Na Tietê

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Eram tempos pré-celular. Minha mãe havia me alertado que em São Paulo era diferente, que por causa das distâncias, um contratempo, uma chuva mais forte, e a programação pode ir toda por água abaixo e a pessoa se atrasa durante horas. Que uma vez ela tinha combinado de encontrar com o irmão dela, na Paulista, e ele atrasou umas duas horas. Ela ficou lá, de pé, olhando os carros que vinham, tentando reconhecê-lo. A culpa não foi dele, foi do trânsito. Quando ele chegou, os dois conversaram normalmente no carro e só quando chegou na casa dele viu que estava com a maquiagem toda escorrida. Então eu deveria ter calma. Quando meus pais se separaram, nas primeiras vezes alguém ia até São Paulo, e depois até Salvador, depois paramos de fazer aquela escala. Há anos eu não ia para São Paulo, era minha primeira vez sozinha. Minha tia, irmã da minha mãe, ia me buscar. Fui instruída a subir a primeira escada rolante à esquerda e procurar um cartaz muito grande que diz Ponto de Encontro. Minha tia sabia quando eu saía de Curitiba, quando chegava e em que ônibus, estava tudo certo, mas São Paulo era imprevisível. O ônibus foi pontual e cheguei no horário que deveria, subi a escada rolante e localizei facilmente o Ponto de Encontro, que aponta para um espaço vazio. Fui me aproximando e constatei o que já dava para perceber de longe: a minha tia não estava lá. Fui para bem embaixo do cartaz, olhei à minha volta e ninguém me procurava. Podia levar horas, como a minha mãe de pé na Paulista. Eu coloquei a minha mala no chão, sentei em cima dela e tirei uma maçã que havia trazido de Curitiba. Comecei a comer enquanto olhava distraidamente o movimento. Nem havia terminado a maçã quando, de longe, vi duas mulheres rindo na minha direção, que depois percebi que eram minha tia e minha prima. Elas me acharam tão relax, tão low profile, tão tão pra uma adolescente sozinha numa cidade estranha. Desejei que elas tivessem razão.

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Jegue elétrico

Estou numa casa centenária, no interior da Bahia. Ontem fez um frio do caceta e por pouco não joguei minha dignidade pra cima e saí por aí enrolada numa coberta. Onde já se viu, uma pessoa que saiu de Curitiba a quatro graus, com vontade de chorar (tenho desconfiado que sou uma pessoa chorona. Ainda não tenho certeza) de frio, de saudades dos casacos que deixou em Salvador, em São Paulo e no guarda-roupa de casa. Temi pelas minhas próximas noites, de ter que usar o mesmo moletom e calça jeans durante uma semana, mas agora está mais quentinho.

 

Sabiam que aqui as festas juninas são tão ou mais populares que o carnaval, e que as pessoas viajam para o interior e Salvador fica vazia? Tem venda de camiseta e tudo, semelhante aos abadás. Hoje vi as camisetas das pessoas que estavam aguardando o Jegue-elétrico da cidade de Senhor do Bonfim. Sim, Jegue-elétrico – é um jegue puxando um carro de som. A camiseta custa uns 300 reais e de uma festa Esfrega custa uns 700. Outra curiosidade: em certas cidades a festa mais popular não é o São João e sim o São Pedro, dia 29 de junho?
Enfim, são muitas emoções. Estava morrendo de preguiça de viajar, fui pra São Paulo lamentando minha decisão de não pegar um voo direto, porque eu fazia aquele sacrifício todo ao invés de só ir direto pra Salvador. E assim que entrei no ônibus, entendi. Adoro pegar aquele ônibus, adoro ir pra São Paulo, adoro o metrô, adoro os amigos que se dispõem a me ver, adoro até mesmo a correria. Pensei que isso viraria um texto, assim que cheguei escrevi outro texto, liguei o netbook achando que escrevia um texto sobre a música chata que vem da igreja e concorre com o forró da praça… Mas viagens são assim, acabam nos tirando do prumo. Tenho comido “pão pesado” com uma manteiga maravilhosamente gostosa e que não quero nem imaginar o que está fazendo com o meu colesterol. Ao mesmo tempo, poxa, saudades.

Cobrador-legista

Até agora não entendi como é que eu me perdi na volta do Ibirapuera. Saí pelo mesmo lugar onde entrei, segui um retão, da mesma forma que cheguei lá andando reto toda vida (leia isso com sotaque catarinense). Até passei pelas mesmas clínicas que eu tinha passado. Devo ter pego alguma rua que sai de lá em triângulo. Sei que o caminho foi ficando diferente, diferente, até que não pude negar os fatos: estava perdida em São Paulo.

