Brilho solitário

latas de tinta

Não que seja um bom momento pra isso, mas já sei que talvez nunca seja, então finalmente vou retocar a fachada da minha casa. Meus vizinhos já pintaram várias vezes e sou a única que nunca. Não sei se é a crise, ou se, como ele mesmo disse, é por ser aposentado, aparentado da vizinha e pegar só coisa rápida, mas o orçamento foi três vezes menor do que me fizeram há uns meses. E passou num crivo dificílimo: a Dúnia gostou dele. Pensar em mantê-la o dia inteiro presa ou até mais para quem alguém pudesse pintar a casa sempre me partiu o coração de dona de cachorro. Com ele, ela vai poder ficar solta, certamente rodeando tudo, alternando pedir carinho e apenas observar e – tenho certeza – no fim do dia terá umas gotas de tinta no pelo. Recebi minha pequena lista de materiais e tive que mandar fazer a tinta, porque pronta só tem branca e uns tons de bege. Peguei o catálogo Suvinil, aquele bolo de cores com mais tons do que o olho humano é capaz de registrar, e tentei achar um tom conciliasse desejo de cor mais vibrante versus parco orçamento. Não posso mudar minha fachada porque sempre baseio a descrição do endereço na cor, nunca localizam só número. Peguei as folhinhas e fiquei: quando é essa, e essa, e se mudar pra essa o quanto mais caro fica. Por fim, mandei fazer uma lata de “brilho solitário”. Escolhi daquele jeito que descrevi, mas me identifiquei e amei tanto, que abracei a lata e também estaria dizendo a verdade se dissesse: escolhi pelo nome. A cor da casa descreve a dona dela.

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