Ao lado do brilhante

Tem uma história meio difícil de entender, pelo menos na astrologia védica. O Sol é o sol, nossa essência, mas a védica o considera maléfico porque, dentre outras coisas, ele queima. Então um planeta ao lado do sol é considerado combusto, como se perdesse suas propriedades. A melhor explicação que vi a respeito dessa história de perder atributos é pensar em como é uma pessoa muito brilhante e extrovertida entrar num ambiente que ela domina, e ao lado dela está… eu. Quando a pessoa brilha muito, o quieto praticamente some ao lado dela, tem que fazer força para lembrar que ele também está na sala.

Sempre me perguntei o que eu deveria fazer, se deveria tentar me extroverter e brilhar. É a típica lose x lose situation: se você tenta se forçar e dar uma de extrovertido, sente que está sendo falso e forçando sua natureza; se você se acomoda, se acusa de ser mesmo um inútil, um nada, um bosta. Um dia vi este debate entre o Darcy e o Rubem Alves e me convenci que, embora a situação continue sendo lose x lose, o melhor que um introvertido tem a fazer é se recolher no seu cantinho e deixar o outro brilhar. Tentar competir com o sol só nos diminui pelo contraste.

Curtas de boi preto conhece boi preto

boi preto

A expressão que está no título me fascinou desde a primeira e única vez que a ouvi, não sei se é uma expressão comum. E, no contexto em que foi dita, também não sei se é verdade. Não sei se vocês lembram, mas tinha uma época que a Giseli Bündchen namorava o DiCaprio. E o Clodovil disse num programa que era um namoro de fachada, que o DiCaprio era gay. De onde ele tirou aquilo? Boi preto.

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Boi preto que conhece boi preto. Li o mapa astral de uma amiga que tem um Saturno muito forte. Contei pra ela todos aqueles atributos: velho, sério, lento, rigoroso, espartano e também confiável, compromissado, capaz de grandes feitos. Diagnostiquei que ela foi uma criança séria, que se dava bem com gente mais velha porque sempre se sentiu velha. Quase sem sentir, ela falou: “você também tem um Saturno forte no teu mapa, né?”. Ou seja, entendeu a beça do próprio mapa e de mim.

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Na minha família havia uma forma bem particular de fazer críticas. Digamos assim, eu estou usando um tênis feio com um vestido. Entende-se que não adianta falar que o tênis é feio, quem disse que eu tenho outro. A providência era me dar outro tênis, para que eu pudesse me livrar daquele e usar um certo. Então você recebia certos presentes e entendia o recado. Era bom e ruim ao mesmo tempo.

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Eu me toquei há pouco tempo que vááááárias vezes falei que me surpreendi em ver o quanto o pessoal da dança é convencional. Penso muito em referências de teatro. Ator entrega o corpo de uma maneira muito mais radical. Perto de um ator, ainda acho o bailarino muito vaidoso, muito com medo do ridículo. Mas, enfim, estou sendo uma chata porque só sei dizer que é pouco, eu nem ao menos saberia explicar o caminho.

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Ouvi a pergunta extremamente pertinente do porquê fazer um mapa astral. Pra auto-conhecimento. Eu, por exemplo, só tive real dimensão do quanto sou difícil com meu mapa.

Curtas de Marie Kondo na alma

Já haviam me alertado que exame pra glicose, sozinho, não esclarece muito. O lance é o tal da glicose glicada. Aí, apesar da minha glicose ainda estar aceitável, deu que a glicada já está em estado de alerta. Por coincidência, minha padaria lançou uns bolos minúsculos. Deve corresponder a uma fatia. Mas, na gordice do cérebro, tô comendo um bolo inteiro ainda.

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A casa onde meu pai vivia vai ser posta à venda e sei que vai ser um trabalhão sair de lá. Nossa, que trabalhão. Minha mãe que não vê a casa desde a separação, não entendeu como eu podia afirmar tão enfaticamente que daria um trabalhão. Me expliquei assim: “sabe aquelas limpezas que você faz todo ano e sempre joga alguma coisa fora? Então, lá eles nunca fizeram”. Nossa, então vai dar um trabalhão mesmo. Pois é.

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Fiz uma mini Marie Kondo aqui quando arrumei o guarda-roupa. Coloquei os vestidos juntos, as saias juntas, as camisetas juntas. Abri um espaço milagroso no guarda-roupa. Sempre parece que não vai dar, porque eu já tenho pouca coisa e tenho pouco espaço, etc. Arrumações desafiam as leis da física.

