Um conselho

Frequentar as aulas teóricas de uma auto escola só tem aumentado em mim os meus pensamentos de repúdio ao carro. Fico sabendo das estatísticas, das dificuldades, da rapidez dos exames, enfim, de tanta imperícia e falta de responsabilidade que regem algo tão importante como o comportamento no trânsito. Estão dando armas para as pessoas sem prepará-las, sem selecioná-las direito e deixando o problema para a ponta, que são pessoas mortas e/ou sequeladas. Vi cenas de acidentes, com pedestres voando, reportagens mostrando pessoas que pararam de viver normalmente por causa da irresponsabilidade dos outros. Tudo isso me remeteu às minhas lembranças dolorosas com relação a esse assunto – o acidente do meu irmão. Lembrei também de um conselho que ouvi na época e me foi útil. Não custa registrar. Espero que ninguém aqui precise colocar em prática o que vou dizer.
Na época da acidente eu frequentava um atelier. Tinha escultor lá, mais ou menos da minha idade, que uma vez comentou que havia sofrido um grave acidente de carro. Quando meu irmão se acidentou, eu fui falar com ele, quis que ele me dissesse alguma coisa que pudesse ajudar meu irmão. Ele respondeu com evasivas, disse que não gostava de tocar nesse assunto, que não queria nem lembrar do que havia passado. Quando eu já estava indo embora, ele disse que, pensando bem, havia sim algo que eu poderia fazer:
– Quando a gente sofre acidente, nem sempre lembra do que aconteceu. Você está seguindo a sua vida normalmente, um carro te bate, ou você sai voando, bate a cabeça… quando você acorda, está cercado de gente desconhecida, sentindo dor, levando injeção e se sente confuso. Eu não sabia o que estava acontecendo, se tinha feito alguma coisa de errado, o que é que eu tinha que fazer. Meu conselho é que você conte pro seu irmão. Mesmo que ele esteja inconsciente e que pareça não ouvir, diga pra ele que ele sofreu um acidente, conte como foi, onde ele está e o que está acontecendo.
Fiz o que ele me disse. Meu irmão passou um mês na UTI e, quando foi pro quarto, passou meses num estado de semi-consciência da qual não sabíamos se ele sairia. Todos os dias eu lhe dizia o que tinha acontecido, onde ele estava e que estávamos lá, cuidando dele. Quando meu irmão voltou à consciência, meses depois, ele não levou nenhum susto. Ele já sabia. Meu irmão não soube me dizer como sabia  e nem quando tinha ouvido. O importante é que funcionou.
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