Do tempo dos comentários

 

No facebook, Fal comenta sobre insensibilidade de comentários na internet. Como não tenho paciência pra ficar pedindo autorização pros outros, vou colocar aqui apenas o que eu disse:

O que mais me chateava quando eu aceitava comentários no blog não era o povo que descia a lenha, e sim os que achavam que estavam concordando comigo por um horror que eu passei muito longe de dizer.

“Você tem toda razão, eu também acho que esses nordestinos são todos uns…” OI?????

Aí a gente vai correndo no texto pra, pelamordedeus, apagar esse momento em que Exu tomou conta do nosso corpo e digitou coisas que nem sabemos. Mas não tá lá. O Exu do Analfabetismo é dele.

Esse feriado longo e divertido chamado carnaval, que para mim não é feriado e nem divertido, já acabou? Porque eu tô doida pro ano começar de vez.
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Agora eu realmente entendi

Vou colar aqui um dos meus posts antigos, de 14/julho de 2011:

 

Coração 


De acordo com o Livro dos Mortos do Antigo Egito, a pessoa que morria passava numa prova para testar sua pureza. Seu coração era colocado numa balança, e na bandeja oposta uma pena. Somente aqueles com o coração mais leve do que de uma pena poderiam usufruir do paraíso. Apesar de nunca termos falado disso, foi uma rosacruz que trouxe essa história de volta à minha lembrança. Quando a conheci, ela já era uma vovó. Essa senhora me falava muito do seu ex-marido, de quase trinta anos atrás, um viúvo que tinha o dobro da idade dela. “Nunca case com um viúvo. Viúvo é resto de defunto”. Ele era um médico importante e ela começou a fazer medicina para estar com ele. O grande amor da vida desse homem tinha sido a sua primeira mulher – eles eram vizinhos, cresceram querendo se casar e ainda crianças escalavam o muro para se desejarem bom dia. Pelas coisas que aquela senhora me dizia, esse médico foi uma das grandes personalidades da sua época, dessas que a história não guardou: inteligente, empreendedor, bondoso, grande especialista na sua área, admirado por todos. Ela o amava, o admirava e se sentia perfeitamente feliz ao lado dele. Ele dava aulas, viajava, coordenava um monte de coisas e era um homem ocupado. Ela, muito compreensiva, nunca viu nada de mau nas ausências do marido. Até que – quando ela estava no final da gravidez – a levaram para conhecer a amante dele. A mulher lhe falou tudo, quem era e o que sabia da intimidade de ambos, mas ela não acreditou. Ela só conseguiu aceitar a verdade quando a mulher lhe mostrou todos os presentes que havia recebido. O marido sempre comprava presentes iguais para as duas. Ela saiu de casa para nunca mais voltar. Quando o filho nasceu, irritada com a demora do ex-marido em registrar a criança, ela pediu ajuda a um amigo e o registrou com o nome dele. 


Eu não entendia como ela podia falar desse homem com tanto carinho. Era um canalha. Por esse grande homem ela nunca mais se casou, não aceitou mais ninguém ao seu lado. Sua maneira de ver a situação me remetia ao Livro dos Mortos: “Quando a gente pesa o nosso coração numa balança, e coloca lado a lado tudo o que de bom e ruim que alguém nos fez, se a parte boa ficar um tantinho assim maior do que a ruim, essa pessoa já é alguém para se lembrar com carinho”. Ela guardou a maneira como ele sorria, como a punha no colo e a acalmava, como dedilhava um sambinha no violão.

 

Eu escrevi essa história por ela ser muito bonita, mas na época não havia realmente entendido como era possível que ela amasse tanto um homem que a traiu. Há muitas mulheres que amam e relevam homens que as atraíram, mas se aquele não era o caso dela, como era possível que tivesse essa saudade. Hoje, só hoje, eu a entendo. É um olhar para trás e ser grato pelo que viveu. É entender o papel que cabe a cada um nas alegrias e nas culpas. É saber que o desentendimento de hoje não invalida o carinho de ontem. É, enfim, é saber olhar com mais amor na nossa própria história.