 

Encontrei uma moça, dessas que fica do lado de um stand pra falar de Jesus, e achei que seria alguém perfeito pra pedir ajuda. Ela me mandou andar até Santo Amaro e de lá pegar um ônibus. Tenho resistência a pegar ônibus em São Paulo, por mim faço tudo de metrô. Acho que é porque o sistema lembra mais o curitibano, com isso de parar nos mesmos centros e só fazer a troca. Mas estava perdida de um jeito, e preocupada com meus horários, que tive que ceder. Já havia andado horas, visto duas exposições, e estava no horário do almoço, tinha que sair cedo pra ir pro aeroporto. Nem lembro direito o nome da linha. Cheguei no motorista e disse que tinha que parar perto do cemitério, e ele me disse que passaria por uns quatro. Claro que eu nem sabia qual cemitério era, nem ao menos qual a graça da igreja que fica por perto. Tenso mas deu certo.

 

Então, eu reexpliquei minha situação ao cobrador e grudei nele. Sentei na frente do sujeito, que já conversava com uma moça. Era um cobrador que fazia bico de legista, ou o contrário. Quando que a gente vai imaginar uma coisa dessas. Ele nos mostrou a mão calejada de lidar com formol, mesmo usando duas luvas para trabalhar. Pena que perdi trechos da conversa, porque ele falava relativamente baixo. Ele nos falou que o formol ainda é menos pior do que o cheiro dos cadáveres, que nada fede mais do que gente. Contou do ajudante que abusava dos cadáveres e ele teve que demitir. E que, na verdade, ainda salvou a vida do sujeito, porque abusando de cadáveres ele acabaria pegando doença deles, que vai necrosando as partes que entraram em contato com os corpos. Falou da rápida decomposição dos cadáveres com câncer, que você não pode nem encostar o dedo para que eles não estourem e comecem a vazar na hora. Contou que ganha uma fortuna quando morre alguém de família rica e pedem para reconstituir o corpo para poder ter um caixão aberto. Contou do caso de uma moça, que à medida que foi sendo despida, apareciam mais e mais tatuagens, e tinha 26 piercings pelo corpo. Na hora de devolver os pertences à família, o choque: eram todos evangélicos, os pais não sabiam de nada daquilo. Concluíram que a moça morreu porque já estava endemoniada.

 

“A vida da gente é um nada. Isso aqui (passa a mão no braço) é um nada, se acaba muito rápido. Tem que viver bastante, namorar, aproveitar a vida. Estamos aqui só de passagem”. Clichê, mas com outra autoridade quando dito por um cobrador-legista.

Sampa relax

Quando tudo parecia confuso, grandes decisões foram tomadas ou eu me sentia tragada pela vida, eu viajava para São Paulo. Coincidência ou não, minhas idas pra lá sempre coincidem com grandes momentos – daqueles grandes de uma maneira bem íntima, o que não os diminui em nada. Ir pra São Paulo me dá paz.

Por que São Paulo? Poderia dizer que é pelo apartamento fabuloso que a minha tia mora, onde a porta da cozinha fica sempre aberta e os gatos descansam no sofá. Poderia dizer que é porque sempre tive amigos maravilhosos lá, como os Criadores de Imagens, e por isso eu nunca deixo de sair e me divertir. Poderia citar a vida cultural incrível, em que é possível ver coisas de alto nível de graça – ou quase, porque comer e pegar metrô sai meio caro. Ou seria pelo retorno às raízes, já que os curitibanos nunca me reconheceram como um deles?

Mas não é só isso! (como dizem aquelas propagandas). Acho que o legal de São Paulo é a cidade ser tão assustadoramente grande, tão grande que nem quem mora lá consegue dominá-la totalmente. As pessoas são gentis e sempre dispostas a ajudar, porque estar perdido não causa qualquer espanto. Estar lá me traz a sensação de que tudo é possível e completamente mutável. Bastam 6 horas de viagem e toda minha vida fica para trás, e tudo pode ser recomeçado. E não há nada que eu possa fazer que seja completamente alheio aos paulistas, porque tudo que eu imaginar não apenas já foi pensado como até profissionalizado!

(Isso me lembra uma das minhas cenas preferidas no cinema: é quando no filme Kadosh, a moça foge de Jerusalém e observa o muro de longe. Sim, só eu e mais uns 13 israelenses vimos esse filme…)

Curiosidade 1 : A poluição deixa o meu cabelo mais liso do que chapinha.