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Tem uns troços no meu mapa astral que me avacalham de uma maneira que… ensaiei várias vezes escrever um post sobre um deles, mas tenho me segurado. Primeiro, porque algum infeliz pode ter o mesmo aspecto (não conheço ninguém) e querer se jogar da ponte. Depois, porque uma vez usaram contra mim coisas que escrevi aqui e não foi nada legal. Pois. Uma das coisas duras e necessárias que descobri com meu mapa é que não sou realmente uma pessoa fácil. Tem todo um contexto e tal, mas o tal aspecto fala de “rejected and scorned by society” (rejeitado e desprezado pela sociedade)

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Quando arrumei o guarda-roupa, constatei que realmente preciso de mais camisetas. Esta constatação me deu uma carta branca interior para comprar uma camiseta que eu já tinha achado legal, mas não ia comprar agora porque tive uns gastos. Lá dos meus amigos da Vudu. Aí vou falar sobre o comprovante de depósito, abro o chat e… eles me chamam de “comunista paulistana escondida em Curitiba”. Tô ficando boba: fiquei com calorzinho no peito e pensei que até que tenho feito algumas coisas certas na vida.

be happy

O pior melhor de todos aspectos para o amor

meninas montam carneiros

Animada com os lindos Lua e Júpiter visíveis no céu, fiz um vídeo curtinho, desses que somem da rede em poucas horas, e um amigo disse que queria ter tido tempo de me fazer falar sobre Vênus em Áries. Fiquei sem graça, ele mesmo falou: “é ruim, né?”. Eu, como todo mundo, também gosto de respostas simples e que, de preferência, essas respostas me digam que tudo será ótimo de agora em diante. Mas agora que eu me vejo no papel de fornecer as respostas, fico com receio desse sim ou não, especialmente do não, porque ele pode levar facilmente a uma vitimização (“eu sabia, culpa de Vênus que estava no lugar errado!”) e a vida (e os astros) não é assim. Eu já vi gente muito melhor do que eu, com mais dinheiro, amor, amigos, apoio, emprego e até mapa astral, e que reclama como se fosse o mais azarado da Terra. Tudo é relativo, de verdade.

Pra começar, o bom ou ruim. Vivemos num momento que o outro lado é sempre acusado de ter ideologia, como se existisse um estado puro fora da ideologia e que toda ideologia fosse algo ruim. Ideologia é background e tudo bem background. Até mesmo a sua língua nativa é background. Em algumas línguas existem as palavras bom e ruim, em outras existe bom e não-bom; para alguns idiomas, dependendo do sexo e idade dos falantes, há toda uma hierarquia nos pronomes de tratamento. Essas coisas definem o modo das pessoas pensarem de maneira tão profunda que elas nem percebem. Astrologia também não deixa de ser uma ideologia. Pensando nessa questão de Vênus em Áries ser ruim para o amor, pensei no que era bom para o amor e cheguei em Vênus em Touro e Saturno na casa 7, a do casamento. Há uma visão de amor por detrás disso. Touro é o signo mais lento de todos, assim como Saturno é o planeta mais lento da astrologia tradicional (que desconsidera Urano, Netuno e Plutão). A noção por detrás é clara: amor precisa de tempo. Áries vê, conclui rapidamente, age sem pensar, conquista, enjoa. Com Touro e Saturno, as coisas são mastigadas, elas demoram a serem postas em movimento. Em contraste com o fulgor apaixonado de Áries, são até tediosas, previsíveis. Mas, uma vez que comecem, avançam de maneira inexorável. Dizem que o casamento de Saturno na 7 é aquele que começa praticamente sem paixão e termina com velhinhos fofos de mãos dadas.

Frequentadores de Tinder me garantem que se não rola nada depois do primeiro encontro, nem ao menos um beijo, é provável que a pessoa já tenha te bloqueado no whatsapp antes de você chegar em casa. Bauman chama de relações líquidas, diz que geram insatisfação e são impossíveis de serem preenchidas. Bom ou não, este é o estado atual das coisas, muito mais Vênus em Áries do que em Touro, menos ainda Saturno. Ou seja, o que os astros dizem, o que os outros dizem, o que a sua época diz… no fim, tudo volta para a mesma questão de sempre: o que você é capaz de fazer com o que tem.

O ponto de “já sou tão bom que não ligo”

Um dos orgulhos que levarei comigo para o túmulo é o fato de agora conseguir fazer uma saída decente quando nado. Já falei disso aqui. Deve fazer uns cinco anos que treino a bichinha. Morro de orgulho porque parti do zero, de precisar que o professor segurasse a minha mão pra eu ficar de pé em cima do bloco e descer, tamanho o medo que eu sentia da altura daquilo. Pra quem faz desde criança, fazer esse salto não é nada. Aí pensei no que representa o Nodo Sul num mapa astral.

Se você fizer um mapa em qualquer site ocidental, ele vai mostrar onde mostra o Nodo Norte e não vai mostrar o Nodo Sul. O argumento é que não é importante colocar, o Nodo Sul está sempre oposto e pronto. Mas se não está lá, atrapalha na hora de ler. E isso mostra o quanto os Nodos, tanto um quanto o outro, não importam muito para a astrologia ocidental. Para a védica, eles são Rahu e Ketu, que eu descrevi aqui.

