Curtido

roça

-Você é professora?

-Não.

-Você tem cara de professora.

-É a idade. Estou velha. Vê se alguém com dezesseis anos vai ter cara de professor. Todos nós ficamos com cara de professor com o tempo.

-Professora jovem. Eu que tenho cara de acabado. É que quando eu tinha meus quinze anos, quinze até os dezenove, eu cantava nos bailes. Na fase de desenvolvimento, como se diz, eu dormia mal, bebia. Fiquei assim.

-Mas aí valeu a pena, aproveitou.

-Eram outros tempos. Naquela época não se considerava que eu era assim tão novo…

-Verdade, outra educação. Hoje é diferente, pra melhor e pra pior.

-Eu acho que é pra pior. Hoje protegem muito. Eu fui colocado pra trabalhar na roça com meus seis anos. A gente aprende a dar mais valor.

-Tem o lado bom e o ruim. De um lado, as crianças recebem tanto amor, tanto carinho, tanto cuidado… Mas por outro lado, quando saem no mundo, é porrada atrás de porrada.

-É mesmo, eles não estão preparados.

-Você que trabalhou desde os seis anos, alguém pode dizer: coitado, que infância dura. Mas por outro lado, quando você ficou adulto, já estava curtido.

“De onde diabos eu fui desenterrar o termo ‘curtido’? Será que ele entendeu que eu o comparei com couro?”

-É bem isso mesmo. Veja, meu pai acordava a gente cedo. Com seis anos eu pegava na enxada. A gente arrancava feijão, assim. Eles diziam que a gente arrancava rápido porque era criança, não tinha dor nas costas. Não tinha? De tarde a gente não conseguia fazer assim (se inclina para trás). Era pequeno e tinha braço pequeno, mão pequena. Produzia menos, mas trabalhava igual. Em dois dias a gente fazia um alqueire. A gente vinha assim, com o adubo, e o adulto passava atrás fechando assim.

Meu ônibus chega. Eu me despeço.

-Eu vou ficar pensando no que você me falou. Eu nunca tinha memorizado assim. É bem como você disse mesmo.

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