Lembrando de uma tetra antiga

Nessas alturas, as feministas já desistiram de mim e eu delas. Mas quando eu surgi, digamos assim, umas bem intencionadas me convidavam pra participar de algumas coisas, frequentar os seus blogs. Numa dessas, parei no blog de uma. Hoje não sei e não quero saber o que continua escrevendo, me parece que continua. Naquela época, as postagens seguiam o seguinte moto perpetuo: ela conhecia um homem. Eles iam pra cama. Iam pra cama de novo, num modo mais sexualmente interessante ainda – aparecia de madrugava, puxava cabelo, agarrava ela no banheiro, etc. Pouco tempo depois ou ela ficava doente, ou carente, ou aparecia num bar quando ele estava com os amigos e, pra surpresa dela, ele não se mostrava disposto a fazer chá, ficar somente conversando, largar a namorada ou assumi-la em público. Aí ela ficava down. Postagens e mais postagens reclamando dos homens machistas e da vida. Ela melhorava, arranjava outro e o ciclo recomeçava. O blog se resumia a isso. Ela não falava de rotina, da família, do trabalho, da ida a padaria, de mais nada.

 

Depois de infinitos posts iguais, um dia ela comentou que estava lendo um livro. E esse livro fez com que ela repensasse suas atitudes. Que ela vinha se envolvendo em situações destrutivas, se machucando e que queria parar de fazer isso. Ela queria parar de se envolver com esses homens que não viam o valor que ela tinha. Disse que queria ajuda, que quem sabe procurasse um psicólogo. Nos comentários eu, muito ingenuamente, apoiei. Disse que nada melhor do que descobrir o que estamos fazendo de errado, que esse é o primeiro passo para mudança, que estava torcendo, etc.

 

Dias depois um post neste tom: “um dia desses eu estava mal, e fiz um post muito depressivo. Aí uma pessoa que vocês acham que é esclarecida, que posa de feminista, veio tripudiar em cima de mim, veio me criticar, dizer que eu estava errada, veio toda moralista dizer que não devo me envolver com os homens da forma livre como me envolvo”. E daí pra baixo. Nem preciso dizer o quanto fiquei feliz – feliz em deixar de seguir e esquecer que a criatura existe. Sobre o meu moralismo, mantenho e sustento: quem se sente bem com suas escolhas não precisa reclamar delas o tempo todo.

Andanças

Escolhi o nome deste blog com tanta simplicidade e acertei tão bem. Muita gente acaba pensando que eu me chamo Camila ou algum nome que começa com Ca. O Caminhante está aí porque eu gosto de caminhar mesmo. Até eu me surpreendo da minha relação com o andar. Andei muito o ano passado pra sobreviver, porque não suportava estar em casa e os meus pensamentos. Agora que estou bem, ando porque estou bem. Ando porque os dias têm sido lindos e seria um desperdício ficar em casa. Eu ando quando preciso de inspiração e ando quando preciso espairecer. Entre pegar ônibus e andar, sempre preferi andar, mesmo quando isso dava mais trabalho ou levava mais tempo. Enfim, eu ando ando ando.

 

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Quem é de Curitiba sabe que a linha Interbairros ou Inter (ligeirinho) tem os trajetos mais longos da cidade. Ouvi um motorista do Ligerinho Inter II dizer ele cada dia de trabalho corresponde a duas voltas completas. Tenho intimidade com os Inter II, eles dão conta de todos os lugares que eu frequento. De vez em quando vejo um Inter I ou Inter IV e me pergunto quem são essas pessoas, para onde vão e onde vivem. É uma realidade paralela. Tenho um projeto que acabei nunca colocando em prática, que é o de sentar num desses Inter e dar a volta na cidade com ele.

 

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Tem um mercado gourmet perto de casa. Várias pessoas já tinham me falado dele e eu nunca tinha entrado no dito cujo, até que um dia me programei e fui. Tudo bem que era no meio da tarde num dia de semana, mas olha… Quando vejo uns lugares assim tão lindos que surgem no meio do nada, sempre penso naquelas pessoas que têm uma grana de herança ou marido pra investir e inventam de colocar tudo do melhor antes de testar se tem demanda. O lugar é incrível. As cebolas lindamente acondicionadas em cestinhas. Panelas caríssimas, aventais, enlatados franceses. Assim que entrei, fui recebida pelo frescor do ar condicionado e a gerente. Estavam a gerente, a caixa e eu. Morri de sem graça, minha cara de quem compra produtos gourmet. Nunca mais pretendo voltar lá. Lugares assim deveriam pagar uns figurantes, só pra não deixar as pessoas desconfortáveis.

