Caminhão de mudança

mudança

Sábado. Exerço meu sagrado direito de dormir até o sono acabar. Quando finalmente saí da cama e abri as cortinas, havia um enorme caminhão de mudança na vizinha do lado, onde tem a clínica. Enorme, do tipo que minha mãe chamava quando morávamos de aluguel e cabia a casa inteira lá dentro e ainda sobrava. Nem pra me avisarem, eu pensei. Temos um relacionamento cordial, eu e a vizinha. Eu a avisei quando, num domingo, a torneira da cozinha dela abriu sem motivo, e parecia que na minha casa a água jorrava sem parar. Ela dividiu comigo os custos das reforma das nossas calçadas e não me cobrou nada por usar o resto dos seus tijolinhos. Não vá, tive vontade de ir até a janela lhe dizer. Comecei a pensar no que faria, que teria que começar a acender vela pedindo vizinhos tão bons quanto, ou se faria igual Roberto Benigni no filme O Monstro e espantaria todos os possíveis inquilinos que aparecessem.

Antes, deixa eu explicar o porquê do pensamento: a acústica aqui é terrível. Até a chegada da clínica, eu sofri com cada vizinho que morou do lado. Primeiro foram dois irmãos, estudantes que vieram do interior e tinham um pai político. A moça brigava com o namorado e andava de madrugada de salto e dava para acompanhar os seus passos furiosos. Ela engravidou e foi embora. O irmão era mais comportado, bombeiro, mas fez um grupo de pagode e eles ensaiam adivinha aonde. Depois veio uma moça com dois filhos em idade escolar e que namorava o sósia do Marco Luque. O fato das crianças só dormirem pra lá da meia noite – dava para ouvir a manha cada vez- não me incomodava. O problema eram as longas sessões de sexo, sem dúvida regadas a viagra, que começavam 3h da madrugada e iam quase até de manhã. Eu tinha vontade de avisar que, assim como eu acordava com os gritos (não estou exagerando na expressão), os filhos dela também deveriam acordar. Como se não fosse o suficiente, ela deixava a cama encostada na parede que divide comigo e a cabeceira ficava batendo num ritmo bem característico.

Para espantar os inquilinos, bastava contar a verdade sobre o número assustador de roubos de carros por aqui, e uma das vítimas foi justamente um paciente. Antes da clínica, um casal bateu na vizinhança querendo saber se era violenta e eu disse que não, mas a vizinha do lado falou tanto de assalto que eu nunca mais vi aquele casal por aqui. Fui para o meu banho, tentando me conformar em perder minha vizinha favorita, e a imaginação voou: eu espantando novos inquilinos, o imóvel vazio, vândalos quebram as janelas, pichadores estragam as paredes, mendigos ocupam o imóvel, meus vizinhos a favor de amarrar bandido em poste colocam forças policiais para retirar os mendigos, tiroteio, pessoas morrem aqui do lado, eu começo a ver fantasmas. Quando saí, chateada em meio a uma nuvem de Phebo, olhei de novo e o caminhão tinha ido embora. Meu banho não é tão demorado assim, nem se fosse uma mudança feita pelo The Flash. Acho que eles erraram na proporção do caminhão de frete. Assim espero. Se encontrar minha vizinha, choramingarei pedindo para que ela nunca me deixe.

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Castelo de areia

castelo de areia

Tive todo tipo de siricutico durante as últimas semanas por ter que dançar um solo. Nenhum problema com a coreografia ou a técnica, tudo psicológico. Minha síndrome de One Frog Evening, fazer maravilhosamente fácil sozinha e travar porque tem gente olhando, me sentir a mais feia e incompetente. Na busca de uma solução, ou quem sabe de uma justificativa, estudei loucamente o Saturno do meu mapa astral, que é especialmente forte. Pra quem não sabe nada sobre o assunto, explico: Saturno é conhecido como O Grande Maléfico, onde quer que ele apareça no mapa astral indica áreas onde a pessoa sente dificuldade. Algumas versões do meu aspecto dizem: esta pessoa nunca poderá pisar num palco. Ela pode ser diretora, cuidar da luz, dos figurinos, estar sempre no meio, mas não no palco, porque ela é incapaz de ser o centro das atenções. Já em outros lugares dizem que há alguns atores com esse aspecto, porque a pessoa vai parar no palco justamente pra ver se resolve esse problema. Nunca pensei em mim nesses termos, de alguém que peita os seus medos. No meio das pesquisas, li uma historinha para explicar o aspecto que me tocou muito:

