Coisas demais

Todo ano faço limpas. É um hábito que trago de casa. Desde pequena eu era estimulada a me livrar das coisas. Pegava o meu baú de brinquedos e devia me livrar do que eu não queria mais, deixar que outra criança brincasse com aquilo. Lembro que uma vez quis me livrar de uma mini casinha e minha mãe me impediu, porque a achava tão linda! E assim sempre fizemos com roupas, objetos. O critério não é apenas o que está velho, quebrado, fora de moda ou que não serve mais. As pessoas se impressionam quando vêm minhas limpas, com tantas coisas ainda novas e bonitas. Eu me livro do que não uso, mesmo que esteja em ótimo estado. Levo para alguma instituição e penso que alguém usará aquilo com tanto prazer quando eu um dia usei. Não quero e nem preciso olhar para a cara dessa pessoa; alias, a caridade dirigida, em que a pessoa que recebe se sente impelida a ME agradecer sempre me incomodou. Gosto mais da caridade anônima, não quero que ninguém se sinta em dívida comigo. Não sou eu que estou fazendo um bem em dar e sim ela ao receber.

 

A cada ano que passa, tenho sentido mais vontade de me livrar das coisas. Tenho a maior empatia com os sites Casas Pequenas e Menos VC. Ter coisas nos dá prazer quando compramos, quando usamos… só que depois se tornam prisões. Elas nos preocupam por quebrar, por bagunçar, por envelhecer. Precisamos armazenar, limpar, manter. E assim nos tornamos mais pesados, enraizados no pior sentido. Invejamos aqueles que largam empregos, casamentos ou cidades ruins e depois não sabemos o porquê.

 

Ainda estou longe demais de ser uma pessoa que carrega tudo o que tem numa mochila; quem dera ainda tivesse apenas um baú de brinquedos… Embalar minhas coisas requereria muitas horas. Seriam caixas e mais caixas. Mas eu pelo menos me incomodo, estou tentando ser cada dia mais simples.
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