Jeans e oráculos

Eu adoro comprar roupa online, especialmente da China. Antes (dólar baixo) era uma pechincha, saia quatro vezes mais barato do que ir numa loja. Depois de ser tão vantajoso e passei a comprar menos, mas continuei gostando. A ironia é que comprar em site é se basear em medidas e com base na foto tentar adivinhar como você ficaria. Justo eu, que quando preciso comprar um jeans sou capaz de experimentar vinte antes de me decidir por um – ou nenhum. Aí eu me dei conta de que talvez seja justamente por isso, porque no site eu me desobrigo e pessoalmente eu não posso não experimentar. Se eu não experimentar tudo, vou me condenar pelo resto do tempo, imaginando que um jeans muito mais perfeito estava à minha espera.

Bauman fala disso, outros autores falam disso, do quanto o excesso de escolhas acaba se tornando fonte de ansiedade. Aí estava pensando num meio atendimento que acabei fazendo com um amigo. Numa fase da vida dele, ele viajou para o exterior e que poderia ter acontecido algo extraordinário nesta viagem, que a vida dele poderia ter dado uma guinada. Eu fui determinista, disse que pelo mapa dele a viagem deu o que tinha que dar, que aquilo era um começo e não uma guinada. Lembro agora de um outro amigo que via cartas, e ele me disse que nove entre dez pessoas queriam saber de amor, os outros poucos tinham um problema específico de saúde ou queriam um emprego. Eu lhe perguntei se já apareceu gente que não iam arranjar um amor e ele disse que sim, e que falou para elas. Então, concluí que o que as pessoas iam lá ouvir que iam sim arranjar um amor, que apesar das aparências e da ansiedade havia alguém, era apenas uma questão de tempo.

Ninguém aqui nasce numa família de nobres ou servos e que lhe diz desde criança que você será nobre ou servo. Por mais que a mobilidade social não seja tão livre quanto se prega, crescemos com uma ideia de é tudo escolha nossa. Tudo o que eu sou e penso é fabricado a cada minuto e em cada gesto. Como se a vida hoje fosse um excesso de opções confuso e sempre escolhemos errado em algum lugar. Sempre, eternamente, nunca enxergamos o suficiente, nunca experimentamos o suficiente, era justamente o último jeans da loja que tinha o melhor caimento e mudaria nossas vidas. Procurar oráculos, mapas astrais, cartas, previsões é, no fundo, uma visão determinista. E o que ela nos diz é: você fez o seu melhor e o que tinha de fazer. Aguarde e confie.

Tenho respaldo da sociologia ao dizer: você não escolhe tanto assim.

Paul diz: Let it be. Confiem nele.

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Os favores dos Deuses

shiva murudeswar

Eu acho fascinante como a cultura modifica a maneira de olhar o que até mesmo “deveria” ser igual. Astrologia, por exemplo, o quanto a abordagem do ocidente e do oriente é diferente. Já falei algumas vezes que o cálculo é diferente, que as lendas são diferentes, que as técnicas são diferentes. Mas o que eu acho de mais fundamental  são os tais “remédios” da astrologia védica. Nos primeiros vídeos que eu vi, peguei uns astrólogos falando meio mal, que não era pra colocar um anel no dedo e achar que com isso todos os assuntos relativos àquele planeta – Saturno para carreira, Vênus para amor e prosperidade, Sol para auto-confiança, etc.  – estavam resolvidos. Depois que eu entendi que eles não são tão dispensáveis assim. Enquanto numa leitura ocidental o astrólogo vai te dizer que você pode ter dificuldade de ser firmar na carreira e ser responsável, ou que tem que se esforçar muito para arranjar um casamento, na leitura védica você tem um karma ruim com relação a esses assuntos que precisa ser queimado. Somos muito self made man até em astrologia. Então você não é uma pessoa com uma carreira ruim, você está com Saturno fraco; ou não é uma pessoa com dificuldades na vida amorosa e sim tem um Vênus muito aflito no mapa. Você escolheu nascer assim, a questão não é um simples “rever atitudes”. Se você está sofrendo demais é porque a escolha saiu pesada, então o único possível é querer que haja uma misericórdia no pagamento de suas penas. Os “remédios” são para melhorar a relação da pessoa com os deuses relacionados ao assunto problemático. Há coisas que soam engraçadas, como alimentar corvos ou nunca aceitar amostra grátis. Como todo tipo de penitência, a pessoa aprende sobre si no processo e precisa de força de vontade (já psicologizei, olha o vício ocidental). E, sabe como são os deuses, o pedido é nosso e atender ou não é com eles – ou melhor, com a nossa possibilidade kármica.

Nascimento especial

indian chart

Já comentei que a astrologia védica não tem essa de dizer que todos os signos são bons, que todas as diferenças são válidas, etc. Eles julgam na cara dura. E fazem afirmações que a astrologia ocidental jamais teria coragem de dizer, tanto boas quanto ruins – que alguém tem tudo para ser famoso ou que jamais vai conseguir se sustentar e vai viver de favor pro resto da vida. Vi num fórum um desesperado porque queria confirmar que seria famoso e os dados dele não indicavam isso nem com boa vontade. A gente lê comparando os indícios como próprio mapa e descobre, como disse um dos astrólogos que eu sigo, que não é grandes coisas. Yogas lindas, grandes sinais de que a pessoa é iluminada ou que vai deixar sua marca no mundo e nenhum conhecido tem. A védica joga na cara que você é medíocre.

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Pra eles o horário exato de nascimento é ainda mais importante, porque eles dividem o mapa astral em vários pedaços e geram outros mapas astrais. Os indianos vêm a hora, minuto e segundos do nascimento, coisa que ninguém aqui tem registrado. Pelo meu horário de nascimento na certidão, eu tenho meu ascendente nos primeiros graus de áries. A união entre os graus finais de peixes e áries (câncer e leão, capricórnio e sagitário) é o que eles chamam de ponto gandanta. É como um buraco, a união nada suave entre um signo de água e de fogo. Enfim, é especial. Aí fui pesquisar meu possível nascimento especial. No google: gandanta born.

