Pequenos

fui

Admita, você também é pequeno. Me cansa o discurso raivoso do “brasileiro idiota que não vai às ruas e quebra tudo” sendo que o próprio não vai. Os outros, sempre cabe aos outros. Somos todos como a população da cidade que queria ter uma fonte de leite e, ao invés de colocar a sua parte de leite, foi lá e colocou água. Existe um curto período que é a nossa vida, um curto período que estamos conscientes por dia, e mais curto ainda o nível de energia que dispomos para gastar nesse dia. Tiradas as refeições, o que nos sobra? Pouco, e o gastamos com o nosso próprio bem estar. Minha aparência, meu namoro, meu plano de carreira, meu sofá, meu programa preferido, meu período sagrado de sono. Conheci uma ou outra pessoa que gastava muito mais tempo com os outros do que com si mesma, e foram sugadas até os ossos. Mas mesmo elas, que dispunham da sua pouca energia mais para os outros do que pra si mesmas, não tinham uma esfera de ação muito grande. Faziam pela família. Por amor ou hábito, fazer pela família é quase o mesmo que fazer por si mesmo. Não estou dizendo que isso não vale nada, claro, são pessoas boas. Cada um tem um bom motivo para ser assim, meio bosta, meio parado, pequeno. Tem os boletos, o fato de ter filhos, o expediente que começa cedo, saturno em leão no mapa astral. Vamos ser francos: dá na mesma. A fonte jorra água clara e limpa, sem um pingo de leite. Ou até tem leite sim, mas bem fraquinho. É raro, muito raro, mas acontece: alguém que faz da sua existência um bem enorme, pra muita gente. Numa escala maior do que família e conhecidos. Pessoas que impactam, que são forças motrizes, que não precisam reclamar de falta de gente nas ruas porque está lá, nas trincheiras. Olhar para essas pessoas relembra o quão pequenos somos, o quão pouco fazemos e nem todo mundo aguenta. Precisam diminuir, dizer que não é bem assim. Feia, chata, cara de mamão! Puxamos a pessoa pra baixo e pronto, o nanismo moral está salvo.

Na biografia da Marielle, em um ou dois gestos, ela já pontuou mais do que a maioria de nós a vida inteira. Apenas aceite.

#mariellepresente

Pacto da mediocridade

Roubei do blog do Milton.
A experiência é real e foi conduzida por um cientista norte-americano chamado Harry F. Harlow (1905-1981). Achei fascinante
Um grupo de cientistas colocou cinco macacos numa jaula, em cujo centro colocaram uma escada e, sobre ela, um cacho de bananas. 
Quando um macaco subia a escada para apanhar as bananas, os cientistas lançavam um jato de água gelada nos que estavam no chão. Depois de certo tempo, quando um macaco ia subir a escada, os outros enchiam-no de pancadas. 
Passado mais algum tempo, nenhum macaco tentava subir mais a escada, apesar de ser tentadora a visão da fruta predileta tão próxima dos olhos. Então, os mesmos cientistas substituíram um dos cinco macacos. A primeira coisa que o pobre fez foi subir a escada para colher as belíssimas bananas, sendo retirado de lá imediatamente pelos outros, sob uma chuva de pancadas. 
Depois de algumas surras, o novo integrante assimilou a ideia do grupo e não tentou mais subir a escada, apesar de continuar lambendo os beiços cá debaixo. 
Um segundo macaco foi substituído, e o mesmo aconteceu, tendo o primeiro macaco substituído participado com alegria e entusiasmo do corretivo que o grupo impôs ao segundo novato. 
Um terceiro macaco foi trocado, e repetiu-se o fato. E assim fizeram com o quarto, e finalmente com o quinto e último dos veteranos. Deste modo, todo o grupo foi substituído. 
Os cientistas ficaram, então, com um grupo de cinco macacos que, mesmo nunca tendo tomado um banho frio, continuavam batendo naquele que tentasse chegar às bananas. 
Se fosse possível perguntar a algum deles porque batiam em quem tentasse subir a escada, com certeza a resposta seria: “Não sei, as coisas sempre foram assim por aqui.”

