Bauman na arara de promoção da C&A

Hanger for clothes

Eu li, acho que no livro da Glória Kalil, que pra saber o valor da roupa é só dividi-la pelo número de vezes que você usou. Essa conta é pra dizer que a peça cara que resiste a muitas modas e se torna essencial no seu guarda-roupa pode ter saído mais barato do que a blusinha vagabunda. Só que eu fiquei cismada em perceber que algumas peças minhas saíam quase de graça, porque acabo favoritando peças que comprei em promoção. Uma calça jeans que usei até esburacar e que, à primeira vista, me pareceu muito roqueira pra mim. Tem uma blusa de moletom, e além de eu não ser chegada em moletom, é rosa.  Tento me livrar dela e não consigo. Ambas estavam naquelas araras da C&A de últimas peças, quase de graça. Fiquei cismada que tipo de coincidência ou masoquismo é esse, e percebi que talvez o que melhor explique isso seja Bauman (!!!).

De acordo com Bauman, o nosso excesso de opções não nos deixa felizes e sim eternamente insatisfeitos. Porque nunca conseguimos provar tudo para ter certeza antes de escolher. Então, temos as tais relações líquidas, sempre na expectativa de que a próxima será melhor, porque a certeza de ter feito a melhor escolha é impossível. Quando você não tem escolha, simplesmente aceita. Como os casamentos antigos, onde no máximo você escolhia entre o vizinho e o sujeito que frequenta a sua igreja. Minhas peças em promoção me tiram a ansiedade da escolha perfeita, faço mais esforço para me adaptar do que normalmente faria e, como resultado, somos felizes. Isso me lembra quando eu herdava roupas das minhas primas. Quem era rico o suficiente pra nunca herdar roupa não sabe o que é esperar numa peça escolhida por outra pessoa a renovada no guarda-roupa que não poderia acontecer de outra forma. E o quanto isso às vezes é muito legal.

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Na rua

Por duas vezes tentei escrever um texto dizendo que eu acredito no estar na rua. Que às vezes não parece prudente ou que valha a pena, ou o lucro nem vai ser tão grande e as pessoas desinteressantes. Eu defendia que mesmo assim é preciso sair, porque é assim que as coisas acontecem, quando a gente se coloca à disposição. Aí por duas vezes eu fiquei sem terminar, porque me dei conta que essa rua não necessariamente existe mais. Não basta que você esteja fisicamente fora de casa; é preciso estar de corpo e alma, olhar para os lados, sentir os cheiros, prestar atenção nos estranhos, mudar de programação dependendo do imprevisto. Então me vi concordando com aquele – como diria a Dani – velho ranzinza, o Bauman. Por causa de tecnologia, é possível estar na rua sem nunca estar na rua, levar nosso mundo para onde formos. Aí não vale. Porque a magia de estar na rua só acontece ao sair um pouco de si.