Procrastinação e repercussão

Fazer de última hora, ir pra prova sem ter estudado ou gostar sem se dedicar tem uma vantagem que poucos se dão conta: eles permitem que a pessoa tenha ilusões com relação às suas capacidades. Estaria ótimo se eu tivesse realmente me dedicado. Eu tiraria dez em tudo se estudasse. Eu seria o melhor bailaor ser realmente quisesse. Por ser muito ansiosa, não costumo me dar a esse luxo. Eu costumava estar com os meus trabalhos prontos pelo menos uma semana antes do prazo, para qualquer eventualidade. Levo a ferro e fogo quase tudo o que faço, simplesmente porque não consigo fazer sem intensidade. Então eu tenho descoberto que mesmo fazendo tudo direito, nem sempre eu tiro dez, nem sempre eu sou a melhor. Amar o flamenco e dançar atrás me dói por isso, porque a parte da ir as aulas e pegar a coreografia rápido eu faço. Não tenho podido me dedicar ao sapateado por causa da vizinha louca, mas minhas colegas também não o fazem e olha aí. Mas ok. Dói não ser boa mas nunca sonhei em ser uma bailaora profissional. 
A tal novela que citei, que estou há mais de um ano escrevendo, tem me deixado com muito medo. Porque eu tenho feito por ela tudo o que posso. Se levo dias pra corrigir um parágrafo, não posso alegar que qualquer coisa ali passou, não é bem o que eu queria dizer ou é aleatória. Cada vírgula terá a minha mão e será a medida do meu talento. A arte – chamo de arte qualquer tipo de expressão individual – tem o imponderável.  Eu posso fazer a minha parte, posso corrigir os erros e criar as sentenças mais bonitas que conseguir, ser muito sincera no que escrevo. Mas se isso vai tocar e como vai tocar você, que está aí do outro lado, eu não posso controlar. Dançar pra mim é importante; escrever é tudo. E se o que eu estou escrevendo alcançar o mesmo que as palavras deste blog…

De volta

 

Eu resisti bastante à ideia de fazer críticas de livros porque eu sempre achei que não teria nada a dizer. Essa impressão só mudou quando procurei críticas para livros específicos e me frustrei. Algumas são feitas com boa intenção e pouca bagagem, e se limitam a dizer que o livro é “nossa, muito bom”. Outras são tão ricas e analíticas, que se tornam melhores do que o próprio livro, e acabam não respondendo à questões básicas: é gostoso de ler? Do que o livro fala? Então passei a querer escrever as críticas que eu gostaria, como se fosse um amigo me recomendando um livro. Sigo princípios muito simples: contar do que o livro trata, sem ser um simples resumo da obra ou estragar tudo o que acontece. E colocar um trecho que dê uma noção do estilo do autor.

 

Quando o Milton me convidou pra escrever no Sul21, eu estava numa fase que sentia necessidade de provar para mim mesma que poderia ser séria. Eu queria debater as grandes questões, mostrar que posso ser impessoal. No início do blog, arrisquei pitacos a questões que eu considerava importantes. Nos meus pitacos, eu sempre tentei ver a questão por algum prisma que eu não via ser discutido por outros. Depois fui parando, não sei explicar direito o porquê. Talvez eu já tivesse provado para mim tudo o que quisesse provar, talvez eu não tenha esgotado a minha originalidade nas questões que eu já escrevi. Não sei.

 

Aí veio a grande pane e parei de ler. Por parar de ler, tive que parar de escrever as críticas. Sempre deixei o blog aberto, sempre entro lá para apagar os spams, mas a impressão que me dava era que ele tinha sido escrito por outra pessoa. Outra pessoa muito mais corajosa e inteligente do que esta. Vai ver ela pertencia à outra vida, e havia morrido com o fim dela. Publiquei uma ou duas coisinhas aqui com o sentimento de que poderia ter sido aprofundado e ido pro outro blog. Estava me ensaiando pra voltar, quem sabe, depois que o espetáculo passasse, já que eu voltei a ler. Estava nesse movimento preguiçoso e o Milton me mandou um e-mail, meio que um puxão de orelha a todos os que não atualizam seu blogs no Sul21 faz tempo.

