Monstros

olhos de crocodilo

Pouca gente no mundo consideraria a possibilidade de prender uma idosa no carro e arrastá-la na rua. Pouquíssimas. E dessas pouquíssimas pessoas, não tenho dúvidas que NÃO está o homem que de fato fez isso, o dono da Mercedez-Benz. Tenho certeza que ele repudiaria se visse no noticiário alguém que arrastou uma velhinha. Mas ele fez. Ele diria que não faria isso, jamais, que respeita idosos, seres humanos, que tem dinheiro o suficiente para comprar o balão que quisesse. Mas arrastou. Ele não se via como um monstro, mas agiu como um monstro. Não é à toa que no Direito existe a diferença entre culposo e doloso, porque consideramos muito pior planejar o mal do que se ver, sob algum tipo de pressão, fazendo o mal. Mas ele não é uma boa pessoa, vocês dirão, e eu concordo. Eu tenho certeza de que no dia a dia, em muitos detalhes, ele não era uma pessoa legal. Duvido que tratasse bem o garçom, o manobrista, a faxineira. Deve perguntar muito se a pessoa “sabe com quem está falando”, deve ter votado-em-sabemos-quem. Se pegarmos sua lista de amigos, duvido que não seja um grupo escolhido com base nos que podem lhe trazer vantagens financeiras. Aposto que é contra cotas, bolsa família, direitos LGBT, SUS, tudo o que favoreça gente que não faz parte do seu círculo. Eu arriscaria ainda mais longe e diria que usa o termo “feminazi”, que aproveita da sua posição de poder para intimidar empregados e faz cara de nojo pra quem está vestido de maneira simples. Acho que não erro se digo que ele tem mau hálito e suor desagradável, odores mal disfarçados com as melhores pastas de dente, enxaguantes bucais e perfumes importados. Mas não era, apesar de tudo, um monstro. Agora foragido, ele deve acordar de manhã, repassar o que aconteceu naquele dia e se perguntar em que momento poderia ter feito diferente, o que era monstruosidade e o que foi distração, até que ponto foi inevitável, má sorte ou castigo. Na sua imaginação, em algum momento ele desvia o olhar dos balões, pensa que aquilo não serve pra nada, ele não pechincha, ele não liga o carro, ele freia antes. Deve doer demais não poder mudar e ter que assumir: eu sou um monstro. A consciência tenta se proteger, e talvez ele não o diga com essas palavras, mas em algum lugar do seu inconsciente está assumido e registrado. Isso é o que me dá medo nessa história de monstros: um conjunto de comportamentos maus, que isoladamente não querem dizer nada, um dia podem se juntar, e o cidadão comum pode se ver fazendo algo que ele mesmo condenaria muito no outro. 

Dizem que o diabo nunca se apresenta como tal. Assim como tantos, eu posso estar encontrando justificativas plausíveis para vários atos reprováveis pequenos. E, cercada de pessoas de erros e justificativas semelhantes, nos justificamos juntos e assim nos sentimos santos. Eu tenho medo de virar monstro e acho que você também deveria. Sabe uma coisa que gera muita monstruosidade? A certeza de ser um representante do bem. 

Três lembranças diferentes

parábola

Eu fazia estágio numa clínica psiquiátrica, na parte de internamento breve. Assim como tem gente que uma vez na vida tem um surto e se recupera, tem aqueles que voltam sempre, todos já conhecem. O Fulano era um deles. Já tinha uns sessenta anos e era um sujeito muito chato. Diziam que a família devia mandar pra lá por isso. Tinha alguns CID-10. Lembro dele abordar qualquer um pela manhã e mostrar os comprimidos que tinha: “Olha só, dez comprimidos, só pela manhã. Imagina como deve ser meu estômago”. E reclamava, reclamava, reclamava. Internar uma pessoa é uma nota. De um lado, a família não devia mesmo gostar da companhia dele. Por outro, eles pagavam. Quanta gente por muito menos é abandonada pela família ou trancada num quarto.

Há poucos dias eu fiquei louca da vida de uma pessoa mais jovem, mais endinheirada, mais amada, mais cheia de oportunidades vir choramingar pra mim, de novo. “Mas é que você é tão madura, tão forte, você lida com os seus problemas tão bem que me sinto muito à vontade de achar pouco de ter de sobra o que tem te faltado”.

