Retrato

Eu aprendi algo com uma amiga que talvez ela mesma não sabe que faz: do seu contato com a pessoa, ela conclui tudo. Quando digo tudo, quero dizer tudo: se tem caráter, se é uma pessoa bacana, se tem boa auto-estima, se vale a pena manter por perto. Da minha parte, sempre tive receio de ser injusta, então só julgava fatos isolados, achava que a maneira como trata o garçom fala apenas do tratamento com subalternos, sua roupa no dia fala apenas de como ela está naquele dia, a maneira como comeu revela a fome do momento. O que há por detrás do julgamento da minha amiga é perceber que somos os mesmos noite e dia, somos nós mesmos nos mínimos gestos, o tempo todo. Que as exceções são tão raras que dá pra entender tudo de primeira sim, basta ter olhos para ver.

personality

Anúncios

Amor em ódio

Não acho admiração em excesso bom. Se alguém diz que me admira, tenho vontade de falar “Não, espera!”. Alguns disfarçam mais, outros têm coisas piores, mas todos têm seus defeitos. Conhecer a melhor face nos faz gostar até de psicopatas. Quando um começa a olhar para o outro como especial demais, como se fosse muito além de todas as outras pessoas, está a um passo de odiar. Sim, eu acredito que o adorador de hoje é o hater de amanhã. Não acho que seja da natureza humana admirar sem ambiguidade, colocar o outro no alto sem desejar secretamente que ele caia. Por isso que gostamos tanto de ver as celulites das celebridades, os seus chifres, os problemas com a família. Um lado nosso ama e o outro lado deseja que não seja tudo tão bom, que os defeitos, a vida com problemas, os traumas de infância e os problemas com dinheiro estejam em algum lugar. Como se gostar e não gostar fossem parte do mesmo mecanismo, e apenas gostar seja uma perversão, que faz com que a parte ruim fique represada. Quem oferece muito espera muito também, então é muito fácil magoar. Um gesto impensado e o pedestal pode ruir. O que seria perfeitamente normal e desculpável nos outros é imperdoável no ídolo. Isso é o que o mais novo hater dirá. Para mim, o mecanismo é: se o outro está no alto, nós necessariamente estamos embaixo, e todo mundo sabe que ficar no alto é mais gostoso. Então, a coisa toda já começou errada. Quem um dia adorou, não consegue sair da vida do outro à francesa, como se nada fosse. Ele precisa xingar, precisa empreender campanhas, precisa deixar o ambiente pesado. Pra sepultar e alimentar para sempre o que um dia foi amor, ele começa a pesquisar os defeitos: acompanha a vida do outro de longe, torna-se assíduo leitor do que ele escreve, une-se a outros “inimigos”. Tudo continua no lugar – a mesma intensidade, a mesma pessoa no coração.

Análise

Para quem não sabe a diferença entre terapia e análise, posso dizer de cadeira que terapia tem o propósito de curar e análise não. Digo isso como quem estudou o assunto e como quem se submeteu a essas duas formas de atendimento. Análise é proposta por psicanalistas, e eles dizem que só acreditam em cura no mesmo sentido de “curar um cachimbo”, de uma preparação. A psicanálise acredita que cada um tem uma estrutura, formada na tenra infância, e nada pode mudar o que você já é. Apenas que se conscientizar de algumas coisas pode ajudá-lo a viver melhor com elas. Eu fiz análise lacaniana, análise de raiz, daquelas com divã de costas pro analista e tudo. Pra mim – vejam bem, pra mim, sem querer dizer mais do que minha experiência pessoal – não foi bom. Não sei se foi culpa do período que eu estava passando, e que eu teria a impressão de que estava vivendo em trevas de qualquer maneira. O que eu lembro é que ficava a sós com os meus fantasmas, tentando analisar culpas através das minhas culpas. As culpas digeriam culpas, se reproduziam e geravam culpas, analisavam e concluiam mais culpa, que me afogavam num mar de culpa. Não há a menor dúvida que a minha estrutura é neurótica… Era como tentar limpar usando um pano mais sujo. Ao invés da neutralidade que me permitia olhar para mim com meus referenciais, senti falta de uma luz, de uma perspectiva mais madura de quem estava vendo de fora. A origem de muito sofrimento pode ser justamente a incapacidade de formular novas perguntas. Há casos que é preciso ouvir um simples: você não tinha como adivinhar.

Uma das coisas mais irritantes do mundo

… é quem acha que sabe mais de nós do que nós mesmos. Com base em um único encontro, em um detalhe de roupa, em uma informação, acham que já sabem tudo a respeito de nossos complexos mais profundos. Como se não bastasse tanta arrogância, ainda cometem a deselegância de falar isso publicamente. É aquela coisa, igual discutir Complexo de Édipo com psicanalistas: se você, mulher, diz que não concorda com a inveja do pênis, é porque não assume a sua. Simples assim. Quando alguém faz essas análises de botequim, te chama de mal resolvida, negar soa como confirmação. Quer dizer que você não tem consciência de seus próprios complexos. A pessoa que faz esse tipo de análise nunca cogita quem pode estar errada é ela.

Dá vontade de dar na cara. Por incrivel que pareça, esse post tem a ver com a minha tentativa de ser cupido.

F

Minha letra e minha assinatura mudaram muito com os anos, mesmo porquê até uma certa idade os professores viviam me mandando escrever em cadernos de caligrafia. Uma característica constante na minha assinatura é o traço longo no F, cobrindo o resto do nome. Um dia vi uma figura de um livro de Grafologia, que mostrava esse tipo de traço como um grande guarda-chuva protegendo as pessoas embaixo. É sempre complicado fazer essas relações de forma mecânica, mas podemos dizer que meu F é uma característica de pessoas superprotetoras.

Eu só tive clareza do que essa superproteção significava quando meu irmão sofreu acidente de carro. Não gosto de CSIs da vida, não gosto de nada que envolva sangue. Corpo perto de mim só se for bem fechadinho e funcionando. Eu nunca tinha entrado num hospital e não gosto de passar nem na frente deles. O acidente me obrigou não apenas a entrar no hospital, como na UTI, a lidar com médicos (passei a odiá-los desde então), limpar traqueostomia, tirar pus de sonda na barriga e tudo o que aparecia pela frente. As enfermeiras achavam que eu era uma delas. Isso sem falar que estar num hospital público obriga a gente a estar sempre matando algum leão pra ser atendido.

Nada como uma situação de crise pra aumentar nosso auto-conhecimento.