Hélio Leites II

(Começa aqui)

Nunca me esquecerei. Estavamos no sofá e em cadeiras, em umas cinco pessoas. Logo a frente, uma mesa e um caixilho de porta que mais parecia um teatro. Sem cerimônias, Hélio Leites abriu a bolsa cheia de miniaturas e começou a contar a história de cada uma delas. O sonho da casa própria, o discurso de Santo Antônio aos peixes, bailarinas, remédios, metáforas. Uma história puxava a outra e a cada caixinha ele acrescentava um verso, uma observação inteligente, um jogo de palavras, uma piada. Tudo articulado, tudo caprichado. Até o boné que ele estava usando tinha uns bonequinhos e ele nos mostrou que mantém o cabelo curto com uma enorme franja grisalha, que também serve como elemento cênico. No final dessa meio hora ou mais, eu estava com as bochechas doendo de tanto sorrir e rir. Saí de lá tão feliz, tão leve, como se tivesse recebido uma boa notícia.

Eu mudei muito entre nossos dois encontros. Gênio para alguns e louco para a maioria, Hélio Leites continua fazendo o de sempre: oferecendo seu trabalho e suas histórias a quem estiver passando. Pouco importa quem ouve e como ouve; você pode admirá-lo ou considerar o sujeito um palhaço (no pior sentido) qualquer, mas de qualquer forma sairá feliz. É preciso ser muito grande e muito artista pra se oferecer dessa maneira. Uma vez estava num casamento e uma amiga declarou o quanto era bom que nós, ali sentados, éramos medíocres, e que essa mediocridade nos permitia frequentar a sociedade. Havia todo um contexto, mas não consegui deixar de me sentir ofendida. Quis protestar, mas não achei argumentos que provassem que eu não sou mediocre. Alguém que te conhece, lê teu blog, sabe das tuas pretenções artísticas e te inclui na mediocridade, como um elogio – que dizer? Eu nunca tinha ouvido alguém defender daquele jeito a mediocridade; eu pensava que ninguém, em qualquer circunstância, poderia achar bom ser medíocre. Sempre vi a mediocridade como um acidente ou uma incapacidade. Vejo as pessoas buscarem a autenticidade, mas sem disposição de pagar o preço; querem uma coisa autorizada e convencional. Não sei se é possível ser autêntico desse jeito. E eu sou uma pessoa de hábitos muito convencionais.

Eu não sou o Museu Casa do Botão.
O Museu Casa do Botão é isto aqui.
É o menor museu da América Latina, só perdendo para o Museu das Pulgas de Bucareste.

Como todo museu que se preze, o nosso também está a um palmo do nosso nariz, colado em nossa pele e no qual pegamos (tocamos) em média 37 vezes por dia. Por estar tão próximos de nós, nada sabemos a seu respeito, muitas vezes nem quantos furinhos ele têm. Mas nos interessamos muito pelas coisas que estão longe de nós, assim como manchas solares que estão à 300 bilhões de quilometros da Terra; rabos de cometas e esquecemos o nosso. Discos voadores; vidas em outros planetas; nos preocupamos com todas essas coisas e esquecemos o que está perto de nós. Perto de nós está nossa família, que muitas vezes não conseguimos enxergar. A proposta da Museu do Botão é tentar acordar nas pessoas o real sentido da vida, esquecido pelas dificuldades enfrentadas na sobrevivência do dia a dia. Assim como o Botão junta partes da roupa, acreditamos que ele pode também juntar as pessoas e, por conseguinte, idéias. Todo mundo se abotoa igual, mas não pensa igual, por isso é que cada um tem o seu próprio botão.
Hélio Leites
retirado do livro Pequenas Grandezas: miniaturas de Hélio Leites p.56
Eu não sairia vestida de miniaturas, cabelo desgrenhado, trabalhando com sucata, contando histórias. Tampouco convivo com alguém parecido. Mas isso fala apenas quem eu sou e não quem ele é. Ele, Hélio Leites, button-maker-performer-graphic-designer-multidiaman, um homem que encontrou seu caminho. Eu não sou a medida de todas as coisas; ser o que eu não sou ou entendo não quer dizer que algo é ruim, indesejável, ridículo. É justamente isso o que o discurso da normalidade – e seu orgulho – diz. Acho de uma pobreza de espírito imensa. Se não tenho como me defender quando sou chamada de medíocre, que pelo menos eu tenha sensibilidade para valorizar quem não é.