Salvador e Salvador

Eu geralmente saio pelos fundos, porque é mais perto. Mas por acaso, naquele dia, saí pela frente. E encontrei um colega de turma, que também nunca encontrei saindo. Chovia muito. Eu estava de guarda-chuva e capa, porque nesses dias não para de chover, mas era daquele tipo de chuva que proteção nenhuma salva. Ele me perguntou se eu queria carona. Falei que não, que pretendia ir a pé. E pretendia mesmo, pelo menos até certo trecho, para comprar umas coisinhas. Ele achou que aquilo era desculpa e insistiu. Acabei aceitando porque até pra mim aquilo soou como desculpa. E também achei meio destino eu sair pelo lado que eu nunca saio e encontrar uma pessoa que eu nunca encontro num dia de muita chuva. Aceitei, e fomos para fora juntos no meu guarda-chuva até o estacionamento. Eu sem fazer a menor ideia de que carro era e onde estava.

Pena que não sei marca de carro pra poder contar aqui. Sei que era um carrão, nos dois sentidos do termo. Preto, alto, espaçoso, todo equipado, daquele tipo que parece abraçar a gente quando entra. Eu já esperava algo assim, já havia visto e ouvido o suficiente para saber que temos alguns degraus de distância na pirâmide social. Começamos a conversar, o assunto recaiu sobre minha viagem, eu disse que meu pai mora sem Salvador e que nunca morri de amores pela cidade. Aí ele me fez entender que já foi, quem sabe mais de uma vez, porque tem uma opinião bem definida sobre lá: que é uma cidade bacana, que tem lugares bonitos, excelentes restaurantes…

Aí bateu aquela certeza da realidade que nos separa. Como se o carro, eu costureira, ele indo para o escritório e muitos outros detalhes já não gritassem a verdade. Verdade esta que é sempre muito mais clara para quem está embaixo do que em cima. Como eu poderia explicar a ele que vamos a cidades diferentes quando visitamos Salvador? Tentei por alto, quando disse que não vou como turista e que o Sul e o Nordeste são culturas diferentes. Ele concordou, claro, mas é que… A Salvador que eu conheço é a do ponto de ônibus, do acarajé baratinho e refrigerante no isopor, ruas estreitas e chinelo de dedo. Deve mesmo ser muito legal essa cidade que ele conhece, a Salvador dos bons restaurantes e serviços, com tinta fresca sobre a maresia e ar condicionado. Como já me disseram (foi em Jaguarari, inclusive), as cidades podem ser melhores ou piores dependendo do nível de vida que você terá nelas. Lá, no centrinho de Itapoã, o restaurante que meu pai frequenta é o Dimenor.

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