Auto escola

Resolvi aprender a dirigir. Quis aprender assim que tinha idade pra tirar carteira, mas não tinha dinheiro. Depois casei e passei a ter dinheiro e não ter tempo. Passei muito tempo alternando falta de dinheiro e de tempo, até que quando os dois puderam andar juntos, eu já não queria mais. Eu comparo essa vontade de aprender a dirigir à mesma vontade louca de entrar em balada e filmes para maiores de dezoito quando não temos dezoito: passamos anos aguardando aquele momento, invejando que pode, fazendo planos… e quando finalmente chega, não é nada demais. Pra mim, dirigir não é nada demais. Fui criada pegando ônibus, andando, aproveitando carona. Sempre vi o carro como uma exceção e não como um direito. Depois que meu irmão sofreu acidente de carro, passei a ter antipatia. Não consigo achar normal tantos carros, cada dia maiores, transportando um (1) fulano dentro, enquanto o trânsito fica cada vez mais caótico e perigoso. Se pra essa questão do carro o coletivo e o bom senso fossem minimamente levados em conta… enfim, deixa pra lá.

 

Mas, como as pessoas sempre ressaltaram, é bom que eu saiba dirigir. É isso que eu pretendo, saber. Às vezes não saber dirigir nos leva a arranjos burros aqui em casa. A região onde eu moro é insegura de noite e fico igual um bebê que precisa ser transportado. Muitas mulheres me disseram que passaram a dirigir só por causa dos filhos. Não sabemos o dia de amanhã e sempre tem a possibilidade de uma emergência. Foi esse tipo de raciocínio que me levou à auto escola. Uma decisão consciente e de bom senso. Porque ter desejo de dirigir eu não tenho.

 

Iniciei o “processo” há semanas. É realmente um processo. Liguei pra uma auto escola, que disse tão resumidamente o que eu tinha que fazer, que fui lá muito alegre e feliz sem ter o suficiente pra matrícula. Porque só então soube que primeiro tem que entrar com a papelada, pagar escola, marcar foto, pagar DETRAN, falar com a escola, marcar exames… Imagino como deve ser aflitivo pra quem sonha em dirigir. Pra mim, só tem dado tempo de observar ainda mais o trânsito, agora com olhos de – “esses motoristas serão os meus colegas”. Olha, que terror.

 

Não duvido nada de eu chegar, quando chegar, nas aulas práticas, eu seja daquelas com pânico. Antes, pensar em gente que senta pra dirigir e se sente impossibilitada me parecia totalmente fora da realidade. Aposto que chegaria no DETRAN cheia de gás e de coragem, se tivesse feito isso aos dezoito. Eu não teria medo, simplesmente porque me parecia estúpido ter medo. Isso me leva a outras reflexões – de perceber que o tempo passou, de que não sou mais aquela. Será que essa é uma regra inevitável, de sempre ficar cada vez mais medroso com o tempo? Será que a partir de agora, sempre que eu me arriscar, terei que fazer passando por cima das minhas inseguranças?
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