A crença é quando a vida se cristaliza em certo ponto, então nós viajamos em direção à manifestação mais elevada da alma e da consciência. Temos que passar por um momento particularmente difícil para preparar nossas mentes para o próximo passo na jornada de nossa alma. Se você nasceu em algum dos gandanta, pode esperar algumas dificuldades espirituais neste nascimento. Uma falta de apoio, uma sensação de transformação.

Um, não tão legal. Outro site:

Nascimento em Gandanta é uma das muitas falhas que podem acontecer no nascimento ou em um evento. Dependendo da natureza dos Gandantas, diferentes Shanti Upayas (Remédios) precisam ser realizados, caso contrário, pode haver perigo para a vida do recém-nascido.

Eita.

Phaladeepika 13.9: Se um parto acontece no extremo de uma Rasi que é ocupada ou aspectada por um planeta maléfico, a criança certamente encontrará sua morte imediatamente. Se o nascimento ocorrer em um Gandanta, o pai, a mãe ou a própria criança morrerão. No entanto, se a criança sobreviver, ele se tornará um rei. Se nascida na junção de qualquer um dos quatro quadrantes, idêntica à conjunção ou aspecto de um maléfico, a morte da criança acontecerá em breve.

Eu tô viva e já na Terra faz tempo, então pra mim foi bom.

Gandanta no nascimento do dia chama-se Pitr gandanta (perigo para o pai), enquanto Gandanta no nascimento noturno é chamado Matr gandanta (perigo para a mãe).

Poxa, gente.

Enquanto Chandra é o governador da mente e do corpo (psico-somático), Lagna é o governador da inteligência (Dhi). Assim, enquanto Rasi Gandanta afeta a saúde, longevidade e sustento, Lagna Gandanta resulta na perda de inteligência, desde que o Lagna ou o Lagnesha também sejam afligidos.

Me chamou de burra na cara dura.

Aí, num outro trecho, diz que se a pessoa nasce durante Abhijit Muhurat não é tão ruim assim. Nunca tinha visto o termo e fui pesquisar. Abhijit Muhurat é uma média do horário entre o nascer e o pôr do sol e cai geralmente entre meia noite e uma da manhã. É um horário sagrado. Aí eu pensei: oba, nasci em Abhijit. No google: Abhijit born.

Pai ou mãe tendo alguns problemas após o nascimento da criança, pelo menos, dentro de 3 a 5 anos de nascimento da criança. Como a dívida de negócios, a perda de pais de problemas de saúde da mãe, alguma grande doença encontrada. Tudo depende do horóscopo de três pessoas, precisamos analisar. Mãe pode enfrentar problema de saúde mental ou saúde física, na maioria dos casos eu vejo problema de saúde na mãe. Este não é um problema de saúde geral, é um grande problema ou qualquer doença anterior voltar ou aumentar em doenças anteriores. Caso pai, eu vejo muito provavelmente questões financeiras e relacionadas à carreira. A maioria dos casos no horóscopo Pai e Filho não é compatível entre si, então com um impacto negativo na Carreira [Finanças etc].

Melhor deixar pra lá essa história de gandanta, que tal?

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No whats, com uma amiga também cheia de gandanta no mapa:

Eu: andei pesquisando sobre os gandatas.

         Falam mal à beça da gente.

Ela: [Falam mal à beça da gente] Isso é fato.

Curtas de conclusões totalmente científicas

super placebo

A Dúnia passou um tempão de cone. O cone e impede de entrar na casinha com teto, então eu tiro. Por causa da largura do cone, entrar na casinha era meio enroscado, ela precisava erguer um pouco a cabeça, esbarrava, era triste. Aí, finalmente ela ficou sem cone e estava com tudo novo e limpinho. Passaram-se dois dias inteiros sem que ela pusesse os pés lá. Tive que mandar entrar, dar osso. Percebi que ela ficou com aquela imagem de que era difícil e resistia passar por aquilo de novo. Descobri que até cachorro desenvolve neurose.

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É mais do que sabido que se o Facebook nos oferece muito uma pessoa pra ser nosso amigo é porque a dita nos estalkeia, né?

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Os hindus são fogo. A explicação pra astrologia deles ser tão mais completa do que a nossa é que ela tem milênios de anotações e observações, ao contrário da nossa que vai e volta. Descobri que eles têm casas e aspectos que dizem se a pessoa é boa ou ruim de cama. Agora, como viver sem pedir pra ver o mapa do pretendente antes mesmo de começar? (e não adianta vir me perguntar inbox, tem que saber meia dúzia de princípios pra entender)

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O único momento da vida que é melhor ser mulher do que ser homem são as roupas de verão. A gente tem diversos comprimentos de calças, saias, bermudas, decotes que contemplam várias partes do corpo, opções de sapatos e onde começa o braço. Eles, de bermuda já ficam informais e de regata receberão olhares. Mas, ao mesmo tempo, a arma mais poderosamente indestrutível da espécie humana é o ego masculino. Coloque-o na posição mais desfavorável, pense que ele foi soterrado pelos fatos e reduzido à sua insignificância, que ele ressurgirá assim mesmo, quem sabe até mais forte, igual vilão de filme de terror.

Dashas e vida de borboleta

zodiac copy

Se pegar um mapa normal de astrologia, normal digo ocidental, eu sei dizer mais ou menos quais são os trânsitos que estão acontecendo. Já a astrologia védica tem um cálculo tão diferente, que por mais que eu olhe, ainda não consegui entender a lógica. Fui em sites e procurei os tais dos dashas, e cada dasha tem os subdashas, digamos assim, que são as subdivisões dos períodos. Alguns duram anos, e começam no meu aniversário, outros duram meses outros sei lá daonde. Não foi nada bom saber que estou em Rahu-Saturno e as referências dizerem que une o mais temido com o pior. Preveem que eu procurarei um astrólogo, o que entendi que era outra forma de dizer: você vai ficar bem desesperada e vai pagar alguém pra te dizer o que está acontecendo. E, de fato, tentei procurar um astrólogo védico. Meu dasha temido e pior começou em 2017 e vai até 2020. Pensem na minha alegria ao ler isto.