 

Depois de tanto tempo, escrevi de novo uma crítica. Do Carcereiros, muito fácil por ser um livro que gosto de uma pessoa que também gosto. Foi tão bom escrever, foi tão bom voltar a isso. A que escrevia no outro blog não morreu, ela acaba de voltar pra casa.

Devagar com o andor

Eu preciso retomar o blog, mas também acho que não dá pra simplesmente fingir que a última postagem não aconteceu porque deixei muitos amigos preocupados. Então, seguem duas reflexões:

 

* Nunca fui boa conselheira de casais que iam e voltavam. Achava estúpido e pronto. Se a pessoa resolvia de verdade, ela tinha que bancar sua decisão. Doer sempre doía e dor de amor exige paciência mas acaba. Eu podia até adotar uma linha compreensiva no discurso, mas internamente eu nunca entendi.

 

Desculpa a todos cujas dores de amor me pareceram bobagens durante todos esses anos. Eu descobri que há um nível de angústia que é inegociável, um verdadeiro pânico. Pra dor, não dá pra pedir paciência. A gente só quer que pare.

 

* Os fins de semana são coisas do demo. Pra quem está feliz, pra quem tem sua família ou sua situação arranjadinha, tudo bem. Mas pra quem está sozinho é interminável. Durante a semana você segue em frente, se cansa, faz suas coisas, assiste a novela. Mas o fim de semana… Não há para quem apelar, todos estão ocupados com suas próprias vidas. A gente sabe que se aparecer, vai atrapalhar. Ou que podem nos dar apenas algumas horas. Pra curtir o fim de semana você tem que estar bem.

 

Acho que quem inventou esses workshops de fim de semana era uma pessoa solitária, querendo arranjar o que fazer. É a melhor coisa. Ou a pior.

Podemos seguir a programação normal agora?

Tudo o que é sólido se desmancha no ar

Eu nem ia escrever nada, ia passar um tempo afastada do blog e da internet em geral e pronto. Aí o dia amanheceu com pessoas adicionando a minha página e eu não entendi o porque. Aí vi que a fofa da Marcela postou o último texto no seu facebook e convidou as pessoas a curtirem a página, dizendo o blog é sempre atualizado. Me deu um certo senso de dever…

Uma vez eu li um texto do Bial – aquele, o que tem no currículo o muro de Berlin e o Big Brother – falando sobre a morte. O texto dizia que a morte nos pega desprevinidos, com uma conta dentro do bolso, indo para algum lugar. Por causa da morte, essa conta vai atrasar e a pessoa com quem falaríamos vai ficar esperando, irritada, e nunca diremos a ela o que queríamos dizer. Melhor seria – na nossa opinião controladora – não deixar nada em haver, ninguém esperando, nenhum projeto pendente. Mas, pensando bem, não dá pra ser ser diferente, porque sempre existem as contas, compromissos e projetos, porque o fluxo da vida é esse. Para pararmos, só mesmo com algo que se impõe, algo violento. Só uma morte.

Eu, agora, neste momento, estou vivendo algo muito difícil. Acontece com tanta gente e nunca deixará de acontecer com amigos e conhecidos, mas ao mesmo tempo é sempre algo único e complicado. A necessidade de agir, mudar tudo, vencer o medo e buscar uma vida melhor, a longo prazo. Ao mesmo tempo, os probleminhas cotidianos – receber o pessoal para a limpeza da caixa d´água, a unha descascada, o almoço marcado com antecedência, a sacola de doações, andar na rua em meio a esse calor.

Quem me conhece bem sabe que me preocupo tanto em fazer as coisas da melhor forma, em controlar todas as variáveis, em não prejudicar ninguém que acabo metendo os pés pelas mãos. Pra algumas coisas não existe melhor forma, apenas menos pior. Então, vim aqui dizer que se eu sumir, é porque precisei de um tempo. Se eu não sumir, é porque o tempo tem se arrastado. Só quero não me obrigar a mais essa constância, ok? Beijo.

