Recôncavo baiano

Eu esperava uma viagem pé no chão. Esperava passar por crianças de barrigão e descalças, casas com tetos de palha, bois magros comendo matinhos e mulas conduzidas por cangaceiros de chapéus de couro. Não era nada disso. O Recôncavo Baiano é uma região linda. Foi como se o Ministério da Cultura e a Universidade Federal do Recôncavo Baiano tivesse contratado a Regina e seu marido Laécio para convencer as pessoas a irem para lá. Eles me mostraram cidades fofas e tranquilas, me fizeram comer comidas deliciosas nos lugares mais simples, me fizeram prestar atenção na música ao vivo na praça e o sanduíche sendo preparado à meia noite. Eles me acenaram com a mudança que eles mesmo fizeram: trocar a vida agitada e consumista das capitais por uma vida mais natural, com mais qualidade. O mestrado que eu tenho e que em Curitiba não vale nada, quem sabe, pudesse ser muito útil e me garantisse uma vaga na Bahia.

Essa última parte é especialmente amendrontadora: perceber que mudar de vida estaria acessível dessa forma, bastaria me propor. Eu olhava para aquele cenário e me perguntava se seria feliz lá. Olhava para aquelas ruas e me perguntava como seria andar por elas não mais como turista e sim como moradora. Como seria morar perto de praias lindas, eu que amo tanto o mar. E perto do meu pai, o que não acontece desde a minha infância. Se eu daria esse salto, se teria coragem. Aí eu tive que me conscientizar de outro sentimento: o de me sentir sem lar. Desde que me separei é como se eu não tivesse mais casa, não pertencesse a lugar nenhum. Quando estou com os outros quero voltar para casa e em casa, me sinto insuportável. Faz apenas um mês que assinei meu divórcio e tudo ainda é assustador. 

O quanto eu sou apegada a Curitiba e ao que tenho lá? Visitar o Recôncavo me levantou questões sobre o que é realmente importante para mim, sobre o que busco – se eu realmente busco uma vida mais simples e o quanto isso é possível dentro das escolhas que fiz. Por ora, me parece que minha solidão se faria grande demais se me movesse dessa forma. Nunca fui aventureira. Mas o registro da experiência e as questões do Recôncavo ficarão sempre em mim. Quem sabe o que virá em seguida.
Anúncios

Coisas demais

Todo ano faço limpas. É um hábito que trago de casa. Desde pequena eu era estimulada a me livrar das coisas. Pegava o meu baú de brinquedos e devia me livrar do que eu não queria mais, deixar que outra criança brincasse com aquilo. Lembro que uma vez quis me livrar de uma mini casinha e minha mãe me impediu, porque a achava tão linda! E assim sempre fizemos com roupas, objetos. O critério não é apenas o que está velho, quebrado, fora de moda ou que não serve mais. As pessoas se impressionam quando vêm minhas limpas, com tantas coisas ainda novas e bonitas. Eu me livro do que não uso, mesmo que esteja em ótimo estado. Levo para alguma instituição e penso que alguém usará aquilo com tanto prazer quando eu um dia usei. Não quero e nem preciso olhar para a cara dessa pessoa; alias, a caridade dirigida, em que a pessoa que recebe se sente impelida a ME agradecer sempre me incomodou. Gosto mais da caridade anônima, não quero que ninguém se sinta em dívida comigo. Não sou eu que estou fazendo um bem em dar e sim ela ao receber.

 

A cada ano que passa, tenho sentido mais vontade de me livrar das coisas. Tenho a maior empatia com os sites Casas Pequenas e Menos VC. Ter coisas nos dá prazer quando compramos, quando usamos… só que depois se tornam prisões. Elas nos preocupam por quebrar, por bagunçar, por envelhecer. Precisamos armazenar, limpar, manter. E assim nos tornamos mais pesados, enraizados no pior sentido. Invejamos aqueles que largam empregos, casamentos ou cidades ruins e depois não sabemos o porquê.

 

Ainda estou longe demais de ser uma pessoa que carrega tudo o que tem numa mochila; quem dera ainda tivesse apenas um baú de brinquedos… Embalar minhas coisas requereria muitas horas. Seriam caixas e mais caixas. Mas eu pelo menos me incomodo, estou tentando ser cada dia mais simples.

Os melhores

– “Filho”, eu diria, num daqueles vídeos ou relatos que a pessoa decide fazer para sua prole, ainda pequena, sobre como é a vida, depois que descobre que pode ser que não esteja mais aqui para passar para ele sua sabedoria banal sobre fatos do dia a dia- “deixa eu te transmitir uma verdade fundamental e infalível sobre os serviços. Os melhores profissionais que eu encontrei até hoje, sejam eles dentistas, acupunturistas, confeiteiros, esteticistas, pedreiros, astrólogos, lambedores de selos ou carpinteiros, não são os mais afamados. Nunca são aqueles que têm prédios de três andares só para si, com secretária de salto agulha numa recepção de mármore, não são os que usam turbante na cabeça e terno Armani, jamais serão o que precisam de meia hora de concentração e salamaleques antes de começar a fazer. Os melhores sempre são aqueles que um amigo indica, dizendo que faz muito bem feito. Nunca é o amigo das estrelas, o queridinho da alta sociedade, não procure por lá. Chegar ao sujeito realmente bom é por indicação, é quase como fazer parte de um clube fechado. Você contata o profissional com facilidade. Ele te atenderá normalmente, num lugar limpo e comum. Cobrará um preço honesto e fará seu trabalho. Tudo rápido e eficiente. A consciência do quanto aquele trabalho é bom vem depois, quando você ouve o quanto as pessoas pagam tão mais caro por serviços ruins, do quanto as coisas poderiam ter dado errado e não deram. E essas pessoas vão preferir continuar pagando caro, porque adoram os picaretas. Elas precisam dos prédios, do mármore e do Armani. Os picaretas fazem com que lhes paguem com gosto porque algumas pessoas são incapazes de aceitar que qualidade e simplicidade andem juntas.”

