2020 para mulheres

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Não vou listar as últimas novidades de um dia nas redes sociais, que incluem balarorixá estuprador e homem indo ao cinema com onze mulheres. Terminei recentemente a série sobre a vida de Luís Miguel (Netflix) e chama muito atenção a relação entre os pais dele, a maneira como a mãe foi esmagada pelo marido. Eu fui uma menina criada entre meninos, apenas com irmãos, então nunca soube o que era ter do meu lado uma irmã para discutir vestidos, paqueras, dicas de maquiagem. Em compensação, era eu a mais apta a dizer para as minhas amigas o ponto de vista deles, que lhes parecia tão misterioso. No excelente “Que co#o está pasando?” (Netflix), citam que atualmente os meninos já acessam pornografia com oito anos de idade, enquanto as nossas meninas sonham em ser princesas – não precisa ser nenhum gênio para concluir que há um abismo aí. Eu entendo perfeitamente a decepção de muitos homens com aquelas (eu no conjunto) que cortam o cabelo bem curto, “cabelo de homem”; os cabelos longos são um símbolo tão feminino, uma vaidade que dava um trabalho imenso para a mulher e que eles desfrutavam tanto. O cabelo que “não tem onde pegar” pode lhes apontar mais do que uma falta de vaidade, pode ser a recusa de ser levar para dentro da vida deles um universo de delicadezas que, como homens, eles não estão autorizados a acessarem sozinhos.

Mas o que realmente me vem forte neste fim de ano é a constatação da fragilidade das mulheres. Da temerária tendência a confiar, abrir mão e ceder. A dificuldade de ouvir o próprio corpo gritando de insatisfação, a vontade de ir embora, a confiança nos próprios instintos. Será possível criar com cor de rosa, vestidos e constantes elogios à aparência e ao mesmo tempo essa menina ser capaz de levantar a voz, gritar por ajuda, ser grossa quando não há ninguém ao lado para apoiar? Mais do que fora de moda, a feminilidade tradicional nos tem colocado em risco;. quando vejo uma mulher boazinha demais, temo por ela.

Lute como uma menina

Eu vi passar um vídeo na minha TL de uma moça com um cartaz numa mesa que dizia que ela era anti-feminismo, e quem quisesse podia tentar convertê-la. Não vi tudo, vi algumas mulheres que sentaram e tentaram seus melhores argumentos, enquanto a fulana ouvia tudo de braços cruzados, feliz na sua teimosia. Pensei para comigo que o que realmente a convenceria seria um homem qualquer passar lá e aplaudi-la, falar que é isso mesmo, que ela é bem comível e levanta daí e me faz um café. Como aquele sujeito que elegeram que se referiu a um gay como “aquela menina” para desmerecê-lo. Eu gosto de conhecer todos os argumentos, e uma mulher independente e religiosa que eu conheço uma vez falou sobre a mulher não conseguir se manter no lugar dela porque os homens falharam com seu papel primeiro – como exigir da mulher um papel passivo-feminino enquanto aquele que deveria lhe proteger se torna seu abusador?

Quero recomendar o desenho A Ganha Pão (Netflix). Fala em desenho e já penso em personagens felizes, mas não é o caso. No mundo ideal de um tipo fundamentalismo árabe, a mulher não pode sair na rua desacompanhada. Mas como fazer quando não há nenhum homem disponível para o papel? O desenho é lindíssimo, com tantas camadas. É uma declaração de amor, mas também é um sofrimento tão difícil de assistir – por que criar uma situação onde todos saem perdendo? Eu não acho que o que tem faltado aos teimosos felizes de braços cruzados é argumento e sim pele, empatia, experiência, carinho.

Fêmea

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Do mesmo modo que quando somos jovens a gente olha pros velhos e acha que nunca será daquele jeito, que até lá a ciência vai estar evoluída, que não teremos que fazer escolhas como tomar ou não estrogêneo, que de certa forma aquelas pessoas se entregaram, que com a gente vai ser diferente, que o vigor da nossa alma impedirá o corpo de envelhecer; desse mesmo modo, eu fui uma menina que olhava para as mulheres mais frágeis e, antes de saber que existia algo chamado adolescência e seus hormônios, achava que de certa forma as mulheres se entregavam, se deixavam ser mais fracas do que os homens. A psicanálise me indignou logo no começo da faculdade, e me recusei a estudar como se fosse sério que um homem, por ter um órgão reprodutor externo, podia ser tão mais do que nós. Eu fui indignada e auto-determinada o quanto pude; quanto mais os anos passam, mais vejo o gênero determinando minhas escolhas, minha conduta, minhas inseguranças. Sim, eles têm o falo. Não acho que seja físico e inevitável, mas reconheço que essa construção é poderosa demais. Não tenho grandes provas teóricas pra oferecer, penso na auto-confiança inabalável de todos os homens que eu vi no teste prático do DETRAN, que quanto mais provocados pelos instrutores mais faziam direito pra mostrar pro fdp, enquanto as mulheres iam condenadas, se arrastando e desmoronavam à menor insinuação. Uma amiga minha define com “chega o cara velho, horroroso, caído, da mau hálito e vem te cantar na maior autoconfiança, num estado que se fosse uma mulher nem ao menos sairia de casa”. Me vejo assim, me percebo assim, precisando de aprovações, estudando o ambiente, pisando com cuidado, passos que homens não hesitariam em dar. Já ouvi que escrevendo como eu, Fulano faria um estrago. Faria mesmo, Fulano e qualquer outro Fulano, desde que homem, desde que com seu falo mágico. Falos que amam outros falos, porque sabem ser tão auto-confiantes e viris, fazer o que se mulheres coincidentemente são menos talentosas? Falo que lhes permite centrar nos seus desejos em busca do próprio prazer, enquanto as criaturas sem falo se perdem ao analisar tudo o que as cercam antes de pisar no chão. Aí tem que fazer, como fazia uma amiga quando trabalhava num meio masculino: visual impecável, tudo no lugar, tarefa de casa estudada, estatísticas, meia calça extra na bolsa. Não por vaidade, e sim para não ter com que se preocupar, para a partir daí ter voz. Fêmeas, fêmeas. É como se a nossa linha de largada estivesse metros atrás.