mapa zuc

Ketu ou Nodo Sul, fala do que sabemos demais. Você pode acreditar que sabemos demais por encarnações anteriores ou apenas que sabemos demais porque aprendemos com nossos pais e nossas primeiras experiências. Quando sabemos muito uma coisa, ela é um assunto dominado, que não precisa voltar mais, rola um desprezinho. Nos damos ao luxo de sermos totalmente exigentes, porque temos um modelo de perfeição na cabeça. É como aquele aluno CDF que fica de bico porque tirou 9,8. Quem aprendeu a fazer saída desde criança o faz com perfeição sem precisar pensar. O desejo fica sempre no oposto, no que não dominamos e gostaríamos muito de saber fazer. O tanto que assisti vídeos de saída, os olhares que eu jurava sentir cada vez que me aproximava da borda da piscina, a sensação de que era constantemente avaliada. Quando queremos muito, damos importância. Mas meu sentimento de humilhação também era tão grande que eu não conseguia ficar nesse estado durante muito tempo, eu tinha que compensar com outra coisa. Lembrar que eu nadava bem, lembrar que sou boa em outras coisas na vida. Por isso que dizemos que o eixo Nodo Norte e Nodo Sul é uma dança, a pessoa alterna um estado e outro. Não ligamos, partimos pro desejo, não conseguimos lidar muito tempo com a falta e voltamos ao sabido, porque é mais quentinho.

Aí os insights disso num mapa são geniais. Às vezes o nojinho já completamente dominado é se relacionar com os outros, às vezes é a sua relação com dinheiro, às vezes é a família. O que é dominar cada uma dessas coisas, como isso altera nossa relação com o mundo, o quanto isso explica as escolhas na vida?

O futuro nos filhos

olhar bebê

Sobre ter filhos, fiquei muito aliviada quando vi que no meu mapa astral há um aspecto que: “é possível que não queria. Ou que queira e tenha problemas de fertilidade. Se tiver, que tragam problemas. Os filhos serão um fardo pesado, por eles terem problemas de desenvolvimento, comportamento rebelde ou que não haja amor no relacionamento com eles. Pode ser que crie os filhos dos outros. Se for para ter filhos, melhor ter só depois do quarenta.” Como ler isso e não ficar aliviada por nunca ter desejado ser mãe?

Lembro de ter ouvido o meu pai dizer diversas vezes que os filhos dele teriam que se virar. Ele sempre foi contra esse modelo que os pais enriquecem e dão tudo aos filhos, estragam com excesso de riqueza. Por isso, meu pai tratou de gastar todo seu dinheiro ele mesmo. Hoje os amigos dele invejam seus filhos cheios de iniciativa e razonabilidade, enquanto os dos outros são encostados e irresponsáveis. Eu acho, apenas acho, que quando ele fez esse cálculo sobre não estragar, ele não poderia prever o que aconteceria com o Brasil. Ele vem de uma época que aos quarenta a pessoa com diploma já poderia ter casa, carro e casa na praia. Hoje, nossas pós-graduações não nos ajudam nem a arranjar emprego. Queria poder me dar ao luxo de ser um tiquinho irresponsável, como os filhos dos amigos dele são. A minha responsabilidade e a dos meus irmãos vêm da aguda consciência de que, se você cair, terá que não apenas se levantar sozinho como pode ser pisoteado pela multidão.

Eu vejo o fim da aposentadoria, os ataques à educação e a precarização do trabalho de uma posição mais confortável do que a maioria da população, apesar de não ser confortável a ponto de não me deixar afetar. Mas vou te dizer que não ter descendentes, saber que me preocupo apenas comigo, diminui muito essa preocupação. Eu tenho que garantir o meu e as pessoas mais importantes pra mim vão morrer antes ou mais ou menos na mesma época que eu. Gerações que virão com poucos e mal remunerados empregos, com pouca inteligência corporal e capacidade de concentração, tudo soa tenebroso mas não estarei aqui durante muito tempo para ver. Já sou um ser humano formado e boa parte do meu caminho já foi traçado.

Mas meu irmão cedeu ao imperativo biológico de reproduzir a espécie, a alegria de se ver perpetuado num outro ser, e inventou de ter uma filha. Agora ele está preso ao futuro de uma maneira que nunca estarei e decidirá da mesma forma que nosso pai um dia decidiu. Este não é o mundo que eu gostaria de deixar para alguém que eu amo.

Surya, Saturno e como mesmo o triunfo não é como e quando gostaríamos

(Se você gosta quando eu falo de astrologia, dá pra entender isto como astrologia. Se não, é possível ler como “a vida é assim mesmo, dura”)

Eu peguei o costume de ficar vendo mapa astral de famosos. Leio qualquer coisa, tipo “Michael Jackson era muito ligado à mãe”, e procuro o mapa astral do vivente no google. Aí dou uma olhadinha rápida, só pra ver se acho um padrão. (No caso de ser muito ligado à mãe, procuro a Lua). Numa dessas muitas olhadas, vi o mapa da patinadora Surya Bonaly, que aparece na série Losers (da Netflix, já recomendada aqui). Ela tem Saturno bem junto ao meio do céu. Planeta junto do meio do céu costuma ser uma excelente indicação para a carreira. Ao mesmo tempo que é um aspecto fortíssimo de longevidade, ambição e ser o melhor na sua carreira (outra que descobri com este mesmo saturno é a Rainha Elizabeth), Saturno é sempre Saturno, o planeta das provações e dos atrasos. Aquele que sempre promete o que cumpre, mas que cobra muito antes de entregar.