As crianças dos planetas estão na praia. Decidem fazer castelinhos na areia. As crianças Sol, Marte e Júpiter disparam na frente. A criança Saturno fica olhando, morrendo de vontade de fazer castelinhos também. Ela se pergunta: será que eu consigo? E se eu pegar um manual sobre como construir castelos? E se eu não conseguir, se eu treinar antes, e se… Nesse meio tempo a criança de Marte já construiu o dela correndo, a de Júpiter fez um castelo enorme. Quando finalmente a criança Saturno decide que ela quer sim fazer o seu castelo, as outras já correram pra água.

Dia desses voltava de um ensaio e não sei se é a propensão à ficar melancólico quando se está sentado ao lado na janela com a testa apoiada no vidro, mas pensei em castelos de areia e chorei por debaixo dos óculos. O que eu precisava fazer, já que não consigo evitar o movimento de parar, me cobrar, achar que não sou capaz e fazer com medo, é sentar sozinha e fazer meu castelinho. Que bom para as outras crianças, que já fizeram e estão na água. O meu sai devagar, miúdo, modesto, mas é o meu, é o que eu posso. Amar o grandioso é fácil, difícil é fazer do pequenininho o seu lar.

O (acho que) rato

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Era de noite, a porta dos fundos estava aberta como sempre e eu ouvi um barulho esquisito que vinha de fora. Apurei o ouvido e vinha do sifão, da parte debaixo. Durante o dia eu tinha usado o tanque e a água esparramou toda, o sifão estava desencaixado. Encaixei de volta e achei que era apenas porque estava ressecado. Ao ouvir aquele barulho, entendi que um bicho havia tirado ele do lugar e que estava tentando fazer de novo, naquele instante. Abri a torneira e deixei a água correr, o barulho parou. No dia seguinte tudo bem, mesmo assim joguei uma água sanitária antes de dormir, para dar o recado. Na manhã seguinte, o sifão todo para fora de novo. Pego uma imensa pedra redonda de jardim e coloco em cima do buraco, ou seja, fico sem tanque o dia todo. Estou bem tranquila à noite fazendo sopa e quando olho para o tanque a pedra estava longe. Foi aquela sensação de filme de terror, o bicho além de persistente é grande. Coloco a pedra de novo, agora com o reforço de enciclopédias (!!) para prendê-la à parede. Tenho medo de ter prendido o rato pra fora – ou para dentro, dependendo do ponto de vista – , mas como é que eu vou saber se ele foi e já voltou? Me desconcentro, não leio mais, não faço mais nada direito. Estou no sofá ouvindo a única trilha possível no momento – Life is Hard – e penso em não postar. Tem um ratão em algum lugar, lá embaixo.

Uma sombra masculina

 

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Eu desço pela porta da frente do ônibus. Está escuro e a rua é uma descida. Viro na primeira esquina à direita, onde a inclinação é tão grande que vou devagar, com passos miudinhos. É raro que alguém desça ali, e mais raro ainda que dobre naquela rua residencial. Às vezes um homem desce o ônibus comigo e nem sempre consigo deixar que ele me ultrapasse. Aí olho de novo para trás quando viro a rua, olho quando tento atravessar, olho fingindo atravessar, ando cada vez mais rápido. Ele sem dúvida percebe o meu medo, minha desconfiança provavelmente injusta porque ele entrou naquele ônibus e desceu naquele ponto por motivos próprios e não para me seguir. O homem que está lá atrás pode ser tão sensível e bacana quanto qualquer amigo meu – eu nunca saberei, e se ele tentasse me dizer alguma coisa ela soaria como um prenúncio de violência. Carros passam indiferentes, os som das minhas botas ecoa entre as árvores. Ele é um homem e eu tenho medo. Ele sabe. De longe, o homem caminha devagar, deixa que eu me afaste cada vez mais, que corra, que sua figura fique bem pequenininha para que eu possa voltar a me sentir segura.

