Anti-agito

black_sheep

Estávamos esperando o ensaio começar. Tem uma coreografia bem simples, mas bem simples mesmo, que todos fazem juntos. Como tem convidadas especiais, e elas têm que ficar na frente, pediram pra dois professores repassarem com elas. Eles repassaram, aí as pessoas estavam por ali perto começaram a repassar junto. De novo, outra vez, agora sem olhar no espelho. O troço foi como uma onda e estava quase todo mundo repetindo aquilo várias vezes, como se fosse aula. Eu os observava à distância, sentada. Olhei para aquela balburdia, eu imóvel, eles se mexendo, e pensei que aquilo era muito eu – a antissocial, a alien, a que não sabe se divertir em festas. Mas olhei de novo e conheço bem algumas pessoas, e sei que elas não estavam preocupadas com aquela coreografia. Comecei a me perguntar quantos ali não estavam apenas não querer ficar estranhos, e por dentro não estavam achando um saco repetir mil vezes algo simples e que bastaria colar na hora. Que poderiam estar se sentindo falsos, dentro e fora ao mesmo tempo. Exatamente como eu me sinto quando tenho que fazer de conta que estou me divertido. Meu problema com festas é principalmente a obrigação de estar sorridente e sempre em movimento, buscar constantemente um holofote imaginário. Pela primeira vez, percebi que justamente a minha recusa em fingir e ser capaz de ficar no meu canto pode ser uma das minhas grandes qualidades.