Por carta

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Que eu não sou do tipo que dá a baita resposta que destrói o adversário na hora já sei e já lamento há muito, mas os anos me mostraram que a coisa é ainda mais grave. Às vezes levo tempo para saber até como me sinto em relação a alguma coisa. O fato de não doer na hora não quer dizer que depois não vá num crescente e quando finalmente descubro o impacto está doendo pra caramba. Há uma distância entre eu e Eu, e deixo a critério da crença do leitor o que seria um eu minúsculo e um eu maiúsculo. O eu recebe e precisa da resposta do Eu. Para algumas coisas, o trivial, eles trocam e-mails. Em outras, a comunicação é feita do modo antigo, por carta, e elas certamente atravessam oceanos.

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Não colabora

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O que me faz postar dia sim dia não é puro TOC. Eu me estabeleci esse desafio há anos e simplesmente não consigo deixar de lado. Depois isso foi virando uma cobrança, que se eu realmente gosto e quero escrever, devo ser capaz disso sempre, mesmo nos dias que estou mais cansada e sem inspiração. Os grandes escritores estavam sempre escrevendo, e até mesmo aqueles que nem eram tão grandes assim. Os autores podem ser divididos – pelamor, só um palpite! – entre os que se envolviam em profissões como as de jornalista, para serem obrigados a escrever sempre e aqueles que vão para profissões pouco exigentes, também para poderem escrever sempre. Então, é até pouco que eu me imponha um dia e um dia não. Por incrível que pareça, os dias mais difíceis não são os cheios de atividades, porque sento aqui e pensei em alguma coisa ou me disseram alguma coisa ao longo do dia. O mais difícil é quando passei já muito tempo na frente do computador, dedicada a um outro projeto de escrita. Só estou com ele e todo meu ser só quer saber dele. É o caso, hoje.

Academia, triathlon e escrita

Runner athlete running on road

Não faz muito tempo esse negócio de frequentar academia não tinha a legitimidade que tem hoje e, dependendo do meio, dava até vergoinha de falar. Dizer que você fazia academia era se confessar fútil. Lembro de um dos meus professores da faculdade, um que era especialmente gato, dizendo com o maior desprezo que frequentar academia era tão oposto a ele. Que ano isso, século passado, quarenta anos? Não, já estávamos na primeira década do século XXI. Quando eu comecei a frequentar academia, foi uma descoberta pra mim: como era legal, como todas as aulas eram divertidas, como a gente sai energizado! Tive época de ficar internada lá dentro. Depois fiquei seletiva, e só gostava de poucas aulas, os professores mais mais… agora não suporto nem passar na frente. Hoje conheço um povo que faz triathlon e lembro que uma época tinha vontade de fazer. Eles treinam, sabem seus tempos, comem certinho, sonham com Iron Man. Olho para eles e acho que entendo perfeitamente, que é a mesma euforia que vivi assim que comecei a fazer exercícios e, mais tarde, assim que comecei a dançar. A gente quer ser o melhor, começa a se ver como alguém que “se eu tivesse começado na idade certa, hoje seria…” Acho que essa é a energia que faz movimentar todos os esportes: o entusiasmo de muitos, que um dia sonharam em ser profissionais e se tornam grandes admiradores.

ACHO que eu terminei de escrever o que estava escrevendo. E me vejo sem o ímpeto de publicar que um dia tive. Ser lenta para escrever, demorar tanto e isso se converter em tão poucas linhas e ter sempre algo mais para olhar e nunca ficar bom… tudo isso foi me mudando com o tempo. Talvez eu seja mais uma entusiasta, talvez os únicos que lerão as coisas que eu escrevo são os poucos amigos-vítimas que recebem o arquivo. O mundo não precisa e não sente falta do que eu escrevo. Se um dia eu produzir um único livro bom, isso também não faz diferença. Nossa vaidade quer produção de padaria, um livro ótimo atrás do outro – mas de quantos autores conhecemos apenas um livro, um grande livro, e ele nos preenche por toda vida? Enquanto encontrava as pessoas e elas achavam que eu estou sempre sem novidades, eu sabia que estava cheia delas, cheia de mudanças e planos, vivendo uma vida paralela ao escrever. É um amor e um ganho pessoal difícil de explicar. Publicar e que os outros gostem, não vou negar que deve ter o seu sabor. Mas o processo, ah, que processo!

Processo

Há dias maravilhosos. Terça, por exemplo, eu mudei meu trajeto pra passar no caixa eletrônico e quando estava descendo uma rua que nunca desço naquele horário, encontrei o Hamilton, um amigo meu dos tempos de escultura. Amo o Hamilton, e quer a vida que a gente se perca e sempre se reencontre assim, na rua, no ônibus. Quando ele morava na Rui Barbosa, eu o visitava com frequência. Aí ele foi pra pqp e eu só conseguia chegar de carro. Agora ele está se mudando pro centro de novo. Nosso encontro, nosso abraço ruidoso no meio da rua, foi no fim da tarde e quando cheguei em casa de noite ainda estava no pique, ainda estava cheia daquela energia.

Hoje tive várias notícias boas, quero dizer, não aconteceu nada de ruim. Mas já me sinto meio em baixa, não mantive o estado. Ontem, tudo me parecia possível. Eu estava me sentindo linda, forte, pronta pra tudo. Neste instante, não estou aquela fé de que tudo vai dar certo. Faz pouco tempo, luto, lamber feridas e tal. Me peguei naquela dinâmica de tentar preencher as horas com medo do que pode ser se eu ficar muito tempo sozinha. Olha, né fácil não.