tempo que estava aqui. Já esteve, e voltou, e nesse meio tempo ele havia hospedado o irmão. Irmão que se envolveu com drogas e disse pra todo mundo em Feira que quem usava drogas era ele, veja só. Logo ele – e me mostra a cestinha, que tinha apenas um pacote de arroz integral – que não usava nem as drogas lícitas, que gostava de se alimentar da forma mais natural o possível. E tinha traficante atrás dele, ninguém acreditou nele. Quatorze anos ajudando esse irmão, inclusive tinha trazido ele pra Curitiba, hospedado em casa. Até quando o irmão engravidou uma moça era ele quem pagava a pensão, porque o irmão estava desempregado. Não era muita coisa, só cento e oitenta reais, mas era ele quem pagava, ele que nem tinha nada a ver com isso. Mas bem que a mãe dele também tinha passado por uma situação dessas, de ajudar e depois ser traída. Uma mulher que ela ajudou mais de vinte anos, que abria o armário da cozinha e dizia pra ela levar o que quisesse, e a mulher saiu por aí dizendo que a mãe dele dava resto. Ele deveria ter visto o exemplo da mãe e se prevenido. Porque as pessoas são assim, há de se ter muito cuidado com as pessoas. Tem coisas que só por Deus mesmo, ele é quem olha pela gente. Igual a panela no fogo no dia anterior. De madrugada ele até havia acordado com uma sensação estranha, mas não levantou da cama. De manhã o fogo estava apagado e ainda tinha gás, uma coisa inexplicável. Foi a intervenção divina mesmo, Deus é que olha por nós. Que eu contasse com Deus e não com as pessoas. As pessoas exploram. Foi um prazer conversar. E feliz natal.

Das dores de cada um

Estava conversando com uma amiga que soube há pouco que eu me separei. Ela se disse triste por mim, que parece que está todo mundo se separando, que conhecia tanta gente. Eu também, parece uma espécie de surto. Minha cabeleireira havia me dito no início do ano que 2014 era ano de Xangô, e que tudo que estivesse mais ou menos iria se desfazer. Vai ver que é. Porque ninguém se separa assim, porque teve uma briguinha. É um processo tão longo e tão doloroso que a gente atrasa o quanto pode, faz terapias, procura ajuda, tenta deixar pra lá, até que uma hora não dá mais. Aí citei uma perda que ela teve esse ano, de uma amiga. A amiga pedia ajuda, ameaçou várias vezes, até que no fim se matou mesmo.
Enfim. O assunto acabou caindo aí, na ajuda. Se ela poderia ter ajudado mais, a mim, à outra. Eu pedi pouca ajuda, e até me recusei a desabafar com muitos ombros. Eu lhe disse minha teoria sobre o assunto, e a ela pareceu que mesmo sofrendo eu fui meio altruísta. Não sei. Por um lado, sempre tive mesmo a tendência de resolver minhas coisas sozinha, de não procurar ajuda. Por outro, é que eu acredito realmente que até podemos pedir ajuda, uma ou outra ajuda, mas que o sofrimento é solitário. No meu ponto de vista, o ser humano é essencialmente sozinho. E o sofrimento é um desses momentos em que sentimos a nossa própria solidão com intensidade- é inútil tentar escapar, ninguém pode resolver pela gente. Mesmo porque ninguém está aqui à passeio. Fui procurar ajuda e encontrei meus amigos com seus próprios problemas: um com depressão e passava o dia inteiro na cama, outra inconformada com o fim do noivado, outra não tendo de onde tirar dinheiro com mudança de imóvel. Como mensurar quem sofria mais, como querer que os outros deixem seus problemas de lado em favor do meu. E se por acaso estiver tudo bem, se eu tivesse encontrado todo mundo feliz, brincando na sala com a família – eu teria o direito de estragar, adicionando uma carga à vida dos outros? Também acho que não. 
Eu procurei ajuda dessas pessoas sim. Procurei até onde podia, até onde não lhes causou muito desconforto. Fiquei mais tempo do que a educação recomenda na casa de alguns, interrompi algumas reuniões de família, me convidei para programas que normalmente não me chamariam e minha simples e pesada presença sem dúvida intimidou demonstrações de felicidade. Num fim de semana ia pra casa de um, depois me auto-convidava pra um programa com outro, e fui levando assim. Tive crises de ansiedade, crises de choro, crises de tédio. Comprei muito sorvete, chocolate e salgadinho, assim como também passei dias praticamente em jejum. Momentos que ninguém soube, só eu e meus fantasmas. Não sei se é de criação ou o quê, mas eu não consigo pensar num luto diferente. É igual doença – é preciso dar um tempo pro organismo, pra expurgar. Na minha matemática, na minha maneira de ver o assunto, a presença constante de pessoas não acelera o processo. Então, preferi poupar meus amigos. Prefiro que eles ainda me olhem como boa companhia e não alguém que lhes pesa. E teria horror que eles me vissem como alguém digno de pena.
Claro que estou falando de mim, etc. Cada um enfrenta suas tristezas da maneira que pode.