A história dela é muito impressionante. Todo o esporte que Surya praticava, rapidamente se tornava a melhor. Era claramente um gênio. Começou a patinação artística e logo se tornou a melhor da Europa. Mas, em Olimpíadas e Olimpíadas de Inverno, Surya esbarrava no preconceito. O eufemismo usado era que ela era boa, porém muito exótica. Na prática, mostrava que os juízes não conseguiam aceitar uma rainha do gelo fora do padrão Disney: loira, branca, delicada. Surya era uma negra poderosa, que fazia coisas que nem os melhores patinadores masculinos eram capazes. 

Imagine que duro deve ser ter certeza e todas as provas de ser o melhor da sua área e, ao mesmo tempo, não receber o que lhe é devido. E me parece que com Saturno é assim, a sensação de bater numa parede, dar o seu melhor e mesmo assim as suas forças se provarem insuficientes. Diz que o objetivo é fazer com que a pessoa trabalhe ainda mais duro. A cena dela tirando do pescoço a medalha de prata, que os puristas acusaram de falta de espírito olímpico, dá para entender perfeitamente dentro do contexto. Uma menina, que trabalhava muito, era a melhor, e faziam questão de não recompensar. Tudo o que eu leio sob o governo de Saturno diz: “xiiii, antes dos 30 nem adianta”. “Antes dos 34 não adianta”. “Se tiver outros aspectos envolvidos, dá pra ir acrescentando cada vez mais anos”. Mas chega, garantem. Saturno não dá o que você quer na hora que você quer, mas às vezes pode entregar mais do que você imagina.

No caso de Surya, o que se entregou foi muito maior. Se ela tivesse ganhado aquelas medalhas olímpicas, seria apenas mais uma patinadora. A injustiça que Bonaly sofreu tornou o seu caso emblemático. Ninguém sabe o nome das patinadoras que ganharam dela; alias, eu nem sei o nome de outras patinadoras no mundo. E dizem que o que vem de Saturno nunca mais se perde. O Losers me deixou feliz em saber que ela está feliz, na vida pessoal e com sua história.

Uma última curiosidade: os pais de Surya viajaram muito para a Índia antes de adotá-la. Em hindi, Surya significa Sol. Surya e Shani (Saturno) são grandes inimigos nas histórias e, por consequência, na astrologia védica.

Dos simbolismos interessantes

homem ideal

que eu falei outro dia. Tem a casa 7, no mapa astral, que é o indicativo do cônjuge. Na modesta amostra me mapas que eu tenho, a pessoa ter várias planetas lá não faz com que ela case cedo ou case se relacione bastante, como seria minha primeira impressão. O planeta que está lá pode revelar o perfil de quem ela busca, então pense na confusão que é quando a pessoa tem vários perfis num lugar só. A pessoa tem lá Saturno em conjunção com Júpiter e uma pitada de Marte: ela quer um homem maduro, sério, mas que também seja idealista, otimista, quem sabe um professor, e ao mesmo tempo também jovem, cheio de energia e sexual. Quando um é jovem, não a completa porque falta maturidade; quando é mais velho, nem olha, mas quem sabe devesse porque ele preenche parte do que ela busca, e por aí vai.

Se você olhar bem, as pessoas que têm muitos relacionamentos são também aquelas mais flexíveis. Pode ser que sejam assim por serem pouco exigentes ou porque gostam da humanidade em geral. Às vezes tem aquelas parcerias estranhas, que quando o par vai embora, ela cochicha no seu ouvido: “meio besta, coitado. Só aguento porque…”

Uma pedante astrológica

planets

Adoro astrologia. Odeio perguntas sobre astrologia. Já cheguei cogitar a estudar a fundo e atender, mas atingi aquele ponto em que eu gosto tanto que começo a me irritar. As histórias dos planetas, os seus temperamentos, os significados associados às casas, os elementos, as relações matemáticas. Você começa a se perguntar no que o mito tem a ver com a vida, como uma planta pode apresentar características de um planeta, as diversas formas que um tema pode aparecer – namoro e relacionamentos sérios; comida que você põe na boca e digestão; inimigos declarados e inimigos ocultos, etc. Você pega o seu próprio mapa e analisa ele o tempo todo, cada dia descobrindo uma coisa nova: uma hora é o poder de Plutão, outra hora é um sextil com ascendente, o quanto a casa 3 é importante, e por aí vai. Quando você vê o mapa da sua família, vê que tem aspectos que se repetem, e se pergunta o que tem em comum com eles, o que torna a família parecida. Por mais que os livros tenham tantas informações, é como se cada um fosse reinventando a astrologia, ao descobrir de novo, finalmente entender profundamente o livro quis dizer. Nos momentos de dúvida, se aguentar em ver que tudo tem seu tempo, a importância de Saturno e seu rigor. Acreditar em astrologia implica em acreditar que estamos todos relacionados; plantas, marés, animais, humanos, nada nos é estranho e nem indiferente. Comecei a estudar por não ter o que fazer com a minha pressa e o meu desespero, a terrível sensação de fracasso e falta de impacto no mundo. Meus problemas estão os mesmos e estão mais velhos, mas descobri muitas coisas a meu respeito apenas pela maneira de colocar questões de outra forma. Enfim, astrologia é complexa, é bonita, tem muitas implicações e várias formas de abordar. Talvez querer que ela te diga “como conquistar uma sagitariano” não seja errado, porque ela também é pra ser preditiva e ser uma forma de verdade. Mas não é o que eu gosto. Consultem em astrólogo, é legal. Ainda acho que é pegar um PHD em matemática e pedir pra explicar o Teorema de Pitágoras, mas aí o problema é dele.