Pas minha nega

Como começar a dizer isso?
Quase que, pela primeira vez em tantos, o primeiro texto do Caminhante Diurno não sai. Digo, definitivamente.
Outra forma de chegar no assunto: alguns leitores se tornaram meus amigos, mas dificilmente meus amigos se tornam meus leitores. O motivo, intuo, é que os que me conhecem pessoalmente me acham tão diferente dessa persona por escrito, sendo que esta por escrito é tão mais séria e mais chata. Eles preferem a pessoa da vida real (ainda bem). Acho que até a pessoa por escrito no Facebook é mais interessante do que esta aqui.
Fui adquirindo muitos hábitos com os anos de blog. Hábitos bons e ruins. Quem lê o que escrevo o faz sem me conhecer, sem saber o meu tom de voz, as minhas crenças, o meu jeito. Às vezes, nem me lê direito. Então fui aprendendo a escrever para uma plateia de leitores anônimos e possivelmente mal intencionados. Não publico coisas que podem se voltar contra mim mais tarde, nem ironias que podem ser entendidas literalmente, nem… ou seja, o filtro foi ficando grande.
Tenho me achado chata, tenho sentido dificuldade de escrever, e os números do blog mostram que o número de leitores não têm aumentado, o que indica que o blog estacionou em todos os sentidos.
Pensei em aderir às newletters, igual o Alê. Mas não sou uma blogueira mega-blaster igual ele, então acho que reduziria ainda mais os leitores de um blog tão pequeno. Se sou tão pequena assim, então a verdade é que aqui já é uma newletter. Vocês são poucos, são as minha nega.
Tentarei – este post é uma carta de intenções – ter um tom mais descontraído aqui. Escrever as brincadeiras que escrevo em outras redes sociais e que me tornam uma pessoa mais leve e interessante lá do que aqui. Ser mais Fernanda e menos Caminhante.
Era isso, negada. Que venha 2014!

Quedê meu ócio criativo?

Você, leitor regular do Caminhante Diurno, se prepare – este blog está com os meses contados. Descobri que não tem condições essa história de passar o dia todo fora e escrever. A auto escola está acabando comigo. Tenho que bater ponto colocando o dedo lá, passo horas debaixo do ar condicionado e mudando de posição naquela cadeira desconfortável, almoço com pressa, ando comendo até aula de flamenco, ou seja, estou experimentando alguns dias de rotina normal, rotina de trabalhador. Continuo feliz, bem humorada, não morri, mas… ler e postar está difícil. Inspiração, o que é isso? Descobri que inspiração realmente precisa de ócio, de longos momentos dedicados a coisas que permitem a mente ficar buscando ao fundo. Quando chego em casa eu quero é sofá e novela. ´ces sabem que mandei uns currículos. Ou seja, ano que vem, se tudo der certo, viro uma pessoa responsável e que contribui para a arrecadação de impostos desses país. Mais dinheiro, menos tempo. Vai ser difícil continuar escrevendo dia sim dia não.  Nem cápsula de café resolve.
Quem manda não ter um blog pop ou diploma de jornalista.

Lições de um blog pessoal

Conheci duas pessoas que já tiveram padaria, e as duas diziam que todo mundo, uma vez na vida, deveria trabalhar em uma. Dizem que o que a pessoa aprende em termo de relacionamento e humildade é sem igual. Então me arriscarei também em dizer que todo mundo que quer seguir uma carreira literária deveria ter um blog.
Passou a ser muito diferente pra mim o dia que decidi que conseguiria postar dia sim, dia não. Até então, como a maioria dos blogs, eu postava quando estava inspirada ou achava que tinha algo interessante a dizer. Desde que me propus esse desafio, tenho conseguido manter. Às vezes de maneira bastante indigna, como na última vez que enganei colocando uma tirinha. Noutras, me surpreendi de ter conseguido colocar vários textos inspirados por dias seguidos, mesmo nas condições mais adversas. Quem vê o número de linhas ou os temas não consegue distinguir quais textos foram cuidadosamente mastigados e debatidos daqueles que foram escritos às pressas, praticamente no momento da publicação. Essa disciplina de escrever sempre ensina muito: ela nos força a estar sempre em contato com a escrita, a nunca se desligar da nossa criatividade, a sair da zona de conforto e escrever sobre coisas e com estilos que normalmente não exploraríamos. 
A questão do público é outra coisa muito importante. Embora o blog não tenha mais comentários, existe muitas maneiras de perceber o alcance dos posts: pelo número de acessos, de RTs, de referências, de e-mails. Escrever mais me fez ter menos controle sobre os meus conteúdos, porque muitas vezes sai o que dá e não o que eu acho bom. E a reação das pessoas me surpreende – posts que eu achava geniais tiveram pouca repercussão, posts que eu considerava simples foram populares. De um lado há o inesperado, o fora de controle, os detalhes que não parecem nada na hora que escrevemos e que nos surpreendem ao tocar as pessoas. Mas existe também uma regra, algo que mudou para sempre minha maneira de escrever: as pessoas gostam de sinceridade. Para flanar sobre um assunto com superioridade, dizer o que todo mundo diz ou repetir o senso comum, não é preciso abrir um link. Quem lê quer algo diferente.
Agora me desculpem a dureza da próxima afirmação, que só posso fazer porque ela me inclui. Este bloguinho nunca teve milhões de acessos, nunca foi citado em listas, nunca me trouxe mais do que satisfação pessoal, então, falarei mal de mim também. Meus anos de blog e de escrita têm me mostrado que a queixa de autores anônimos costuma ser injusta. Vejo um autor se queixando de que ninguém o publica, ninguém lhe dá bola e quando vou ler algo dele, acho que entendo o motivo. Existem desde os que não escrevem bem aos que até escrevem, mas… como direi? Não marcam. Eu aprendi a confiar no público. As pessoas recomendam, têm vontade de ler mais e de voltar naqueles que escrevem algo diferente e/ou bom. Se não conseguimos encantar em algumas linhas, em muitas páginas fica mais difícil ainda… Melhor do que se ver como um gênio incompreendido, é melhor perceber que algo precisa mudar.

