Osso de chuva

ossinhos

Quando chove forte e troveja, não tem jeito, a Dúnia morre de medo. Só que não é só a chuva forte, ela tem tendência a ficar deprimida com chuva em geral. Pensei em como ajudar e achei boa ideia criar um reforço positivo: eu compro um osso grande especial, que fica num pote específico ao lado da porta, que ela só ganha em dias de chuva. É o Osso de Chuva. Deu certo, ela entendeu o esquema e fica toda alegrinha; ao invés de ligar pra chuva, a Dúnia passa um bom tempo entretida com o osso.

MAS, quando na saída da aula à noite, cai uma tempestade que alaga e cidade; a aula termina mais tarde; na carona até o ponto de ônibus, ele passa na frente do carro e segue longe; o ônibus seguinte está atrasado por causa do Lula; a visibilidade é quase nula; perco o segundo ônibus porque cheguei além do horário e tenho que pegar a linha que me deixa mais longe de casa; o segundo ônibus também está atrasado por causa do Lula; enfrento as quadras até a minha casa com um guarda-chuva inútil, tamanha a intensidade da chuva; estou faminta e só tem um restinho de risoto pronto me esperando na geladeira; as poças da calçadas estão tão grandes que não há como pular ou desviar, o que deixa meu tênis encharcado; quando chego no portão, a Dúnia levanta a cabeça da sua soneca gostosa, assiste enquanto me molho mais ainda para abrir os cadeados e, na parte seca e coberta, fica pulando em torno de mim querendo que eu dê logo o Osso de Chuva enquanto me viro tentando tirar o excesso de roupa molhada. Num momento desses, um pouco de solidariedade faz falta.

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De sombrinha no sol

Anos de verão na Bahia me mostraram que eu não nasci pra me bronzear. Sou do tipo que fica vermelha e depois descasca. Então, desde a adolescência eu decidi que adoro ser branquinha e nunca me exponho ao sol mais do que o necessário. Em Curitiba, ser assim não é muito difícil. Ou não era. Porque de poucos anos para cá, nosso verão deixou de ser de 24 graus, para ser um sol de matar, digno de qualquer nordeste. Só de andar na rua, passei a ostentar por aí aquele belo bronzeado de pedreiro – exibindo onde começa e termina a camiseta.

Não sei quando, mas comecei a olhar com inveja as velhinhas que andam de sombrinha pela rua. Elas sim, carregam sua sombra aonde quer que vão, enquanto os outros se acotovelam nas marquises. Passei então numa loja e comprei uma sombrinha muito fofa para mim. Hoje, com um solão de rachar, decidi dar uma de velhinha e saquei minha sombrinha em pleno centro de Curitiba.

Na realidade, andar de sombrinha é menos legal do que parece. Não é como uma marquise. O tecido não isola o sol tanto assim, por isso continua quente embaixo. É uma coisa a mais nas mãos; nos momentos que ventava, eu não sabia se segurava a sombrinha ou o meu vestido. Apesar de estar preparada pra tudo – risos, olhares estranhos, engraçadinhos dizendo que não estava chovendo, etc – nada de agressivo me aconteceu. Algumas pessoas olharam para mim sim, mas o seu olhar transmitia mais um “boa idéia a sua, quem dera!” do que outra coisa. Dois adolescentes que disseram que eu estava “tão bunitinha”. No mais, tão ignorada como sempre.

Agora estou em casa, fresquinha, com a pele branca de quem não pegou sol. E conto essa experiência pra estimular você, leitora de todo esse Braziuziu, a andar de sombrinha também. Chega de pegar sol na rua, diga sim às sombrinhas no calor!

Off-topic: Não tenho gostado das minhas últimas postagens. É que falta apenas menos de 1 semana para a estréia e não tenho pensado em muita coisa a mais do isso.

História verídica envolvendo mistério, humor e guarda-chuva

Num dia chuvoso, há mais de 6 meses, me rendi ao apelo dos vendedores e comprei um guarda-chuvão vai à dez. Comprei um quadriculado azul e cabo arredondado. Num outro dia chuvoso, não muito tempo depois, cheguei na academia e o porta guarda-chuvas estava cheio. Deixei meu guarda-chuvão lá e quando cheguei não o encontrei mais. Fui logo dizendo pras recepcionistas que tinha sido roubada. Mas aí eu reparei que no lugar do meu havia outro guarda-chuva muito parecido. Do mesmo tamanho, com o mesmo cabo arredondado e quadriculado azul. As únicas diferenças é que o azul era mais escuro e o guarda-chuva automático. Me disseram que os guarda-chuvas tinham sido trocados e que eu devia levar aquele. Meio na dúvida se era isso mesmo e sem alternativas diante da chuva, levei. Quem havia saído ganhando era eu, porque aquele guarda-chuva era melhor. Nos primeiros dias, achei que a velhinha míope (já supondo preconceituosamente) me pararia na rua exigindo o guarda-chuva de volta. Isso nunca aconteceu, o tempo passou e adotei o novo guarda-chuva.

Há poucos dias atrás estava chovendo. Cheguei na academia e o porta guarda-chuvas estava cheio. Deixei meu guarda-chuva automático lá e… É exatamente isso que você está pensando: quando eu saí, meu guarda-chuva havia sido destrocado. Lá estava ele, o guarda-chuva não-automático de quadriculado azul que eu comprei há mais de 6 meses. O bom filho à casa torna e eu ri. Nunca saberei com que ele ficou todo esse tempo.

Guarda-chuvão vai a dez!

Começa a chover. O tempo escurece, a temperatura cai, as pessoas correm apressadas e as ruas se esvaziam. Eis que surgem – como? de onde? – os vendedores de guarda-chuva. Em cada quadra tem pelo menos um. Os guarda-chuva são todos iguais, todos chineses. Os vendedores abrem aqueles enormes guarda-chuvas e começam a gritar Guarda-chuvão vai a dez! É automático! Só dez reais!

Você, pessoa desprevenida, otimista com o tempo ou que detesta segurar guarda-chuva por aí, começa a buscar em vão abrigo nas marquises, lotadas de pessoas de guarda-chuvas abertos – alias, eu já comentei que existe uma ala no inferno todinha pra esse tipo de gente? Claro que em pouco tempo o cabelo começa a pingar e você adivinha que está num estado deplorável. Os vendedores de guarda-chuva chegam bem perto e começam gritar que O guarda-chuvão custa apenas dez reais, como quem diz – você aí toda encharcada, por que não compra um guarda-chuva de uma vez?

Mas você insiste em manter a dignidade, coloca a franja molhada de lado e finge que não é com você. Até a próxima esquina e o próximo vendedor. Você se engana pensando que nem queria mesmo um guarda-chuva, porque o pé iria molhar do mesmo jeito. Alias, eu já comentei aqui que Curitiba tem o pior calçamento entre as capitais?