Ser um homem, observado com atenção por mulheres. Isso deve ser inteiramente estranho. Tê-las observando-o o tempo todo. Tê-las se encolhendo quando ele se move, mesmo se for um movimento bastante inofensivo, estender a mão para pegar um cinzeiro, talvez. Tê-las medindo-o, avaliando-o. Tê-las pensando, ele não pode, ele não é capaz de fazê-lo, ele não serve, ele terá de servir, este último como se fosse uma peça de vestuário, fora de moda ou ordinária, que deve não obstante ser vestida porque não há mais nada disponível.

Tê-las enganando-o, testando-o, provocando-o, experimentando-o, enquanto ele se enfia nelas para o ato sexual como se enfia uma meia no pé, até a base de seu próprio toco, aquele polegar adicional e sensível, seu tentáculo, seu olho de lesma de talo delicado, que se saliente, se expele, se expande, recua, e murcha encolhendo-se de volta para dentro de si mesmo quando tocado de maneira errada, cresce tornando-se grande de novo, fazendo um ligeiro bojo na ponta, viajando para frente como se ao longo de uma folha, para penetrar nelas, ávido por uma visão. Alcançar a visão dessa maneira, essa jornada para o interior de uma escuridão que é composta de mulheres, uma mulher, que pode ver na escuridão enquanto ele próprio se esforça cegamente para frente.

Margaret Atwood/ O conto de aia, parte IV cap.15

Curtas de lama e chuva

Meus amigos deram risada ao me ver nesta foto. Se perguntaram que apagão foi esse, como era possível eu totalmente desprovida de vaidade e num lugar cheio de lama. Eu ri e me senti muito querida de terem notado. E a sujeira estava apenas começando.

 

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Conheci a amiga do Alessandro, Claudia. Quem acompanha o Alessandro sabe que ambos têm uma atitude libertária diante da vida, dos relacionamentos e do sexo. O que eu sabia dela é que era uma mulher careca que não curtia se depilar e tirava fotos em poses dominadoras. Aí a encontrei, em carne e osso, igualzinha às fotos e às descrições. Ela é uma dessas pessoas que parece estar muito confortável dentro da pele. Não, ela não seria mais bonita cabeluda ou depilada, simplesmente porque não seria ela.

 

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Alias, fui convidada pra fazer parte da comunidade que eles pretender ter. Quarto e banheiro privativo, o resto comunal. Mal e mal sei se consigo casar de novo, então acho que não é pra qualquer um ser convidado pra viver junto numa comunidade nascente. Fiquei lisonjeada. E disse não.

 

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Não deu pra encaixar no post anterior: esqueci o repelente e meu pé foi cruelmente atacado por pulgas. Fiquei preocupada com a calça que usei no curso e o que está mesmo quase dando PT (Perda Total) é o meu pé. Pensei em postar uma foto disso também, mas ia ser algo tão aviso em maço de cigarros…

 

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Aconteceu uma coisa chata no curso: um dos locais deu em cima de mim. E em cima de outra, conforme soube na volta. Foi rápido e sutil, com ambas. Ele estava no mesmo quarto que eu, e a partir daquele momento eu fiquei receosa. Dormi mal, então tenho certeza de que nada aconteceu. Não deve ser má pessoa e ele mesmo não deve ter visto nada de errado na sua atitude, muito pelo contrário. Mas o mundo é um lugar tão perigoso para as mulheres e os homens às vezes não se dão conta disso.

Teje presa, Dúnia!

