Curtas de amar é voltar

amar é voltar

Passo por um ponto de ônibus daqueles feitos de duas coberturas pequenas e um banco sem encosto. Tem um cachorrinho preto que adotou aquele ponto. As pessoas se sentam no banco e ele fica rondando e querendo carinho. Se elas não dão, ele late daquela maneira aguda que só um cachorro contrariado é capaz.

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Me impus, com as cortinas de box, a mesma regra que uso para as roupas: nunca substituir uma velha por outra igual. Faço isso porque senão sou capaz de passar anos a fio com as mesmas peças e as mesmas combinações, algo como o guarda-roupa da Mônica. Só que a atual cortina de box, de todas que eu já tive, é a que eu mais amo: poás rosas e laranjas distribuídos de forma assimétrica. E tem ainda pra vender. Então, para me obrigar a trocar, comprei outra na China e estou deixando a atual embolorar à vontade. Já está um nojo e deus sabe quando chega a outra.

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“Foque na vulgarização da sua página, sítio da Internet, diário virtual para ter mais visualizações e também recomendações da página”. Que susto, ainda bem que era spam.

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Tinha uma loja que eu ia com o ex, comprar coisas pra mim. Ele e o dono ficavam conversando e no final ele nos dava um desconto. Fiquei um tempo sem ir, fui sozinha, ele percebeu e foi profissional, ok. Mas deixei de ganhar desconto. Ok também. No final do ano ganhei uma caneta com a logomarca da loja. Não é que a bandida é uma delícia e adoro escrever com ela?

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Sem cafeína

Eu estava na loja daquela cafeteira chique e cara que eu tive. Naquela época, já tinha me livrado dela, o que me trouxe não apenas economia com as cápsulas como até baixou a minha conta de luz. Mesmo assim eu ainda frequentava a loja, que se descreve como um “clube” – os donos de cafeteiras têm direito de irem lá e degustar quantos cafés quiserem. Os vendedores me conheciam e eu tenho o cartão de “membro”, então ia lá na maior cara-de… naturalidade.

Estava no balcão tomando o meu café e um vendedor chegou para fazer café para outro cliente. De rabo de olho, vi que era gatinho. Minha faixa etária, um visual mais pra moderninho, também gostava de café… Vieram conversando:

– … novas versões descafeinadas. Os cafés continuam com o mesmo sabor e a mesma intensidade, a ausência da cafeína não altera nenhuma dessas características. Algumas pessoas acham que ficou mais suave. Um arpeggio descafeinado? Aqui está.

O sujeito bebe um gole e fala com convicção:
– Ficou mais suave sim, eu senti a diferença!

“AHÃ, SEI!”, eu pensei enquanto riscava mentalmente o sujeito da minha lista de paqueráveis e escrevia ao lado: idiota que se acha gourmet. E tenho certeza que o vendedor

– Ah, então o senhor é um dos que sentem a diferença…

pensou a mesmíssima coisa.

Amiga da amiga

Lá na loja de conveniências do posto, sou atendida por dois homens diferentes. Com mais frequência, pelo Fortinho. O Fortinho deve ser um pouco mais novo do que eu, gosta de camisas polo de marca e tem aquele jeito sério de quem é muito profissional. A maneira dele de querer me atender com a mesma cara de como se fosse a primeira vez, como se ele já não soubesse das minhas preferências antes mesmo de entrar na loja, traz à tona meu lado desafiador e tenho me dedicado a ser o mais simpática o possível, pra ver quanto tempo eu levo pra quebrar aquele gelo.
O outro é o Homem de Terno. Ele também é sério, mas talvez pela diferença de idade e a vestimenta, nunca me atrevi a puxar papo. Quando o Fortinho está lá, as mesas e as cadeiras ficam num canto e nunca tem salgados. O Homem de Terno arruma as mesas de forma convidativa, faz pão de queijo e já o flagrei limpando os vidros da geladeira. Ele claramente tem uma relação diferente com aquela loja. Aí numa conversa com a Dani, que trabalha e mora por ali, ela me disse que quem comprou aquela loja é o ex-chefe dela, o Sérgio. “Posso falar que te conheço? Vai que depois de saber que nós somos amigas eu nunca mais sou bem vinda na lojinha do posto.” Podia falar sim, eles se davam bem.
Quando me aproximei da loja na terça e o vi atrás do balcão, fiquei feliz. “É hoje!”. Comprei um hidrotônico e fui pagar.
– Você é que é o Sérgio?
– Sérgio de Isso e Aquilo, já ouviu falar?
– Pior que já ouvi sim.
– (cara de espanto) É? Onde?
–  Nós temos uma amiga em comum.
– Quem?
– A Dani, de Tal Lugar.
Quando a gente diz “fala de mim pro Fulano”, sempre acha que vai ser legal, que vai ser reconhecido, o que nem sempre acontece. É duro, mas temos muito menos importância pros outros do que acreditamos. Minha mãe me contou que uma vez foi num médico por indicação da minha avó, que obviamente disse para minha mãe citar que era filha dela. Minha mãe já começou a consulta com um “eu sou filha da Dona Léa” e o médico ficou repetindo o nome com cara de quem não estava ligando à pessoa. Alguns minutos depois, durante o exame, ele disse “Eu lembro da sua mãe. Uma senhora muito simpática”. “Foi aí que eu tive certeza” – minha mãe, na conclusão da história “- de que ele não fazia a menor ideia de quem eu estava falando. Muitas coisas podem ser ditas para definir a sua avó; que ela é uma senhora simpática sem dúvida não é uma delas”.
Como a Dani foi subordinada do homi, eu imaginei que o Sérgio se lembraria. Mas eu esperava uma reação comedida, um “ah, sim, a Dani”. Ao ouvir o nome dela, ele imediatamente sorriu e foi muito espontâneo:
– Rá! Pense numa pessoa legal!
Fiquei lisonjeada por ela. “Pense numa pessoa legal”. Espero que alguém um dia também reaja assim ao ouvir o meu nome.