Aí, CDF do jeito que eu sou, copiei tudo no word e transformei numa tabela. Período, quando começou, quando terminou e um espaço em branco do lado. Coloquei no espaço os fatos relevantes da minha vida, pra ver se entendo a lógica da relação entre os fatos e os períodos. Que.ex.pe.ri.ên.cia. A vida me bater na cara e me dizer que não sou importante já tem sido tão frequente que já chego protegendo o rosto, mas desta vez foi diferente. Eu me senti uma borboleta – nunca minha vida me pareceu tão curta e irrelevante. Anos e anos de espaços em branco, nada de realmente significativo pra registrar.

Nasci.

Mudança pra Curitiba.

Mudança pra escola pública.

Entrei na faculdade.

Terminei faculdade.

Atelier.

Casei.

Outra faculdade.

Flamenco.

Separei.

 

Omiti uma ou duas coisinhas muito íntimas, mas basicamente é isto. E se for pensar no que eu realmente decidi, no que manifesta meu livre arbítrio e decisões enquanto pessoa, são ainda menos itens. A gente toma uma ou duas decisões na vida, o resto é tempo perdido no trânsito.

Homem-Pisa e Quíron

quiron

Numa das muitas histórias dos pacientes descritas nos livros do Oliver Sacks – não sei dizer em qual – tem um homem que estava com um problema no centro de equilíbrio. Ele andava inclinado pro lado, as pessoas diziam que ele parecia uma Torre de Pisa. Mas pra ele, ele estava certo. Era mais do que um problema de equilíbrio, era um problema de propriocepção, porque o corpo sentia que estava certo um equilíbrio que estava errado. Então ele inventou uma barra em cima do óculos, um prumo minúsculo, que ele consultava discretamente quando olhava pra cima e se corrigia. Ele sabia que não podia confiar no que sentia e encontrava uma regulagem exterior. Talvez de tanto submeter o cérebro à medida exterior, quem sabe ele tenha se corrigido.

Antes eu achava que ser sábio, maduro ou terapeutizado era muito a mágica das palavras, como se ao ser exposto à luz, o que há de mal resolvido se alterasse, tipo uma reação química. Para algumas coisas, até reconheço que seja. Mas tem uns traumas que você conhece de cor, toma café com ele todas as manhãs e tá, e daí. Existe na astrologia contemporânea aspectos formados pelo asteroide Quíron. A história de Quíron, um centauro que é filho de Cronos e não sabe, divino demais para um centauro e ainda assim animal, ferido por uma flecha e incapaz de se curar ou morrer da ferida, é uma das lendas mais tocantes que eu já li. LEIAM AQUI. Quíron é chamado de “o curador ferido”. Quíron diz assim: você foi ferido e nada mais muda o que aconteceu, mas esta dor te torna apto a ajudar os que passam pelo mesmo. Já vi astrólogo dizendo que Quíron é o Quasimodo do zodíaco. Eu concordo.

Não some quando toma ar não. Quasimodo nunca ficou bonito e na história original nem ao menos fica com a mulher amada. Uma vez um amigo que ia fazer terapia disse que eu estava estragando o processo antes mesmo de começar, porque eu lhe disse que terapia não nos muda. Psicanalistas concordarão comigo. O que se aprende é saber o que está lá, que existe um pedaço torto e ele nunca será normal e é preciso seguir em frente e ser feliz assim mesmo. Que temos uma lente viciada e mesmo com toda nossa alma, lógica e razão gritar que estamos certos, pode ser que na realidade estejamos ridiculamente inclinados.

Planetas maléficos e gente malvada

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A astrologia ocidental, talvez contaminada pelo politicamente correto, tem abandonado os termos como “maléfico”, “detrimento”, “exílio”, “queda” para falar das posições dos planetas porque as pessoas ficam aborrecidas e nem sempre entendem o que quer dizer. A “queda” do Sol é em libra, ou seja, de todos os nascidos mais ou menos entre 21 de setembro a 21 de outubro; Júpiter está em “detrimento” em gêmeos, ou seja, ruim? Nos termos abandonados, Júpiter é o “grande benéfico” e Vênus “pequeno benéfico”, enquanto Saturno é o “grande maléfico” e Marte o “pequeno maléfico”. Para a astrologia védica, saber o que é maléfico ou benéfico é essencial. Já vi a metáfora que é ter amigos x inimigos, e que eles sejam poderosos x sem poder. A melhor combinação é amigo poderoso; se for para ser seu inimigo, melhor que seja sem poder; amigos sem poder até torcem por você, mas poucos podem ajudar; inimigos poderosos te fazem pensar duas vezes antes de sair de casa. Na astrologia védica: Mercúrio é neutro; Júpiter, Vênus e Lua benéficos; Saturno, Marte e Sol maléficos. Os planetas exteriores – Urano, Netuno e Plutão – não são levados em conta. Os benéficos são assim chamados porque te trazem coisas boas, de qualquer maneira e em qualquer posição; os maléficos também podem trazer bons resultados, mas mesmo quando estão “do seu lado”, os bons resultados só virão através de mérito, de esforço. Enquanto Júpiter é o queridinho de todos que expande tudo, às vezes a pessoa se torna otimista demais e não recebe tanto quanto imaginou; já o que vem de Saturno é garantido, seguro, gravado na pedra – o problema é que ele sempre demora pra entregar, é preciso trabalhar muito duro. E se a pessoa faltar com a ética, leva tapão.