Donos de cães são meio como aqueles pais que acham suas crias lindas quando mal educadas, sem limites e barulhentas, mesmo em locais públicos. Antes de ter a Dúnia, praticamente se poderia dizer que eu tinha medo de cachorro. Só conseguia conviver com os pequenos e olhe lá. Com ela, em pouco tempo estava achando muito lindo que ela quisesse pular em qualquer desconhecido na rua, porque, afinal, ela é maravilhosa, e quem não acharia maravilhoso ganhar carinho dela. Hoje adquiri de novo a noção das coisas e jamais obrigo as pessoas a entrarem aqui com a Dúnia solta. A não ser que seja um daqueles que amam cachorros, e que chegam aqui doidos pra fazer amizade com ela. Pra esses é até meio frustrante, porque a Dúnia não dá muita bola nem pra mim, que dirá pra estranhos.
Eu tenho um grau considerável de autoridade sobre ela, que além de tudo foi adestrada. Prendê-la era muito mais chato antes, e quando alguém vinha na minha casa, eu mandava ela ir pra casinha até a pessoa entrar. Só que eu via que a visita não acreditava muito, e ver aquele cachorro de pé dentro da casinha, com a língua de fora e cara feliz, fazia com que todos entrassem correndo. Eu sei (vide foto) o quanto aquele cachorro preto de porte médio pode parecer psicótico sorrindo com a língua de fora, então agora prendo de uma vez. Com a idade* a bicha acalmou e não vê problema nenhum em esperar na corrente. Mesmo porque ela sempre ganha ossinho nessas ocasiões.
Os prestadores de serviço que vem aqui pra casa ficam muito felizes com a minha atitude. Pelo que tenho ouvido, esse meu comportamento de prender o cachorro é meio raro. Aí começam as histórias. O último que veio aqui me garantiu que não tinha medo de cachorro, apesar de ter ficado preocupado se ela ainda estava presa quando a gente saiu. Ele me contou que levou 16 pontos da coxa, porque o dono garantiu que o cachorro não mordia, ele entrou, o cachorro correu atrás dele, ele correu e passou por uma ponta numa grande e se cortou. O que instalou minha cortina, que era terceirizado de uma grande loja, me contou de uma vez que foi fazer uma instalação numa casa que tinha um desses cachorros pequenos e chatos. A dona não quis prender e ele passou com as cortinas nos braços, e o cachorro latindo e correndo em volta dele. Até que o pestinha acertou com os dentes no calcanhar dele, que sangrou por dentro do sapato. Ele entrou na casa, entregou as cortinas e disse que a dona deveria entrar em contato com a loja, porque ele se recusava a trabalhar ali. Eu, que detesto ter que esperar entregas, achei um bom castigo.
Além de ser fácil prender o cachorro um pouco, nunca entendi a lógica de tratar mal quem vai te prestar um serviço. Esnobar, deixar sem toalha no banheiro, tirar vantagem do que puder. Se não for pelo respeito por um outro ser humano trabalhando, que se trate bem por interesse próprio.  Se você está sendo sacana, é óbvio que em alguma coisa ele vai querer ser sacana também. Nem que seja no suco cuspido que você nem sabe que bebeu.

* escrevi num outro post que ela tinha 8 anos. Erro de cálculo, ela já está com 11!

Sem ela saber, a minha amiga morrendo de medo da vida pós-casamento me ajudou muito. Me ajudou perceber o quanto que a minha experiência e a de outros não a ajudava em nada; o quanto ter escolhido o que viria a seguir não ajudava nada; em resumo, o quanto não saber o que nos espera, mesmo que seja algo bom, traz ansiedade. O desconhecido traz ansiedade. Talvez sejamos todos essencialmente pessimistas, e supomos que se não vemos é ruim, se não podemos controlar, vamos nos machucar. 

Tenho feito tudo certinho, e quem me conhece e já passou por situações semelhantes garante: posso estranhar nas primeiras semanas, mas me sairei bem. A solidão, embora difícil no começo, chega a ser viciante de tão boa. Ficamos mais fortes, mais criteriosos, mais amigos de nós mesmos. Uma pessoa que sabe viver com a sua solidão jamais cairá no golpe do amor porcaria. No meu histórico, fui sempre amiga de ficar sozinha, quieta, no meu canto. Já passo muito tempo sozinha. Mas, tal como minha amiga, saber e ouvir são uma dimensão, o sentimento é outra coisa. Medo é medo.

Então, a única imagem que eu consigo ter, é daquele que me parece o melhor exemplo de fé. Penso numa criança que está com medo e o adulto que a ama lhe pede para seguir em frente. O adulto lhe pergunta:

– Você confia em mim?

Ela concorda com a cabeça e vai, mesmo com medo. Porque se aquela pessoa lhe disse para ir, nada de mal pode lhe acontecer.

