Armário

E eu que pensava que nunca teria que sair do armário, porque eu não sou gay. Nada contra, só não sou. Sair do armário – sem nunca ter chegado perto de ter que assumir uma sexualidade diferente, eu acho que tenho na minha bagagem o suficiente pra ter ideia de como é. Em maior ou em menor grau, estamos sempre cheios de armários para sair. Basta começar a ficar um pouco contra o meio que um armário invisível já se forma. Já conheci pessoas tão plantas, tão ajustadas, tão iguais aos seus pais, aos membros de sua família, aos seus colegas de trabalho e aos seus vizinhos que dá até aflição. Porque é impossível a pessoa ser o sujeito estatístico perfeito sem sufocar alguma coisa. Ser perfeitamente ajustado dá um stress danado, porque é preciso consultar a multidão com o olhar o tempo todo. Ao mesmo tempo, multidões assustam, então… Sair do armário pode ser admitir que gosta de Paulo Coelho e que acredita em astrologia. Ou que prefere uma vidinha pacata em Curitiba a lavar pratos em Paris. Sair do armário também pode ser admitir para si mesmo – pode ser que o mundo já tenha percebido e você lá, se achando um puta ator – o que você quer. Admitir que aquele homem ou aquela mulher não é apenas mais um homem ou uma mulher. Admitir que aquele hobby é o que você quer da sua vida. Enquanto a gente é em segredo, tudo pode ser, eu só estava passando na frente enquanto a empregada assistia a novela. Alguma coisa acontece quando os desejos encontram a luz do dia e respiram ar puro. Nada permanecerá igual, em alguma direção a coisa muda. Mas só saindo do armário pra saber.
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