Eu estava pensando nessa história de ter méritos para receber coisas boas. A primeira coisa que pensei é que ninguém se garante – se não pelo que fazemos agora, sabe-se-lá o que nossos ancestrais fizeram ou o que fizermos numa outra existência. A experiência nos mostra que ninguém sai da vida incólume. Lembrei dos vídeos e mensagens que eu tanta gente compartilhamos, todos os dias, com “lições”, com “pensamentos críticos”, querendo que as pessoas “acordem”. Num deles, que eu postei há poucos dias, um vídeo fala que as elites brasileiras não gostam de pobre e querem a manutenção da nossa imensa desigualdade social. Quando você usa o termo “elite”, que fala deles, é bem fácil; o difícil é ler e pensar “sou eu, elite brasileira, que não tenho feito nada para diminuir a pobreza”. Porque ninguém se vê assim, cada um se vê como uma pessoa que está tentando ser feliz, ficar bonito, formar uma família, ter uma carreira e ganhar um bom salário. Eu sei que as pessoas que eu penso quando posto um vídeo como aquele não se vêem assim.

O problema da tal falta de méritos, a mesma que não nos garante e nos faz levar pauladas da vida, é que nós não somos apenas o que fazemos e no que pensamos – o que não fazemos, não pensamos e não nos importamos talvez valha muito mais. O que não passa pela sua cabeça, as coisas para a qual você é cego porque não dá importância, o que você perpetua por ser cômodo e deixa as consequências pra lá – tudo isso também é maldade. Somos maus porque somos egoístas e somos egoístas por causa da nossa natureza. Somos egoístas porque temos um cérebro limitado, uma câmera interna que acompanha o nosso pequeno dia a dia e o de mais ninguém. Geramos consequências imprevistas o tempo todo. Por isso a vidinha simples de “quero apenas ser feliz e que os meus sejam felizes comigo” acaba sendo insuficiente. Levamos pancada e maléficos, e mesmo assim mal e mal olhamos pra fora do umbigo.

Uma amizade com Marte

mars

Tudo começou quando Marte entrou em movimento retrógrado, no início do ano. Os astrólogos falando nisso, os grupos de whats falando nisso, explicações físicas e metafísicas. Fiquei sabendo que o planeta no movimento retrógrado – que é uma ilusão dada pelo ponto de vista da terra, porque nenhum planeta anda para trás – fica mais próximo da Terra, então seria mais fácil localizar Marte no céu. Eu o achei bem em cima da minha casa, olhando para cima quando estou na parte dos fundos, uma luz vermelha e imóvel no céu. Nos astrólogos: “Sabe porque está tão seco, sabe porque a agressividade no mundo? Marte”. Eu olhava para o céu todas as noites e pensava: você, hein. Depois me senti mal, ficar acusando uma luz bonita no céu. Conversamos. “E quando você se sentia só e deprimida, quando nada lhe dava prazer e mesmo assim você se levantava da cama e fazia tudo o que precisava ser feito, de onde vinha aquela força?” Aí eu entendi. o poder que a Astrologia descreve quando usa Marte no seu simbolismo.

Oh, rei! Marte excede na crueldade, é cortante como uma lâmina de cimitarra e vem tão furioso com qualquer que venha até ele com arrogância, que ele totalmente destrói a família desta pessoa e a prosperidade. Aqueles que vão até ele regularmente, com humildade, seguindo o ritual apropriado, ele abençoa com ganho de saúde e perda de doenças. O juramento de Marte alivia todas as dificuldades, especialmente essas de doenças, débitos e inimigos.

The Greatness of Saturn, cap.4: Mars

Na mesma época, eu soube que a noção de que a energia de Marte é o sujeito que vai no bar e bate em todo mundo é errada. Esta é uma forma de agressividade insegura, defensiva, como a do cachorro covarde que ataca. Um bom Marte é como pensar num samurai, alguém que tem um grande poder de destruição, tão certeiro que só é usado nos momentos precisos. Marte é força, se a humanidade se perde e não sabe o que fazer com ela, aí já é outra história.

Eu fiz, então, as pazes com Marte. Toda noite o cumprimentava nos fundos de casa. Às vezes lembrava de algumas coisas e concluía: vivi muito tempo contando apenas e tão somente com ele. Sedução de Vênus, confiança do Sol, sentimentalismo da Lua, prosperidade e sorte de Júpiter? Não, Marte. Quando soube que ele havia saído do seu movimento retrógrado e não seria mais tão visível, fui lá fora lamentar. Eu disse a ele: sentirei saudades.

Marte não está mais tão visível no céu, mas isso é pra vocês. Pra mim ele está sempre lá. Às vezes volto à noite e – como quem está distraído e olha na direção de quem o olha – eu olho pra cima e o vejo, Marte. Há noites em que apenas Marte está visível no céu, só ele na escuridão azul, e horas depois a noite fica inteira encoberta. Foi apenas para Marte demonstrar que me cuida.

A grandeza de Saturno

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Há algumas semanas, recebi um e-mail, desses de spam que a gente se inscreve e depois se surpreende quando recebe a newsletter, falando que era um dia especial para louvar Saturno. Era bom para quem tem um Saturno fraco no mapa (o meu não é dos melhores), estivesse passando por um período de Saturno ou apenas quisesse melhorar sua relação com o planeta. Sugeria jejum, um mantra que eu procurei no youtube e achei bacana e ler os trechos de um livro chamado “A grandeza de Saturno”. Não sei se tem em português, achei em inglês (The Greatness of Saturn) num site com livros de graça. Vi muitos vídeos de astrólogos, védicos e ocidentais, falando do quanto a maturidade os fez gostar de Saturno, que o tal retorno de Saturno – que a astrologia védica chama de Sade Sati – não é nenhuma desgraça, que é só ser uma pessoa bacana e fazer tudo certo que Saturno te trata bem.