Os dois casos me lembram uma história budista que ouvi na minha infância, de uma mulher que perdeu alguém na família e foi pedir para Buda trazer a tal pessoa de volta. Ele disse que a mulher lhe trouxesse uma semente de mostarda de uma família que nunca havia perdido alguém, ele atenderia o pedido. A mulher bateu de porta em porta e cada família tinha uma história de perda pra contar.

Às vezes me parece que egoísmo, maldade e doença são uma coisa só.

A luta entre o bem e o mal… em South Park

jesus satan

Jesus e o Satã são personagens que andam normalmente pela cidade, no desenho South Park. Jesus é um sujeito bem magrinho, pacífico, bata branca e barba. Já Satã tem o dobro do tamanho dos outros, é vermelho, tem um peitoral enorme. Um dia, por um motivo qualquer, os dois decidem se enfrentar de uma vez, num ringue de boxe. Os dois tem semanas para se preparar, e elas são acompanhadas pela cidade toda e pela imprensa mundial. Jesus, pacífico, magrelo, se revela aquele tipo que sofre pra erguer qualquer pesinho, não tem muita coordenação, e seu excesso de bondade faz com que ele não consiga ser intimidante. Por outro lado, Satã faz constante exibições de força, levanta peso com facilidade, destrói, fica cada vez mais forte. Não tem como olhar aqueles dois e achar que Jesus tem alguma chance. O mundo inteiro começa a apostar, e do cara da vizinhança ao pastor, todo mundo aposta que Satã vai vencer. Todas as pessoas na Terra apostam em Satã, apenas uma pessoa aposta na vitória de Jesus. Finalmente chega o dia da luta, e Jesus todo magrelo sobe no ringue, Satã fortão sobe também, transmissão ao vivo. Os dois se posicionam para a luta e Jesus dá um soquinho em Satã, praticamente encosta de leve, e Satã se joga no chão como que inconsciente e fica lá até terminarem os dez segundos e Jesus ganhar por nocaute. Todos ficam indignados, porque obviamente que aquele soquinho não foi nada, Satã se jogou no chão e fingiu. Aí que se revela: Satã foi aquele único sujeito que apostou que Jesus ia ganhar. Ele ganhou uma bolada e ainda jogou na cara – quem mandou duvidar que o Bem sempre vence o Mal?

A batalha entre o Bem e o Mal

Quando eu era criança, ficava muito angustiada quando via que o Mal estava sempre tão melhor do que o Bem. Pra começar, o Mal se veste melhor. O Mal tem ternos bem cortados e roupas de bom caimento, enquanto o Bem praticamente usa trapos. O Mal mora nas mansões, dá risadas sonoras, tem empregados, anda de carrão; o bem é órfão, consegue as coisas com dificuldade, luta ao lado de amigos tão ferrados quanto eles. Dá pra dizer que é puro argumento de filme para criar suspense, mas tem uma verdade profunda nisso. Uma das cenas mais clássicas de Star Wars é quando Luke luta com Darth Vader. Ele tinha todos os motivos pra ter ódio de Darth Vader, desde o fato de ser um filho abandonado como todo mal que Darth Vader representava. Mas, à medida que Luke ganhava o duelo, ele também perdia. Tentar matar o pai, mesmo um pai tão ruim, apenas os tornava iguais – pessoas no lado negro da força.

O Mal pode tudo. Por definição, o Bem deve sempre andar na linha difícil da ética e do respeito, senão ele deixa de ser Bem. Então, o Bem sempre se vestirá pior e será pobre, pelo menos enquanto o mundo for desse jeito. Aí cada um coloca a explicação ou o fim da história de acordo com as suas crenças: vai melhorar quando sairmos da Kali Yuga, o Bem vence porque ele está alinhado a Deus; ou não, nada garante o resultado da batalha e pode ser que o Mal ganhe e todos se ferrem mesmo.