A floresta escura

Agora eu sei como minhas amigas se sentiram. “Eu gostaria de poder fazer mais” me disse uma que ofereceu colo, casa, comida, tudo o que eu precisasse. Que ficasse a semana inteira aproveitando o clima maravilhoso que a casa dela tem. Clima e família maravilhosa que ela criou a duras penas. Outra me ofereceu conversas de madrugada, aproveitando que está num fuso horário diferente, me dizendo que o que ela queria, às vezes, era só falar. Já outra, quando liguei aos prantos e disse que não suportaria, invocou o seu próprio exemplo, o de sua filha e o de tantas mulheres que já haviam passado por coisas difíceis e estão aí. Na hora achei duro, não lembro o que esperava ouvir. E todas, todas foram unânimes em me dar o mesmo conselho: ocupe-se. Que eu arranjasse coisas para fazer e lugares para ir o tempo todo, que não deixasse a mente ociosa e a depressão bater, que depois de me ocupar muito um dia eu perceberia que passou. A noite demoraria, seria difícil e dolorosa, mas chegaria ao seu fim. 

Tenho uma amiga que está começando esse mesmo processo. Que angústia, eu gostaria de poder fazer mais. A única coisa que se pode fazer é apoiar. É como se a pessoa fosse entrar numa floresta. Podemos lhe dar um cantil, os sapatos mais apropriados, bússolas, conselhos, nossa experiência pessoal, a festa do lado de fora. Mas quando ela entra, está sozinha. Há dores que não se economiza, há dores incompartilháveis.

Compras no posto

Estava fazendo meu caminho de sempre, perdida em pensamentos, quando ouvi gritarem:
– Ô, METIDA!
Conhecedora da impressão que passo, ela nem precisou gritar duas vezes. Era a mocinha que atende na loja do posto. Ela estava sentada fora da loja, tomando um suco. Fui lá. Disse que pra variar ela estava dando prejuízo pra loja, consumindo mercadoria sem pagar. Ela me perguntou porque eu não estava vindo mais. Na verdade, eu tenho ido raramente, geralmente aos sábado e só pra comprar pão de queijo, mas ela não fica lá nos sábados. Durante todos esses meses, eu já consumi de tudo um pouco naquela loja. Bolachinhas, chás, hidrotônicos, café da máquina, chocolates. Ultimamente, parava lá pra comprar achocolatado. Eu disse a ela que trago de casa e bebo no caminho, que agora compro o achocolatado mais barato, no supermercado. Eu descobri que no posto ele custa o dobro e não quis mais comprar. Mas eu não sabia que no posto era tudo mais caro? Eu estava lhe dizendo que saber eu sabia, mas que nunca havia me dado ao trabalho de olhar o preço, quando veio uma cliente e ela teve que correr de volta para a loja.
O que não deu pra explicar pra mocinha é que antes, por mais que eu soubesse que era mais caro, eu não tinha como deixar de passar ali. Mesmo que fosse três vezes mais caro, eu não estava em condições de fazer aquela economia. Meus dias eram infinitamente tristes. Eu chegava perto do posto e aquela loja acenava para mim como uma fonte de calor. Passar por ali e trocar duas palavrinhas com ela, sorrir e vê-la sorrir era muito importante para mim. Pagar aqueles reais a mais era um presente que eu me dava. Eu precisava demais de um respiro. O sorriso dela me ajudava a dar mais um passinho. Mais um dia, mais um passo, mais um pouco. Se agora eu pude olhar o preço, é porque ela me ajudou e eu voltei a amar a minha vida.