A grande obra ainda não produzida

Sei da importância e tudo mais, mas não consigo gostar de Picasso. Talvez seja um dos pintores que eu tenha pesquisado mais do que outros justamente porque tentei entender e, quem sabe, produzir em mim um gosto pela obra que nunca me surgiu espontaneamente. Nessas pesquisas descobri que, ao contrário do que muitos pensam, ele tinha pleno domínio das técnicas de desenho e pintura. O leigo pode ver aqueles desenhos de perspectivas estranhas e achar que qualquer um faz, que desenhar não importava e sim a ideia. Quando mais estudo, mais me convenço de que nunca é assim. Seja no jazz, na escrita, na pintura, na escultura, pra inovar é preciso um grande domínio sobre a técnica tradicional. Só essa intimidade permite desconstruir.
Me identifiquei como escritora (o velho problema de sempre: que dizer quando me perguntam o que faço) e minha amiga me disse que o marido dela também escreve muito bem. Que ele era um grande contador de histórias, que tinha a imaginação muito rica e tal. Não tenho porque duvidar – um casal de advogados bem sucedidos e inteligentes, se ela disse que seu marido escreve, certamente escreve bem mesmo. Ela me disse que ele comprou um livro ótimo, que ela podia me emprestar, com todas as técnicas de escrita, como chegar a certas emoções num romance, etc. Não pude aceitar porque o livro está em inglês. Pensei: é claro que algum esperto já tinha que ter feito um livro desses, dando todos os instrumentos, todas as dicas para ser um grande escritor.
Somos muitos. Muitos os que sabemos fazer. Muitos que somos estimulados pelos nossos amigos, que temos meia dúzia de fãs caseiros. Já tem até livro. Potencialmente, somos todos como Picasso. Se eu fosse numa cartomante, quem sabe ela me dissesse que há, aqui, uma futura grande escritora. Está tudo na mão e é justamente isso o que dá medo, esse o problema. Podemos. Mas também não podemos. Temos que descobrir sobre o que escrever, e depois sentar para escrever até ficar bom. Em algum momento, é preciso se decidir e levar à sério esse potencial. Fazer de si um projeto. Passar meses com a bunda na cadeira, escrever, reler, reescrever até o infinito. E mesmo assim… Ao tentar de verdade, existe a terrível possibilidade de descobrir que não tão bons, que a tarefa é muito mais difícil e assustadora do que parecia a princípio.
É isso o que tenho feito, tenho escrito. Com este blog pouco frequentado, com o outro blog pouco frequentado, com umas histórias que poucos amigos leram. Estou me dando a tentativa de presente. Ufa, eu não sabia que tentar requeria tanta convicção! Um brinde aos que tentam, aos que se arriscam. Essa é a única parte que está sob nosso controle, o único e grande passo a ser dado: a tentativa.

