Sim ou não

carmen miranda

Na imperdível biografia da Carmen Miranda, Ruy Castro conta que quando ela era bem novinha, trabalhou como vendedora numa loja de chapéus. Carmen era uma excelente vendedora; quando uma cliente estava na dúvida, bastava ela colocar o chapéu em si mesma. Se ver refletida no rosto encantador da Carmen convencia qualquer uma a gastar. O dono da loja – que era cara e tradicional – ficou muito apaixonado por ela, queria compromisso, tentou de todo jeito. Ela namorava um bonitão da alta sociedade e, como única retaliação possível, o patrão a fazia atrasar na loja para não conseguir encontrar com o namorado.

Eu fiquei me perguntando o que teria acontecido se a Carmen tivesse dado bola pro cara da loja de chapéu. Hoje, olhando em retrospecto, é absurda a ideia de Carmen Miranda, talvez a brasileira mais próxima do conceito de celebridade internacional que já tivemos, reduzida à esposa de um chapeleiro. Era uma loja tradicional, ele tinha dinheiro, ela não, ele queria casar, bom partido e etc. mas ela era Carmen Miranda, poxa! Quer dizer, ainda não era A Carmen Miranda, apenas o potencial dela. Eu imagino a Carmen – e aí está a visão que tenho de todas as escolhas que fazemos na vida, todas – naquela cabine com fones de ouvido, nos antigos programas que quando vê a luz o candidato deve responder sim ou não sem fazer ideia do que estão lhe propondo: você aceita trocar ser uma cantora mundialmente conhecida por um casamento por conveniência?

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Atração

Como ser atraente para quem a gente gostaria de ser atraente, taí uma questão insuperável. Todo mundo quer ter o it, o borogodó, aquilo que tem a ver com a beleza mas que não se reduz a ela. A quantidade de buscas e artigos relativos ao tema são uma prova disso. No tempo que o blogger me mostrava as buscas do Google, alguém sempre aparecia no meu blog com varições desse tema: do que os sagitarianos gostam? Como conquistar homens na balada? Homens gostam de mulheres de cabelo curto? Os artigos que dão passos e dicas são tão inúteis quanto irresistíveis. Dia desses cliquei num que dizia que um dos itens importantes na atração era o “Alongamento”. Como ninguém nunca se preocupou em saber se (a resposta é sim) eu encosto as mãos no chão com os joelhos esticados, tive que ler. Na verdade, o autor quis dizer consciência corporal, porque falava de dança, esportes e outras coisas que faziam com que a pessoa se expressasse bem fisicamente. Vendo pela bilionésima vez o vídeo da Carmen Miranda, e sentindo vontade de morder essa mulher, ser essa mulher, usar roupas coloridas enquanto desenho círculos no ar e olho de lado, tive um insight sobre o tema: atração é algo que a pessoa faz – seja pela forma como sorri, a doçura da sua voz, seu senso de humor, a espiral dos seus gestos ou do seu mindinho ou das suas argumentações inteligentes – que nos dá a impressão de que a nossa vida seria muito mais luminosa ao lado dela.

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Aurora

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Vi referência à Aurora Miranda como uma injustiçada, uma cantora muito boa que não tem o reconhecimento que deveria por causa da irmã. Mas quando a gente lê a biografia da Carmen Miranda, não fica com essa sensação ruim. Carmen sonhava em casar e ter filhos. A princípio, ela não conseguiu casar porque namorou homens de uma condição social superior à dela, e como simples cantora não estava à altura. Depois, quando se tornou Carmen Miranda, não conseguia ser levada à sério, era estrela demais. Acabou casando com o único homem que lhe pediu, uma bela porcaria que provavelmente só queria dinheiro. O amor pelas crianças a levava a ser madrinha de todos que podia e adotar de coração os filhos dos amigos e qualquer criança que lhe aparecesse na frente, mas quando finalmente tentou à sério não conseguiu levar a gravidez adiante. Aurora fez menos sucesso que a irmã, mas fez sucesso, pegou carona e aproveitou bastante, com direito a filme do Walt Disney e show nos EUA. Não uma carreira histórica, mas deu pra sentir um belo gostinho – e casar, ter filhos, ser saudável e viver uma vida longa. Sucesso quase nunca é o que dizem.

Carmen

Estou louca pela Carmen Miranda e só não houve uma grande onda de retorno à Carmem porque as pessoas não leem tanto assim. Porque Carmen vista pelo Ruy Castro merece. Ainda vou sentar e escrever direitinho sobre o livro, só falta terminar. Devo ter visto todos os (poucos) clipes dos filmes dela que tem no youtube e este é o que eu mais gosto. Tem o sotaque abrasileirado que a obrigavam a fazer, mas pelo menos não tem aquele modismo horrível de cantar em FF e ela já não precisava se afirmar tanto com a baiana de quilos de bijoux. É uma música bobinha e ela está fofa.

Uma das muitas curiosidades contadas no livro: o Brasil Pandeiro foi oferecido a Carmen na primeira vez que voltou para o Brasil depois da temporada nos EUA. Mas ela não quis gravar porque o samba exaltava demais a sua pessoa e era cheio de referências a ela, e Carmen jamais ficaria se gabando numa música. Olha como os versos mudam depois dessa informação:

O Tio Sam está querendo conhecer a nossa batucada

Está dizendo que o molho da baiana melhorou o seu prato

Vai entrar no cuzcuz, acarajé e abará

Na casa branca já lançou a batucada de ioiô e iaiá

PS: Eu já vi tanto esse clipe que fico reparando nas pessoas do fundo. Elas estão genuinamente maravilhadas. Não é todo dia (onde mesmo está essa citação?) que surge uma mulher que consiga ser ao mesmo tempo linda, engraçada e querida.