Nostradamus para formigas

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Pense numa pessoa observando um caminho de formigas. Ela vê um obstáculo alguns centímetros depois das formigas que estão vindo, quem sabe logo depois de uma curva. A pessoa sabe a maneira de proceder das formigas, para que direção elas estão indo, o que tem adiante. Se a pessoa fosse capaz de falar com a formiga, ela lhe diria: daqui há algum tempo, você vai encontrar um obstáculo. Para a formiga, isso pareceria um futuro, mas para a pessoa é como se o fato já estivesse acontecendo, porque tudo é simultâneo na visão dela: formigas, caminho, obstáculo. Por isso que, pelo menos em teoria, prever o futuro me parece possível. Não só pela questão de ver as coisas num ângulo mais amplo, mas também pela previsibilidade humana. Se estou nos chamando de formigas? Estou sim. É raro que alguém cujos antecedentes você conheça bem seja capaz de um ato surpreendente. Mais ainda se pensarmos num surpreendente para melhor – quantas pessoas conseguem agir para além dos seus condicionamentos e agir de forma ousada, apostando em algo que elas não fazem a menor ideia do que vai dar? Gostamos de pensar que somos assim, livres para agir de uma maneira imprevisível a qualquer momento, mas basta pensar numa situação bem concreta com alguém que você conhece e a resposta vem fácil: se Fulano achasse uma carteira na rua, se Beltrana ficasse trancada a sós com seu ídolo, etc. Seria como esperar que a formiga de repente saísse da fila, abandonasse as companheiras, se perdesse espontaneamente; formigas vão para frente ou para trás, elas não saem do caminho (acho que formado por cheiro) por onde sempre andam. Humanos, assim como as formigas, agem dentro de padrões bem limitados. Nas poucas vezes que humanos surpreendem – agora sim serei pessimista -, eles o fazem quase sempre na escolha mais pobre.

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Curtas aprendizagens

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Uma torneira começou a ficar chata de fechar, até que chegou um ponto que ela pinga sem parar. Já sei que é uma borrachinha que fica bem na ponta da torneira e ela arrebenta com o tempo e tem que trocar. Sei também que pra quem tem o material, é estupidamente fácil. E entrei em contato com o vizinho que troca antes das gotinhas virarem jorro e dei um prazo largo pra ele vir, pra depois não vir me cobrar os olhos da cara.

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Passei muito mal na semana logo após as eleições, um desanimo digno dos dias depressivos das piores fases da minha vida. Aí acabei comentando com uma que me parecia boa pessoa, que estava decepcionada com a espécie humana em geral, e ela falou: agora é torcer. Meu desânimo só me permitiu dizer que torcia para que ele fizesse o mesmo dos seus trinta anos de vida pública, ou seja, nada. Agora ganhei mais uma pessoa que me hostiliza.

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Mas: 1. Há muito tempo eu sei que gostarem de mim é apenas bônus, que as pessoas não têm obrigação desde que ajam com profissionalismo. 2. Isso vai me dar o motivo que eu estava precisando para não ir em confraternização. Como já disse antes, estou decepcionada com a espécie humana em geral.

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Tem uma bandeja com docinhos perto do caixa, vários sabores, todos parecem bons. Pergunte pro caixa qual o mais gostoso deles, ele sem dúvida já provou todos.

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Eu fui num cartomante três vezes. Digamos que foi como se nas três ele dissesse a mesma coisa, com a desvantagem que ele foi falando cada vez menos. Reli essas anotações e é interessante como a gente só ouve o que quer, só dá destaque ao que quer. De lá pra cá, algumas coisas dentro de mim mudaram de tal maneira que o que era ruim agora me soa como algo bom. Estou dizendo para o Universo: agora eu quero, se era isso que faltava, manda!