Como o livro é em inglês, estou levando muito tempo e consigo ler pouco por vez. Começa com a entrada de cada planeta, personificado com um Deus, e acho o desenho de cada um tão bonito que me dá até vontade de um dia fazer quadrinhos. Agora que eu cheguei na parte de Saturno propriamente dita. Um rei fala mal de Saturno. Saturno desce, indignado, e fala que ele estava justamente entrando na constelação de virgem, 12º casa contando a lua do rei, ou seja, o rei ia entrar em Sade Sati e experimentar sete anos e meio de provação e aprender a não desrespeitar os deuses. Poucos dias depois, o rei vai comprar um cavalo, que sai voando e abandona o rei numa floresta. Ele anda muito e vai parar numa cidade onde ninguém o conhece. É acolhido por um comerciante muito gentil, e a filha do comerciante resolve testar o rei (lembrem-se que ninguém sabe que ele é rei) pra ver se casa com ele. A moça entra num quarto todo perfumado e tenta seduzir o rei, que até dorme com a cabeça coberta com um travesseiro de tanto medo do que Saturno pode lhe aprontar. No meio da noite, um cisne sai dum quadro e come o colar de pérolas da moça. Na manhã seguinte, ela diz que o rei, além de impotente, é ladrão. Revistam o rei e, apesar de não encontrarem o colar com ele, ele tem as mãos e os pés cortados (!!!!) e passa os resto dos sete anos como pedinte. Na outra história, Saturno conta que fez mal ao seu próprio Guru, que lhe pediu pra reduzir o período de sete anos em algumas horas. Pra tentar escapar incólume do seu curto Sade Sati, o Guru/Rei foi tomar um banho inocente no rio e colheu dois melões no caminho. Enquanto isso, dão falta do filho dele e do filho do primeiro ministro, e quando o Guru/Rei retorna, abrem a mochila dele e os melões haviam se transformado na cabeça dos dois rapazes. O Guru/Rei é condenado à morte. A esposa, diante de tanta desgraça, decide se atirar numa pira funerária. Todo mundo não morre por questão de minutos, porque o Sade Sati acaba e Saturno desfaz tudo – as pessoas voltam a ver melões e os rapazes retornam, eles só tinham dado um passeio. E nas duas vezes Saturno diz: “só fiz isso porque você é orgulhoso”. Eu me pergunto: e quem não é? Se o objetivo do livro era não ter mais medo de Saturno, acho que não entrei bem no espírito…

Caso haja leitores influenciáveis aqui: Saturno governa outsiders, subalternos, idosos, pessoas em fragilidade social. Tratar bem estas pessoas é tratar bem os seus representantes na Terra. Alimentar e vestir quem precisa é ainda mais excelente. Alias, descobri que fazer caridade como “chantagem” com os céus, que eu jurava que tinha inventado, é uma recomendação constante dos astrólogos hindus. E, por favor, nada de falar mal de Saturno por aí. Vai que ele está passando justamente pela 12º casa da sua lua e…

Acalme a sua mente

shiva meditating

Astrologia védica como o próprio nome diz é védica, vem de Vedas, os textos sagrados do hinduísmo. Ir da astrologia ocidental pra védica é como aqueles joguinhos que tem níveis de dificuldade – a ocidental é a baby e a védica é a super hard. Falo tudo isso sem saber, só de olhar a quantidade de gráficos e cálculos que aparecem nos vídeos. Eu vi um onde o astrólogo jurou que uma certa colocação no mapa do Al Gore dizia quando ele ia quebrar o braço. Védica, hinduísmo, taí uma crença que não tem a menor vergonha de ser encarnacionista e determinista. Sim, de acordo com eles já está tudo aí, a alma encarna sabendo tudo o que vai fazer e acontecer, ela só vem atuar. Diz que é a mesma coisa quando vemos o trailer de um filme e sabemos o que vai acontecer, sabemos quem é mocinho, bandido, como acaba, e mesmo assim pagamos ingresso e vamos até o cinema.

Então qual o sentido? Os astrólogos védicos seriam capazes de te dizer coisas tão precisas justamente para provar esse determinismo. Para mostrar que está tudo aí, e por isso está tudo bem. Que não tem como você ter se desviado porque o desvio não é possível. O grande amor – cito justo este exemplo porque estou sem saber o que falar pras amigas – vai chegar na idade e na época certa, não precisa se debater até lá e sair com todas as porcarias do Tinder. Se você crer profundamente nisso, esta crença vai acalmar a sua mente. Não sou eu que estou dizendo isso, foi o que eu vi num vídeo de astrofilosofia. O que aprendi na minha curta vida é que, quando começo a me impacientar por estar demorando demais, lembro que o bom é rápido e o ruim se arrasta – não tanto por algo intrínseco às situações e sim pela tendência a projetar no futuro a felicidade e desvalorizar o presente. Que cada época tem sua alegria e sua dor e, quando a situação muda, também muda de alegria e de dor – e nessa mudança, o futuro tão aguardado pode nos obrigar abrir mão de coisas que também eram muito legais. Nesse sentido, gostei muito do que diz a astrologia védica, embora não consiga colocar tanta fé no determinismo. Concordamos: o negócio é acalmar a mente. Luta na hora da luta, recolhimento quando não chegou a hora.

Hábitos de veado

veado

Tem nakshatra de elefante que avança furiosamente, tem nakshatra de tempestade, tem nakshatra de flecha que atinge o alvo. Um dos meus principais nakshatas tem como símbolo um veadinho. Sério. Ele é o mais frágil dos 27 nakshatras. Um dos astrólogos que eu sigo, o Vic Dicara, faz uma reflexão de vida sobre cada um dos nakshatras, e o do meu é, basicamente, “como sobreviver sendo frágil“. A sorte é que tem uns de cobrinha pra me ajudar. Mas, apesar de eu estar aqui reclamando, eu adoro esse nakshatra. A palavra que o define é “buscador”. Tal como o veado que fica pela floresta cheirando as folhas, as pessoas que tem esse nakshatra forte adoram estar sempre à procura. Eles gostam tanto de estar à procura que gostam mais de procurar do que encontrar. É um nakshatra ótimo quando se fala de estudos ou de busca espiritual, porque a pessoa nunca se contenta com o que tem e se enriquece cada vez mais de conhecimento; ao mesmo tempo, é ruim quando essa busca se volta par ao lado amoroso, porque aí a pessoa pula de parceiro em parceiro, sem jamais se contentam com ninguém.