Curiosidade 2: Lá a crocs falsificada custa apenas 20 reais. Eu paguei 40 pela minha e quis morrer quando descobri.

Cidades e seus temperamentos

Cidades são como pessoas. Assim como pessoas, elas têm seus próprios mapas astrais e não se dão bem com todos. Quem já mudou de cidade, sabe muito bem que isso tudo é verdade e que eu não sou louca.

Em Salvador é proibido ser tímido. Tímido, reservado, deprimido, ou qualquer coisa meio dark/metal/gótico. Tanto que Marcelo Nova foi o único roqueiro de Salvador por décadas. Toca um axé, e as meninas começam a dançar, no meio da rua. As pessoas se olham e se namoram muito. As coisas são alegres, as cores são vivas, a música batuca. Salvador é tão extrovertida e ensolarada que não há meio termo – ou você é uma pessoa 100% divertida e ensolarada, ou a cidade não é pra você. Se você é do tipo que gosta de ficar no canto olhando sem beber ou pensa um tanto antes de falar… todos começam a te achar muito estranho! Em pouco tempo, você começa a ser um desajustado, que fica mal humorado com a demora e a total falta de profissionalismo; pressa é coisa de gente infeliz. Sulistas raramente se adaptam.

Curitiba tem o céu cinza, como um flog londrino. As temperaturas podem varias 20 graus num mesmo dia. Mesmo nos dias ensolarados, as mulheres saem às ruas de preto – porque é chique, básico e emagrece. É uma cidade introvertida, onde qualquer um que fala um pouco mais alto “não é daqui”. As modas das vitrines aparecem nas ruas e em todos os lugares é possível ser bem atendido. Nunca jogar o lixo no chão é ponto de honra. Qualquer coisa que apele à correção e profissionalismo arranja terreno fértil – aqui, as coisas realmente funcionam. Difícil é superar a polidez curitibana, que sabe humilhar com o silêncio e a frieza no tom de voz. Ou conseguir ser mais do que colega daquele colega que você encontra durante anos, mas a amizade nunca sai disso. Porque em Curitiba é cada coisa no seu lugar e cada pessoa no seu lugar.

De São Paulo posso falar da imensa liberdade de uma cidade que já viu de tudo. Lá, nada do que você é ou faz surpreende – não há esquisitisse já não exista faz tempo em São Paulo. Sendo assim, você pode ser quem quiser, fazer o que quiser. Pode criar seu gueto, pode encontrar aqueles malucos que querem o que parecia que só você queria. Pode viver à noite, pode viver de rosa, pode falar sozinho – todos estão ocupados demais pra prestar atenção. O preço é a dedicação, a constância, a paciência de viver num lugar onde há muito tempo não é mais aprazível viver. A cidade puxa para ela todos os que buscam chances, todos os que sonham num lugar de méritos além das panelinhas. É tão grande que se torna impossível dominar, e o mais comum é viver uma cidade dentro da cidade, onde cada um só sabe se movimentar por itinerários conhecidos. Até que ponto você é realmente bom naquilo que faz? Só indo pra São Paulo pra descobrir.

Perfeição?

Um dos momentos inesquecíveis da minha estadia em Sampa foi quando estávamos descendo a cripta da Igreja da Sé. Nossa guia estava abrindo a porta para a cripta quando a Darlene, que estava atrás de mim, esbarrou em alguma coisa e falou: Escada dos infernos!

A Darlene não é como uma mocinha deve ser. Fala palavrão incontrolavelmente, gosta de heavy metal, ri alto, não tem papas na língua. Não é como uma que tive a oportunidade de conhecer há alguns anos: loira, cabelo comprido e liso, malhadora compulsiva, badaleira, ex Miss, com dinheiro. Se fosse para eleger a mulher perfeita, é claro que a Darlene estaria fora. E quem disse que queremos a perfeição?

Quando vejo alguém procurando a perfeição encarnada, logo sei que é um adolescente – mesmo que tenha mais de 40. Pessoas um pouquinho mais vividas ou profundas sabem que ser o que todos esperam é previsível e sem graça. Além de ser uma pessoa interessante e marcante, a Darlene tem outra qualidade importantíssima: sabe demonstrar seus afetos. Com palavras, brincadeiras e gestos, sempre demonstra que é minha amiga. Como não querer bem alguém assim?

Aquela loira tinha uma baita dificuldade de conseguir um namorado por mais de um mês. Tão logo o sujeito deixava de ligar, ela já ia pra balada e achava outro – “só pra garantir”. De alguma maneira, ela deveria demonstrar aos candidatos o quanto eles eram descartáveis. Assim como eu, que conversava todos os dias com ela, mas sentia que era uma amizade perfeitamente substituível. E fui.