Acordo

Fiz comigo um acordo, que chamo de Acordo Forrest Gump, embora eu não pretenda correr. Se um dia a solidão bater de forma violenta e eu não tiver ninguém pra apelar – as pessoas têm suas vidas, dependendo do dia, horário e frequência, simplesmente não dá -, eu vou sair andando. Andarei horas seguidas, cruzarei a cidade a pé se for preciso. Posso seguir uma linha de ônibus e ir, posso decidir tomar um café lá naquela padaria distante. Nem que eu só volte pra dormir e não consiga pensar em nada por estar exausta. O importante é não ficar trancada em casa.

Catástrofe

Não consigo nem expressar o que sinto com o filme Mad Max – além da cúpula do trovão. Ele passava na Sessão da Tarde quando eu era pequena e me deixava apavorada. O argumento de um mundo onde ter gasolina fosse essencial me parecia totalmente convincente; então, eu comprava todo o resto. Eu tinha medo de, na minha vida adulta, ter que estar sempre suja, em auto estradas e quem sabe até ter que lutar numa arena. Tina Turner vestida daquele jeito me marcou para sempre, aquela pra mim era ela. Nunca vi e nem nunca vou ver esse filme inteiro, não é algo racional. Ele traz à tona um medo infantil muito básico.

 

Talvez seja por Mad Max o medo que eu tive durante muitos anos do problema do petróleo. Aprendi que o petróleo é formado ao longo de tanto tempo que nem dá pra medir, assim como não dá pra esperar que a terra produza mais. Então, um dia nosso petróleo acabará e com ele todos os seus derivados, dentre eles a gasolina. Como faremos sem gasolina, como sairemos do lugar, o que fazer com tantos carros? Digito isso e já sinto minha respiração se alterar um pouco. Um dia, acho que no final do ano passado – vejam, recentemente – eu vi um longo documentário sobre combustíveis alternativos. Tem até carro movido a ar. Minha preocupação com a humanidade sem petróleo, alimentada durante tantos anos, deu lugar à indignação: dá pra ficar perfeitamente bem sem petróleo, a indústria automobilística é que não tem interesse nisso.

 

O que me faz lembrar de uma pesquisa que um sujeito fez no século dezenove, preocupado com a quantidade enorme de fezes que os cavalos gerariam no futuro. Ele fazia uma projeção das pessoas andando cada vez mais de cavalo, e o quanto cada um deles geraria de cocô e… vocês já entenderam o ponto.

 

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Numa escala muito pessoal, tenho dito continuamente a mim mesma: respira, está tudo bem. Às vezes eu me apavoro, outras vezes tudo está da melhor forma. Surgiu na minha mão um surto alérgico que eu não tinha desde que morava com a minha mãe, antes de casar…

Casa vazia

Eu passo muito tempo em casa e isso não é de hoje. E como sou uma pessoa introvertida, isso sempre me fez bem. Introvertidos têm a necessidade de recarregar as baterias depois de estarem acompanhados. A impressão que dá é que os extrovertidos se alimentam da companhia de pessoas, e quanto mais saem com pessoas, melhores e mais energizados eles se sentem. Para os introvertidos, por mais que a companhia seja boa, depois dá vontade de ficar um pouco sozinho, de assimilar. Senão ficamos chatos, mal humorados. A minha rotina de passar muito tempo dedicada às tarefas silenciosas, como escrever e cuidar das minhas coisas, têm me garantido ser uma companhia disponível quando tenho que estar com as pessoas. Até mesmo quando surgem programas, tenho conseguido ser uma pessoa disponível, porque estou sempre em dia com as minhas baterias introvertidas.

 

Só que agora é como se a rotina que tanto amei se voltasse contra mim. As mesmas coisas de sempre, os mesmos horários, o mesmo tempo disponível agora me parecem sufocantes. Parece que tudo isso fazia sentido apenas porque a solidão não era completa. No final da tarde ela seria interrompida, nos fins de semana ela seria interrompida. Quem tem uma companhia constante não precisa se preocupar em formar um grupo de amigos, em frequentar seus vizinhos, criar programas novos. Porque, mesmo sem fazer nada, eu sempre tive um outro ser que anda pela casa, que abre a geladeira, ou seja, alguém. Posso passar horas sem falar nada, mas no momento em que eu abro uma página ou vejo um vídeo engraçado, eu tenho uma audiência, alguém para dizer “quero te mostrar uma coisa”.