Uma das coisas que esse nakshatra me jogou na cara foi a tendência aos hábitos. Diz que o veado é um animal de hábitos regulares, ele anda sempre pelos mesmo lugares na floresta. Eu percebo isso claramente quando começo a ser conhecida nos lugares onde eu vou. Quando estava deprimida e detestava ter tempo livre, comecei a inventar programas novos, percorrer padarias e cafés, me obrigar a agendas culturais. Só que de tanto explorar, acabei descobrindo o que combina mais comigo em termos de ambiente, orçamento, sabores. Então, todos os dias da semana e nos mesmos horários, vou para os mesmo lugares e como sempre as mesmas coisas. Nas poucas vezes que tentei mudar, me arrependi. Não é que eu faça amizade com os atendentes porque chegue íntima, ao contrário, sou a que chega muda e saio calada. Mas depois de encontrar quase todo dia chega uma hora que não dá, né?

Curtas selvagens

cobras

Uma providência que não tem negociação e não esqueço jamais é, assim que esquenta, trocar todas as iscas de barata da casa. Vocês não sabem o que ter que enfrentar baratão lustroso em casa, sozinha, à noite, faz no psiquismo de uma pessoa.

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Eu comento com a moça que estava tirando o meu sangue de um trecho do Karl Ove, da moça que viu sua cobra de estimação deitada ao lado dela e na verdade a cobra a estava medindo pra saber se já era grande o suficiente para comer, e a moça me disse que ouviu uma história parecida, de uma cobra que deitava todas as noites ao lado da dona. Só que no caso do Karl Ove, a mulher se assustou na hora, porque a cobra passava o tempo todo enrolada, enquanto no caso que ela me contou a mulher dormia toda noite com a cobra. Devia pensar: “own, que fofa, ela me ama e vem deitar comigo”.

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Enquanto os vídeos de gatinhos e cachorros encantam muitas pessoas, eu tenho uma amiga a quem destino especialmente os videos fofos de outros animais, porque ela é vegana. O meu facebook me mostra muito vídeo de bicho. Aí ele me mostrou um de uma família que adotou um urso, coisinha mais fofa o filhote de urso. Ele cresceu e virou um amigão, termina com ele sentado e uma menina brincando com ele. O problema é que aquele programa de animais selvagens com a história do leão no apartamento, uma vez mostrou de uma mulher que foi morar num lugar bem gelado e fez amizade com um urso, colocava comida pra ele todo dia na janela. Adivinhem: um dia faltou comida fora e ele pegou a mulher. Vi o vídeo do urso com aquela sensação terrível de que a criança seria a próxima vítima.

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Eu estava vendo um vídeo de astrologia, e o indiano contou de uma experiência com a alimentação das vacas. De acordo com ele, mesmo se a vaca coma um alimento envenenado, quando eles vão examinar o leite dela, ele está puro. Que a vaca é um animal tão generoso, que ele consegue reter o mal para si e nos oferecer o melhor. Ele falou nisso quando falava do nakshatra de nome Pushya, cujo símbolo é o úbere, e este episódio demonstrava o quão generosos os nativos de pushya são. Aí ele fala da maldade que fazemos com os animais. E que quem quiser estudar astrologia védica deve, antes de tudo, amar e cuidar bem da natureza. Terminei o vídeo achando que então nunca poderei estudar astrologia védica direito.

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Antes, um ponto alto da existência da Dúnia (hahahahaha, meu animal selvagem) eram os ossos de chuva, um osso grande que fica num pote especial e só é aberto em dias de chuva. Começou a chover sem parar e no primeiro dia que fui dar o osso de chuva, ela fez aquela agitação antecipada e quando lhe entreguei o osso, foi uma expressão de “só isso” que vocês não imaginam. Agora tudo nessa casa tem que ser na base da salsicha.

Indireta astrológica

transitomercurio

Já li uma comparação que diz que, assim como um vinho é determinado pela safra das suas uvas e o envase, que um vinho feito na primavera é diferente do vinho feito no inverno, essa é a mesma lógica que a astrologia aplica às pessoas. Quando o bebê sai da barriga e na primeira respiração, é marcado para sempre pelo céu daquele momento. Ele será um bebê diferente se nasceu de dia ou de noite, na primavera ou no verão, em 1990 ou 2020. Daí porque, apesar da precisão dos cálculos que demonstraram que a Astrologia sempre soube que a Terra não era o centro do universo, os cálculos são antropocêntricos – cada pessoa que nasce é um centro de universo. Sendo a Terra o centro, os planetas podem ser visto como interiores ou exteriores: interiores são os que estão entre a Terra e o Sol, a saber, Mercúrio e Vênus. Os exteriores, os que estão fora da trajetória da Terra: Marte, Júpiter, Saturno, Urano, Netuno e Plutão. Os três últimos, de tão distantes e lentos, exercem influências sobre gerações e são deixados de fora em análises tradicionais da astrologia védica e, na astrologia ocidental, costumam ser levados em conta depois de uma certa idade, quando a pessoa está mais madura.

Nós chamamos de planetas e o termo hindu Grahas parece se referir mais a corpos que estão no céu e nos influenciam. A cada momento, eles estão num lugar diferente do céu, e o círculo onde costumamos ver o mapa também pode representar uma grande mesa redonda. De cada posição, os planetas se vêem de uma maneira diferente, e com isso entabulam conversas diferentes. Algumas são tensas e outras são boas; alguns planetas se dão tão bem que quase nada é capaz de abalar sua amizade, outros tem uma relação tão difícil que mesmo aspectos benéficos ficam complicados. Saturno é tão sério, velho e responsável, que eu sempre o imagino como aquele que entra na roda e deixa o clima pesado; por outro lado, sem ele, talvez a coisa descambasse pra uma festa regada a sexo e drogas que destruísse a casa. Na astrologia, o Sol é planeta porque também está na festa. Para entender a “personalidade” dos planetas, cada linha apela para as mitologias das suas culturas – na ocidental, os deuses gregos e na védica, a mitologia hindu.

