O vôo

Aquela foi a pior turbulência que eu já passei na vida. Quando falo de turbulência de avião, sei do que estou falando. Passei a infância toda na ponte aérea de Curitiba-Salvador, que naquela época passava por Brasília e levava seis horas de viagem. Então, se digo que aquela turbulência era feia, é porque era feia mesmo. Foram horas com o avião chacoalhando, fazendo a gente pular da cadeira avisos piscando de afivelar os cintos. Enquanto isso, eu dormia tranquilamente. E não dormia tão bem apenas porque tinha aproveitado o meu último dia em Madrid batendo perna o dia inteiro, não apenas porque finalmente estava voltando para casa depois de dois meses e meio fora. Eu dormia bem porque estava plenamente consciente da turbulência, de que estávamos sobrevoando o oceano e se o avião caísse seria no meio do nada e quase sem chance de sobreviventes. A ideia de morrer naquele vôo me deixava muito feliz. Lembro daquele dia e sinto isso até hoje, a minha tranquilidade com a perspectiva da morte, aquela paz. Falando assim parece que eu estava deprimida, mas era justamente o contrário. Eu estava voltando dos melhores dias da minha vida, em que eu tinha vivido coisas que achei insuperáveis: fui para a Europa, fiz muitos amigos, viajei sozinha, amei e fui amada. Diante de mim eu tinha um futuro cheio de possibilidades – possibilidades que eu tinha certeza que de que falharia. Eu estava no fim da faculdade, no fim de uma vida escolar inteira, onde eu me destacava por ser boa aluna; só que no mercado de trabalho as regras são outras e eu não sabia se conseguiria manifestar o mesmo brilhantismo. Provavelmente nem um pouco. Era muito melhor então morrer jovem, como uma promessa irrealizada (as reportagens sobre a minha morte seriam lindas, com fotos, falando da universitária inteligente e cheia de vida) sem ter a chance de colocar os pés em terra firme e constatar que não tinha mais nada de tão bom para fazer.
O avião não caiu, claro. E como eu previra, meus dias e meses seguintes foram muito difíceis. Posso dizer mais: foram anos tão difíceis que carrego alguns daqueles problemas até hoje. Concomitantemente, ao contrário do que eu previra, eu ainda tinha coisas muito emocionantes para viver. Elas estavam longe da minha perspectiva, eu nem ao menos imaginava que um dia as desejaria. A vida é surpreendente – nem sempre pro bem, nem sempre da maneira que queremos, mas ela é sim muito surpreendente. Penso no que senti nesse vôo, penso em tragédias, em situações pessoais e coletivas muito difíceis e me pergunto porque prosseguimos. Porque, apesar do desejo de morrer, da falta de perspectivas e de um presente desesperador, são poucos os que conseguem abrir mão da própria vida. Intuo que esteja no nosso DNA uma curiosidade. Não é otimismo, não é fé, não é desejo de viver. Mesmo quando sabemos que o dia seguinte vai ser ruim, nós queremos estar lá pra ver. É humano não conseguir evitar de ver o seu amanhã.
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