Tartaruga na árvore e Werther

Não gosto de ficar de meias palavras, mas lá vai.

Tem um desses ditos que eu adoro, o que fala da tartaruga na árvore. Todo mundo sabe que tartaruga não sobe em árvore, então se ocasionalmente vemos uma numa árvore, já sabemos que foi alguém que colocou lá. Dia desses pensei ter visto uma tartaruga numa árvore. Vi uma idiotice tamanha, que só pude crer que o seu autor é um idiota, que acasos ou QIs, o colocaram numa posição que não merecia. Que idiota o idiota, como pode um idiota ter tanto espaço. Pior: um espaço que eu valorizo, que eu gostaria, que eu considero. Pois então. Fui atrás e descobri, à muito contragosto, que não se trata de uma tartaruga na árvore. Tudo indica que teve mérito. Mérito, capacidade, talento, vocação, tudo o que eu gostaria de acreditar que não teve, para que eu pudesse odiar em paz. Nada mais maravilhosamente odioso do que alguém que não merece estar onde está e faz uma burrada. Pensamos nas injustiças do mundo e nos deliciamos e auto-comiseração. Só que foi apenas uma burrada. Que droga.

 

Aí eu me senti meio Werther. O jovem e deprimido Werther passa o livro inteiro desejando a mulher do próximo, crente que o próximo não merece aquela belezura tanto quanto ele. Até que finalmente ele conhece o rival e o desgraçado era mesmo tudo aquilo. O desgraçado merecia, o desgraçado tinha qualidades e fez por onde. Ao invés de ficar sentindo raiva, ficar torcendo pra que talento não seja talento, eu que tenho que ir lá e fazer. Os idiotas têm essa importante função social: esfregar na nossa cara que se a gente fica fazendo doce e não vai, outro com menos pudores vai conseguir tudo o que sonhávamos. Ou, pensando de outra forma, quando a gente começa a se deparar com essas questões relativas a idiotas, começa a questionar quem é quem.
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Segurar as pontas

Segurar as pontas, agüentar a barra, engolir seco. É a coisa mais simples e mais difícil de se fazer. Teoricamente, basta sentar e esperar que o tempo deixe as coisas assentarem e a dor diminuir. E quem é capaz de ficar quieto no seu canto quando está com dor? A gente é traído, chifrado, humilhado, passado para trás, enganado e é muito duro voltar pra casa e encarar que o prejuízo sozinho. Sempre penso no caso da menina Eloá: se o ex-namorado tivesse se conformado em deixar passar, duvido que em algumas semanas ele já não teria esquecido dela. Mas não, ela tinha que pagar por ele estar sofrendo e deu no que deu. Isso separa normais dos psicopatas: eles não deixam barato.

Quase ninguém mata quando está com dor. O mesmo não se pode com relação a cair matando em um monte de comida. Ou dar pro primeiro que aparece. Como sofrer sem acabar a saúde, auto-estima, conta bancária, amizades e tudo o que importa? Corre-se o risco de cair no ciclo das cagadas sucessivas. Dizem que tem a ver com maturidade, educação, inteligência emocional. Eu não sei ao certo. Seja lá o que for, quem consegue segurar sua própria dor tende – ironicamente – a ser mais feliz do que quem não consegue.

Post?

Abro todos os dias meu blog – na esperança do quê, se não escrevo mais nada? Assim como mil vezes abro esta janela e penso em mil coisas que poderia escrever. Poderia falar das besteiras que ouço nas aulas, da Noiva Cadáver, de que até o século XVIII se acreditava que o leite materno era uma espécie de esperma*…

Ou posso simplesmente dizer que estou cansada. Sim, além de todos esses pensamentos desconexos que me fazem parecer uma personagem de Clarice Lispector (escritora que detesto), a sensação de estar cansada é uma constante. Mas não há mil e uma maneiras de dizer isso. Não de maneira interessante.

Descubro agora que ter tempo e estar descansado é condição fundamental para tirar lições de vida de coisas simples, ou simplesmente para refletir. Até dezembro, estou na fase de viver intensamente. Se sobrar algum cérebro até lá, quem sabe descubra que vivi um monte de coisas legais para escrever aqui.

* AHA! Aposto que agora disse algo que realmente chama a atenção!