Único, essencial

Penso nesses atores mirins ou pessoas que fizeram sucesso muito cedo. Pra elas a queda é muito dura e não é difícil imaginar o motivo. Em entrevista, já vi muitos dizerem “estou curtindo o sucesso, preparado para a possibilidade de um dia ele acabar, estou tranquilo”. É claro que eles dizem isso e sabem da possibilidade de acabar, mas é uma repetição, uma conversa vazia. Porque eles não acreditam, de verdade, que aquilo vai acabar. Eles acreditam que o sucesso chegou para eles porque são únicos, insubstituíveis, porque tinha que ser. Todos nós temos esse sentimento de sermos únicos, estamos todos prontos e preparados para que o mundo confirme isso. E mesmo após sucessivos fracassos, a última coisa a cair é esse sentimento. Porque se acreditar único e essencial faz parte do amor próprio, do fato de sermos a única vida que acompanhamos o tempo todo.

Eu escrevo, acho que deu pra notar. Mas se fosse pensar numa pessoa que está à procura de uma blogueira, com textos pessoais e que emocionasse muito, a melhor de todas; para oferecer a ela uma coluna, um salário, uma oportunidade de ouro… Sinceramente? Eu não me escolheria, escolheria a Fal. E pra cada coisa que penso – uma bailaora talentosa, uma pessoa que sabe envolver os outros, uma pessoa cheia de iniciativa, uma pessoa sensível e empática, uma pessoa determinada, etc – sempre eu encontraria um nome muito bom para colocar diante de mim. Não é complexo de inferioridade, é reconhecimento. Reconhecimento das características bacanas que existem pelo mundo, do talento dos outros, da especialidade de cada um. A gente cresce e abandona o lado “astro mirim” e percebe que não é único e insubstituível, não no sentido estrela-pop-que-só-falta-ser-descoberta. O mundo está cheio de gente e cheio de talentos. Pra cada coisa que você é ótimo, existem milhões que são igualmente ótimos na mesma coisa. Se achar o melhor é sempre uma temeridade; é muito mais provável que você não conheça as pessoas melhores do que você, e não que essas pessoas não existam.

Aí a gente se obriga a achar uma outra forma de pensar. De que cada um é e não é único e essencial. Não somos, na medida em que é possível colocar qualquer outro na função que gostaríamos que fosse nossa. E, surpresa, ele pode se sair melhor. Mas, ao mesmo tempo, cada um é sim único e essencial. Pergunte pra quem está do seu lado, para o seu amor, para o seu amigo. Não basta colocar alguém com sorriso mais branco no seu lugar e está tudo bem. Sou única e essencial porque só eu faço as coisas do meu jeito, só eu digo o que eu digo.  Na escrita, eu acho a Fal muito melhor, muito mais sensível – mas tem a Fal e tem eu. A Fal fala coisas maravilhosas e eu falo de outras coisas. Podem não ser maravilhosas, mas são outras. E tem coisas que nem eu e nem a Fal falamos, então é preciso que existam outros. Melhor em quê e melhor pra quê? Pra certas coisas não existem medida, apenas preferências. Ser único, hoje, me parece uma construção. Quero encontrar a minha voz e que ela seja inconfundível.

Em versão mais longa

Tenho uma superstição de não querer contar os meus projetos antes de darem certo, porque tenho a impressão de que divulgar antes é fazer com que fracassem. Mas como isso não é bem um projeto e não existe bem a possibilidade de sucesso ou fracasso, posso contar: tenho tentado escrever. Coisas longas, quero dizer. Novela, romance, essas coisas. Foram anos ouvindo de pessoas que liam o blog que eu poderia escrever algo mais longo, que eu era capaz, que me convenceram e resolvi arriscar. Acho que a grandessíssima responsável – pro bem ou pro mal? – foi a Tina, que me mandou um edital de um concurso o ano passado. Me inscrevi e o dito cujo dizia que se fosse aprovada eu teria seis meses pra escrever. Desesperei com a ideia e resolvi começar antes, imediatamente, pra ter mais tempo. Seis meses escrevendo e saiu o resultado de que eu não fui aprovada. Mas o troço estava engatado e eu continuei.