 

A minha rotina de sempre, a minha tão amada rotina, tornou-se de repente um motivo de terror. Quando penso no assunto – às vezes porque me obrigo, às vezes porque me despeço – o ansiedade sobe e me sufoca. Tenho medo de passar o dia inteiro sem ouvir outra voz, sem uma conversa, sem contato humano. Tenho medo de ficar igual a minha mãe. Agora me parece que tudo seria mais fácil se eu tivesse que acordar cedo, sair correndo, passar o dia fazendo coisas chatas, lidando com colegas de trabalho e preocupada com outras coisas. Que apenas no fim do dia eu chegasse em casa cansada e percebesse a casa vazia.

Dois medos

Tenho notado uma tendência de certas mulheres solteironas ficarem meio loucas. É provável que os homens também fiquem; mas os homens assim que se veem solteiros logo procuram uma mulher pra colocar do lado, qualquer mulher. Sem dizer que as mulheres vivem mais. Vejo essas mulheres meio loucas, e me pergunto se são loucas porque estão sozinhas ou se estão sozinhas porque são loucas. Chamo de loucura mas é muito mais uma aguda incapacidade de negociar, uma tendência a serem monotemáticas, um certo descompasso no trato com o outro. E isso aumenta sua solidão. Tenho medo justamente porque tenho tendência a me isolar e entendo perfeitamente a recusa com o mundo. Vejo que facilmente poderia (ou poderei) me isolar no meu apartamentinho, com minhas violetas e uns gatos. Nos um ou dois compromissos fora de casa, seria tão intratável que os outros me olhariam com pena. Ou – não adianta argumentar com ela, é louca.

 

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Tenho um medo flamenco. No meu caso é flamenco porque eu amo o flamenco, mas acontece em qualquer área. Não encontrei um termo que defina isso. Meu medo é chegar um ponto onde eu pare de evoluir. Pare de aprender, de me desafiar, de crescer. Existe tanto a ser aprendido e não quero de repente sentir que bati com a cabeça no teto, que dali eu não passo. Seria muito triste, porque seria um teto bem baixo. Só que aí, por amar demais, por ter investido demais na ideia de ser bailaora, não me conformaria. Buscaria subterfúgios, viveria de glórias passadas, repetiria sempre os mesmos passos na ilusão de que assim estou enganando alguém e de que ainda sou boa. Tenho horror à possibilidade de viver de pose, de símbolos, de ilusões. Ser daquelas pessoas que precisam sempre dos iniciantes por perto, porque uma pessoa com olhos mais treinados logo vê que dali não há mais nada para sair. Quando vejo fazerem isso, me pergunto porque não se retiram com dignidade ao invés de montar esse teatro. Mas comigo, ah!, não sei o que farei se não conseguir aprender mais nada.

Medos infantis

A Rita e a Tina começaram numas de listar os medos infantis e comecei a pensar no assunto. Lembrei do meu pai acordando cedo para fazer a feira. Eu ainda ficava no colo. O final do trajeto era a ida ao açougue e nesse momento eu sempre ficava trancada no carro, porque tinha medo de entrar lá. O cheiro, as carnes penduradas, adivinhar que parte de um ser vivo é aquela… Com o tempo, o medo se transformou em desconforto, que tenho até hoje. Quando minha mãe tentou me fazer aprender a cozinhar os meus pratos carnívoros preferidos, a visão da carne e sentir ela gelada sempre me davam tal horror que eu era incapaz de comer depois. Isso me faz pensar que deixar de comer carne se tornasse uma necessidade, e não uma escolha, se eu tivesse esperado mais tempo.