Jeans e oráculos

Eu adoro comprar roupa online, especialmente da China. Antes (dólar baixo) era uma pechincha, saia quatro vezes mais barato do que ir numa loja. Depois de ser tão vantajoso e passei a comprar menos, mas continuei gostando. A ironia é que comprar em site é se basear em medidas e com base na foto tentar adivinhar como você ficaria. Justo eu, que quando preciso comprar um jeans sou capaz de experimentar vinte antes de me decidir por um – ou nenhum. Aí eu me dei conta de que talvez seja justamente por isso, porque no site eu me desobrigo e pessoalmente eu não posso não experimentar. Se eu não experimentar tudo, vou me condenar pelo resto do tempo, imaginando que um jeans muito mais perfeito estava à minha espera.

Bauman fala disso, outros autores falam disso, do quanto o excesso de escolhas acaba se tornando fonte de ansiedade. Aí estava pensando num meio atendimento que acabei fazendo com um amigo. Numa fase da vida dele, ele viajou para o exterior e que poderia ter acontecido algo extraordinário nesta viagem, que a vida dele poderia ter dado uma guinada. Eu fui determinista, disse que pelo mapa dele a viagem deu o que tinha que dar, que aquilo era um começo e não uma guinada. Lembro agora de um outro amigo que via cartas, e ele me disse que nove entre dez pessoas queriam saber de amor, os outros poucos tinham um problema específico de saúde ou queriam um emprego. Eu lhe perguntei se já apareceu gente que não iam arranjar um amor e ele disse que sim, e que falou para elas. Então, concluí que o que as pessoas iam lá ouvir que iam sim arranjar um amor, que apesar das aparências e da ansiedade havia alguém, era apenas uma questão de tempo.

Ninguém aqui nasce numa família de nobres ou servos e que lhe diz desde criança que você será nobre ou servo. Por mais que a mobilidade social não seja tão livre quanto se prega, crescemos com uma ideia de é tudo escolha nossa. Tudo o que eu sou e penso é fabricado a cada minuto e em cada gesto. Como se a vida hoje fosse um excesso de opções confuso e sempre escolhemos errado em algum lugar. Sempre, eternamente, nunca enxergamos o suficiente, nunca experimentamos o suficiente, era justamente o último jeans da loja que tinha o melhor caimento e mudaria nossas vidas. Procurar oráculos, mapas astrais, cartas, previsões é, no fundo, uma visão determinista. E o que ela nos diz é: você fez o seu melhor e o que tinha de fazer. Aguarde e confie.

Tenho respaldo da sociologia ao dizer: você não escolhe tanto assim.

Paul diz: Let it be. Confiem nele.

Os favores dos Deuses

shiva murudeswar

Eu acho fascinante como a cultura modifica a maneira de olhar o que até mesmo “deveria” ser igual. Astrologia, por exemplo, o quanto a abordagem do ocidente e do oriente é diferente. Já falei algumas vezes que o cálculo é diferente, que as lendas são diferentes, que as técnicas são diferentes. Mas o que eu acho de mais fundamental  são os tais “remédios” da astrologia védica. Nos primeiros vídeos que eu vi, peguei uns astrólogos falando meio mal, que não era pra colocar um anel no dedo e achar que com isso todos os assuntos relativos àquele planeta – Saturno para carreira, Vênus para amor e prosperidade, Sol para auto-confiança, etc.  – estavam resolvidos. Depois que eu entendi que eles não são tão dispensáveis assim. Enquanto numa leitura ocidental o astrólogo vai te dizer que você pode ter dificuldade de ser firmar na carreira e ser responsável, ou que tem que se esforçar muito para arranjar um casamento, na leitura védica você tem um karma ruim com relação a esses assuntos que precisa ser queimado. Somos muito self made man até em astrologia. Então você não é uma pessoa com uma carreira ruim, você está com Saturno fraco; ou não é uma pessoa com dificuldades na vida amorosa e sim tem um Vênus muito aflito no mapa. Você escolheu nascer assim, a questão não é um simples “rever atitudes”. Se você está sofrendo demais é porque a escolha saiu pesada, então o único possível é querer que haja uma misericórdia no pagamento de suas penas. Os “remédios” são para melhorar a relação da pessoa com os deuses relacionados ao assunto problemático. Há coisas que soam engraçadas, como alimentar corvos ou nunca aceitar amostra grátis. Como todo tipo de penitência, a pessoa aprende sobre si no processo e precisa de força de vontade (já psicologizei, olha o vício ocidental). E, sabe como são os deuses, o pedido é nosso e atender ou não é com eles – ou melhor, com a nossa possibilidade kármica.

