Admoestações

Como se não bastasse ter chegado muito cedo, bem na hora combinada para encontrar meu irmão estava frio e chuvoso. Tive que me abrigar na igreja e lá vi um grande cartaz, com as diretrizes católicas para este ano. Era bastante coisa para ler, então só me dei ao trabalho de observar as duas colunas do final. Um item dizia “Alimentar os famintos” e o seguinte mandava “dar de beber aos sedentos”. Pra mim uma coisa já está subentendida na outra, ou não? A primeira coisa que eu pensei foi naqueles trabalhos em que você tem que colocar vários itens e não tem muito assunto, então começa a encher linguiça. Depois pensei que não, vai que precisa mesmo. Vai que, por falta de alguém colocar os dois itens no cartaz, as pessoas começam a distribuir marmitas de arroz, farofa e bife acebolado, sem um caldinho de feijão pra ajudar a descer. Ou distribuem apenas copinhos de água mineral.
Continuei lendo. “Consolar os aflitos”, muito bem. “Aconselhar os duvidosos”, óquei. “Admoestar os pecadores”. Admoestar, até arrepiei de prazer. Os anos tem me tornado daquelas loucas que gostam da língua portuguesa, da sonoridade das palavras, da lapidação das frases. Textos mal escritos ou me fazem corrigir mentalmente, ou me levam a saborear a sua imperfeição, porque há erros deliciosos, que trazem um quê de infância da escolarização. Talvez esse meu caminho de amor as palavras tenha sido inevitável. Lembro que nem era adolescente quando tive que começar a usar gírias, porque meus colegas diziam que não dava pra entender o que eu falava e me imitavam: “trouxe-o para cá”, “vieram conosco“. Uma vez, na faculdade, fomos divididos em grupos para fazer testes psicológicos, e eu fiz o teste de vocabulário da Bateria Cepa. Eram muitas perguntas de múltipla escolha; de algumas eu tinha certeza, em outras fui pelos radicais das palavras ou pelo que soava melhor. Precisamos da ajuda da professora para achar o resultado, porque eu havia errado apenas uma e a tabela não chegava a essa pontuação. A resposta mais aproximada era percentil acima de 98. Foi o mais perto que eu cheguei da genialidade.
Eu nem sem de onde eu conheço admoestar, quem manda ler livros velhos. Alguns verbos e adjetivos praticamente não existem mais no dia a dia, são usados apenas por religiosos. Vai ver que para os católicos, é muito comum conjugar a admoestação. Melhor que não seja, para que eles não saiam admoestando os outros por aí. Tanto admoestar quanto ser admoestado é um saco.
Anúncios