Umbiguismo

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Uma vez comemorei o primeiro post do ano me propondo a fazer o blog diferente, mais leve, mais como trato com meus amigos. Não apenas não consegui porque foi um ano de porrada na minha vida pessoal, como depois um amigo (?) citou aquele post como prova inconteste do meu umbiguismo. Então me vejo diante da obrigação de escrever o primeiro post do ano sem saber o que dizer. Tal como naquele ano, gostaria de dizer algo diferente. Sempre quero dizer algo diferente. Eu me canso de mim, dos temas que eu falo e dos temas que sou incapaz de falar. Não sei como vocês aguentam tanta história de ônibus. Mas temos sido insistentes: vocês em lerem histórias sobre ônibus, eu em tentar me espremer apesar das minhas limitações. Nós temos nos divertido, não é verdade? Passei da fase de ameaçar não escrever mais e blablablá porque eu sei que preciso. Vamo que vamo, tem gente que gosta de umbigo.

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Curitiba toda dominada

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Eu não sei se com os anos mudei eu ou mudou Curitiba, mas tive durante muito tempo uma relação de amor e ódio com a cidade que foi acalmando e a vontade de ir embora passou. Tem um post antigo meu que recebia recorde de comentários sobre o tema, e no início era até divertido de ler – Desvantagens de morar em Curitiba. Este post me fez ajudar dois estrangeiros a se decidirem sobre vir para cá ou não. Como tudo o que se escreve, ele reflete o que eu pensava na época e mudou, e era bastante estranho ser xingada por algo que não refletia mais a minha opinião, mas a internet tem dessas coisas. Hoje tenho consciência que é muito importante para mim poder me deslocar a pé. Alguns lugares tem uma distribuição de ruas estranhas demais para o meu precário senso de localização; outras são violentas demais; outras são machistas demais; tem as que são quentes demais ou as que exigem dinheiro demais. Uma vez estava no ônibus e ouvi uma conversa que achei muito interessante, de dois rapazes que contavam os lugares mais longe que já foram de ônibus, levando em conta onde moravam. Eu já tinha ido para os mais longe dos dois e mais adiante. Já devo realmente ter rodado essa cidade para todos os pontos cardeais, nenhum lugar me é totalmente estranho. Sem dizer que, no Centro, tenho a intimidade que só os anos são capazes. Um dia estava na XV e precisava comprar uma cartolina preta e soube exatamente onde havia uma livraria pequena e bem especializada em papéis especiais. Meus três itens essenciais numa cidade e que Curitiba me dá com folga: me perder e voltar sem riscos, decidir um longo trajeto à pé e ir resolvendo coisas no caminho, ter a cidade inteira acessível por transporte público.

23:30

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É raro que eu escreva de dia, mais raro ainda que seja com antecedência. Não adianta tentar me antecipar; eu passo o dia fazendo as minhas coisas, e por volta das 21:30, independente de como foi o meu dia, me dá um sono mortal. Meu organismo sem dúvida foi feito para dormir esse horário e acordar de madrugada para arar um campo. Superado esse sono mortal, faço as minhas coisas, leio, navego na internet, fico com sono de novo e estou quase indo pra cama e lembro – hoje é dia de post. Solto um gemido de insatisfação, começo a andar pela casa, sento no sofá, espremo cravos na frente do espelho e não paro de repetir para mim mesma: “preciso de um post, preciso de um post, preciso de um post”. Passo em revista vários pensamentos do dia à procura de algo escrevível. Adquiri inclusive o requinte de olhar os últimos textos do blog para tentar não me repetir, em tema ou forma de escrever. O post finalmente vem, nunca antes das 23:30 e me sento para escrever, o que me tira completamente o sono e me leva para a cama depois das 24h, me revirando em pensamentos provavelmente até 1h da madrugada.

[post deletado]

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Escrevi porque estava me incomodando. Porque acordei pensando, fiquei sensível, me levantei pensando, me doendo e escrevi. Escrevi e depois tirei a parte que usava um termo mais claro. Começava com um exemplo bem racional, colocava uma posição sobre o assunto e em seguida eu dizia que não dava, que por mais que soubesse a posição racional não era assim que estava por aqui dentro. Tinha desabafado. Não iam interpretar errado. Quem sabe nem chegasse lá. Se chegasse, ia ser por uma pessoa que gosta de mim e que não seria maldosa no resumo. E, mesmo se fosse, iriam conferir. Veriam aquele primeiro parágrafo racional, eu apaguei a palavra pesada. Não é uma empresa e um monte de gente maldosa, cobras, é outra relação. Não iam maldar. Ia continuar tudo bem, é o meu espaço. Todo mundo na mesma situação ficaria assim. Eu teria empatia. Depois de um dia inteiro meio doendo e olhar para o vazio, tive que sair, pedindo aos céus forças para fazer uma cara boa e fingir um bom humor que não era o meu no dia inteiro. Horas depois, cruzo a porta de casa, completamente outra. Post deletado. Pra quê. Como o Kibe me aconselhou uma vez e com uma sabedoria incrível: não deixe que percebam que você sentiu o golpe.

Não colabora

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O que me faz postar dia sim dia não é puro TOC. Eu me estabeleci esse desafio há anos e simplesmente não consigo deixar de lado. Depois isso foi virando uma cobrança, que se eu realmente gosto e quero escrever, devo ser capaz disso sempre, mesmo nos dias que estou mais cansada e sem inspiração. Os grandes escritores estavam sempre escrevendo, e até mesmo aqueles que nem eram tão grandes assim. Os autores podem ser divididos – pelamor, só um palpite! – entre os que se envolviam em profissões como as de jornalista, para serem obrigados a escrever sempre e aqueles que vão para profissões pouco exigentes, também para poderem escrever sempre. Então, é até pouco que eu me imponha um dia e um dia não. Por incrível que pareça, os dias mais difíceis não são os cheios de atividades, porque sento aqui e pensei em alguma coisa ou me disseram alguma coisa ao longo do dia. O mais difícil é quando passei já muito tempo na frente do computador, dedicada a um outro projeto de escrita. Só estou com ele e todo meu ser só quer saber dele. É o caso, hoje.

SPP- Síndrome do Post Perfeito

Quando vejo ótimos blogs parados, dá vontade de dizer: ei, escreve qualquer coisa aí! Porque como leitora de blog, estou apta pra ler coisas diferentes dos diversos blogs que eu sigo todos os dias. Ao mesmo tempo, o qualquer coisa aí não é realmente qualquer coisa; detesto quando o blogueiro faz vários posts com poesias/trechos de música dizendo “essa daqui me toca muito” e pronto. Dá impressão de que ele só colocou aquilo pra preencher espaço.

Por mais que a gente (blogueiro) saiba que a maioria dos nossos leitores não comenta, um post sem cometário dá sempre uma sensação de solidão. É como dizer uma piada e ninguém rir. Ao mesmo tempo, depois de um post muito comentado, a gente sente uma responsabilidade imensa. É como se a gente tivesse elevado o nosso próprio padrão e tivesse a obrigação de manter. É aí que bate a Síndrome do Post Perfeito. A SPP é a tentativa de manter sempre os leitores interessados, no que a gente imagina que é o forte do blog.

O problema da SPP é que, na realidade, é difícil saber qual o forte do blog. Pela minha experiência, vejo que posts que eu acreditava super legais não foram comentados e outros que eu quase não publiquei por serem bestas foram super populares. Isso sem dizer que muitos comentários não são sinônimo de qualidade, por mais que a gente sinta assim… Acho que esse negócio de posts é meio como paixão: a gente não se apaixona por quem quer e nem pelos motivos que gostaria.