Nascimento especial

indian chart

Já comentei que a astrologia védica não tem essa de dizer que todos os signos são bons, que todas as diferenças são válidas, etc. Eles julgam na cara dura. E fazem afirmações que a astrologia ocidental jamais teria coragem de dizer, tanto boas quanto ruins – que alguém tem tudo para ser famoso ou que jamais vai conseguir se sustentar e vai viver de favor pro resto da vida. Vi num fórum um desesperado porque queria confirmar que seria famoso e os dados dele não indicavam isso nem com boa vontade. A gente lê comparando os indícios como próprio mapa e descobre, como disse um dos astrólogos que eu sigo, que não é grandes coisas. Yogas lindas, grandes sinais de que a pessoa é iluminada ou que vai deixar sua marca no mundo e nenhum conhecido tem. A védica joga na cara que você é medíocre.

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Pra eles o horário exato de nascimento é ainda mais importante, porque eles dividem o mapa astral em vários pedaços e geram outros mapas astrais. Os indianos vêm a hora, minuto e segundos do nascimento, coisa que ninguém aqui tem registrado. Pelo meu horário de nascimento na certidão, eu tenho meu ascendente nos primeiros graus de áries. A união entre os graus finais de peixes e áries (câncer e leão, capricórnio e sagitário) é o que eles chamam de ponto gandanta. É como um buraco, a união nada suave entre um signo de água e de fogo. Enfim, é especial. Aí fui pesquisar meu possível nascimento especial. No google: gandanta born.

A crença é quando a vida se cristaliza em certo ponto, então nós viajamos em direção à manifestação mais elevada da alma e da consciência. Temos que passar por um momento particularmente difícil para preparar nossas mentes para o próximo passo na jornada de nossa alma. Se você nasceu em algum dos gandanta, pode esperar algumas dificuldades espirituais neste nascimento. Uma falta de apoio, uma sensação de transformação.

Um, não tão legal. Outro site:

Nascimento em Gandanta é uma das muitas falhas que podem acontecer no nascimento ou em um evento. Dependendo da natureza dos Gandantas, diferentes Shanti Upayas (Remédios) precisam ser realizados, caso contrário, pode haver perigo para a vida do recém-nascido.

Eita.

Phaladeepika 13.9: Se um parto acontece no extremo de uma Rasi que é ocupada ou aspectada por um planeta maléfico, a criança certamente encontrará sua morte imediatamente. Se o nascimento ocorrer em um Gandanta, o pai, a mãe ou a própria criança morrerão. No entanto, se a criança sobreviver, ele se tornará um rei. Se nascida na junção de qualquer um dos quatro quadrantes, idêntica à conjunção ou aspecto de um maléfico, a morte da criança acontecerá em breve.

Eu tô viva e já na Terra faz tempo, então pra mim foi bom.

Gandanta no nascimento do dia chama-se Pitr gandanta (perigo para o pai), enquanto Gandanta no nascimento noturno é chamado Matr gandanta (perigo para a mãe).

Poxa, gente.

Enquanto Chandra é o governador da mente e do corpo (psico-somático), Lagna é o governador da inteligência (Dhi). Assim, enquanto Rasi Gandanta afeta a saúde, longevidade e sustento, Lagna Gandanta resulta na perda de inteligência, desde que o Lagna ou o Lagnesha também sejam afligidos.

Me chamou de burra na cara dura.

Aí, num outro trecho, diz que se a pessoa nasce durante Abhijit Muhurat não é tão ruim assim. Nunca tinha visto o termo e fui pesquisar. Abhijit Muhurat é uma média do horário entre o nascer e o pôr do sol e cai geralmente entre meia noite e uma da manhã. É um horário sagrado. Aí eu pensei: oba, nasci em Abhijit. No google: Abhijit born.

Pai ou mãe tendo alguns problemas após o nascimento da criança, pelo menos, dentro de 3 a 5 anos de nascimento da criança. Como a dívida de negócios, a perda de pais de problemas de saúde da mãe, alguma grande doença encontrada. Tudo depende do horóscopo de três pessoas, precisamos analisar. Mãe pode enfrentar problema de saúde mental ou saúde física, na maioria dos casos eu vejo problema de saúde na mãe. Este não é um problema de saúde geral, é um grande problema ou qualquer doença anterior voltar ou aumentar em doenças anteriores. Caso pai, eu vejo muito provavelmente questões financeiras e relacionadas à carreira. A maioria dos casos no horóscopo Pai e Filho não é compatível entre si, então com um impacto negativo na Carreira [Finanças etc].

Melhor deixar pra lá essa história de gandanta, que tal?

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No whats, com uma amiga também cheia de gandanta no mapa:

Eu: andei pesquisando sobre os gandatas.

         Falam mal à beça da gente.

Ela: [Falam mal à beça da gente] Isso é fato.

