Jô e os mestres

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Eu cresci vendo as entrevistas do Jô e via que não era apenas que umas entrevistas eram boas e outras nem tanto, mas que também para alguns entrevistados ele se derretia e outros não. Eu não entendia. Um era ator global fazendo sucesso na novela e o outro também, qual a diferença? Eu li uma historinha indiana, num dos muitos livros de filosofia oriental que li pela vida, que contava a história de dois mestres iluminados que eram contemporâneos, cada um com seu séquito de discípulos. Os discípulos se conversaram e arranjaram um jeito de fazer os dois se encontrarem numa cidade. Desvia o caminho de um e de outro e o dia finalmente chegou e as duas comitivas se encontraram. Os mestres se cumprimentaram carinhosamente, comeram juntos. Todo mundo reunido pra ver a que alturas chegaria a conversa e ela pairou em cima dos molhos, do quanto o pão era gostoso, essas bobagens. Depois do encontro, os discípulos perguntaram para seu mestre o que aconteceu, e as respostas foram: Ele alcançou o que eu alcancei, não havia para ser dito.

Eu via famoso e famoso e o Jô via talento em contraste com pessoa que está lá sem merecer, seja porque uma onda levou e já seria esquecido ou porque era parente de alguém. Toda área tem dessas; certos sistemas podem fazer os de fora acreditar que só ficam os que tem mérito, mas nunca se consegue manter a pureza de ter apenas os talentosos. Uma professora de faculdade de design me disse que, de todos os alunos do curso, talvez apenas 15% fossem realmente designers, naquela sentido mais puro do termo, da pessoa que tem pleno talento e amor pelo que exerce. “E quando essas pessoas estão no mundo, como encontramos os 15%?” Na maior parte das vezes só quem está na área sabe. Foi a Marielle que me fez perceber isso, que até mesmo reconhecer a grandeza é preciso ter olhar.

Foda-se involuntário

Dias desses li o livro de maior humor involuntário/vergonha alheia que já encontrei: Os mestres de Gurdjieff, de Rafael Lefort (estou numa fase Gurdjieff, me deixem). O autor é, digamos, da segunda geração de discípulos de G. Só que ele acha que tem alguma coisa esquisita, que o ensinamento não está da forma como deveria ser, e decide beber da fonte. Baseado no que o próprio G. contou, Rafael vai ao oriente e começa a procurar pelos mestres do seu mestre. E encontra alguns. Talvez não mestres no mais alto sentido esotérico (quem sabe?), mas com certeza homens que ensinaram algumas coisas a G. Aí o autor, numa mistura de ingenuidade e total incompreensão, chega para esses mestres e faz as perguntas mais estúpidas. Um dos mestres diz que ensinou G. a respirar e ele responde: “Só isso?” É incrível a capacidade dele de fazer colocações totalmente nada a ver. As reações dos mestres variam entre aqueles que ficam desanimados e os que passam um verdadeiro sabão no sujeito. Ainda não tenho certeza se a publicação do livro é prova da honestidade intelectual do autor ou se ele morreu sem ter entendido nada.

Sobre o fato desses homens terem passado um sabão no sujeito, a mim só atesta seu grande valor. Eles pelo menos tentaram. Apesar do que ouviram, ainda quiseram dizer alguma coisa pra ele. Eu, no lugar deles, teria virado as costas e ido embora. Quando a estupidez é demais, por onde começar? Eu desanimo. Tenho ignorado, não explico, apenas deixo como está. Mais por uma incapacidade do que por decisão. Não sei dizer se é melhor ou pior. Por um lado, não me desgasto falando o que não vão entender; por outro, vou deixando as versões tomarem conta. Mas é que até pra levar sabão a pessoa tem que ter uma base, uma experiência de vida, um certo simancol. Só a formulação de certas perguntas já mostra que não dá.

Syrio Forel

Abrir os olhos era tudo o quanto bastava. O coração mente e a cabeça usa truques conosco, mas os olhos vêem a verdade. Olhe com os olhos. Ouça com os ouvidos. Saboreie com a boca. Cheire com o nariz. Sinta com a pele. E então, depois, que chega o tempo de pensar e de, assim, conhecer a verdade.
Syrio Forel/ Game of Thrones vol 1 
Syrio Forel mexe com sonhos profundos meus, com o arquétipo do professor ideal. Eu cresci lendo sobre mestres e um dos meus livros de cabeceira era A arte cavalheiresca do arqueiro zen. Também sou da época do Karatê Kid. Durante muito tempo eu sonhei em ir para o Oriente, para ter aulas de yoga, karatê ou arco e flecha, e passar anos mergulhada numa arte. Queria esse professor carismático, que diz coisas que a mente não entende e que crescem com o tempo, que faz de atitudes simples uma meditação e que, no fim, nos ensina sobre tudo através de um único ponto.