Então acho que de certa forma o blog está sendo prejudicado por isso, porque tenho canalizado minha necessidade de escrever e me expressar lá nas outras coisas. Nunca mais escrevi, por exemplo, sobre o processo de escrever, no Livros & Afins. O que não deixa de ser uma ironia, porque agora entendo muito melhor do que antes dessas dificuldades. E o que eu tenho a dizer é: nossa, como é difícil. Manter uma história interessante por dois, quatro parágrafos, tudo bem. Ao longo do tempo, por várias páginas, tentar temperar com outras vozes, é muito difícil. Qualquer escritor vagabundo, best-seller, edição paga e ator global/ assistente de palco/ ex-atleta que resolveu escrever agora me parece um gênio. Nessas coisas mais longas, tenho me achado um saco. É tudo muito pior do que eu imaginava. Acho que como escritora sou mesmo uma excelente dona de casa. Sério. Uns pobres amigos foram obrigados e me ler e olha, mandar manuscritos pros outros é meio como peidar na frente de alguém – quase ninguém quer tamanha intimidade. É uma situação delicadíssima, para ambos. Aposto que tem gente lamentando o dia que me conheceu. Ou xingando a tal pessoa que deu o pontapé que me fez tentar ser escritora. Culpa da Tina, gente.

Padaria

Se fosse para usar alguma metáfora para descrever o que este blog é, diria que é uma padaria. Os posts precisam sair igual pãozinho quente. Há dias que escrevo textos bacanas e tenho vontade de não colocar mais nada durante dias, pra curti-los mesmo. Deixaria na tela inicial com a proposta de que vocês apreciassem a reflexão e o cuidado que há por detrás. Mas não há tempo pra isso – quem vem aqui quer mais, quer outra fornada. E mesmo que naquele dia a temperatura não estivesse adequada, os ingredientes certos não foram encontrados, não havia nada de bom no estoque, é preciso repor, deixar as prateleiras cheias. Então eu venho aqui e escrevo, só pra que vocês voltem. Voltem.

Uma flor

Como a própria Rita disse no seu post, nós nos conhecemos. Eu não sabia que ela vinha e fui surpreendida com uma mensagem, foi algo meio “ou vai ou racha”. A TIM derrubava a ligação toda hora, a Família Paschoalin não encontrava lugar pra almoçar em Santa Felicidade (!?), mas corre daqui e corre de lá, nos encontramos todos no Bosque Alemão e passamos algumas horas muito agradáveis. Não foi a sensação de conhecer um amigo virtual, e sim de encontrar alguém que você já conhece de longa data e aquela ilusão de que pode voltar a encontrar de novo qualquer dia desses, dobrando a esquina.

Quando já tinha voltado, a Rita veio falar comigo no Facebook. Com medo de ser mal interpretada, mas também sabendo que era um elogio, ela veio me falar que eu sou “muito mais gracinha” do que pareço virtualmente. Depois, no próprio mural, ela disse que eu sou “uma flor”. Ela não me ofendeu de maneira alguma, tive que dizer – eu sei. A Luciana me disse algo parecido, quando escreveu no seu próprio blog, após sua vinda a Curitiba, que eu fui uma surpresa boa. Parecia tão antipática assim? Não, responderiam as duas em uníssono. Até salvei os twittes da Lu : “ahaha, eu explico. sempre te achei inteligente, ironica, precisa, sagaz e várias virtudes cognitivas. mas não sabia que você era também suave, doce e uma pessoa tão disponível e delicada. foi ótimo passear com você”. As palavras da Rita foram: “Mas você não revela nos seus textos esse seu lado gracinha’ “.

Não, não revelo. Sempre digo que a escrita é uma coisa mentirosa, apenas uma versão escolhida e a escolha da minha versão deixa de fora esse lado. Poucos amigos reais se tornam meus leitores, tamanha antipatia que essa persona virtual talvez tenha perto da realidade. Eu nem saberia o que escrever se tentasse incluir esse lado. Talvez eu tenha medo de soar piegas. Talvez seja uma tentativa débil de me proteger, como uma cobra budista. Felizmente, apesar de tudo, uma pessoa e outra toma coragem e se dispõe a me conhecer e descobre a verdade. Mais: ela conta pros outros.

Queridas, essa é minha débil e meio envergonhada tentativa de mostrar aos outros o que vocês viram e eu não sei exprimir. Muito obrigada por me encontrarem, apesar de tudo! Agora voltaremos à programação normal.