É muito fácil se emocionar e cantar Imagine – talvez você diga que eu sou um sonhador, mas eu não sou o único -, é fácil defender a união e o amor universal quando tudo está bem. É muito fácil se dizer cristão e só ir até a página 2, abandonar todos os princípios porque agora está difícil. Está sim, muito difícil, e a impressão que dá é que é cada um por si, basta salvar a própria pele. Imigrantes que têm mais é que voltar pro lugar de onde vieram, minorias que devem se dobrar à maioria, mulheres que merecem ganhar menos, trabalhadores sem décimo terceiro e deficientes sem lei de inclusão? “Tanto faz, não é comigo, não me atinge”. A má notícia é que vai atingir sim. Não queiram ser aquelas pessoas que as equipes de resgate encontraram quando chegaram para salvar os sobreviventes do Titanic, meia dúzia de egoístas em botes vazios no meio de cadáveres flutuantes. A história jamais os perdoou e aposto que nem eles a si mesmos. Não tenha ilusões a respeito de que lado está quem defende violência e morte, mesmo que seja só um pouquinho, mesmo que só com alguns.

o bem e o mal

Ninguém ouve o Dr. Drauzio

Acho que o Dr. Drauzio Varela é uma daquelas poucas unanimidades – alguém já viu uma pessoa dizer “nossa, não suporto do Dr. Drauzio”? Ao mesmo tempo, por mais que muita gente se diga fã, me parece é como aquela pessoa do grupo de amigas que é muito querida, mas que ninguém vai consultar pra um assunto realmente importante. Ou o amigo que conta piada e quando diz algo sério as pessoas riem do mesmo jeito. Pensei nisso quando me peguei relendo um link que ele fala de presidiárias, um trabalho que fecha sua trilogia sobre o sistema prisional: Estação Carandiru, Carcereiros e Prisioneiras. Demorei para me tocar que havia lido a entrevista há anos, porque basicamente ele sempre fala o mesmo: prisão não reabilita, é infinitamente mais violenta do que a simples supressão da liberdade, tem consequências sociais terríveis. Ou, mais resumido: sistema carcerário não funciona, temos que pensar em outra alternativa. Se a pessoa diz que respeita a opinião dele e quer que todo mundo seja preso, tem alguma coisa errada aí. Nessas entrevistas, Dr. Drauzio nem tenta apelar para nossa empatia, ele trabalha com números e prova que o aumento de prisões não diminui violência e que é um buraco sem fundo em termos de custos.

É uma questão profunda e com muitas nuances e sei que se colocar contra o encarceramento soa para muito como “não vamos fazer nada, vamos deixar roubarem e matarem à vontade e depois ainda dar um buquê de flores”. Que os bandidos, ao contrariarem conscientemente as regras, tornaram-se parte do Mal, e o Mal deve ser combatido sem tréguas e nem acordos; não se colocar frontalmente contra o Mal, não tentar coibi-lo da maneira mais absoluta, é o mesmo que fazer aliança com ele, é como negociar com o diabo. Os discursos mais recentes sobre regulamentação das drogas também me chocam e me assustam – eu não gosto nem de bebida alcoólica, como ser favorável à liberação de substâncias que alteram mais ainda a consciência e com mais rapidez? Mas eu reconheço minha ignorância diante do Dr. Drauzio e de outros estudiosos. Entendo que, por mais chocante e pacto com o diabo que pareça, eles partem de uma lógica simples e que funciona no mundo real: a mesma atitude produz sempre os mesmos resultados. Mais polícia, mais presídios, mais armas, mais verba para polícia, presídio e armas – não é o mesmo que sempre fizemos, mas em escalas cada vez maiores?

 

 

Dr. Drauzio

O Carcereiros do Drauzio Varella furou a minha determinação de nunca comprar livros pela contracapa:

 

Depois de 23 frequentando cadeias, não faz sentido especular como eu seria sem ter vivido essa experiência; o homem é o conjunto dos acontecimentos armazenados em sua memória e daqueles que relegou ao esquecimento. Apesar da ressalva, tenho certeza de que seria mais ingênuo e mais simplório. A maturidade talvez não tivesse me trazido com tanta clareza a percepção de que entre o bem e o mal existe uma zona cinzenta semelhante àquela que separa os bons dos maus, os generosos dos egocêntricos. Conheceria muito menos meu país e as grandezas e mesquinharias da sociedade em que vivo, teria aprendido menos medicina, perdido as demonstrações de solidariedade a que assisti, deixaria de ver a que níveis pode chegar o sofrimento, a restrição de espaço, a dor física, a perversidade, a falta de caráter, a violência contra o mais fraco e o desprezo pela vida dos outros. Faria uma ideia muito mais rasa da complexidade da alma humana.

