Adultecência

Atualmente somos em três na turma teórica da auto escola. Claro que no quadro com as fotos de pessoas que tiraram carteira naquela auto escola eu não conheço ninguém; claro que eu sou a mais velha da turma. Idade típica estão os meus colegas. O rapaz acabou de passar em direito e a menina quer fazer medicina. Eles são legais e tal, mas não tenho muito saco de conversar com eles por causa da fase. Quando a pessoa está nessa fase de cursinho, só consegue pensar e falar sobre isso. Lembro de ter passado um ano inteiro sabendo os rankings das melhores universidades, os preços, o número de candidatos por vagas, as diferenças entre currículos. Depois que a gente passa no vestibular, abandona todas essas informações com gosto. Eles ainda não chegaram lá. Sem falar na visão romântica do que é uma carreira, de acreditarem que quem faz o que ama (em oposição a quem faz cursos “que dão dinheiro”) sempre se dá bem e arranja os melhores empregos. A menina, tadinha, já tentou vestibular pra medicina três anos seguidos e não entrou nem em particular. Fico com dó. Pior é que eu duvido tanto que a escolha de um curso superior seja definitiva ou pra vida inteira, que nem sei dizer se vale a pena perder quatro anos tentando medicina. Mas ninguém me perguntou nada. E, mesmo se eu falasse alguma coisa, também não adiantaria nada.
O papo deles é chatinho porque a diferença entre alguém que está no cursinho e quem finalmente está numa universidade – ou já largou mão e está trabalhando – é enorme. Assim como é enorme a diferença entre um universitário e um formado, já na luta pelo emprego. São mudanças que exigem outras conversas, outras posturas. Daqui há seis meses, conversar com esse rapaz já será outra coisa. Então fiquei pensando no caso dessa moça, há três anos com esse papo de rankings das universidades, candidatos por vaga, currículos, etc. É como estar preso num limbo. Enquanto ela não passar (ou desistir) em medicina, estará sempre nessa adolescência chata. Por mais sensível e inteligente que uma pessoa seja, se o meio não exige a gente não passa para a fase seguinte da vida adulta.
Não estou condenando a moça, pelo contrário. Cheguei à essa conclusão justamente porque também me sinto muito adultecente. As mulheres da minha idade discutem sobre filhos e emprego, e nessas horas eu só fico quieta. As que já se divorciaram sabem mais ainda. Na verdade, somos muitos, os adultecentes: mulheres com filhos sustentadas pelos maridos, jovens nem-nem, pessoas que não são e nem nunca serão pais. Também posso pensar em outras experiências definitivas na vida: sexo, morte que pessoa próxima, morar sozinho, envelhecer, etc. Se meu raciocínio está correto, a maturidade não se parece com uma linha do tempo que se ultrapassa e sim com um bingo. Nem todos completarão a cartela.
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