Pitacos sobre utopias, Lennon e Moro

Eu não faço a menor ideia de que idade tinha quando ouvi Imagine pela primeira vez. Lembro que, mesmo criança, quando ouvi a tradução, achei de uma ingenuidade tão grande. Tão impossível que alguém pudesse ter pensado e colocado aquilo em palavras. A segunda reação é pensar – e por que não, não seria realmente ótimo um mundo sem fronteiras, com amor, etc? Gosto muito de utopias. Talvez uma das coisas que me atraia na literatura de ficção científica é que, muitas delas, nada mais são do que utopias. Numa maneira que é difícil mensurar, elas tornam o mundo um lugar diferente, depois que são compartilhadas e fazem parte dos pensamentos das pessoas.

Acho que não vou surpreender ninguém ao dizer que tenho me alegrado com as denúncias do Intercept. A figura do Moro sempre me causou antipatia. Em meio a tudo o que está acontecendo, ouvi há poucos dias: os atos do dia 30 haviam sido um sucesso, Moro inspira a juventude e quem sabe ele se torne nosso próximo presidente. Olha, projetos assim, acho que nem a mãe dele mais. Eu sei que hoje qualquer fama é melhor do que nenhuma, mas o mais provável é que Moro seja abandonado pela história, como tantos antes dele.

Não tive vontade de tripudiar. O fim do Moro é o fim de uma utopia também. Está forte o schadenfreude. De herói, agora se pede cadeia. No fundo, os dois pedidos talvez sejam a mesma coisa, a tendência a personalizar papéis históricos. Depois dos magoados que declaram “PT nunca mais”, teremos os magoados pelo atual presidente, os magoados que um dia acreditaram em um super ministro. Joguemos nossos ideais mais acima do solo, vamos pensar em mundo, pessoas, bondade, ausência de motivos para matar ou morrer.

Amor demais

Comecei um festival Beatles na Netflix. Acho que só me falta ver um dos cinco que tem lá. Além deles, recomendo o do Canal NostalgiaA ironia é que eu nem me considero uma fã dos Beatles. Quem realmente era fã era o meu irmão, e se conheço todas as músicas deles e uma boa parte das de carreira solo do John, se deve ao fato de morar na mesma casa e não ter como fugir.

Tem trocentos estudos e teorias sobre o que torna os Beatles tão inesquecíveis. Uma das coisas que me toca, é a maneira como todos parecem ser pessoas bacanas. Quando jovens, eles são alegres e espirituosos; mais velhos, eles tentam tornar o mundo um lugar melhor. Dá impressão de que seriam ótimas pessoas para se ter como amigos. E que, se eles surgissem hoje, também fariam sucesso.

MAS, também acho muito triste a maneira como é o próprio sucesso que enche o saco e os destrói. O último que eu terminei foi sobre John e Yoko. Num certo ponto um dos entrevistados diz que era muito difícil ser (ex)Beatle, que todas as pessoas que olhavam para eles – dos fãs isolados e histéricos a quem fazia sua segurança, atendia seu quarto – queriam alguma coisa, estavam famintos. Lembrei da Amy Winehouse, que também foi devorada pelo sucesso. Ela decepcionou os fãs num show que se sentou no palco e se recusou a cantar. Os fãs ficaram magoados, mas aquela foi a única maneira que Amy conseguiu de parar aquela máquina que girava em torno dela. No do John, fala que ele estava tão péssimo sozinho, que a Yoko o fez tão feliz, que ele mudou tanto. E fã, por “amor”, se sentiu magoado porque ela não era o que se esperava para ele, era estranha, era feia, teria separado o grupo. John era só um homem, só uma pessoa tentando tocar a vida e ser feliz, é um absurdo que as pessoas tenham se sentido no direito de julgar isso.

Não tenho nenhuma conclusão sobre isso. Artista quer atenção, quer que seu trabalho toque as pessoas e faça parte do seu mundo. Eu também olharia para qualquer um deles com um olhar faminto. Harrison (se não me engano) falou num trecho: “Eu sempre tive pena do Elvis. Ele era um só. Havia muita gente trabalhando para ele, mas só um era o Elvis. Nós tínhamos uns aos outros”. Devia haver uma maneira de amar profundamente e não sufocar os nossos ídolos.