 

Esse trecho pra mim diz tudo. Em entrevistas e no próprio livro, ele fala do quanto o universo prisional o faz falta para não cair na mesmisse de estar e ouvir sempre as mesmas coisas. Numa escala bem menos radical, eu vejo que andar de ônibus pra mim significa a mesma coisa. Andar de carro é mais confortável, mais limpinho, mas me vejo detestando encontrar sempre o mais confortável e limpinho. Enquanto os outros parecem sempre estar à procura de concordância, eu vibro quando consigo entrar em contato com pessoas de visões e valores diferentes dos meus. Eu quero ouvir, quero entender, muitas vezes eu me choco. Gosto de pegar ônibus porque sinto a necessidade de compartilhar do cansaço e da luta daqueles que vivem uma realidade muito mais comum àquela a que eu estaria destinada (digamos assim) por nascimento.

 

Se fosse para escolher um autor em quem eu me espelharia, seria o Dr. Drauzio. Ele, que demorou pra se ver como autor, que não imaginou que impacto Carandiru teria. Posso ressaltar outros cujo estilo eu aprecio mais, posso falar aqui da minha paixão por Guimarães Rosa, citar Veríssimo pai ou filho, o gostoso que é ler Ubaldo. Mas eles são outra coisa, eles são de outra escala. O que eu sinto que me uniria ao Drauzio é uma paixão indisfarçável que ele tem pelo outro, a vontade de registrar os heróis anônimos, o olhar sobre a complexidade humana. A sua ambição é antes de tudo o registro. Drauzio mostra que o cruel e o dócil não só convivem lado a lado na sociedade, convivem dentro do coração de cada um. Porque apesar de todas as maldades, eu – arrisco dizer, nós – ainda sou fã da espécie humana.

Forças malévolas

Uma vez uma amiga me falou do poder da inveja. Ela morava em Curitiba mas era originária do nordeste, só ela morava aqui. Ela contou para a mãe que arranjou um ótimo emprego, depois de meses de procura. A mãe comentou o fato com uma ex-amiga de infância dessa minha amiga. Foi a tal da ex de infância saber das boas novas que a minha amiga caiu gravemente doente. “Nem todo mundo acredita, muita gente acha que é besteira, diria que é coincidência, mas não foi, foi a inveja.” Ela me contou isso sabendo que eu a desmentiria, que não sou dessas que procura argumentos científicos para tudo. O que eu omiti, se fosse para falar sinceramente, é que, mais do que inveja, tudo isso aconteceu porque ela dá um poder enorme ao que pensa e sente a tal da ex-amiga.
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Tenho uma teoria meio dura sobre ser uma fonte do mal. Existem aqueles sacanas por natureza, que escolhem fazer mal aos outros. Aquele que poderia ficar quieto no canto dele e opta por prejudicar os outros. Isso nem se discute. Mas existem os outros, todos nós, que nos achamos muito melhores do que somos. Que nem tomamos consciência dos nossos atos invejosos. Eu acredito que tudo aquilo que não foi trabalhado na gente nos torna maus. Tudo mesmo. Se você se acha feio, será fonte de maldade e inveja diante de todos aqueles que te parecem bonitos. Se não está feliz na profissão, se incomodará com todos aqueles felizes na profissão, e por aí vai. É humano, nós não conseguimos oferecer aquilo que sentimos que nos falta. É como querer que o chefe nos dê de mão beijada o cargo que ele sempre quis, que a amiga nos apresente ao seu amigo mais bonito quando ela mesma está encalhada, é como esperar que o que sempre teve resultados medíocres nos leve para o topo. Simplesmente não dá, é pedir demais.
Por isso que eu acho que pra tudo a gente tem que correr atrás, tem que tentar, tem que fazer com gosto. Pra não sair por aí espalhando o mal sem saber.