Simples

Com o celular foi assim: eu tinha um plano pós-pago básico que permitia um certo desconto na hora de trocar de aparelho. O meu celular nunca foi top de linha, mas procurava chegar perto. E isso continuou até o dia em que eu comprei um belíssimo LG, todo branquinho, com um menu em roda, um celular que todo mundo pedia pra ver de tão lindo. Mas, como todo LG que se preze, era um celular bonitinho e ordinário. Era complicado de usar, vivia acessando a internet por engano, a bateria acabava inesperadamente. Mas o que encheu mesmo o saco foi quando ele começou a apagar assim que fechava e passou a perder o sinal à toa, pra nunca mais achar. Decidi abandonar todos esses problemas e peguei um Nokia antigo, do tempo pré-mp3. Eu o adoro: acende luzes do lado quando toca (sou teen), a bateria dura infinitamente e nunca me deixou na mão. Agora tenho um plano mais básico ainda, que não me dá desconto em aparelhos. Por isso, não tenho previsão de trocar de celular.

Estou por fora do mundo dos celulares e isso é bom de uma maneira que eu nem imaginava. Pouco me importa se tem lançamento, quanto custa, o que fazem. O celular é apenas um exemplo de várias coisas na minha vida que eu enxuguei. O motivo inicial foi uma pindaíba; hoje a coisa cresceu e virou um estilo de vida. Vou ao shopping como quem vai à exposição – acho tudo muito bonito, mas sem aquela ansiedade de comprar. Era difícil gostar das coisas caras, me esforçar para comprá-las, e depois me sentir mal estava estourando o orçamento e abrindo mão de coisas importantes no futuro. É como se antes eu estivesse numa piscina que quase não dá pé, quase sempre me afogando. Achar que merece do melhor e só ter dinheiro para o bom, querer sempre um pouco a mais do que se tem é desgastante. Um lado meu se sentiu muito pobre em ter que se assumir mais C&A do que Siberian. Quando esse sentimento passou, ficou o alívio de viver com os pés no chão.

Coisas simples

Hoje levantei e fiz algumas coisas que me incomodavam faz tempo, mas que eu não conseguia fazer: limpar a tampa do lixo, arranjar um lugar pras caixas do Wii, guardar o aquecedor, limpar os porta copos mofados (péssima compra da Tok Stok) e N coisinhas espalhadas pela casa. Começar a arrumar o meu espaço é sinal indiscutível que eu finalmente estou saindo do buraco. 🙂

Hoje é meu aniversário de casamento. Eu poderia pedir pra ir a qualquer lugar, e disse que estava cansada e queria ficar em casa. Aí o Luiz me fez um pedido muito especial: ele quer sair pra comer cachorro quente. Coisa que nós nunca mais fizemos depois que eu comecei com essa história de ser bailarina. Um fofo, o meu Mr. Darcy.

Simplifique

Há quase quatro anos eu me dei um presente ótimo de Natal – o livro Simplifique sua vida. Sempre que as pessoas recomendam livros, aparecem aqueles que nos tocaram de maneiras muito emocionais, que vão de Bíblia Sagrada a Augusto dos Anjos. Assim como o Dona Benta, duvido que o Simplique sua vida apareça nesse tipo de lista. Vejo aqui corrigir essa injustiça.

É um livro prático. Os autores partem do pressuposto de que a vida das pessoas está complicada demais, e quanto mais simples mais felizes seremos. Então, eles imaginam uma pirâmide de áreas na vida que podem ser simplificadas: começa pela casa, passa pelas finanças e a família, e termina com o desenvolvimento pessoal. É um livro prático, simpático, com dicas excelentes. Mistura o útil, o bom senso e o senso de humor. A parte da casa é a minha preferida:

Presentear de coração aberto
O método mais popular para se livrar de objetos é deixar que as futuras gerações os joguem fora. Acontece que, geralmente, as queridas futuras gerações acabam por constatar que não querem 95% dos objetos tão amados e valiosos, nem que seja de presente. Ande por sua casa juntando todos os objetos guardados que você possa dar para outras pessoas. Depois dê esses objetos às respectivas pessoas ou mande-os para elas; mas não deixe de perguntar se elas estão interessadas neles. “Dar de coração aberto” é uma das melhores formas de se livrar de peso inútil.

Estou sempre consultando esse livro. Algumas coisas são bem fáceis de fazer, como jogar fora o excesso de canetas. Outras, como a de dar festas todo mês, me fazem pensar em diferenças culturais (e financeiras) dos autores do livro. Algumas parecem sem importância e em outra época da vida se tornam valiosas. Eu acho que o grande barato do livro está naquilo que você capta – a idéia de que ser mais simples é (ao contrário do que possa parecer) ser cada dia mais seletivo. De canetas a amigos.