Uma ajudinha

Encheu o saco porque era sempre a mesma coisa, sempre quando tem escrito Pare na rua. Como me disseram, aprender a dirigir é uma etapa da vida. Com o tempo automatiza e tal, e até lá é complicado. Afunda o pé na embreagem e no freio, gira a chave, coloca em primeira, solta devagar a embreagem até sentir o ronco, depois o freio, tira o pé da embreagem, põe o pé no acelerador… Com cinco aulas, dando voltinhas na rua, eu já conseguia fazer curvas, sinalizar, trocar marcha, mas parar no ponto certo no Pare era um troço. Fiz todas as alternativas possíveis: parei antes, parei depois, não parei, fiz curva na terceira marcha, diminuí inutilmente para a segunda, dei partida no carro em terceira, fiz o carro morrer por apertar o freio sozinho antes, fiz tudo certo mas parei muito atrás…
Chegar sempre no mesmo ponto e fazer cada vez uma coisa e nunca ser a coisa certa começou a dar nos nervos e não teve jeito, fiquei nervosa. O professor me corrigiu, o carro morreu, eu tentei dar a partida, morreu de novo, e de novo, eu disse que não sabia o que estava fazendo de errado. No meio dessa discussão toda, uma mulher atravessa a rua bem na nossa frente. Quando ela passa pelo meu lado, se dirige a mim e diz
– Não se preocupa não porque no começo é assim mesmo, viu? A gente fica nervosa e depois acostuma.
Não pude deixar de sorrir e agradecer. Depois, liguei o carro e segui em frente.

Poderes

O que não falta na minha família é gente que se acha phoda, e quando meu irmão André sofreu acidente começou o festival de contatos. Começaram a importunar todos os amigos, conhecidos ou ex-colegas que eram sobrinhos ou amantes de alguém, que era médico e que podia fazer alguma coisa pelo meu irmão no hospital. Todo mundo muito importante, só na carteirada. Como resultado, na primeira vez que fiquei frente à frente com o médico do André, o cara me deu bronca e me disse que eu poderia levar meu irmão pra outra UTI se quisesse. Depois dessa bronca recebi muitas outras, dele e dos outros médicos; pedi desculpas tantas vezes por coisas que ignorava que eles acabaram percebendo que eu não estava compactuando com aquilo. Os colegas de faculdade do André também tentaram ajudar, falando com uma colega cujo pai trabalhava no mesmo hospital, acho que na pediatria. Como resultado, esse gentil homem veio com outra médica, me trouxe até o corredor e disse num volume muito alto que ele não tinha nada a ver com outros setores e que não interferiria no trabalho dos seus colegas. E eu mais uma vez fui obrigada a pedir desculpas.

De todas as influências, a única coisa que realmente ajudou foi o apelo que minha mãe fez à moça que cuidava dos internamentos. Pelo nosso plano de saúde, meu irmão tinha direito a um quarto na enfermaria. Nas enfermarias, havia apenas uma poltrona para o acompanhante se sentar. Meu irmão não tinha consciência, não dormia, se debatia e precisava ser contido o tempo todo. Essa mulher ficou sensibilizada e nos colocou num quarto que constava como enfermaria no sistema, mas que na prática tinha apenas um leito e um sofá de três lugares bem confortável.

Plano de dominação mundial

Como alguns de vocês sabem, minha dissertação de mestrado sobre cegueira foi transformada em livro recentemente. Pra ser mais precisa, peguei os exemplares que me pertencem por direitos autorais na sexta. Quem tem o mínimo de conhecimento do mercado editorial sabe que ser escritor não dá dinheiro, que livro a gente publica por amor, por vontade de ter suas idéias lidas por aí.

A Editora da UFPR, que publicou o meu livro, não tem tanto alcance quanto uma grande editora. E o fato de ser um livro de sociologia sobre cegueira também não torna o meu livro especialmente atraente. Não tentarei fazer meus conhecidos comprarem a todo custo os 38,00 que os livros custaram na livraria. Mas eu quero muito que ele seja lido, que as histórias das pessoas que eu entrevistei sejam conhecidas e estou disposta a doar muitos dos meus livros às bibliotecas. Listado num catálogo, numa prateleira e disponível ao público, que ele pelo menos tenha a chance de atrair alguns curiosos ao longo dos anos. Quem sabe eles gostem e recomendem, quem sabe meus livros ajudem alguém. Não sei, quero apenas que ele cumpra o destino ideal dos livros, que é dizer algo a seus leitores.

Darei um exemplar para a biblioteca pública, a biblioteca da UFPR e da PUC-PR. Ou seja, a circulação dele em Curitiba eu garanto. Quero também doar para bibliotecas de outras universidades do país. Não quero enviar os livros pelo correios porque tenho receio de perder tempo e dinheiro. Eles podem não chegar ao destino, podem ser vendidos, podem nunca receber uma catalogação. Enfim, tenho minhas razões para não querer enviar meus livros pelo correio.