Já as Darlenes, são para sempre.

Orkontro-Sampa

Nossa, como ela é baixinha!

Essa foi a primeira frase do Orkontro-Sampa. Só pela sacanagem da Flávia em me dizer isso, já dá pra notar o clima dessa viagem! O orkontro-Sampa foi marcado por caminhadas infinitas pelos lugares mais paulistanos: Vila Madalena, Praça da Sé, Centro Velho, Anhangabaú e, principalmente, metrô. Não pude ligar para a Paula. O Gegê me deu a honra da sua companhia apenas durante um almoço – o suficiente para notar o quanto ele é querido, educado e atencioso.

Para ser bem sincera, de todos os orkontros, esse foi sem dúvida o menos orkôntrico. Me explico: todos os orkontros anteriores foram marcados pelo orkut. Falamos muito dos scraps, dos amigos, das DIs, piadas internas. Com a Flávia, o orkut apareceu uma vez ou outra. A coisa mais incrível do Orkontro-Sampa foi o quanto ele não pareceu um encontro de pessoas de net. Saímos – ora só o casal Di Nardo, ora com os amigos, ora com o Luiz – e falávamos sobre a cidade, coisas engraçadas, coisas pessoais, brincavamos. De repente eu tinha de me beliscar para acreditar que aquilo teria fim, que eu não era dali. A Flávia, o Elso, a Darlene, o Carlos e a (sou horrível para lembrar nomes) fizeram com que eu me sentisse apenas uma paulista (ops!) andando por aí com os seus amigos.

Olhando para a Flávia, com aquela voz de criança, linda, sempre sorrindo e gesticulando, me perguntei de onde veio a mágica. Não, eu não acredito que tenha havido uma afinidade tão especial e inexplicável assim entre nós duas. E nem posso achar que sou eu – afinal, eu me conheço (acho). O grande segredo do Orkontro-Sampa foi sem dúvida a própria Flávia, com sua capacidade inata de ser espontânea, alegre, e fazer com que qualquer um se sinta bem na sua companhia.

Em resumo, recomendo doses constantes e regulares de Flávia para combater o stress e o mal humor!

Orkontros

Encontrar um amigo de net nunca é apenas uma saída entre amigos. É um momento definitivo na amizade – ou ela se aprofunda, ou ela diminui. Não há meio termo. Como disse meu professor, não chegamos ao estágio Matrix; os relacionamentos virtuais, por mais interessantes e verdadeiros que sejam, tem seu ápice no encontro real. Ainda é no real que se conhece realmente alguém.

Por isso, a escolha do local é importante. Se a coisa não rolar, tem que ter uma saída pela direita. Ou um filminho para ver. Acho que foi nisso que o Walter pensou quando marcou comigo no Shopping e já tinha até comprado o ingresso. Nem precisava- tranqüilo, tímido, o Walter e eu conversamos como velhos amigos. Pontos turísticos também são uma boa opção. O Renato abusou desse recurso – me serviu de guia turístico durante dias pela Cidade Maravilhosa. Nasceu uma afinidade tão grande que nenhum dos dois esperava – ele consegue ser tão ou mais sentimental que eu! Em grupos, parece que sempre dá mais certo – como o Grande Orkontro Rio de Janeiro, com as presenças de Bob, Renato de Boca Aberta, Otaner, Milena, Bacon, AP e eu. Rimos muito – histórias da DI que eu conhecia e que não conhecia, loucuras de orkut, fofocas. Alguns deles eu passei a ter contato ali, como o Bob. Sem dizer que eu descobri a verdade sobre a Tia Edna!

Daqui há alguns dias, embarco pra Sampa, para mais orkontros. Já conheço a cidade – o que não invalida uma visita à decoração de Natal da Av. Paulista, que já sei que está linda. Conhecerei amigos que não tem em comum nada além do fato de morarem em São Paulo e serem meus amigos de orkut: a Flávia (vugo Ninja do Photoshop), o Gegê e a Paula (ex-Anônima Verdinha). Será que reuno todos, será que não? Será que dois dias vai dar tempo, ou vai sobrar tempo? Será que vai ser legal conhecer outros famosos como o Elson (namorado da Flávia) e Darlene (amiga da Flávia, que sempre coloca *doida nos scraps)? Será que eu vou gostar deles, e eles vão gostar de mim? Decepções acontecem…

Todo orkontro é a mesma coisa, as mesmas dúvidas. E todos valem a pena ;o)