Rebelde

Depois de tantos anos de poás e babados, vou confessar que fiquei cansada. Fiquei cansada da flor de lado, ou atrás. Das peinetas, das saias longas, das cores e acessórios que eu não usaria. E comecei a me rebelar, achar tudo brega demais. Se devo aprender com o flamenco a me expressar, a incorporá-lo nos meus gestos ao invés de apenas repetir gestos alheios, como fazer isso vestindo roupas que eu não apenas não usaria como acho exageradas, demais? Aí numa apresentação eu quis colocar uma blusa linda estilo oriental. Pareceu que tirei isso do além, mas no primeiro dia que vi minha professora dançar, no primeiro espetáculo de flamenco da minha vida, ela vestia uma blusa cujo desenho me pareceu muito oriental, apesar de flamenco. Lembro que isso me desagradou quando vi. Aí ela vetou. No dia, apareci com aquele arquinho de flores que agora está na moda, que tem até no snap, aquele que ficam umas flores bem na frente. Tanto desconfiava que ela ia vetar que nem comentei antes. E ali, pouco antes de subir no palco, levei um safanão e fui obrigada a colocá-lo de lado pra me adequar às normas. Há tempos já concluí que se tivesse nascido na Espanha ou em família flamenca, teria virado dentista e não Farruquito. Eu me conheço e se tivesse nascido nessa linguagem – porque flamenco é isso, uma linguagem – não seria capaz de ser a continuadora de uma tradição, e sim quereria quebrar estruturas e trazer ares novos. Digamos que eu estaria mais para Israel Galván. Não gostei dos vetos, me senti podada. Aí vi, poucas semanas depois, vi minha professora dançando com uma outra grande bailaora, uma espanhola. As duas vestiam roupas flamenquíssimas, com babados e poás enormes, a cabeça abarrotada de coisas, peinetas, brincões, o out do out. Chegaram lá e hipnotizaram, dançaram com uma força e gestos despudorados que só o flamenco tem. Absorvida pelo momento, eu me senti um bebê, uma criança, uma menina que olha pra mãe e descobre nela o que no futuro ela pode ser. Naquele momento eu entendi que elas estavam trabalhando dentro de um arquétipo, e que seus gestos nos davam permissão para gestos mais fortes e despudorados na vida. Eu é que estava errada, não é pra ter a roupa comum lá em cima, o palco mostra o além. Pensei também que pena que as mulheres de hoje perderam essa ligação com as mais velhas, fortes e sábias, que não temos mais esses arquétipos maravilhosos para nos espelhar. Mas isso é outra discussão.

Ru Paul´s Drag Race

Tenho o problema de me viciar em certos programas e querer levar os amigos junto. Meu último vício, que tem acabado com todo meu tempo livre é o Ru Paul´s Drag Race. Está lá pela sétima temporada e comecei fim de semana passado e agora estou na quarta. Já falei aqui do America´s Next Top Model, e o formato é mais ou menos o mesmo, mas é muito melhor. As modelos do America´s são meninas inexperientes, e ser modelo é muito menos desafiador. As Drag Queens são artistas que preparam seu cabelo, sua maquiagem, costuram suas roupas, coreografam, canta, representam… então o programa pede muito mais delas. É de arrepiar as coisas que elas são capazes de fazer em uma semana. Isso sem falar na história de vida de cada uma, que raramente contam com o carinho e a aceitação das suas famílias. Comecei a ver o programa achando que veria muita gayzisse, e terminei respeitando esse o trabalho muito mais do que imaginava.

Estou vendo o programa num desses canais on line, então nem vou colocar o link aqui porque não vou ganhar nada fazendo propaganda. O que eu queria dizer é o quanto ver homens vestidos de mulheres e imitando nossos trejeitos mexe com a gente. Impossível não ver aqueles desfiles e não começar a querer se vestir com mais glamour e mais humor. Os cabelos exagerados, o andar de passarela, a sensualidade exacerbada não são apenas um exagero sobre o que é ser mulher. A gente começa a pensar que se elas fazem tanto para parecer conosco e se esses excessos ficam tão bem nelas, por que nós, mulheres no sentido biológico, temos que ser tão apagadas no nosso dia a dia? Nem todos quando montados ficam bonitos, mas todas amam o glamour. Já nós, mulheres, estamos sempre tão preocupadas com a perfeição que nem curtimos o que temos. Fiquei realmente com vontade de ter uma consultoria de estilo Drag. Minha amiga Flávia, maravilhosa que só ela, gostava de ir pra Parada Gay montada e ser confundida com travesti. Agora sim eu entendi! Coincidência ou não, ela e o seu marido saem por aí em estilo retrô e cheios de tatuagem, e nunca passam despercebidos. Como diria Ongina, uma das Drags mais marcantes da primeira temporada: celebre sua vida!