De mal

Eu não acho que fui injusta com ela. Ao contrário, me vejo com uma injustiçada. Nós nos encontramos por acaso, num teatro minúsculo, pra ver uma peça que tinha como tema justamente a paixão que nos anima, a dança. Já havíamos nos visto ao longo desses meses, e posso dizer que quando estávamos só nós duas, optamos por fingir que não nos vimos; com outras pessoas, nos cumprimentamos cordialmente. Então, passado um ano e tudo muito assentado e resolvido para mim, fiquei na dúvida de como seria. Por mim, estava pronta para assumir uma atitude cordial de ex-aluna. Só que ela fingiu que não me viu. Então eu também não a vi.

 

Esse um ano depois me fez tão, tão bem, que eu não poderia estar magoada. Acho que a maneira como uma história se desenrola influencia totalmente nosso modo de olhar os rompimentos. Se rompemos e aquilo nos joga na lama, nos enche de cicatrizes, fica tudo ruim, o outro vira o monstro que acabou com a nossa vida. Se, ao contrário, aquele fim permitiu novas buscas e levou a coisas ainda melhores, sentimos um agradecimento. Um agradecimento ao destino, à situação, ao modo com que a nossa sorte mudou. Mas aquele que um dia nos deu a facada nas costas, o chute na bunda ou o empurrão porta afora continua sendo o filho da puta. Ficamos de mal.

 

Estava vendo as fotos de amigos recém-separados e fiquei feliz em ver que ambos estão muito bem. São duas pessoas ótimas que se separaram e não tiveram dificuldade de se apaixonarem e encontrarem outras pessoas ótimas. Pensei neles e nos meus dolorosos rompimentos. Quando pacíficos, casamentos costumam terminar com dor; os outros viram guerras. Quando troquei de “danças” também saí pra nunca mais voltar. Acho que a explicação está no investimento, na intensidade dos laços. Nos lugares onde dancei, fui sempre a louca que nunca falta, a que estuda em casa, a que quer fazer tudo. E, claro, exigia da outra parte proporcionalmente. Nenhum casal se separa pelas picuinhas, por mais dolorosas que elas sejam. Quando o investimento é grande demais, a própria inércia o mantém. Para interromper o processo e permitir o novo, só grandes “injustiças”.

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