Tartaruga na árvore e Werther

Não gosto de ficar de meias palavras, mas lá vai.

Tem um desses ditos que eu adoro, o que fala da tartaruga na árvore. Todo mundo sabe que tartaruga não sobe em árvore, então se ocasionalmente vemos uma numa árvore, já sabemos que foi alguém que colocou lá. Dia desses pensei ter visto uma tartaruga numa árvore. Vi uma idiotice tamanha, que só pude crer que o seu autor é um idiota, que acasos ou QIs, o colocaram numa posição que não merecia. Que idiota o idiota, como pode um idiota ter tanto espaço. Pior: um espaço que eu valorizo, que eu gostaria, que eu considero. Pois então. Fui atrás e descobri, à muito contragosto, que não se trata de uma tartaruga na árvore. Tudo indica que teve mérito. Mérito, capacidade, talento, vocação, tudo o que eu gostaria de acreditar que não teve, para que eu pudesse odiar em paz. Nada mais maravilhosamente odioso do que alguém que não merece estar onde está e faz uma burrada. Pensamos nas injustiças do mundo e nos deliciamos e auto-comiseração. Só que foi apenas uma burrada. Que droga.

 

Aí eu me senti meio Werther. O jovem e deprimido Werther passa o livro inteiro desejando a mulher do próximo, crente que o próximo não merece aquela belezura tanto quanto ele. Até que finalmente ele conhece o rival e o desgraçado era mesmo tudo aquilo. O desgraçado merecia, o desgraçado tinha qualidades e fez por onde. Ao invés de ficar sentindo raiva, ficar torcendo pra que talento não seja talento, eu que tenho que ir lá e fazer. Os idiotas têm essa importante função social: esfregar na nossa cara que se a gente fica fazendo doce e não vai, outro com menos pudores vai conseguir tudo o que sonhávamos. Ou, pensando de outra forma, quando a gente começa a se deparar com essas questões relativas a idiotas, começa a questionar quem é quem.
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