Aqui entra a parte da ajuda: tenho alguns amigos, leitores deste blog, que moram em cidades universitárias e/ou têm acesso à Universidades. Conheço mais de uma pessoa em São Paulo, mais de uma em Brasília e por aí vai. Mas eu sei que existe problema de distancia, de tempo, de trajeto e várias outros empecilios. Se eu disser quem deve levar o livro, estarei impondo um favor que nem sempre a pessoa tem condições ou pode não estar motivada a fazer. Eu gostaria de fazer o seguinte: enviar um exemplar diretamente ao endereço de algum amigo – alguém que eu já conheça há algum tempo, nem que seja apenas virtualmente. Ele pode ficar à vontade para ler ou não o livro, desde que se comprometa em um dia entregá-lo a uma biblioteca universitária como doação. Tudo na base da confiança.

Alguém se habilita? Quem quiser me ajudar, basta me mandar um e-mail ou deixar o e-mail nos comentários (que eu posso nem publicar) para eu entrar em contato.

PS: Se você quer ter o meu livro, para deleite pessoal e não quer doar para uma biblioteca, você pode comprá-lo. Na editora custa 38,oo reais – comigo, custa 30, reais mais o frete.

Cortar o mal perto da raiz

Eu não sei como tem gente que mantém o mesmo corte de cabelo durante anos. Sério. Chega um certo tempo que eu não a-go-en-to olhar pra minha cara no espelho. Ao longo dos anos, já fiz de tudo com o meu cabelo. De mudança de cor à permanente. Confesso que isso de mudar de cor não é muito a minha praia – eu não gostava do cabelo quando me olhava no espelho e tinha difículdade em combinar as roupas. Ao mesmo tempo, percebi (e foi confirmado pela minha cabelereira) que cabelos curtos ficam apaixonantes nas loiras, porque as nuances do corte aparecem mais. Nessas horas me dá vontade de ficar com o cabelo de outra cor.

Não tenho mais aqueles rompantes de querer o cabelo de uma determinada atriz. Não sei se não tem nenhum corte inovador por aí ou se fui eu que percebi que não vou mais ficar parecida com elas. Adoro os cabelos desestruturados, mas o meu é fininho e não fica desse jeito nem com gel. Ao mesmo tempo, ele não é tão comportado assim. Crescer, apesar da torcida do público masculino, está fora de questão: além de não combinar com meu eu interior mais interno de dentro, o meu cabelo é fininho e fica muito ralo se deixo ele crescer muito. Fica parecendo aquele cabelo sem graça que a Xuxa tinha nos anos 80.

À distância, gosto muito do cabelo da Victoria Beckham, mas na real eu acho que ia andar o dia inteiro com um grampo na cabeça. Já tive muito o estilo Halle Berry, mas não quero mais contar tão curto e tenho um certo complexo com as minhas orelhas (o que sempre me impediu de adotar um Sinead O ´Connor nos dias mais radicais). Tenho uma certa atração pelos mais longos na frente e bem curtos atrás, o que me condenaria a uns 6 meses sem cortar se eu decidisse fazer.

Enfim, não sei se mudo ou continuo com um semi chanel curto de franja. Alguém tem algum corte bem legal (e viável) pra me sugerir?

Sofrimento filho da puta

Estou sofrendo e não é pouco. Nem tem muito o que dizer sobre isso, vai ser banal. Esse intervalo – que parece eterno – entre a minha segunda faculdade e um futuro emprego está me matando. Na última vez que passei por isso eu fiquei deprimida durante mais de 6 meses, engordei muito (deve ter sido uns 10 kg, eu me recusava a me pesar) e comecei outra ocupação… que até hoje não me remunera. Tendo dizer pra mim mesma que agora a situação é totalmente nova, mas vai convencer o inconsciente disso…
Acho que só estou escrevendo isso porque preciso explicar pra algumas pessoas que quando eu fico mal eu me fecho. Normalmente meus amigos enlouquecem, acham que é algo pessoal, pedem explicações que eu não sou capaz de dar. Aí uma crise pessoal se transforma em uma crise de amizade e eu perco o amigo. As pessoas pedem uma palavra, um gesto, e sou incapaz de qualquer coisa agora que não seja ficar trancada.

É, eu sei que amigos são pra essas coisas, mas eu sou do tipo que não consegue pedir ajuda. Não consigo chorar por aí, não consigo deixar de tratar bem as pessoas, não consigo, não consigo. Eu achei que conseguiria voltar pro orkut e falar com meus amigos e voltar a me sentir a Fernanda de sempre, mas eu não consigo e não consigo. Até rolar alguma coisa, não tem muito o que fazer a não ser tomar Rescue e suportar esses médios e baixos.