Quero falar de um aspecto específico com o Sol. O aspecto é a conjunção. A conjunção é quando os planetas ficam muito próximos um do outro, a menos de 10º de distância. É como se eles se tornassem um casal, porque passam a fazer tudo em conjunto – as características são combinadas e o que afeta um, afeta o outro na mesma proporção. Isso é bom ou ruim? Basta pensar nos casais de verdade: quando você junta pessoas compatíveis, que se ajudam mutuamente, estar em conjunção é bom. Em outros casos, as pessoas podem estar juntas e brigar o tempo todo, ou um pode tirar vantagem do outro. O Sol tem uma especificidade quando em conjunção que, por incrível que pareça, o torna um planeta maléfico. Simbolicamente o Sol é o nosso ego, o nosso centro. Ele representa figuras de autoridade, como o pai ou o rei; é orgulhoso, confiante, forte, vaidoso. Pensem no que é estar ao lado de alguém assim. Numa maneira mais física, basta lembrar que o sol é uma bola de fogo. Ele é quente e brilhante demais, ficar muito perto se torna desagradável. Por isso, quando um planeta fica muito perto do sol, isso não faz bem a ele. É como se o planeta fosse queimado e ofuscado pelo sol, aspecto que na astrologia é chamado de combustão. Um planeta em conjunção com o sol fica combusto.

Agora eu volto ao que disse lá em cima, sobre os planetas interiores. Vênus e Mercúrio estão muito próximos do sol, eles são pequenos e suas órbitas são muito rápidas. Isso faz com que eles entrem no temido movimento retrógrado com frequência (e saem dele rapidamente) e nunca estejam muito longe do sol. No mapa, eles sempre estão perto do signo solar natal, ou seja, você nunca verá alguém com Sol em Áries e Mercúrio ou Vênus em Libra. Se a pessoa tem Sol em Áries, ela terá Mercúrio em Áries mesmo ou lá por Peixes ou Touro, ou seja, no máximo um signo de distância. Vênus fica mais longe do Sol, então pode chegar, no exemplo, até Touro ou Aquário, ou seja, dois signos de distância. Mercúrio, na mitologia grega, é o mensageiro. É o planeta que associamos à inteligência, rapidez, comunicação. É considerado um planeta neutro, nem bom e nem ruim, porque se adapta à circunstância. Ele fornece os instrumentos, como uma faca que pode ser usada na cozinha ou para matar. E é, de todos os planetas, o que fica mais tempo combusto. Ou seja, em grande parte da população, as características do Sol atrapalham a atuação de Mercúrio. Elas acham que estão olhando a realidade de maneira fria, inteligente e analítica, sendo que na verdade estão sendo egóicas, orgulhosas e autoritárias, estão contaminando a sua análise porque não separam conceito de personalidade. São incapazes de discutir ideias como algo separado delas,  por isso se sentem pessoalmente ofendidas quando alguém discorda das suas crenças. Ideia, conceito, crença, auto-imagem – tudo está misturado. Vai dizer que não é?

Limpinho e correto

constelações

Eu falei dos ashwinis no último post porque tem a conclusão bacana da parte do meu irmão; se a minha intenção fosse apresentar a astrologia védica, aquele seria minha última escolha. Porque o que eu acho muito legal da história dos nakshatras é justamente eles não serem limpinhos e equilibrados como na astrologia ocidental. Mesmo sem perceber, aplicamos a ela aquela lógica de final feliz de filmes americanos, onde cada ponta solta gera uma resposta. Acho que Ashwini é o que tem a melhor descrição de todos, melhor no sentido de positiva. Mitologia indiana é muito antiga e muito pra lá de politicamente incorreto. Eles não têm a preocupação de dizer que todo signo é igualmente bom e ruim – alguns nakshatras tem descrições tão negativas que você decide que nunca gostaria de cruzar com uma pessoa dessas na sua frente, ou, caso você o tenha, que nunca vai poder dizer pra um indiano que aquele nakshatra aparece no seu mapa, sob o risco dele lhe virar a cara. Na história do Krittika, as coitadas das Plêiades foram expulsas por um adultério que não cometeram e ninguém se deu ao trabalho de desmentir. Tem nakshatra que fala que a vida vai ser muito difícil, de puxa-sacos manipuladores, de bem-sucedidos incapazes de ternura, que predispõe a incesto. Assim como há, quando se vai pensar em mapas para casais, três tipos de pessoas: as que beneficiam e fazem bem a quem quer que esteja do seu lado, as que tem uma troca regular e, por fim, aqueles que se aproveitam e prejudicam o parceiro.

O pressuposto básico da astrologia que uma pessoa é seu local e horário de nascimento, é altamente contestável – mas sabemos que os indianos têm razão, o mundo e as pessoas são mais do que defeitos e qualidades igualmente distribuídos numa balança. Os melhores astrólogos que tenho visto falam a mesma coisa, que a graça não é querer fazer previsões e dizer que é assim ou assado e sim aprender com essas metáforas, entender o que os nossos ancestrais tentaram nos falar, o que temos em comum com pessoas que viveram em outras épocas e também amavam, sofriam e pensavam sobre a vida. Existe algo de atraente nos nakshatras, nos Irmãos Grimm, nas Fábulas Italianas do Calvino; é mais humano do que um autor qualquer possa criar, elas transmitem muito mais do que a nossa mente cheia de tabus é capaz de reproduzir. Tenho me refugiado nos nakshatras porque encontro neles verdade, variedade e tempero, enquanto o mundo lá fora busca a pasteurização, odeia a variedade, nega o diferente.