Curtas de conclusões totalmente científicas

super placebo

A Dúnia passou um tempão de cone. O cone e impede de entrar na casinha com teto, então eu tiro. Por causa da largura do cone, entrar na casinha era meio enroscado, ela precisava erguer um pouco a cabeça, esbarrava, era triste. Aí, finalmente ela ficou sem cone e estava com tudo novo e limpinho. Passaram-se dois dias inteiros sem que ela pusesse os pés lá. Tive que mandar entrar, dar osso. Percebi que ela ficou com aquela imagem de que era difícil e resistia passar por aquilo de novo. Descobri que até cachorro desenvolve neurose.

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É mais do que sabido que se o Facebook nos oferece muito uma pessoa pra ser nosso amigo é porque a dita nos estalkeia, né?

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Os hindus são fogo. A explicação pra astrologia deles ser tão mais completa do que a nossa é que ela tem milênios de anotações e observações, ao contrário da nossa que vai e volta. Descobri que eles têm casas e aspectos que dizem se a pessoa é boa ou ruim de cama. Agora, como viver sem pedir pra ver o mapa do pretendente antes mesmo de começar? (e não adianta vir me perguntar inbox, tem que saber meia dúzia de princípios pra entender)

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O único momento da vida que é melhor ser mulher do que ser homem são as roupas de verão. A gente tem diversos comprimentos de calças, saias, bermudas, decotes que contemplam várias partes do corpo, opções de sapatos e onde começa o braço. Eles, de bermuda já ficam informais e de regata receberão olhares. Mas, ao mesmo tempo, a arma mais poderosamente indestrutível da espécie humana é o ego masculino. Coloque-o na posição mais desfavorável, pense que ele foi soterrado pelos fatos e reduzido à sua insignificância, que ele ressurgirá assim mesmo, quem sabe até mais forte, igual vilão de filme de terror.

Dashas e vida de borboleta

zodiac copy

Se pegar um mapa normal de astrologia, normal digo ocidental, eu sei dizer mais ou menos quais são os trânsitos que estão acontecendo. Já a astrologia védica tem um cálculo tão diferente, que por mais que eu olhe, ainda não consegui entender a lógica. Fui em sites e procurei os tais dos dashas, e cada dasha tem os subdashas, digamos assim, que são as subdivisões dos períodos. Alguns duram anos, e começam no meu aniversário, outros duram meses outros sei lá daonde. Não foi nada bom saber que estou em Rahu-Saturno e as referências dizerem que une o mais temido com o pior. Preveem que eu procurarei um astrólogo, o que entendi que era outra forma de dizer: você vai ficar bem desesperada e vai pagar alguém pra te dizer o que está acontecendo. E, de fato, tentei procurar um astrólogo védico. Meu dasha temido e pior começou em 2017 e vai até 2020. Pensem na minha alegria ao ler isto.

Aí, CDF do jeito que eu sou, copiei tudo no word e transformei numa tabela. Período, quando começou, quando terminou e um espaço em branco do lado. Coloquei no espaço os fatos relevantes da minha vida, pra ver se entendo a lógica da relação entre os fatos e os períodos. Que.ex.pe.ri.ên.cia. A vida me bater na cara e me dizer que não sou importante já tem sido tão frequente que já chego protegendo o rosto, mas desta vez foi diferente. Eu me senti uma borboleta – nunca minha vida me pareceu tão curta e irrelevante. Anos e anos de espaços em branco, nada de realmente significativo pra registrar.

Nasci.

Mudança pra Curitiba.

Mudança pra escola pública.

Entrei na faculdade.

Terminei faculdade.

Atelier.

Casei.

Outra faculdade.

Flamenco.

Separei.

 

Omiti uma ou duas coisinhas muito íntimas, mas basicamente é isto. E se for pensar no que eu realmente decidi, no que manifesta meu livre arbítrio e decisões enquanto pessoa, são ainda menos itens. A gente toma uma ou duas decisões na vida, o resto é tempo perdido no trânsito.

Homem-Pisa e Quíron

quiron

Numa das muitas histórias dos pacientes descritas nos livros do Oliver Sacks – não sei dizer em qual – tem um homem que estava com um problema no centro de equilíbrio. Ele andava inclinado pro lado, as pessoas diziam que ele parecia uma Torre de Pisa. Mas pra ele, ele estava certo. Era mais do que um problema de equilíbrio, era um problema de propriocepção, porque o corpo sentia que estava certo um equilíbrio que estava errado. Então ele inventou uma barra em cima do óculos, um prumo minúsculo, que ele consultava discretamente quando olhava pra cima e se corrigia. Ele sabia que não podia confiar no que sentia e encontrava uma regulagem exterior. Talvez de tanto submeter o cérebro à medida exterior, quem sabe ele tenha se corrigido.