Na minha infância o Globo Repórter não era esse programa chato que passa coisas sobre bichos e dicas de saúde. Ele tinha grandes reportagens, coisas fortes, denúncias, o mundo cão. Na chamada sempre apareciam coisas do tipo e eu desenvolvi um certo medo da musiquinha do programa. Bastava tocar a musiquinha pra eu ter que sair da sala. Um outro medo televisivo foi gerado pelos programas que falavam das Profecias de Nostradamus. Eles provavam por A mais B que naquelas coisas sem sentido ele havia predito a morte de reis, Hitler (chamado de Hister, algo assim), a energia atômica e até mesmo a violação do próprio túmulo! E Nostradamus dizia que o mundo acabaria em breve, antes mesmo de eu virar adulta. Quem sabe o mundo no futuro fosse igual Mad Max. Hoje Nostradamus está fora de moda, mas coloquemos no seu lugar o Calendário Maia, o Código da Bíblia, as mudanças astronômicas de 2012 e não vai parecer tão sem sentido assim. 

Tem um outro medo datado, que é um medo literário. Eu tinha medo de dar ponta numa piscina e ficar paralítica. Tudo por causa do Feliz Ano Velho, do Marcelo Rubens Paiva, que foi lançado naquela época. Eu nem ao mesmo li o livro, foi minha mãe que me contou. Assim como também foi ela que disse que eu poderia quebrar o pescoço se desse cambalhotas e também poderia ficar paralítica. O engraçado é que não fiz essas coisas quando era criança e fui obrigada a aprender depois de adulta – cambalhotas por causa de um espetáculo e pular na piscina por causa da natação. Mas a verdade é que falamos dos medos infantis porque é mais fácil. E o que dizer dos muitos medos que a gente tem quando adulto? Eu nunca sei se desenvolvi certos medos ou se eles sempre estiveram lá. O medo de altura, por exemplo. Mas isso já é outro assunto…

Medo nosso de cada dia

Eu falo muito em ir embora de Curitiba. Sempre tive mais amigos fora, nem ao menos o meu blog faz tanto sucesso aqui como em outras capitais. Quando digo para o Luiz aceitar uma das muitas oportunidades de morar fora, ele me lembra sensatamente que moramos numa casa legal, num bairro legal, que tudo está legal. Morar em outra cidade pode ser bom… e também pode não ser. Na incapacidade de resolver essa equação e sendo que a nossa vida não está tão ruim assim, vamos ficando.

Uma vez eu concluí que a vida nada mais era do que uma evitação do sofrimento. Se mudar, tudo pode ficar um pouco pior, então ficamos. Se alguém nos pede um conselho, também temos dificuldade de recomendar a mudança. “Se eu me separar do traste, será que consigo um marido melhor, caso de novo e sou bem feliz?” Pode ser… Então a mulher só larga o traste quando se conforma que morrer seca é melhor do que continuar lá. Vejo que é muito mais o medo do que pode acontecer em casos de doença ou morte que mantém muitas famílias unidas. Até eu penso no que será de mim quando for velha, sem filhos que se preocupem com meu bem estar. O emprego é ruim mas pelo menos paga as contas. Os amigos são ruins mas pelo menos é companhia. Não gosto da cidade mas já estou acostumada.

A equação do medo é difícil de ser solucionada. Ele fica de mãos dadas com a sensatez, mas ser sensato a vida inteira é quase como não viver. Eu desisti da idéia dele ir embora. Quando quero fazer algo novo, pego na mão do Medo e vamos juntinhos.

Qual o seu maior medo?

Esses dias eu vi Couch Carter – Um treino para vida por causa da faculdade. É a versão esportiva do Ao mestre com carinho. Num momento importante do filme um dos jogadores faz uma citação bonita e não dá os créditos. Aí está ela. Antigamente gostava de auto-ajuda; os anos me deixam cada vez mais cínica e hoje não suporto qualquer citação fofinha. Mas essa… essa, apesar de tudo, ainda faz muito sentido pra mim.

Nosso grande medo não é o de que sejamos incapazes. Nosso maior medo é que sejamos poderosos além da medida. É nossa luz, não nossa escuridão, que mais nos amedronta.
Nos perguntamos: “Quem sou eu para ser brilhante, atraente, talentoso e incrível?” Na verdade, quem é você para não ser tudo isso?… Bancar o pequeno não ajuda o mundo. Não há nada brilhante em encolher-se para que as outras pessoas não se sintam inseguras em torno de você.
E à medida que deixamos nossa própria luz brilhar, inconscientemente damos às outras pessoas permissão para fazer o mesmo.
À medida que nos libertamos dos nossos medos, nossa presença automaticamente liberta os outros.

Nelson Mandela