Um moreno

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Era uma festa de ciganos e, como um espécie de presente, nosso anfitrião disse que quem quisesse poderia fazer uma rápida consulta com as ciganas. Claro que eu aproveitei. Não quis falar nada pra ela, queria ver aonde ia chegar. A cigana me conhecia apenas de vista e assim que olhou a minha mão disse que eu já tinha sido casada. Até aí, informação fácil. Depois disse uma ou duas coisinhas a respeito do meu casamento que eu juro que nenhum dos presentes tinha como saber, fiquei impressionada. Eu disse que falavam pra mim de um moreno que ia aparecer, mas que moreno demorado. Não lembro que termo que usei ao invés de aparecer, sei que ela me corrigiu dizendo que ele já me conhecia de alguma forma, apenas não via razão para se aproximar. No começo eu pensei: “Poxa, comassim moreno, me conhece e não me dá bola?” Depois eu gostei. Só por que me viu ou me leu por aí era pra mover céus e terras, ficar apaixonado à distância, me stalkear, ficar cheio de ilusões? Isso é coisa de gente louca ou carente, quem está bem segue seu caminho. Um dia, conversando comigo, aí sim poderíamos ver se rolava uma afinidade e faria sentido ele se aproximar de mim.

Foi então que eu descobri o quanto a minha visão sobre o amor mudou.

Destino

Eu acredito em destino. Não porque acredite que tem alguém que decide o que devemos passar e sim porque somos formados por meia dúzia de padrões inegociáveis. Como agimos sempre com base nas mesmas premissas, jogamos sempre a mesma energia pro mundo e obtemos sempre as mesmas respostas. Às vezes nos achamos diferentes porque temos o padrão de ser do contra, ou de achar que somos fora do padrão. Como somos pessoas padronizadas e previsíveis, cercadas de pessoas igualmente padronizadas e previsíveis, qualquer olhar mais distante seria capaz de dizer com precisão o curso dos acontecimentos. Seria como olhar uma fila de formigas e prever que, poucos metros a diante, elas encontrarão um obstáculo.

Novembro geminiano

Gosto de ler a Susan Miller assim que o mês começa. Na vida em paralelo que ela me apresenta, eu viajo para o exterior, tenho editores me procurando, dou entrevistas, recebo heranças, compro coisas lindas para minha casa. Para novembro, ela prometeu aos geminianos encontrar o seu amor verdadeiro. Não pude nem me preocupar com isso. Ou melhor: que bom que esse setor da minha vida está mesmo desativado, uma coisa a menos com que me preocupar. Este novembro foi um mês tão difícil – no qual Aguinaldo foi apenas uma terça parte – que tudo o que estou pedindo é que os problemas que surgiram nele acabem.

Não vai dar certo

A idade e o assentamento da maioria dos meus preconceitos me faz ver algumas coisas com certa antecedência. Uma delas é a questão da compatibilidade. Eu já sei mais ou menos o que funciona e o que não funciona comigo. São coisas muito subjetivas. Pra uns o gosto musical é muito importante, pra mim não é. Tenho o maior carinho por gêneros desprezados, conheço pessoas ótimas que curtem sertanejo e também tem a turma dos que só ouvem clássicos. Já colocar a @ na hora de falar mal de celebridades no twitter é uma coisa que me incomoda muito e já fez com que eu me afastasse de alguns. O feriadão na cidade vazia que para os outros é um tédio para mim é perfeito; já praia e qualquer lugar em alta temporada é a própria definição do inferno. Só que o grau de previsão nem sempre é útil. Há os que tentam me convencer do contrário, de que apesar de toda a minha natureza e experiência gritarem Não, desta vez será diferente. Acham que ao chegar lá, vai baixar um espírito e começarei a gostar do ingostável – não há registro, claro. Sem dizer que, infelizmente, saber que algumas coisas não funcionam não quer dizer que podemos evitá-las. Eu simplesmente não posso me negar. Então às vezes essa capacidade de previsão torna nas coisas piores, vou ao encontro do inevitável sabendo que vai dar merda, só não sei quando. Eu me sinto como o Nostradamus português, que olhou para a casca de banana e previu: “Vou escorregaire!”.