Pequenos ódios

dogbert karma

Sacos de lixo também precisam ser de qualidade. Já apareceu meu lixo todo esparramado na frente da casa, eu desconfiei que foi alguma forma de protesto de vizinhos, e no fim era apenas saco vagabundo que arrebentava embaixo. Investi em sacos melhores. Mas olha o problema: o caminhão passa sempre na mesma direção, claro. Ele pega o lixo da casa da esquerda, da minha, corre pro caminhão. Com mais frequência do que eu gostaria, o saco da minha vizinha arrebenta e cai lixo dela na frente da minha casa. Dias desses catei, cheia de ódio, um vidrinho minúsculo. Além de tudo não separa o lixo. Pensei em falar com ela, mas é justamente a vizinha maluca. Depois pensei em apenas jogar o lixo na frente da casa dela, o que ainda cogito fazer, aí lembrei de um dia que estava chegando em casa e ela me perguntou se eu vi quem ficou de madrugada perto da lixeira dela, porque a câmera não pega muito bem aquele pedaço. Ou seja, louca do jeito que é deve olhar todo fim de semana o que acontece na frente da casa dela. E até o cachorro dela é louco, é do tipo que passa alguém na frente e ele passa mais de minutos latindo. No fim, recolhi o vidrinho. Sabe o Dogbert, do Dilbert? Tem uma historinha que ele vai se tornando chefe apenas por mandar as pessoas saírem dos seus lugares e ninguém o enfrenta. Funciona mesmo.

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Alguma dignidade

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Gosto de fazer compras à noite, as vantagens são inúmeras. Eu já morei num bairro que também tinha muitos prédios, mas todos com lojas embaixo, então havia sempre um movimento em qualquer horário. Aqui não, é uma região muito mal servida de comércio, passo quase o tempo todo por portarias e grades que me permitem adivinhar quadras, salões de festas, garagens. Passam por mim alguns poucos passeadores de cães, pessoas indo e voltando da padaria, vejo acenos de pessoas aos seus caronas já quase dentro dos prédios. Por isso aquele casal chamou minha atenção. Ele, da minha altura, um rosto latino que não soube identificar. Ela, provavelmente da mesma região, com uma enorme gravidez. Um carrinho com um bebê e uma criança. Nossos olhares se cruzam de maneira neutra e sigo para o supermercado, eles para a direção oposta. Quando estou voltando, alternando o peso das sacolas nas duas mãos, os vejo de longe remexendo a lixeira de um dos prédios. Ajeito as sacolas, espero os carros passarem, atravesso a rua e isso lhes dá tempo de fecharem rapidamente a lixeira. Quando passo por eles, voltaram a ser um casal andando com os filhos pela noite. Pensei no que tinha nas sacolas e na carteira, mas a única coisa que eles queriam de mim era a manutenção da sua dignidade.

Curtas sobre questões caseiras

Eu sabia que dezembro era época de reaplicar o rejunte, mas fiquei com preguiça. Deu no que deu: minha área de serviço começou a pingar depois do banho, fiquei com medo de que fosse o encanamento, tive que tirar todo forro, uma lambança. Comprei rejunte, comprei sorvete pra usar o pote pra fazer rejunte (pra alguma coisa valeu um dia ter sido escultora). Agora explico o porquê da preguiça: o rejunte leva 72 h pra secar. São três dias sem poder tomar banho no meu chuveiro. Quando reaplico rejunte, tomo banho de caneca lá nos fundos. A dúvida é entre passar frio no banho de caneca ou ficar sem chuveiro bem quando qualquer ida até a esquina já é um suadouro.
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Eu tinha visto a mocinha da Copel passando. Aí ela bateu aqui e me falou sobre colocar a conta da minha vizinha na minha caixa de correio. Demorei pra entender, achei que ela tinha colocado por engano e queria que eu resgatasse o papel. “É que está fechada, você entrega pra ela?”. Sim, minha vizinha está de férias e a casa está fechada, e eu com isso. Mas era uma mocinha boazinha que estava se dando ao trabalho de falar comigo. O carteiro não está nem aí, deixa todos os endereços dúbios da vizinhança comigo, porque a minha caixa tem a melhor abertura. Então deixa, vai, já sou carteira de todo mundo mesmo.
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Por falar em Copel, meu consumo diminuiu e minha conta aumentou. É isso mesmo, Brasil?
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Quando a gente passa a separar o lixo, a lixeira de orgânicos fica bem pequena. Levando em conta que eu sou ruim de cozinha e moro só, imaginem como é a minha. Digo que sofro bullying dos lixeiros, porque às vezes eles passam pela vizinhança e só deixam o meu. Agora imaginem o ridículo que é pensar que eu erro na hora de comprar saco de lixo. Minha lixeira – comprei há pouco tempo e fiz questão de olhar – é de 15 kg. Aí vou comprar saco e não sabia que as medidas de quilos e litros não são nada equivalentes. Comprei um saco de 20 litros e quando cheguei em casa dava pra ensacar um cadáver.