Quis durante tanto tempo alguém assim. Tive uma das maiores decepções da minha vida quando fiz minha primeira aula de yoga. Por outro lado, quando tentei estudar piano, estudei com quem apareceu pela frente, na crença de que qualquer um poderia me ensinar aquela técnica. Na defesa pessoal vivenciei o início de um mergulho, porque todos os alunos eram convidados para um mergulho. E não gostei, só encontrei violência. Já estudei também com pessoas ótimas, a quem todos chamavam de mestres, mas não senti isso meu coração. Com o tempo, vi que não precisa ser professor de algo especial e sim ser especial. E que o que define não é a atividade ser mística, que qualquer coisa pode se tornar uma meditação. Por fim, aprendi a valorizar os mini- Syrio Forel que aparecem na minha vida, com seus instantes de sabedoria, pequenos ensinamentos que podem passar desapercebidos se você não estiver atento. Sou tão humana e só encontrei professores igualmente limitados e humanos pela frente. Construí quem eu sou com tijolos pequenos e talvez agora tenha os olhos céticos demais para ser discípula. Para cada Syrio Forel, é preciso também Arya Stark.

Encontro com o Mestre


Autor: Mestre DeRose

Resumo: Esta ficção relata a surrealista experiência do encontro entre o jovem DeRose, com 18 anos de idade e o Mestre DeRose com 58 anos. O jovem candidata-se à prática do SwáSthya Yôga e é recusado pelo velho Mestre. O que resulta daí é um diálogo com detalhes filosóficos, éticos e iniciáticos, envolvendo temas como: o vil metal, a reencarnação, o espiritualismo, o radicalismo, meditação, sexo, a multiplicidade de mestres e escolas pelas quais o menino passara. etc. O final apresenta uma surpresa inusitada que a maioria não vai notar, mas os que tiverem estudado os demais livros vão descobrir… se prestarem muito atenção!

Fonte
: Revista Mestre DeRose Yoga Review ano 2 nº6
www.yogareview.com.br

Se eu escrever um livro de mim num diálogo para comigo mesma, alguém aqui vai comprar? Olha que eu também sou mestre… 😛

Aula de yoga

Hoje assisti a primeira aula de yoga da minha vida. A professora é instrutora da Uniyoga, do Mestre De Rose. Deu uma aula puxada. Não consegui fazer algumas coisas, fiz outras que nem imaginaria. Todos ficaram satisfeitos, alongados, fortalecidos. E foi uma das experiências mais decepcionantes da minha vida.

Durante minha adolescência, li e reli os livros mais tradicionais de yoga. Além dos clássicos indianos como Bhagavad Gita e Ramayana, Annie Besant, Ramakrishna, Ramacharaca, Vivekananda eram os meus autores preferidos. Gosto de cantar mantras. Fiz muitas ásanas (posturas) em casa, decorei os nomes (em português, todas as em sanscrito para mim se chamam shuxechsixhsxasana), as pranayamas (técnicas de respiração). Sei tudo sobre os caminhos da yoga – hatha, karma, gnani e bakthi yoga. Na minha cabeceira, neste momento, está o livro do professor Hermógenes. Parei de comer carne vermelha e de frango aos 15 anos, por causa da yoga. Mas nunca, nesses anos todos, tinha colocado os pés numa aula de yoga.

Já havia tentado. Minha mãe, também fã de yoga, me dizia que o grande problema é que não basta que alguém aplique as posturas como quem passa um exercício. O instrutor de yoga deve ser yogui – com todas as implicações existenciais do termo. Em resumo: fazer a aula com uma adolescente, que acha muito massa os encontros com a galera do Brasil inteiro que a Uniyoga proporciona, que fala o tempo inteiro durante a aula e ainda por cima é gordinha, foi demais para mim.

Meus sonhos se partiram em mil pedaços hoje. Mestres como Pai Mei e Miyagui não existem mais.