Antes eu achava que ser sábio, maduro ou terapeutizado era muito a mágica das palavras, como se ao ser exposto à luz, o que há de mal resolvido se alterasse, tipo uma reação química. Para algumas coisas, até reconheço que seja. Mas tem uns traumas que você conhece de cor, toma café com ele todas as manhãs e tá, e daí. Existe na astrologia contemporânea aspectos formados pelo asteroide Quíron. A história de Quíron, um centauro que é filho de Cronos e não sabe, divino demais para um centauro e ainda assim animal, ferido por uma flecha e incapaz de se curar ou morrer da ferida, é uma das lendas mais tocantes que eu já li. LEIAM AQUI. Quíron é chamado de “o curador ferido”. Quíron diz assim: você foi ferido e nada mais muda o que aconteceu, mas esta dor te torna apto a ajudar os que passam pelo mesmo. Já vi astrólogo dizendo que Quíron é o Quasimodo do zodíaco. Eu concordo.

Não some quando toma ar não. Quasimodo nunca ficou bonito e na história original nem ao menos fica com a mulher amada. Uma vez um amigo que ia fazer terapia disse que eu estava estragando o processo antes mesmo de começar, porque eu lhe disse que terapia não nos muda. Psicanalistas concordarão comigo. O que se aprende é saber o que está lá, que existe um pedaço torto e ele nunca será normal e é preciso seguir em frente e ser feliz assim mesmo. Que temos uma lente viciada e mesmo com toda nossa alma, lógica e razão gritar que estamos certos, pode ser que na realidade estejamos ridiculamente inclinados.

Planetas maléficos e gente malvada

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A astrologia ocidental, talvez contaminada pelo politicamente correto, tem abandonado os termos como “maléfico”, “detrimento”, “exílio”, “queda” para falar das posições dos planetas porque as pessoas ficam aborrecidas e nem sempre entendem o que quer dizer. A “queda” do Sol é em libra, ou seja, de todos os nascidos mais ou menos entre 21 de setembro a 21 de outubro; Júpiter está em “detrimento” em gêmeos, ou seja, ruim? Nos termos abandonados, Júpiter é o “grande benéfico” e Vênus “pequeno benéfico”, enquanto Saturno é o “grande maléfico” e Marte o “pequeno maléfico”. Para a astrologia védica, saber o que é maléfico ou benéfico é essencial. Já vi a metáfora que é ter amigos x inimigos, e que eles sejam poderosos x sem poder. A melhor combinação é amigo poderoso; se for para ser seu inimigo, melhor que seja sem poder; amigos sem poder até torcem por você, mas poucos podem ajudar; inimigos poderosos te fazem pensar duas vezes antes de sair de casa. Na astrologia védica: Mercúrio é neutro; Júpiter, Vênus e Lua benéficos; Saturno, Marte e Sol maléficos. Os planetas exteriores – Urano, Netuno e Plutão – não são levados em conta. Os benéficos são assim chamados porque te trazem coisas boas, de qualquer maneira e em qualquer posição; os maléficos também podem trazer bons resultados, mas mesmo quando estão “do seu lado”, os bons resultados só virão através de mérito, de esforço. Enquanto Júpiter é o queridinho de todos que expande tudo, às vezes a pessoa se torna otimista demais e não recebe tanto quanto imaginou; já o que vem de Saturno é garantido, seguro, gravado na pedra – o problema é que ele sempre demora pra entregar, é preciso trabalhar muito duro. E se a pessoa faltar com a ética, leva tapão.

Eu estava pensando nessa história de ter méritos para receber coisas boas. A primeira coisa que pensei é que ninguém se garante – se não pelo que fazemos agora, sabe-se-lá o que nossos ancestrais fizeram ou o que fizermos numa outra existência. A experiência nos mostra que ninguém sai da vida incólume. Lembrei dos vídeos e mensagens que eu tanta gente compartilhamos, todos os dias, com “lições”, com “pensamentos críticos”, querendo que as pessoas “acordem”. Num deles, que eu postei há poucos dias, um vídeo fala que as elites brasileiras não gostam de pobre e querem a manutenção da nossa imensa desigualdade social. Quando você usa o termo “elite”, que fala deles, é bem fácil; o difícil é ler e pensar “sou eu, elite brasileira, que não tenho feito nada para diminuir a pobreza”. Porque ninguém se vê assim, cada um se vê como uma pessoa que está tentando ser feliz, ficar bonito, formar uma família, ter uma carreira e ganhar um bom salário. Eu sei que as pessoas que eu penso quando posto um vídeo como aquele não se vêem assim.

O problema da tal falta de méritos, a mesma que não nos garante e nos faz levar pauladas da vida, é que nós não somos apenas o que fazemos e no que pensamos – o que não fazemos, não pensamos e não nos importamos talvez valha muito mais. O que não passa pela sua cabeça, as coisas para a qual você é cego porque não dá importância, o que você perpetua por ser cômodo e deixa as consequências pra lá – tudo isso também é maldade. Somos maus porque somos egoístas e somos egoístas por causa da nossa natureza. Somos egoístas porque temos um cérebro limitado, uma câmera interna que acompanha o nosso pequeno dia a dia e o de mais ninguém. Geramos consequências imprevistas o tempo todo. Por isso a vidinha simples de “quero apenas ser feliz e que os meus sejam felizes comigo” acaba sendo insuficiente. Levamos pancada e maléficos, e mesmo assim mal e mal olhamos pra fora do umbigo.