Ashwinis

ashwini

(Vocês não sabem a dificuldade que tem sido não falar sobre política o tempo todo. Seguimos)

Finalmente consegui baixar um livro que estava a fim de ler faz tempo, sobre nakshatras. Eu tenho uma maneira caótica de estudar, sou obsessiva e consumo tudo, indo e voltando pros assuntos, o que faz com que eu não entenda nada e entenda tudo ao mesmo tempo. Comigo funciona. Algumas coisas que a astrologia védica que eu ao meu respeito são tão dolorosas – e devo reconhecer que acertaram na mosca – que acho que jamais terei coragem de ler um mapa védico pra alguém, caso um dia consiga. Sobre os 27 nakshatras, embora já tenha lido sobre todos, retomo e tento personalizar. É muito mais fácil prestar atenção quando ele fala de você ou de alguém que você conhece. Então o primeiro de todos, o Ashwini, é bastante fácil pra mim porque meu irmão tem a lua em ashwini (o que torna esse nakshatra o seu signo védico, digamos assim) e eu tenho marte e vênus lá.

Um pouco do nakshatra: ele é simbolizado por dois cavalos. A esposa do sol precisava de um tempo, porque o marido dela era literalmente muito quente, e fez uma cópia de si mesma para que ele não notasse sua ausência. Mas ele notou, quando a sua clone tratou mal um dos filhos deles. O sol foi atrás da esposa pela floresta, que se transformou numa égua, e ele se transformou num cavalo, e da união deles nesse estado nasceram os gêmeos Ashwinis. Numa das histórias, para descobrir o néctar da imortalidade, eles substituem a cabeça do sábio que tem a receita, porque um deus disse que cortaria se ele revelasse o segredo. Ele revelou, a cabeça foi cortada, mas era a cabeça de um cavalo e os Ashwinis colocaram a cabeça original no lugar depois. Por causa disso, esse nakshatra tem ligação com medicina, cirurgia, dons de cura. Em outra história, os aswinis quiseram casar com uma princesa que havia estourado sem querer, pensando que eram besouros, os olhos de um sábio, e foi viver com ele na floresta. Os Ashwinis eram fortes, jovens e bonitos, enquanto o marido dela era velho e cego, e mesmo assim ela não aceitou. Eles então ofereceram tornar o marido dela jovem e recuperar a visão, mas a princesa teria que escolher um dos três para se casar e eles estariam muito parecidos. O casal topou e a mulher, muito virtuosa, conseguiu saber qual era o marido dela. Essa história fala dos outros dons dos Ashwinis: restaurar a visão (há outra história com o mesmo tema), beleza, juventude e correção de caráter (por terem cumprido a promessa. No mundo das lendas védicas tem cada uma…). Quando um nakshatra é simbolizado por uma animal, conhecer o comportamento do animal é conhecer a natureza do nakshatra. Por serem representados por cavalos, os ashwinis são rápidos, fortes, inteligentes, dóceis e gostam de espaços amplos.

Eu tinha visto várias referências que diziam que era comum que irmãos gêmeos tenham esse nakshatra. Nunca dei importância, porque não sou. Hoje descobri que é possível que a pessoa tenha como se fosse um falso gêmeo, um outro muito parecido com ela. Aí pensei no meu irmão, e a maneira como nos achavam gêmeos durante boa parte da nossa vida, apesar de termos um ano de diferença. Pensei em nós dois de mãos dadas no recreio do colégio na nova escola e me emocionei. Ele é ashwini, eu também, somos mesmo gêmeos um do outro. Aí fiquei emocionada.

Nodo faminto

rahu

Quanto mais leio sobre astrologia védica, mais me parece que não sei nada. E ainda por cima devo estar desaprendendo o que eu sabia da ocidental. Mas tão lindas as histórias! Olha que diferente a maneira como tratam os nodos: os nodos norte e sul existem em ambas, embora a astrologia ocidental dê tão pouca importância ao nodo sul que geralmente ele nem aparece no mapa. São pontos matemáticos relativos à posição do sol e da lua e cobre um eixo de casas opostas, a saber: casa 1 e 7, casa 2 e 8, casa 3 e 9, casa 4 e 10, casa 5 e 11, casa 6 e 12. Se você o nodo sul em uma casa, necessariamente o nodo norte está na direção oposta, nodo sul na casa 1 indica que o nodo norte fica na casa 7 e por aí vai. A astrologia ocidental não gosta de pensar em vidas passadas, então geralmente falam que o nodo sul trata daquele assunto que você já domina, por isso ele lhe é sem graça, enquanto o nodo norte fala daquilo que você deve procurar aprender. Tudo muito limpo e racional.

Agora, à maneira védica: Rahu é o nodo norte e Ketu o nodo sul, também chamados, respectivamente, Cabeça do Dragão e Cauda do Dragão. Ele era uma espécie de demônio, que provou do néctar da imortalidade apesar de não lhe ser permitido. Vishnu tentou detêlo e o cortou – como ele já estava imortal, virou um corpo com dois pedaços. Ketu é a cauda e indica o que já foi feito repetidamente nas vidas passadas. É um corpo sem cabeça, burro; indica facilidade e isolamento, o que vem fácil mas sem o menor sabor, e espiritualidade. Rahu, como cabeça sem corpo, come sem parar porque não tem um estômago pra reclamar que já está cheio. Mais do que o que buscamos nessa vida, Rahu mostra onde temos uma verdadeira compulsão. A sua energia se molda de acordo com o lugar do mapa que ele está, mas numa versão “com esteroides”: exagerado, indomável, apto a tomar atalhos para conseguir o que quer. Enquanto Ketu fica quietinho no canto dele, Rahu quer fama, holofotes, prazeres. Ele é a figura simpática que coloquei para ilustrar o post.

Por mais que os dois termos falem do mesmo ponto matemático, Rahu e Ketu não são muito mais interessantes do que nodo norte e sul?